Luis López Gabú Luis López Gabú
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revista de cultura # 53
fortaleza, são paulo - setembro/outubro de 2006

Luis López Gabú

editorial

Livros e escritores - Artistas e candidatos

Os editores de Agulha têm ido à Venezuela. Participaram de encontros de poetas naquele país, organizados de modo exemplar. Aproveitaram essas ocasiões para comprar livros: boas edições da Monte Ávila e da Biblioteca Ayacucho. Custaram, convertendo os bolívares em reais, de R$ 3,00 a R$ 7,00. São preços de mercado, não de alfarrábios ou pontas de estoque. Equivalem a edições brasileiras cujos preços vão de R$ 15,00 a R$ 40,00.

A disparidade do preço dos livros brasileiros não se evidencia apenas na comparação com a Venezuela, mas com qualquer país, com o restante do mundo. Edições norte-americanas e européias também saem mais barato que as respectivas publicações brasileiras – mesmo quando compradas aqui, em livrarias brasileiras, gravadas por custos de transporte e outros que dobram seu preço. Lá, em seus países, custam menos da metade.

Por dificultar o acesso ao livro e literatura, essa desproporcional disparidade fecha um círculo vicioso. A outra ponta do círculo é constituída pelos 70% de analfabetos funcionais brasileiros: as pessoas que têm algum grau de dificuldade para interpretar e entender textos mais complexos. E, correlatamente, pelo mau desempenho brasileiro em escalas de aproveitamento escolar.

Muitas são as causas do preço absurdamente elevado do livro brasileiro. Algo pode ser imputado aos próprios editores: em 1994, quando a moeda foi estabilizada com a implantação do Plano Real, mantiveram um sobrepreço dos livros que correspondia a uma expectativa inflacionária; à tentativa de corrigir a depreciação da moeda durante o prazo entre a venda do livro à livraria e seu efetivo pagamento ao editor. Acharam que o plano não ia dar certo, a exemplo de outros, anteriores.

Mas é decisiva a omissão do Estado. Livros venezuelanos têm preços acessíveis porque lá edições são subvencionadas, e por haver um volume elevado de compras por bibliotecas e outras instituições. O correlato do preço baixo dos livros é uma instituição forte como a Biblioteca Nacional de Venezuela.

Assim como se fala em dívida social no Brasil, deve-se falar em dívida cultural. Ambas, é claro, interligadas: o acesso a empregos requer educação de qualidade; mas esta jamais se realizará sem condições objetivas para estimular o hábito da leitura. A ignorância é um fator de exclusão social. Alimenta a espiral descendente da miséria.

Contrariando a tendência de governos que se apresentam ou apresentaram como socialistas, socializantes, daqueles social-populistas, ou o que for, e que se empenharam em fazer que livros cheguem à população - desde as enormes tiragens soviéticas até um empreendimento como a editora El Perro y la Rana da Venezuela chavista, com suas tiragens para distribuição à população superiores, algumas, ao milhão de exemplares -, o governo Lula agravou esse débito cultural. Acentuou o declive da separação entre a cultura e a população. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, ao menos havia um programa de estímulo à formação de bibliotecas em municípios e de compras de livros pela Secretaria do Livro e Leitura do Ministério da Cultura. Foi extinto, sem que algo equivalente fosse posto em prática. De 2002 até hoje, não aconteceu rigorosamente nada no âmbito da Fundação Biblioteca Nacional e da respectiva Câmara Setorial do Livro. Há um Fundo Editorial, por enquanto virtual, além de ser um equívoco: reduções de tributos deveriam resultar em uma redução equivalente do preço do livro, e não na formação de um hipotético fundo. No âmbito do Ministério da Educação, o grande comprador de livros didáticos e para-didáticos no Brasil, manteve-se a tendência à centralização que favorece as grandes editoras (nisso também contrariando o que já fizeram outros governos socialistas ou socializantes ou social-populistas ou o que for).

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Parece que não havia escritores na reunião de artistas e intelectuais com o presidente e candidato Lula no final de agosto, na residência do ministro Gilberto Gil no Rio de Janeiro. Se havia, ninguém reparou em sua presença. Felizmente. Afinal, os dois editores de Agulha são escritores. E também representam escritores brasileiros: um deles já presidiu a UBE, União Brasileira de Escritores; o outro prepara, com regularidade, antologias e coletâneas que divulgam escritores brasileiros. Ambos representam o país em eventos literários.

