editorial
Carta ao Papa
[*]
O Confessionário não
é você, oh Papa, somos nós; entenda-nos e que os católicos nos entendam.
Em nome da Pátria, em
nome da Família, você promove a venda das almas, a livre trituração dos
corpos.
Temos, entre nós e
nossas almas, suficientes caminhos para percorrer, suficientes
distâncias para que neles se interponham os seus sacerdotes e esse
amontoado de doutrinas afoitas das quais se nutrem todos os castrados do
liberalismo mundial.
Teu Deus católico e
cristão que, como todos os demais deuses, concebeu todo o mal:
1°. Você o enfiou no
bolso.
2°. Nada temos a
fazer com teus cânones, índex, pecado, confessionário, padralhada, nós
pensamos em outra guerra, guerra contra você, Papa, cachorro.
Aqui o espírito se
confessa para o espírito.
De ponta a ponta do
teu carnaval romano, o que triunfa é o ódio sobre as verdades imediatas
da alma, sobre essas chamas que chegam a consumir o espírito. Não
existem deus, Bíblia, Evangelho; não existem palavras que possam deter o
espírito.
Nós não estamos no
mundo; ó Papa confinado no mundo; nem a terra nem Deus falam de você.
O mundo é o abismo da
alma, Papa caquético, Papa alheio à alma; deixe-nos nadar em nossos
corpos, deixe nossas almas, não precisamos do teu facão de claridades.
Os editores
[*]
Antonin Artaud. Publicado pela
primeira vez em La Révolution Surréaliste, em 1925; tradução de
Claudio Willer publicada em Escritos de Antonin Artaud, L&PM
Editores, Porto Alegre, 1983 e reedições. |