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editorial
Planos para a cultura & Cultura de planos
Soa
quase inacreditável afirmar que a oferta cultural possa atingir, em
algum país, volume superior à capacidade de absorção do público.
Ainda mais inconcebível se este volume inclui tanto quantidade
quanto qualidade. Não me refiro, evidentemente, a entrar em uma
casa de discos no Brasil – um Brasil que naturalmente não se
restringe às suas duas suspeitíssimas capitais culturais –, e
deparar-se com uma minguante opção de música a preços exorbitantes –
a maior margem de lucro do mercado segue sendo praticada pela
indústria fonográfica – e com um valor artístico que é uma
verdadeira afronta à sensibilidade. Seria algo mais próximo de
caminhar pelo centro de Buenos Aires, diante de toda a imensa oferta
de suas livrarias, e não se ter, a despeito das condições de
aquisição, vontade de… ler aqueles livros.
A produção cultural não se restringe aos livros e discos.
Os exemplos dados aqui podem servir se o assunto é teatro ou cinema,
shows de música ou exposições de artes plásticas. Mas vamos direto ao
ponto: um ensaio recente da dramaturga mexicana Sabina Berman detalha o
que ela chama de “extravagância de uma sobre-oferta cultural”, a rigor
uma ruptura entre arte e sociedade. É instigante que os mexicanos possam
discutir o tema com base em antigos e ambiciosos projetos culturais, que
possam avaliar desdobramentos dos propósitos ali declarados e sua real
concretização. Em 1989 foi criado no México o Conselho Nacional para a
Cultura e as Artes [CNCA], buscando adequar à realidade daquele país as
idéias defendidas pelo notável pensador mexicano José Vasconcelos
(1882-1959) nos anos 20. Assim é que se criou um modelo de
desenvolvimento cultural concentrado em três ações fundamentais: 1.
proteção e difusão do patrimônio arqueológico, histórico e artístico; 2.
estímulo à criação artística; 3. difusão da arte e da cultura, tendo por
meta que estas cheguem ao maior número possível de mexicanos.
Segundo Sabina Berman, os dois primeiros pontos foram
atendidos, o que garante a existência de um acervo cultural dos mais
substanciosos na América Latina, bem como o incentivo à pesquisa e
produção artísticas. Elevou-se com isto o nível de apostas estéticas e
suas realizações. No entanto, as ações no plano cultural foram-se
afirmando e distanciando de seu equivalente indispensável no plano
educacional. Uma arte cada vez mais culta foi sendo produzida para um
público cada vez mais inculto, órfão do Estado – aqui especificamente
tratamos de educação artística –, refém de um mercado mais interessado
em desovar seu produto descartável, em enriquecer às custas da atrofia
crescente da sensibilidade. Pode parecer inconcebível que o Estado gere
um distúrbio de tal forma, reflexo de um abismo entre duas pastas
inseparáveis, a cultura e a educação.
Ao buscar relação deste tema com o caso brasileiro, não há
como não indignar-se ante este pequeno monstro de jardim criado pelo
governo ao empossar como Ministro da Cultura alguém que jamais advogou
senão em causa própria e que fez do ministério um escritório a mais de
cuidados com sua agenda de shows. Contudo, o propósito maior é observar
que, ao contrário do México, jamais nenhum organismo estatal no Brasil
demonstrou igual empenho por estabelecer e fazer cumprir um conjunto de
metas em defesa de nossa cultura. O estímulo que temos à produção
artística – mas não à criação –, por exemplo, através das leis de
fomento, estadual e federal, dá ao patrocinador a decisão sobre o teor
funcional da aplicação de recursos. Com isto, pode-se seguir investindo,
em nome de uma retórica cultural que gira unicamente em torno da isenção
fiscal e da propaganda, na pior arte, que aqui assume, sob a mais
perversa das manipulações, a conotação de popular.
O maior lixo que acumulamos em toda a história da
democracia brasileira é a compreensão raquítica dos mecanismos culturais
da parte de todos os candidatos à presidência, eleitos ou não, até hoje.
Evidente que tal prática fica por conta dos eleitos. São eles que
administram a perpetuidade do abismo entre educação e cultura. Já
tivemos os cínicos e os que apenas ignoram o assunto. O perigo maior do
Estado brasileiro é que vem se configurando unicamente como mercantil. E
estamos sendo arrastados por uma onda de gráficos; uma verdadeira
mentalidade estatística se instala e controla conformismo e presunção,
ao mesmo tempo em que as ações deixam por completo de ser o espelho das
palavras.
É claro que o erro se repete e certamente muitos dirão: no
estado atual em que nos encontramos, no Brasil, pensar em cultura é um
luxo. Porém a cultura é uma decorrência da educação, e não um macaquinho
de circo facilitado pelo Estado para o regozijo das relações com seus
patrocinadores e os gordos bolsões de miséria que nos definem. Vendo o
telejornal diário ficamos momentaneamente estarrecidos ante a onda
organizada de crimes, logo seguida de uma telenovela, um talk show,
um programa de estúdio. O moralismo piegas mesclado a uma veleidade
espúria é também a tônica do rádio e da imprensa escrita. Se correta
estiver Sabina Berman acerca de suas observações sobre deslizes de
atuação do Estado mexicano em relação à cultura, e também estamos certos
em nosso comentário em relação ao Brasil, caberá a todos nós refletir a
respeito. O aspecto jocoso é que, posto em confronto com o México, o
Brasil, para ficar ruim, ainda teria que melhorar muito. Mas não
tratamos aqui de um gracejo. O ponto é simples: o que temos feito,
poetas, intelectuais, jornalistas, diretores de revistas etc., um mínimo
que seja, para a mudança do quadro que se perpetua? Todas as ações
recriminatórias em relação à atuação do Estado são movidas por políticos
em novas campanhas. O Estado se reproduz a si mesmo. O povo jamais fez
parte de seus planos.
Os editores |