Portanto, os editores de Agulha não têm motivos para envergonhar-se, enquanto escritores brasileiros, do que foi dito nessa reunião no Rio de Janeiro. Nada têm a ver, nem pessoalmente, nem por laços corporativos, com a grotesca homenagem à hipocrisia através das declarações de que os fins justificam os meios, de que em política é necessário sujar as mãos, e de que a ética não interessa, feitas por um produtor de cinema, um músico, um ator e um diretor teatral. Infelizmente, uma reunião análoga, realizada em São Paulo, já contou com a indefectível presença de Ariano Suassuna.

Pode-se argumentar que o modo como, na reunião no Rio de Janeiro, foi obliterada a defesa, por esses mesmos artistas, da moralidade pública durante a campanha para destituir Collor (ou não? ou algum deles ainda declarará que sempre simpatizou discretamente com a corrupção?) reflete o imediatismo do pessoal do show business. Não por acaso, os porta-vozes do oportunismo têm sido, todos eles, subvencionados por verbas governamentais. Cabe a outros profissionais da área de espetáculos, de cinema, música e teatro, desautorizá-los, mostrando que suas áreas de atuação não foram inteiramente ocupadas por aspirantes à cumplicidade.

Em reuniões como essas são abordados outros temas. Talvez não se resumam à bajulação e à defesa do fisiologismo. Mas, com certeza, planos conseqüentes de estímulo à leitura e à circulação de livros não fizeram parte de sua agenda. São assuntos que devem ser tratados por gente séria, e não por aventureiros, quer sejam estes da banda política ou da banda pretensamente cultural.

Os editores

Luis López Gabú

sumário

1 a música livre de jovino santos neto [entrevista]. floriano martins
2 aimé césaire: "a cultura é tudo o que o homem inventou para tornar o mundo visível e a morte afrontável" [entrevista]. maryse condé
3 alfonso peña: labios pintados de azul o el paso invisible entre realidad y ensoñación [entrevista]. tomás saraví

4
andré breton, 40 anos depois: o crítico literário. claudio willer
5
el abismo poético de jean pierre duprey. carlos m. luis
6 el surrealismo en cuba. vicente jiménez
7 eliane robert moraes: o marquês de sade e a loucura da imortalidade [entrevista]. floriano martins
8 esoterismo das "33 folhas", de ernesto de sousa. maria estela guedes
9 fernando pacheco: os que têm olhos. jacob klintowitz 
10
lembranças afetivas do surrealismo. cruzeiro seixas
11 o índio e o ocidente: reflexos de duas visões diferentes sobre o mundo. nicolau saião
12 prometeu no jardim de éden. per johns
13 relato sobre o mito, o rito e os símbolos (segundo mircea eliade, aspectos do mito). david nadeau
14 rio acima da elocução: encontro com paul-marie lapointe. thierry bissonnette
15
roberto piva no miolo do furacão [entrevista]. floriano martins
16 sóis gêmeos: yvan e claire goll na américa. nan watkins & thomas rain crowe
17 stuart ross: "o bizarro é a minha maneira usual de pensar" [entrevista]. danielle couture
18 surrealismo & canadá: à sombra dos totens. yves m. larocque
19 surrealismo, cuba, revistas & antologias: uma conversa com fernando palenzuela [entrevista]. floriano martins
20 thomas rain crowe: diálogos sobre surrealismo nos estados unidos [entrevista]. floriano martins

artista convidado luis lópez gabú [fotografias, texto de juan antonio martínez-casanueva]
resenhas livros da agulha alfonso peña [por guillermo fernández]
ali kamel antonio naud jr. [por josé inácio vieira de melo] carlos calero [por adriano corrales arias] fernando palenzuela [por enrique lechuga] colección "poesía en el andén" [por jorge salvador jurado] franklin fernández [por juan calzadilla] patativa do assaré rita moutinho [por fernando bastos gomes] roberto piva rodrigo petronio [por claudio willer] vera lúcia de oliveira [por donizete galvão]
música
discos da agulha charles teony
chico chagas jovino santos neto [por nana vaz de castro] jovino santos neto quinteto [por egídio leitão] mike marschall & jovino santos neto quinteto villa-lobos ricardo silveira sérgio & odair assad ufrjazz ensemble
cumplicidade 1 galeria de revistas
cumplicidade 2
galeria de manifestos
cumplicidade 3
galeria de arte

Luis López Gabú

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
belkys arredondo
(venezuela)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
franklin fernández
(venezuela)
gary daher canedo
(bolívia)
jorge dávila vázquez
(equador)
jo
sé ángel leyva (méxico)
margaret randall (estados unidos)
maria estela guedes
(portugal)
nicolau saião (portugal)
richard-laurent barnett (estados unidos)
 

artista plástico convidado (fotografia)
luis lópez gabú

apoio cultural
jornal de poesia

traduções [inglês e francês]
éclair antonio almeida filho

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