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revista de cultura # 50
fortaleza, são paulo - março/abril de 2006

editorial

Um país entre o fascínio e a fraude

É sempre condenável toda forma de usurpação, de tal maneira que não há mérito algum em expressar indignação ante qualquer ação que assim se caracterize. O que pode soar estranha é a sensação de que, em alguns casos, a fraude nos leva a refletir se a situação dada como legal corresponde a tal condição. Ao que tudo indica, e já não cabe dúvida, no Brasil estamos sendo testados em relação a todos os nossos valores, sociais, culturais, éticos, estéticos. E onde supúnhamos haver uma tradição, com tamanho alarme se desfaz a terra sob os pés que já não sabemos mais como chamá-la. Não vale amparar-se no dito de que o mundo está de ponta-cabeça em todas as partes, pois há distinções profundas entre as inúmeras modulações de desequilíbrio que enfrenta a humanidade em nosso tempo. Há valores conformados, deformados, reformados, contornados, a depender do país e, sobretudo, de sua densidade cultural. Sim, pois a única certeza que permanece é a de que somos definidos por nossa cultura.

Deste modo, o declínio que enfrentamos hoje no Brasil é resultante primeira, e em franca ascensão, de nossa aversão a levar-se a sério como nação, o que naturalmente extrapola os planos estanques da política e/ou economia. Não se trata de saudosismo - por mais que se possa concluir que já fomos, de fato, bem melhores - ou de volta a uma frustrada perspectiva nacionalista ou de uma repreensão moralista de qualquer natureza ou deleite catastrófico. Trata-se apenas de constatar o irremediável: chegamos até aqui graças ao pouco caso que sempre fizemos de nossa cultura. Se vamos aos exemplos, que seja já e recorrendo a fatos recentes:

1. não há distinção entre o roubo de armas em um quartel do exército e de obras de arte em dois museus;

2. ao lermos matérias na imprensa brasileira acerca da América Latina, quase sempre elas nos parecem ter sido escritas por jornalistas estadunidenses;

3. a denúncia de que livrarias vendem, às editoras, espaços físicos e virtuais para difusão de livros, contribui para a compreensão da manipulação a que estamos sujeitos todos nós.

Discutir as falhas - seus mecanismos e artifícios - tem sua importância, claro, porém o que nos parece ainda mais indispensável é refletir sobre certo deslocamento de valores que estes fatos - e uma avalanche de similares - propiciam.

Tirar armas de um quartel e obras de arte de um museu com a facilidade como as duas façanhas se deram põe em dúvida a capacidade do Estado proteger seus cidadãos em qualquer instância. Poderíamos argumentar que baixos salários e precária formação profissional deixam as instituições a mercê da corrupção.

Fingir uma voz própria acerca do conhecimento da realidade de nações vizinhas põe em dúvida a ínfima parcela de credibilidade da qual ainda é merecedora a mídia em nosso tempo. Os argumentos poderiam ser os mesmos do item anterior, acrescidos de uma mãozinha do Estado, o desprezo que o Brasil sempre teve pela América Hispânica.

Forjar uma situação de prestígio no cenário literário, iludindo o leitor acerca da preferência de alguns livros e autores, é criminoso, da mesma ordem que o jabá da indústria fonográfica já de muito denunciado por alguns artistas. Os argumentos anteriores aqui não podem ser aceitos, considerando os altíssimos lucros dos atravessadores, em se tratando de mercado editorial. Eis um atestado de que a corrupção não é o único recurso para quem quer infringir uma ordem.

O que nos preocupa é a maneira como reagimos a tudo isto.

Todo e qualquer crítico de arte no Brasil conhece as condições que definem o cotidiano de nossos museus. Há casos inúmeros e não relatados de obras perdidas, tanto em face de sua irremediável condição de restauro, quanto na migração de um museu para outro, a tempo de evitar o pior. O descaso com que as forças armadas vêm sendo consideradas como se tratasse de um totem aplicável unicamente a nosso período ditatorial permite o surgimento de ações paralelas, ao mesmo tempo em que enfraquece a única possibilidade, em tal âmbito, de um país como o Brasil frear um estrondo ainda maior de desordem social. Cria-se inclusive uma indesejável relação hostil, quando tais forças deveriam estar naturalmente empenhadas na construção ou defesa de um espectro nacional.

