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Revista de Cultura nº 4/5

 

Fortaleza/ São Paulo, novembro de 2000

 

CAMPOS DE CARVALHO: PROSADOR SURREALISTA?

Cláudio Willer

ag4willer1.JPG (24848 bytes)O que é um clássico?

É o autor de quem permanecem imagens e frases, reconhecidas mesmo por quem não leu sua obra.

Podem ser trechos como estes:

Vós, que entrais, deixai toda esperança.
Se Deus não existe, tudo é permitido.
Hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão.
Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
Fiz um pacto com a prostituição, afim de semear a desordem entre as famílias.
A poesia deve ser feita por todos, não por um.

As duas últimas citações são de Lautréamont, de quem Campos de Carvalho se dizia "irmão", além de citá-lo em A Lua vem da Ásia. Só lamento não ter tido a ocasião de conversar com ele, para saber como era a sua leitura de um autor tão complexo. Também lhe teria perguntado sobre Alfred Jarry, seguidor de Lautréamont; e sobre as ressonâncias, em A chuva imóvel, de uma narrativa como Os dias e as noites.

Voltemos aos clássicos. E aos autores que ainda não o são, mas que mereceriam algum dia alcançar esta condição, como o próprio Campos de Carvalho, de quem, assim o espero, permanecerão trechos como estes:

Aos 16 anos, matei meu professor de lógica. (…) e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.
À noite a lua vem da Ásia, mas pode não vir, o que demonstra que nem tudo neste mundo é perfeito.
Mesmo morto, continuarei dando meu testemunho de morto. Esta chuva imóvel, serei eu que a estarei cuspindo
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Estou lírico como um teatro de ópera, e é bom que assim seja, que assim esteja, nesta noite tão rica em presságios, tão próxima do abismo dos céus e dos abismos do mar.
Saí para matar o tempo e matei-o.
Copacabana é um bairro onde se pode viver tranqüilamente, desde que se seja louco.

Essas frases fazem parte de enredos lacunares, feitos de cenas e situações que parecem não levar a lugar algum, e que, em O púcaro búlgaro, seu último livro, compõem a viagem a lugar algum. Campos de Carvalho seduz o leitor pela leveza e naturalidade. Talvez isso ocorra pelo modo como escrevia, espontaneamente (O púcaro búlgaro teria sido realizado em 24 dias), movido por um rigor que o obrigava a proibir-se de refazer seus textos. Deixou-nos, por isso, uma prosa fluente em sua descontinuidade.

O destino de sua obra exemplifica a miopia literária responsável pela existência de autores brasileiros relegados ao limbo dos injustamente amaldiçoados pelo esquecimento, como disse Nelson de Oliveira, em um artigo recente (Três escritores de gênio que o Brasil está desprezando, no Caderno de Leituras, Jornal da Tarde, São Paulo, 07/10/2000). Nele, Campos de Carvalho é citado como membro de uma família de verdadeiros malditos, da qual também fariam parte Rosário Fusco, Maura Lopes Cançado, José Agripino de Paula e Uílcon Pereira.

Sem dúvida, é um escândalo a obra de Campos de Carvalho haver desaparecido de vista, sem reedição, por três décadas, desde quando seu autor resolveu parar e sair de cena. Mais estranho ainda é, depois de ser redescoberto, em conseqüência de indagações feitas por Mário Prata e de um artigo de Carlos Felipe Moisés, que contribuíram para que fosse publicada sua Obra Reunida (José Olímpio Editora, 1995 e reedições), o silêncio a seu respeito haver-se restabelecido.

Se soubéssemos nos ler – e, aqui, não penso apenas em Campos de Carvalho e no elenco formado por Nelson de Oliveira, mas no reconhecimento tardio de Dionélio Machado e Murilo Rubião, entre outros casos – figuraríamos, perante o mundo e nós mesmos, como o país onde floresceram uma prosa, uma poesia, uma poesia em prosa ou prosa poética oníricas, mágicas, surreais, fantásticas, do absurdo, do nonsense. Enfim, seja qual for o rótulo ou qualificação, um conjunto de obras que contrariam as modalidades privilegiadas por nossa tradição positivista e por sua manifestação mais recente, a crítica universitária de orientação cientificista e formalista: o paradigma realista, a idéia da literatura como representação e mimese, a poesia cerebral, reiteração do cogito cartesiano.

ag4willer2.JPG (51622 bytes)Em que medida Campos de Carvalho poderia ser identificado ou vinculado ao Surrealismo? Na introdução à Obra Reunida, Carlos Felipe Moisés admite sua proximidade com relação a esse movimento, pela imaginação delirante, ressalvando, porém: Quanto mais delirante, mais fundo a imaginação toca o cerne da realidade. Na verdade, o autor está mais para realista do que para surrealista, embora isso ofenda aos espíritos bem pensantes, amantes da boa lógica. Ocorre, contudo, que uma das dificuldades enfrentadas pelos bem-pensantes, amantes da boa lógica, é justamente a de perceberem que o Surrealismo não é um irrealismo, um modo de pairar na abstração ou no devaneio desvinculado do mundo em que estamos. E, ao discutir-se a vinculação de alguém ao Surrealismo, entendido como movimento de idéias, e não como estilo, forma, e, menos ainda, como devaneio inconseqüente, convém que a crítica parta daquilo que o autor em foco pensar ou tiver a dizer a respeito.

