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editorial
Livros e escritores - Artistas e candidatos
Os editores de Agulha têm ido à Venezuela.
Participaram de encontros de poetas naquele país, organizados de modo
exemplar. Aproveitaram essas ocasiões para comprar livros: boas edições
da Monte Ávila e da Biblioteca Ayacucho. Custaram, convertendo os
bolívares em reais, de R$ 3,00 a R$ 7,00. São preços de mercado, não de
alfarrábios ou pontas de estoque. Equivalem a edições brasileiras cujos
preços vão de R$ 15,00 a R$ 40,00.
A disparidade do preço dos livros brasileiros não se
evidencia apenas na comparação com a Venezuela, mas com qualquer país,
com o restante do mundo. Edições norte-americanas e européias também
saem mais barato que as respectivas publicações brasileiras – mesmo
quando compradas aqui, em livrarias brasileiras, gravadas por
custos de transporte e outros que dobram seu preço. Lá, em seus países,
custam menos da metade.
Por dificultar o acesso ao livro e literatura, essa
desproporcional disparidade fecha um círculo vicioso. A outra ponta do
círculo é constituída pelos 70% de analfabetos funcionais brasileiros:
as pessoas que têm algum grau de dificuldade para interpretar e entender
textos mais complexos. E, correlatamente, pelo mau desempenho brasileiro
em escalas de aproveitamento escolar.
Muitas são as causas do preço absurdamente elevado do livro
brasileiro. Algo pode ser imputado aos próprios editores: em 1994,
quando a moeda foi estabilizada com a implantação do Plano Real,
mantiveram um sobrepreço dos livros que correspondia a uma expectativa
inflacionária; à tentativa de corrigir a depreciação da moeda durante o
prazo entre a venda do livro à livraria e seu efetivo pagamento ao
editor. Acharam que o plano não ia dar certo, a exemplo de outros,
anteriores.
Mas é decisiva a omissão do Estado. Livros venezuelanos têm
preços acessíveis porque lá edições são subvencionadas, e por haver um
volume elevado de compras por bibliotecas e outras instituições. O
correlato do preço baixo dos livros é uma instituição forte como a
Biblioteca Nacional de Venezuela.
Assim como se fala em dívida social no Brasil, deve-se
falar em dívida cultural. Ambas, é claro, interligadas: o acesso a
empregos requer educação de qualidade; mas esta jamais se realizará sem
condições objetivas para estimular o hábito da leitura. A ignorância é
um fator de exclusão social. Alimenta a espiral descendente da miséria.
Contrariando a tendência de governos que se apresentam ou
apresentaram como socialistas, socializantes, daqueles
social-populistas, ou o que for, e que se empenharam em fazer que livros
cheguem à população - desde as enormes tiragens soviéticas até um
empreendimento como a editora El Perro y la Rana da Venezuela chavista,
com suas tiragens para distribuição à população superiores, algumas, ao
milhão de exemplares -, o governo Lula agravou esse débito cultural.
Acentuou o declive da separação entre a cultura e a população. Durante o
governo de Fernando Henrique Cardoso, ao menos havia um programa de
estímulo à formação de bibliotecas em municípios e de compras de livros
pela Secretaria do Livro e Leitura do Ministério da Cultura. Foi
extinto, sem que algo equivalente fosse posto em prática. De 2002 até
hoje, não aconteceu rigorosamente nada no âmbito da Fundação Biblioteca
Nacional e da respectiva Câmara Setorial do Livro. Há um Fundo
Editorial, por enquanto virtual, além de ser um equívoco: reduções de
tributos deveriam resultar em uma redução equivalente do preço do livro,
e não na formação de um hipotético fundo. No âmbito do Ministério da
Educação, o grande comprador de livros didáticos e para-didáticos no
Brasil, manteve-se a tendência à centralização que favorece as grandes
editoras (nisso também contrariando o que já fizeram outros governos
socialistas ou socializantes ou social-populistas ou o que for).
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Parece que não havia escritores na reunião de artistas e
intelectuais com o presidente e candidato Lula no final de agosto, na
residência do ministro Gilberto Gil no Rio de Janeiro. Se havia, ninguém
reparou em sua presença. Felizmente. Afinal, os dois editores de
Agulha são escritores. E também representam escritores
brasileiros: um deles já presidiu a UBE, União Brasileira de Escritores;
o outro prepara, com regularidade, antologias e coletâneas que divulgam
escritores brasileiros. Ambos representam o país em eventos literários.
Portanto, os editores de Agulha não têm motivos para
envergonhar-se, enquanto escritores brasileiros, do que foi dito nessa
reunião no Rio de Janeiro. Nada têm a ver, nem pessoalmente, nem por
laços corporativos, com a grotesca homenagem à hipocrisia através das
declarações de que os fins justificam os meios, de que em política é
necessário sujar as mãos, e de que a ética não interessa, feitas por um
produtor de cinema, um músico, um ator e um diretor teatral.
Infelizmente, uma reunião análoga, realizada em São Paulo, já contou com
a indefectível presença de Ariano Suassuna.
Pode-se argumentar que o modo como, na reunião no Rio de
Janeiro, foi obliterada a defesa, por esses mesmos artistas, da
moralidade pública durante a campanha para destituir Collor (ou não? ou
algum deles ainda declarará que sempre simpatizou discretamente com a
corrupção?) reflete o imediatismo do pessoal do show business.
Não por acaso, os porta-vozes do oportunismo têm sido, todos eles,
subvencionados por verbas governamentais. Cabe a outros profissionais da
área de espetáculos, de cinema, música e teatro, desautorizá-los,
mostrando que suas áreas de atuação não foram inteiramente ocupadas por
aspirantes à cumplicidade.
Em reuniões como essas são abordados outros temas. Talvez
não se resumam à bajulação e à defesa do fisiologismo. Mas, com certeza,
planos conseqüentes de estímulo à leitura e à circulação de livros não
fizeram parte de sua agenda. São assuntos que devem ser tratados por
gente séria, e não por aventureiros, quer sejam estes da banda política
ou da banda pretensamente cultural.
Os editores |