O nicho em que é produzida uma mídia que já de muito deixou de ser apenas informativa não se define por impropriedade interna, não é reflexo direto de má contratação de profissionais, ou qualquer outro sintoma de algo que fuja ao controle dos veículos de comunicação. O que vale questionar é qual interesse o Brasil tem em manter essa interlocução com a América Hispânica mediada pela mídia. Qualquer jornalista pode considerar o silêncio do Estado em relação a este assunto como um sinal verde para que a mídia continue desempenhando um discutível papel diplomático, posto que o elenco que defende em sua maior parte é formado por conexões ligadas a uma indústria bélica e cultural ainda imperativa internacionalmente.

Argumentar, como o fez o diretor de vendas de uma de nossas grandes editoras - cabe atentar que esta grandeza é tão-somente da ordem do capital -, que a cobrança de propina para exposição em destaque de determinados livros nas redes físicas e virtuais das livrarias é uma operação aceitável em termos de comércio, é legitimar o crime em seu mais largo espectro. Basta substituir fatores: se o argumento de editores é que livreiros também precisam sobreviver, o que não dizer de traficantes de droga, vendedores ambulantes de CDs piratas e matadores de aluguel, estes senhores acaso também não precisam sobreviver?

Os três pontos aqui referidos não constituem uma importância maior em seu aspecto isolado - são variáveis de um modus vivente alarmante -, mas sim no que operam como conjunto de obra, ao provocarem a sensação mencionada inicialmente: a de que tudo parece estar fora de lugar. Já não necessitamos identificar o crime ou o criminoso. Eles próprios anunciam seus feitos, e muitos até se vangloriam de. Vivemos em uma sociedade criminal na qual nosso maior desafio é como refreá-la. Ainda acreditamos que a cultura seja a maneira mais ágil e consistente de evitar um maior vazamento de fogo no inferno.

Contudo, a cultura não é um fato isolado. A rigor, ela é um reflexo de nossa compreensão acerca da civilidade, da auto-estima, do respeito pelo outro, da guarda dos valores comuns, da aceitabilidade, da firmeza de caráter, da cumplicidade entre indivíduos, da percepção da necessidade do outro, da disposição a ajudá-lo, enfim, a cultura reflete exatamente o que somos. De nada adianta sonhar com Deus, ou acreditar que somos abençoados pela existência entre nós de Guimarães Rosa, Antonio Bandeira ou Elis Regina; Drummond de Andrade, Tom Jobim ou Rego Monteiro. O mundo simplesmente não existe sem o dia de amanhã na exata proporção em que o dia de amanhã não existe sem considerar seu passado. Porém, em meio a tudo isto, o presente nos convoca a, no mínimo, suspeitar daquilo que somos.

Chegamos à edição # 50 da Agulha com uma suspeita afirmada desde seu primeiro editorial, a de que somos responsáveis pelo mundo que habitamos, de uma maneira ou de outra. Seja na denúncia ou na aceitação, este é o nosso mundo. Fazemos parte dele com tudo o que mais nos fascina e em meio a tudo o que mais deploramos. A resultante de 50 números até aqui publicados confirma nossa postura, revela os bons frutos de uma busca ininterrupta de diálogo com outras expressões, confirma a aceitação de uma revista que apostou na circulação unicamente virtual e que hoje é largamente conhecida em todo o âmbito geográfico que engloba os idiomas espanhol e português.

