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Arte livre, imagética, espontânea

[São Paulo, outubro de 1965]

Na atual política brasileira, marcada por um regime autoritário e opressor, uma das questões que ainda não foram devidamente examinadas é de como podem contribuir o artista e o intelectual para combater ou modificar este regime e de quanto estão sendo coniventes ou alienados com relação a ele.

Uma forma de alienação e conivência é o silêncio, a ausência de tomadas de posição, a não-denúncia. É o que acontece, por exemplo, com os rapazes que andam realizando “catequeses poéticas” e manifestações semelhantes em áreas cedidas pelas autoridades e protegidos pela polícia. É o caso, também, do jovem poeta que quer “convocar” sua geração em recitais promovidos por senhoras da sociedade. Tais atividades servem para justificar a ordem atual, por seu silêncio frente a ela, e, principalmente, por consistirem em nada mais que uma propaganda de sentimentos bem comportados e atitudes conformistas.

Em um plano mais geral, é o caso de toda uma literatura, frequentemente dedicada aos pais, noiva & Paulo Bonfim, e que se inspira numa tradição de depuração verbal, esteticismos vulgares e cultivo de lugares-comuns. A lírica parnasiana destes supostos “neo-rilkeanos” é formalista e acadêmica na medida em que se caracteriza pela imposição de normas e cânones limitadores da capacidade criadora. Muitos autores já mostraram a relação existente entre estes cânones e formalismos de um lado, e a vigência de regimes autoritários e absolutistas, em análise que se aplica perfeitamente ao caso brasileiro. Isto vale também para movimentos como o Praxismo e o Concretismo, mais restritivos ainda, fornecedores de verdadeiras receitas de como fazer arte.

Ao lado destas modalidades indiretas de submissão existem as tentativas de subordinação direta da arte a posições políticas conservadoras. O exemplo mais flagrante, em nosso país, é dado pelos Críticos Fascistas de Cinema, com suas pressões e gangsterismos junto a público, exibidores, entidades culturais, financiadores, Itamaraty etc. Infelizmente, porém, tal vinculação da arte a idéias políticas não é privilégio apenas dos nossos extrema-direitistas. Nela incorrem também setores da Esquerda, ao tentarem colocar a arte a serviço de uma transmissão direta de “mensagens” sócio-políticas. Com isto, eles a empobrecem, e caem num sociologismo primário, pois confundem o campo e a linguagem da obra de arte com os do discurso político. O que pretendem através disto é uma arte de comunicação direta com o povo, isto é, uma arte “proletária”. Até agora, porém, estes espetáculos de arte “proletária” têm sido freqüentados unicamente por um público burguês e bem pagante que com isto busca aliviar sua má consciência frente aos fatos sociais apontados. E é sintomático que estas posições artísticas da nossa esquerda sejam paralelas a uma recusa em examinar problemas verdadeiramente sociais, como o da repressão sexual, e da vigência em nosso país de padrões morais de século XIX, aliás fielmente acatados por estes “reformadores sociais”.

Em suma, o que se verifica no panorama artístico-intelectual brasileiro é a desatualização, a ignorância, o mal-entendido justificado pela situação política atual, a distorção do verdadeiro papel revolucionário e inovador do artista. Em vista destes fatos, os signatários do presente manifesto julgam necessário vir a público para apontar e reivindicar a coerência entre uma atitude de combate e repúdio à opressão política, e o exercício de uma arte livre, imagética, espontânea, transmissora de conteúdos inconscientes, rompendo as fronteiras do racional-cartesiano, e instaurando novas formas de comunicação e pensar, em suma, de uma arte verdadeiramente ameaçadora e solapadora dos fundamentos da Ordem Estabelecida, completando assim o “transformar a sociedade” de Marx com o “modificar a vida” de Rimbaud, e também dos Românticos, Surrealistas, Hipsters, e demais personagens e movimentos que partiram em busca de uma liberdade total e de uma ampliação das fronteiras do Humano. E para que se chegue a esta coerência é preciso, antes de mais nada, relegar a seu devido lugar de arcaísmo e curiosidade de museu as modalidades pseudo-artísticas que andam por aí a serviço da repressão.


Wolnei de Assis, Edmundo Aray, Décio Bar, Sonia de Barros, Roberto Bicelli, Juan Calzadilla, Fernando Campos, Álvaro Roberto Diciaula, João Ferreira, Raul Fiker, Antonio Fernando de Franceschi, Francisco Hung, Mauricio Nogueira Lima, Maninha, Paulo Bastos Martins, Spencer Pupo Nogueira, Ubirajara M. L. Ribeiro, Regastein Rocha, Roberto Rugiero, Altonio Jaime Soares, César Volpon, Lucimar Volpon, Claudio Willer.

 

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