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Surrealismo, Frida Kahlo & Eugenio Granell

[Lisboa, maio de 2006]

 

Vem a Lisboa uma Exposição de Frida Kahlo, proveninente do Museu Dolores Olmedo, no México, o que seria de saudar, neste limitado e desértico panorama cultural, e logo se lhe reduz presença e razão. O comissariado da exposição resolveu seleccionar uma frase para tomar como pórtico dessas obras, que, embora da autoria de Frida, é, em nossa opinião, tradutora, mais uma vez, de um sintoma de mediocridade e tentativa de destruição do Surrealismo em Portugal. O surrealismo continua a ser, da Assembleia da República aos intelectuais, sinónimo de disparate. Os mais espertos dizem que o Surrealismo “já passou” e copiam os seus gestos que nas suas mão são caricaturais. Perante isto convém dizer, tão algo quanto possível, que a obra de Frida Kalho é surrealismo, como o é a de Jerónimo Bosch, que ignorava o Surrealismo, ou a de Chirico, que do Surrealismo se quis afastar. Sobre Frida Kahlo escreveu André Breton um texto no seu Le Surréalisme et la Peinture, editado em 1928, livro definitivo para a definião da sensibilidade contemporânea: “Sacrifient délibérément le modèle extérieure au modèle antérieur, donnant résolument le pas à la représentation sur la perception”. Ele definiu-a como “ce ruban autour d’une bombe”, considerando a sua arte uma mescla de opiniões e vivências. Com os surrealistas, Frida conviveu no México, em Nova York e Paris, e com eles expôs. Quereria ela reafirmar mais uma vez a sua liberdade? Quereria ela dizer a dificuldade de se ser surrealista vinte e quatro horas por dia? Além de que, naqueles anos de esperança, era enorme a distância entre o comunismo e o surrealismo, não obstante ter sido no gabinete de trabalho de Trotsky que Breton viu pela primeira vez uma obra de Frida. Será que ela, descrevendo vibrantemente o seu drama pessoal através da figuração, não sentiria o Surrealismo? Ser surrealista não se decide ser, não se come, nem se pinta – SENTE-SE. O Surrealismo é sentido sempre, mas sempre por quem ama, quem sonha e por quem quer ser livre, não importando a forma como o expressa. Por que continuam os comissários d’arte deste Portugal a tentar apagar o Surrealismo, utilizando para o efeito, aqui neste caso pontual (como em muitos outros), esta sua frase como pórtico de uma exposição classificada como a maior e mais completa realizada na Europa nas últimas décadas? “Eu sou a desintegração”, esta outra frase de Frida seria aqui oportuna para classificar tal atitude ignóbil dos ditos comissários, de ignorância e falta de respeito perante aquele movimento de libertação herdado do século anterior e anteriores milénios. Mas de novo perguntamos: não quereria ela reafirmar a sua liberdade pela negativa, mais surrealista do que nunca?

Também expõe pela quarta vez em Portugal uma das grandes figuras do Surrealismo, o pintor espanhol Eugenio Granell (1912-2002). Combatente revolucionário na Guerra Civil de Espanha, exigiu sobre o seu caixão a bandeira da República. Grande amigo de Portugal, dee Mário Cesariny e de Cruzeiro Seixas, não mereceu uma palavra de referência de críticos e ensaístas, e no entanto, sobre este homem e sua obra, escreveram André Breton, Marcel Duchamp, Benjamin Péret, etc., etc.…

O que pretendem os comissários e os críticos de arte em Portugal face ao Surrealismo? Quid petis? Ventura todos a querem, por todos é deseja, não a tem quem a procura, a quem não a busca é dada (Almeida Garrett).


Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny, Miguel de Carvalho, Carlos Silva, Isabel Meyrelles, António Barahona, Raúl Perez, Fernando José Francisco, Sérgio Lima, Alex Januário, Marcus Salgado, Konrad Zeller, Renato Sousa, Deusdedit Ramos, Gustavo Arruda, Rodrigo Lucas, Rodrigo Mota, Paulo Abraão, Ricardo Lira, Maria Regina Marques, Fátima Roque, Nicole Reiss, Heloísa Pessoa, Márcio Calixto, Daniel Vicolli & Kátia Pawlowskij.

 

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