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editorial
Um
país entre o fascínio e a fraude
É
sempre condenável toda forma de usurpação, de tal maneira que não há
mérito algum em expressar indignação ante qualquer ação que assim se
caracterize. O que pode soar estranha é a sensação de que, em alguns
casos, a fraude nos leva a refletir se a situação dada como legal
corresponde a tal condição. Ao que tudo indica, e já não cabe
dúvida, no Brasil estamos sendo testados em relação a todos os
nossos valores, sociais, culturais, éticos, estéticos. E onde
supúnhamos haver uma tradição, com tamanho alarme se desfaz a terra
sob os pés que já não sabemos mais como chamá-la. Não vale
amparar-se no dito de que o mundo está de ponta-cabeça em todas as
partes, pois há distinções profundas entre as inúmeras modulações de
desequilíbrio que enfrenta a humanidade em nosso tempo. Há valores
conformados, deformados, reformados, contornados, a depender do país
e, sobretudo, de sua densidade cultural. Sim, pois a única certeza
que permanece é a de que somos definidos por nossa cultura.
Deste modo, o declínio que enfrentamos hoje no Brasil é
resultante primeira, e em franca ascensão, de nossa aversão a levar-se a
sério como nação, o que naturalmente extrapola os planos estanques da
política e/ou economia. Não se trata de saudosismo - por mais que se
possa concluir que já fomos, de fato, bem melhores - ou de volta a uma
frustrada perspectiva nacionalista ou de uma repreensão moralista de
qualquer natureza ou deleite catastrófico. Trata-se apenas de constatar
o irremediável: chegamos até aqui graças ao pouco caso que sempre
fizemos de nossa cultura. Se vamos aos exemplos, que seja já e
recorrendo a fatos recentes:
1. não há distinção entre o roubo de armas em um quartel do
exército e de obras de arte em dois museus;
2. ao lermos matérias na imprensa brasileira acerca da
América Latina, quase sempre elas nos parecem ter sido escritas por
jornalistas estadunidenses;
3. a denúncia de que
livrarias vendem, às editoras, espaços físicos e virtuais para difusão
de livros, contribui para a compreensão da manipulação a que estamos
sujeitos todos nós.
Discutir as falhas - seus mecanismos e artifícios - tem sua
importância, claro, porém o que nos parece ainda mais indispensável é
refletir sobre certo deslocamento de valores que estes fatos - e uma
avalanche de similares - propiciam.
Tirar armas de um quartel e obras de arte de um museu com a
facilidade como as duas façanhas se deram põe em dúvida a capacidade do
Estado proteger seus cidadãos em qualquer instância. Poderíamos
argumentar que baixos salários e precária formação profissional deixam
as instituições a mercê da corrupção.
Fingir uma voz própria acerca do conhecimento da realidade
de nações vizinhas põe em dúvida a ínfima parcela de credibilidade da
qual ainda é merecedora a mídia em nosso tempo. Os argumentos poderiam
ser os mesmos do item anterior, acrescidos de uma mãozinha do Estado, o
desprezo que o Brasil sempre teve pela América Hispânica.
Forjar uma situação de prestígio no cenário literário,
iludindo o leitor acerca da preferência de alguns livros e autores, é
criminoso, da mesma ordem que o jabá da indústria fonográfica já de
muito denunciado por alguns artistas. Os argumentos anteriores aqui não
podem ser aceitos, considerando os altíssimos lucros dos atravessadores,
em se tratando de mercado editorial. Eis um atestado de que a corrupção
não é o único recurso para quem quer infringir uma ordem.
O que nos preocupa é a maneira como reagimos a tudo isto.
Todo e qualquer crítico de arte no Brasil conhece as
condições que definem o cotidiano de nossos museus. Há casos inúmeros e
não relatados de obras perdidas, tanto em face de sua irremediável
condição de restauro, quanto na migração de um museu para outro, a tempo
de evitar o pior. O descaso com que as forças armadas vêm sendo
consideradas como se tratasse de um totem aplicável unicamente a nosso
período ditatorial permite o surgimento de ações paralelas, ao mesmo
tempo em que enfraquece a única possibilidade, em tal âmbito, de um país
como o Brasil frear um estrondo ainda maior de desordem social. Cria-se
inclusive uma indesejável relação hostil, quando tais forças deveriam
estar naturalmente empenhadas na construção ou defesa de um espectro
nacional.
