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editorial
Enquanto o carnaval não passa
A
realidade é uma construção como qualquer outra. Séculos de filosofia
para chegar a isto: a realidade pode ser reinventada. Hoje matamos
melhor do que ontem. Também avançamos filosoficamente: nossos sofismas
são mais ágeis, irretorquíveis. Já ninguém indaga para onde caminha a
humanidade. Quanto mais avançamos, mais nos persegue a sensação de
déjà vu. A história reflete um tipo de mecanização de seus avatares,
que atendem em domicílio nacional ou internacional, onde quer que se
localize a crise de ocasião, que também é uma crise de discurso.
O artista Hélio Rôla é um fascinado pelo filósofo Humberto
Maturana. Sempre envia pela Internet trechos de reflexões do pensador
chileno. Uma em particular se destaca: “A
democracia não está na rotação, na eleição de representantes. Os
sistemas eleitorais são artifícios para a apropriação das
responsabilidades. A democracia está numa convivência na qual todos os
cidadãos têm acesso à coisa pública, e a coisa pública são os temas que
interessam a todos os cidadãos como co-participantes de uma convivência
numa comunidade.” O que diz Maturana é um primeiro sinal da cruz para se
identificar ausência de democracia, quando os representantes se escondem
dos representados. A construção de Brasília acena neste sentido.
Imaginemos o presidente despachando com seus ministros em plena Praça
Dom José Gaspar (na Biblioteca Mário de Andrade), em São Paulo, ou no
Rio de Janeiro, no prédio da Biblioteca Nacional, vizinha do Teatro
Municipal, ou mesmo em Fortaleza, na Praça da Estação. Imaginemos um
cenário onde presidente e seu ministério não se escondam dos
representados. Brasília é uma cidade que inviabiliza este tipo
prioritário de relação entre representantes e representados. Quem
deveria fazer ponte, em uma democracia, eram as representações de classe
trabalhista, por exemplo. Mas aí reside outra planilha de construção de
cenário da realidade. Então, como este sistema venoso não se comunica
entre si, não há como bombear sangue para o coração. Consequentemente
não se realiza a nação.
Não se pode simplesmente dizer que o país é inviável,
porque afinal vivemos aqui e de alguma maneira engendramos uma tônica
cultural identificável. Há um conjunto de fatores que transcende a
realidade cênica e garante que o Brasil de um Tom Jobim ou de um Hermeto
Pascoal é mais amplo e respirável que a tábua metálica dos sete heróis
nacionais que orgulhosamente Brasília definiu, cunhou e ostenta. Ou
seja, Duque de Caxias, Tiradentes ou Hermes da Fonseca perderam o
significado que supostamente algum dia tiveram. A
cultura brasileira de alguma maneira cai por terra toda vez que é
evocada. O representante tem por artimanha reduzir a uma categoria
folclórica as feridas culturais do representado. Há uma TV Senado. Há
ali um programa que se repete, tecla insistente que oferta a Praça dos
Três Poderes como um museu especial, a rigor um artifício de mídia como
qualquer um desses que inventam artistas da noite para o dia ou importam
cadáveres estéticos. Há poucos dias um dos editores da Agulha
reviu o filme Basquiat (Julian
Schnabel, 1996) e não pôde deixar de pensar em seu equivalente
brasileiro, Leonilson. Duas figuras patéticas separadas unicamente pelo
suporte que os Estados Unidos dão a esse tipo de maquinação, já
entranhado em sua cena urbana, enquanto que no Brasil o que salienta é a
condição primata de nossa visão de mundo. Brasília é uma cidade pintada
por um outro Basquiat igualmente encharcado de outra heroína.
Todo ano as alegorias do grande cenário do carnaval
brasileiro se confundem de alguma maneira com as máscaras essenciais de
nossa realidade. Em algum galpão, sigilosamente construímos a realidade
nacional. O Brasil é um samba que perdeu o respeito pela ala mais nobre
do samba. Mantém algum ritmo, sim, porém já não se sabe para onde foi o
samba. Metáforas à parte, Astor Piazzolla enriquece o tango, não o nega
jamais, amplia magistralmente sua perspectiva estética. À sua maneira,
Radamés Gnattali, Hermeto Pascoal e Paulo Moura fizeram o mesmo em
relação ao choro. As alegorias de fevereiro não são imposições
culturais, embora beneficiárias das astuciosas modalidades de nossa
renúncia fiscal. Samba, gafieira, choro, uma essência brasileira que
enlouquece qualquer um em qualquer país do mundo, aqui assumem um plano
curioso: marginalidade não relatada, em seu desdobramento, e raramente
evocada, mesmo em palanque, em discurso. Um país não pode esquivar-se do
que lhe é essencial em raiz. Não se constrói uma nação como o cenário de
uma peça de teatro ou a arena de um rally.
Qual o futuro de um país com a extensão territorial do
Brasil e com seu histórico fascínio pelo imediato, desprezo pela
história, a recusa secular à perspectiva, à pesquisa e sedimentação de
idéias, ao que toma tempo e não se deixa consumir pelas luzes da
ribalta, um país tão incerto, tão insustentavelmente irreal, caipira,
medíocre, que se orgulha de ser alegre e sagaz, vivaz e malandro? Em um
país assim, como esperar que violência urbana, crime organizado,
congresso mafioso, governo cínico possam de alguma maneira amanhã
despertar de um pesadelo e converter-se em algo minimamente decente?
O que ainda chamamos Brasil é o que sempre chamamos Brasil.
Esta condicionante nos inclina à perpetuidade. A intelectualidade que se
dizia interditada pelo regime militar não avançou uma vírgula quando a
democracia se estabeleceu. A classe artística não soprou em tubas
esteticamente mais respiráveis quando enfim podia. Poluímos a
democracia de uma maneira peculiar. O desastre ético deste país
comprovadamente nada tem que ver com o sentido comum de liberdade.
Brasília deveria ser apagada do mapa. No entanto, nos agarramos a este
modelo como sendo nosso último recurso para sobreviver a nós mesmos. Por
mais que doa dizer: o Brasil é um país liquidado. Até prova em
contrário, como em tudo, na realidade.
Os editores |