Fernando Maldonado Fernando Maldonado
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revista de cultura # 54
fortaleza, são paulo - novembro/dezembro de 2006

Fernando Maldonado

editorial

A cultura como uma miragem plantada

Em editorial anterior mencionamos viagens dos editores da Agulha à Venezuela, aproveitando para falar sobre democratização da cultura no que diz respeito ao acesso a livros. Editores da Agulha seguem viajando, participando de encontros de escritores, no Brasil e no Exterior. Após a Venezuela, participaram, juntos ou em separado, de eventos em Cuiabá e Recife, além de El Salvador e Ilhas Canárias. O acento comum recai sobre a conexão estabelecida entre imprensa e organização dos eventos, ou mais precisamente no entendimento equívoco de que cultura se limita à pasta de variedades ou entretenimento da imprensa.

A rigor, eventos como esses estão demasiado restritos ao mundo acadêmico ou atrelados à política e seus fins eleitorais e de manutenção. São duas instâncias que em praticamente nada contribuem para formação, afirmação, produção, difusão, ou qualquer outro aspecto que se possa agregar, em relação à criação artística e sua reflexão, porém que se beneficiam dela sempre que lhes apetece, e de acordo com o grau de miséria cultural em que se circunscreve cada sociedade. Acrescente-se aí a utilização desses desvios, e sua decorrente e perversa ampliação, por parte da imprensa, em geral desinformada a respeito da matéria com que lida apenas por exigência de pauta.

Há nitidamente algo que incomoda, que salta longe do foco, nessas relações que não são fortuitas, não podem ser assentadas pelo imprevisto ou improviso. Não cabendo ingenuidade no tratamento de tais aspectos, é plenamente passível aventar conivência entre as partes, ou seja, há uma no mínimo estranha relação de interesses mútuos envolvendo classe artística e intelectual, política cultural e mídia. E tudo converge para o palco, ou seja, todas as ações atuam sob a jurisdição de uma autopromoção. Em circunstância alguma a cultura é percebida em seu sentido orgânico, não indo além do escaninho do entretenimento e sua fugacidade.

Editores da Agulha defendem que ondas de oportunismos são crescentes e que o tema da cultura, agora tratado no Brasil como uma ausência de programa da parte dos dois partidos políticos que marcaram o último ranking eleitoral, e seus efeitos no próximo mandado presidencial, tudo isto é uma miragem plantada. A própria mídia ausentou-se de toda e qualquer cobrança acerca da ausência de políticas culturais nas recentes gestões presidenciais dos dois partidos – juntos somam nada menos do que 12 anos – e o retoma ocasionalmente, quando o tema sugere uma pauta quente. Ausência ainda mais alarmante se verificou na casta intelectual.

Pela força do próprio mecanismo de atuação e seu efeito imediato, se costuma pensar que caberia à imprensa corrigir esses desvios. Há um ponto em que os personagens de tal infortúnio começam a transferir responsabilidades uns para os outros. Nenhum deles almeja a catarse e sim o deslocamento de suas faltas. Da maneira mais vulgar a tragédia se converte em comédia. Não defendemos aqui a imprensa, cuja responsabilidade é altíssima nesta imensa casa de espelhos em que convertemos o tema da cultura. No Brasil, o exercício de cidadania equivale a um teatro de fantoches. Todos nós sabemos a real condição cultural do eleitor brasileiro. Porém discutimos o assunto como se fôssemos nós a definir uma eleição. E até onde temos algum poder o utilizamos para maquiar esta fantasia.

Todos aqueles que conhecem os mecanismos de alheamento da realidade sabem que não podemos nos considerar como vítimas pelo simples fato de que somos seus mantenedores. E nos revezamos em postos de uma e outra categoria: artistas que são políticos que são jornalistas que são acadêmicos que são um pouco de tudo e nada de essencial no que deveriam ser. Diante de um quadro como este, de uma quadrilha como esta, como esperar que se fundamente e prospere o tema da cultura? Quantos de nós ainda recordaremos o significado do termo e o âmbito de sua aplicação?

A menção inicial às viagens dos editores de Agulha se justifica pela percepção que vamos tecendo no que diz respeito ao affaire agendado em cada uma das pautas desses eventos, nacionais e internacionais. São evidentes no que diz respeito à revelação da província das letras, porém ampliam o foco e permitem uma boa radiografia da negligência cultural que define cada ambiente, em cada país. O que nos salta aos olhos é que, sob quaisquer condições, artistas e intelectuais são – as exceções seguirão sempre confirmando a regra – astutos artesãos de um efeito ótico cuja paleta de cores e efeitos será sempre determinada pela autopromoção.