Naquela que parece ter sido a última de suas poucas entrevistas, para a revista Azougue (publicada em dezembro de 1997), pouco antes de morrer, Campos de Carvalho declarou-se, novamente, surrealista. Mas não é possível imaginá-lo como participante ativo, presente às reuniões de um movimento, de um grupo. Sua sensibilidade o induzia à solidão. Autodeclarado anarquista, pertenceu à família dos anarco-individualistas. Poderia, contudo, se houvesse escrito e publicado em outro tempo, figurar naquela lista dos escritores que precederam o Surrealismo, apresentada no Primeiro Manifesto de André Breton. Assim como Breton declarou que Poe é surrealista na aventura, que Baudelaire é surrealista na moral, que Mallarmé é surrealista na confidência, teria dito que Campos de Carvalho é surrealista no isolamento, na discrição, na reticência, no prolongado silêncio. E, com absoluta certeza, mereceria figurar na Antologia do Humor Negro do mesmo Breton, com sua lírica defloração sobre túmulos, seu assassinato do professor de lógica, e tantas outras passagens memoráveis.

Deixando de lado uma discussão, a meu ver inútil, sobre semelhanças formais, exteriores, entre Campos de Carvalho e o Surrealismo, penso que ele encarnou, com extrema fidelidade, seus ideais e valores: a idéia de uma ética do escritor, do artista em geral, fiel a si mesmo, avesso à perseguição da glória. Alguém que não se propõe à carreira das letras, porém apenas obedece a seu impulso criador. Sob o ponto de vista ético, seu silêncio e isolamento foram significativos. Depois da repercussão, sucesso já tardio para alguém nascido em 1916, dos quatro livros publicados entre 1956 e 1964, saiu de cena, não quis mais saber, pois não estava aí para a badalação, o mundanismo cultural, os jogos de interesses da política literária.

Carlos Felipe Moisés, nessa introdução à Obra Reunida, trabalha, acertadamente, com termos binários, apresentando polaridades, e mostrando como elas se confundem e são anuladas. Examina a loucura contra a sanidade mental, e a loucura da normalidade, em A lua vem da Ásia; a vida contra a morte, e a morte em vida, em Vaca de nariz sutil; o tabu do incesto e o incesto contra os tabus, em A chuva imóvel; finalmente, o irreal contra o real, e a irrealidade do real, em O púcaro búlgaro. Mostra-o, portanto, como um escritor que tratou das contradições fundamentais: imaginação contra realidade, sujeito versus objeto, indivíduo e sociedade, real e ideal.

ag4willer3.JPG (44526 bytes)A publicação da Obra Reunida e de um ensaio como esse deveriam ter inaugurado uma fértil seqüência de estudos críticos sobre Campos de Carvalho, colocando-o no lugar que merece em nossa literatura. É claro que ele não precisa daqueles típicos estudos acadêmicos, que chovem no molhado, servindo apenas para o mestrando ou doutorando mostrar que estudou a lição de casa, ao oferecer-nos, por exemplo, o exame da carnavalização, ou dialogismo, ou polifonia em sua obra (seria chover no molhado fazer isso com um leitor declarado de Rabelais). A intertextualidade em Campos de Carvalho, aqui sim, há uma linha de pesquisa que talvez possa render algo. Mas, no que ainda vier (espera-se) a ser escrito sobre o autor de Vaca de nariz sutil, seria possível e produtivo utilizar a matriz freudiana. Especialmente o magistral estudo sobre o chiste, ou o humor, ou o trocadilho, e sua relação com o inconsciente. Seus jogos de aliterações, de aproximações de significantes e não de significados, mostram como Eros, o prazer, toma conta, ludicamente, da criação literária.

Através do jogo de contrastes, prevalece, naquilo que individualiza seu estilo, em seus enredos e em cada frase, um duplo movimento. Consiste em uma espécie de metonimização, na conversão do abstrato em concreto, e, reciprocamente, na abstração do concreto, assim subvertendo-os. Por exemplo, tomando um dos trechos citados acima, ao dizer que saiu para matar o tempo e que o matou, convertendo a categoria geral, abstrata (o tempo), em coisa. Ou, para ilustrar o mecanismo inverso, que morou sob uma ponte do Sena sem haver morado em Paris, assim lançando o concreto (a ponte do Sena) na mais completa abstração, convertendo a referência geográfica em lugar algum. No título A Lua vem da Ásia, ele planta o geral, o Oriente, no chão, na superfície do planeta. Atente-se ainda para essa perfeição do deslocamento, do símile subvertido, que é estar lírico como um teatro de ópera (e não como uma ópera…), novamente amarrando o abstrato ao concreto.

As narrativas de Campos de Carvalho são, acima de tudo, extraordinariamente consistentes em sua lógica do absurdo e da subversão. O todo formado pelos enredos é indissociável das partes, dos epigramas e aforismos, na mesma medida em que há perfeita coerência entre a obra escrita e a conduta do seu autor. Por isso, por sua integridade, vida e obra de Campos de Carvalho representam a busca do homem adâmico, primordial, da inocência anterior à Queda, à corrupção e degradação pela civilização ou, como disse ele, em A Lua vem da Ásia, a minha desesperada inocência, que é também meu terrível segredo; busca empreendida por alguém que, através da absoluta seriedade de seu humor, em estado de nudez simbólica, sempre se manifestou contra essa civilização.

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