Jamais passamos o pires, ou utilizamos a Agulha para qualquer ação que extrapole seu plano editorial. Com mais de 900 matérias substanciais publicadas até aqui, sem mencionar sua parceria com o Jornal de Poesia - só em termos de Banda Hispânica já ultrapassamos a marca de 1.000 registros dedicados a poetas de língua espanhola - e com a portuguesa TriploV - onde mantemos um dossiê dedicado ao surrealismo -, tornamos possível um pequeno mundo de circulação de bens culturais e sua cabível reflexão, ao ponto que nos orgulha imensamente estar disponibilizando agora uma Agulha # 50, não somente pelo óbvio sentimento de que até aqui chegamos, mas pelo acervo de que já dispomos - sempre crescente - de material em grande parte inédito para inclusão nas próximas edições.

Os editores de Agulha se sentem felizes, naturalmente, porém insistem que a realidade deve ser encarada sob suas mais violentas formas, porém jamais deve ser adulterada. O que está por trás de um roubo de obras ou armas? O que está por trás da seqüenciada rejeição às novas formas de governo com que erra e quem sabe acerte a América Latina? O que está por trás dos interesses em falsear a situação do mercado editorial brasileiro? Tais desvios de espelhos, estes sim, mais do que qualquer outra coisa, é o que mais nos preocupa, porque lidamos justamente com o fascínio, que não é o mesmo que fraude.

Os editores

sumário

1 a bíblia dos ventos: molnár, márai, kertész. marco lucchesi
2
a biblioteca silenciada - sobre a censura na antiga república democrática alemã e as múltiplas faces da censura na literatura. viviane de santana paulo
3
a casa onde nasceu bocage e outras verdades que não pegam. adelto gonçalves
4
allan graubard & as relações possíveis entre poesia, teatro e surrealismo [entrevista]. floriano martins
5
ana blandiana: como numa paisagem esvoaçante de chagall [entrevista]. ana marques gastão
6
ang lee: nem tudo é perfeito. antonio naud júnior
7 césar moro
: ¿bilingüismo ou translingüismo? martha l. canfield
8
conversando com claribel alegría [entrevista]. floriano martins
9
corpo como razão: a poesia de rodrigo petronio. mario  dirienzo 
10 dentro da história e fora do tempo:
dioniso crucificado e a viagem alma adentro de per johns [entrevista]. rodrigo petronio
11
dos poetas bolivianos: vilma tapia anaya & gary daher canedo [entrevista]. floriano martins
12
entre la magia y la revolución - en busca de nuevos derroteros. carmen virginia carrillo
13 lauro césar muniz
: a trajetória de um dramaturgo e novelista. ana lúcia vasconcelos
14 margaret randall
, la poesía y
el corno emplumado [entrevista]. floriano martins
15
o estado poético em octavio paz, jung e frei cáppio. josé carlos a. brito
16 philip lamantia
: xamã do surreal [entrevista]. thomas rain crowe
17
a segunda vanguarda. claudio willer
18
segurança só na rocinha. alberto beutenmüller
19
tomás saraví y
tiempo de lobos, pionera en el género de la novela negra latinoamericana [entrevista]. alfonso peña
20
una entrevista con guillermo cabrera infante. kjell a. johansson [seguida de "meta-final" para
três tristes tigres]

artista convidado ivald granato (obra múltipla - texto de jacob klintowitz)
resenhas livros da agulha adriano corrales [por antonio castillo] - andré martinez - lucila nogueira [por josé rodrigues de paiva] - maria loúcia de souza barros pupo - mariana ianelli [por rodrigo petronio] - plínio cabral - sergio cohn [por claudio willer]
música
discos da agulha 38 que no juega [por aleyda quevedo rojas] - anouar brahem [por stéphane olivier] - arnaldinho silva - cruks en karnak [por aleyda quevedo rojas] - galo preto - lina nyberg - marcos ariel - sergio rossoni grupo - zé luis mazziotti [por erico baymma]
cumplicidade galeria de revistas  

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(
estados unidos)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
jo
sé ángel leyva (méxico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
rodolfo häsler (espanha)
saúl ibargoyen (méxico)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidado (obra múltipla)
ivald granato

apoio cultural
jornal de poesia

traduções
eclair antonio almeida filho, maría vázquez valdez, gary daher canedo, floriano martins

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