O nicho em que é produzida uma mídia que já de muito deixou
de ser apenas informativa não se define por impropriedade interna, não é
reflexo direto de má contratação de profissionais, ou qualquer outro
sintoma de algo que fuja ao controle dos veículos de comunicação. O que
vale questionar é qual interesse o Brasil tem em manter essa
interlocução com a América Hispânica mediada pela mídia. Qualquer
jornalista pode considerar o silêncio do Estado em relação a este
assunto como um sinal verde para que a mídia continue desempenhando um
discutível papel diplomático, posto que o elenco que defende em sua
maior parte é formado por conexões ligadas a uma indústria bélica e
cultural ainda imperativa internacionalmente.
Argumentar, como o fez o diretor de vendas de uma de nossas
grandes editoras - cabe atentar que esta grandeza é tão-somente da ordem
do capital -, que a cobrança de propina para exposição em destaque de
determinados livros nas redes físicas e virtuais das livrarias é uma
operação aceitável em termos de comércio, é legitimar o crime em seu
mais largo espectro. Basta substituir fatores: se o argumento de
editores é que livreiros também precisam sobreviver, o que não dizer de
traficantes de droga, vendedores ambulantes de CDs piratas e matadores
de aluguel, estes senhores acaso também não precisam sobreviver?
Os três pontos aqui referidos não constituem uma
importância maior em seu aspecto isolado - são variáveis de um modus
vivente alarmante -, mas sim no que operam como conjunto de obra, ao
provocarem a sensação mencionada inicialmente: a de que tudo parece
estar fora de lugar. Já não necessitamos identificar o crime ou o
criminoso. Eles próprios anunciam seus feitos, e muitos até se
vangloriam de. Vivemos em uma sociedade criminal na qual nosso maior
desafio é como refreá-la. Ainda acreditamos que a cultura seja a maneira
mais ágil e consistente de evitar um maior vazamento de fogo no inferno.
Contudo, a cultura não é um fato isolado. A rigor, ela é um
reflexo de nossa compreensão acerca da civilidade, da auto-estima, do
respeito pelo outro, da guarda dos valores comuns, da aceitabilidade, da
firmeza de caráter, da cumplicidade entre indivíduos, da percepção da
necessidade do outro, da disposição a ajudá-lo, enfim, a cultura reflete
exatamente o que somos. De nada adianta sonhar com Deus, ou acreditar
que somos abençoados pela existência entre nós de Guimarães Rosa,
Antonio Bandeira ou Elis Regina; Drummond de Andrade, Tom Jobim ou Rego
Monteiro. O mundo simplesmente não existe sem o dia de amanhã na exata
proporção em que o dia de amanhã não existe sem considerar seu passado.
Porém, em meio a tudo isto, o presente nos convoca a, no mínimo,
suspeitar daquilo que somos.
Chegamos à edição # 50 da Agulha com uma suspeita
afirmada desde seu primeiro editorial, a de que somos responsáveis pelo
mundo que habitamos, de uma maneira ou de outra. Seja na denúncia ou na
aceitação, este é o nosso mundo. Fazemos parte dele com tudo o que mais
nos fascina e em meio a tudo o que mais deploramos. A resultante de 50
números até aqui publicados confirma nossa postura, revela os bons
frutos de uma busca ininterrupta de diálogo com outras expressões,
confirma a aceitação de uma revista que apostou na circulação unicamente
virtual e que hoje é largamente conhecida em todo o âmbito geográfico
que engloba os idiomas espanhol e português.
Jamais passamos o pires, ou utilizamos a Agulha para
qualquer ação que extrapole seu plano editorial. Com mais de 900
matérias substanciais publicadas até aqui, sem mencionar sua parceria
com o Jornal de Poesia - só em termos de Banda Hispânica
já ultrapassamos a marca de 1.000 registros dedicados a poetas de língua
espanhola - e com a portuguesa TriploV - onde mantemos um dossiê
dedicado ao surrealismo -, tornamos possível um pequeno mundo de
circulação de bens culturais e sua cabível reflexão, ao ponto que nos
orgulha imensamente estar disponibilizando agora uma Agulha # 50,
não somente pelo óbvio sentimento de que até aqui chegamos, mas pelo
acervo de que já dispomos - sempre crescente - de material em grande
parte inédito para inclusão nas próximas edições.
Os editores de Agulha se sentem felizes,
naturalmente, porém insistem que a realidade deve ser encarada sob suas
mais violentas formas, porém jamais deve ser adulterada. O que está por
trás de um roubo de obras ou armas? O que está por trás da seqüenciada
rejeição às novas formas de governo com que erra e quem sabe acerte a
América Latina? O que está por trás dos interesses em falsear a situação
do mercado editorial brasileiro? Tais desvios de espelhos, estes sim,
mais do que qualquer outra coisa, é o que mais nos preocupa, porque
lidamos justamente com o fascínio, que não é o mesmo que fraude.
Os editores |