Assim é o mundo. Diremos todos, sob qualquer acusação. Mesmo diante do flagrante. Assim é o mundo. Sim, uma miragem plantada.

II

Um dos editores da Agulha, por força de natural indignação, enviou à editoria do jornal La Nación, de Buenos Aires, a carta abaixo, que aqui reproduzimos por conseqüência igualmente natural:

 

Sr. Director:

En La Nación del 16/10/06, leí una nota de Susana Reinoso titulada Brasil vive en las letras, que informa de un “encuentro con la literatura brasileña contemporánea”, en Buenos Aires, entre el 9 y el 16 de noviembre próximo. Es de lamentar que no incluya poetas brasileños. O sea, tenemos sólo novelistas. Hacia el final, la periodista habla de grandes novelistas, y los mezcla con celebridades de la canción brasileña: Chico Buarque, que como novelista es un excelente letrista de canciones; y Caetano Veloso, cuyo nombre está manchado de equívocos que merecen ser cuestionados con seriedad. Está bien, todo es cultura. Según la misma nota, “Itamaratí tiene un programa de ayuda a editores argentinos que traducen y publican autores brasileños”. El programa no es de Itamaratí, sino de la Biblioteca Nacional. Y ocurre algo extraño: este año lo recomendé nada menos que a cinco editoriales, en cuatro países. Todas se contactaron con la BN pero non obtuvieron respuesta. A lo que parece, la dirección de este “apoyo” está pre-apuntada a los mismos de siempre. Es una lástima que la prensa internacional esté tan mal informada y se encargue de divulgar medias verdades.

 

Os editores

Fernando Maldonado

sumário

1 a escrita automática e outras escritas. claudio willer
2 a poesia de ernest wichner. viviane de santana paulo
3 a propósito de teatro. nicolau saião

4
a vida e a poesia de frank o'hara (1926-1966). joe engle
5
campos de carvalho: entrevista, depoimento e textos inéditos. heleno álvares
6
cenizas de memoria: milton hatoum entre el caucho y la dictadura militar. albert von brunn
7
claude gauvreau, o olhar e seus jogos no espaço: uma poética. andrés-g. bourassa
8
el inconsciente, abono y semilla para cultivar un dios. luis fernando cuartas
9 errância e acaso, angústia e morte em los dernières nuits de paris, de philippe soupault. flávia nascimento 
10
na convulsão das tempestades: o erotismo na poesia de claudio willer. cristhiano aguiar
11
o conceito sistêmico de repertório e o romance amuleto, de roberto bolaño. antón corbacho quintela
12
ouvir a terra-verbo e ouvir o haver: gustav mahler e a catarse pelo audilegível. luigi augusto de oliveira
13
roberto matta: "o sol para quem sabe congregar". leo lobos
14
susana giraudo: la poesía y sus nombres infinitos [entrevista]. floriano martins
15
um poeta político: aimé césaire [entrevista]. françois beloux

artista convidado fernando maldonado [pintura, texto de amparo osorio]
resenhas livros da agulha fernando arrabal
floriano martins [por josé ángel leyva] héctor díz-polanco marco lucchesi [por moacir amâncio] mauricio mattos sheyla bravo velásequez [por aleyda quevedo] fabio jurado valencia los libros de alforja [destaque para margaret randall, alfredo fressia e juan manuel roca] edla van steen
música
discos da agulha fito páez [por diego mancusi]
itiberê orquestra família [por marco antonio barbosa] margarita laso nicolas krassik novo quinteto prince [por fabian chacur] rosa passos [por erico baymma]
poesia
banda hispânica
cumplicidade 1 galeria de revistas  
cumplicidade 2
galeria de manifestos  
cumplicidade 3
galeria de arte

Fernando Maldonado

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
belkys arredondo
(venezuela)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
franklin fernández
(venezuela)
gary daher canedo
(bolívia)
jorge dávila vázquez
(equador)
jo
sé ángel leyva (méxico)
margaret randall (estados unidos)
maria estela guedes
(portugal)
nicolau saião (portugal)
richard-laurent barnett (estados unidos)
 

artista plástico convidado (pintura)
fernando maldonado

apoio cultural
jornal de poesia

traduções
eclair antonio almeida filho

banco de imagens
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