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Revista de Cultura nº 4/5
 
Fortaleza/ São Paulo, novembro de 2000
 
CLANDESTINO DESEJO: NOTURNOS DE XAVIER VILLAURRUTÍA

Jorge Pieiro

"A morte distrai como fantasia" (J. P.)

ag4villaurrutia1.JPG (36664 bytes)T. S. Eliot ensina que "a poesia é uma constante advertência a tudo aquilo que só pode ser dito em uma língua, e que é intraduzível". Seguindo o preceito, o tradutor Paulo Hecker Filho escreveu certa vez que "poesia se faz, além do sentido, com palavras, a rigor, é intraduzível". Pensando assim, ocorre-me (in)traduzir poemas de Xavier Villaurrutia, um dos expoentes da contemporaneidade mexicana.

Villaurrutia viveu a tensão de uma época culturalmente revolucionária. Seu nome, então, está intrinsecamente ligado ao de quase todos os empreendimentos culturais do México, a partir dos anos 20. Nasceu na capital federal em 1903 e ali encontrou seu sonho verdadeiro em 1950. 

Tinha baixa estatura, era delgado, elegante no vestir, e possuía "formosa voz, grave e fluente como um rio escuro". Por educação e temperamento era um cosmopolita. Disse Octavio Paz sobre Villaurrutia que "não era um homem de idéias, era um homem extraordinariamente inteligente. Incapaz de crer, isolou-se em um mundo privado, povoado pelos fantasmas do erotismo, do sonho e da morte."

Realizou estudos secundários no Colégio Francês, daí a influência da literatura francesa, que o fez interessar-se sobretudo por Gide, Proust, Valéry, Giraudoux, e – entre os clássicos modernos – Baudelaire, com quem tem bastante em comum. Joyce, os ingleses e os poetas norte-americanos foram vivenciados em suas leituras, assim como o alemão Heidegger foi lido em uma época em que ninguém, ou quase ninguém, o conhecia no México.

Na Escola Nacional Preparatória conheceu Jaime Torres Bodet y Salvador Novo, futuros companheiros de aventuras literárias. Freqüentou alguns anos a faculdade de Direito, abandonando-a em seguida para dedicar-se exclusivamente à literatura.

Foi um dos fundadores e militante de Contemporáneos (1929-1931), uma das revistas literárias mais importantes e influentes entre as publicações em língua espanhola da época. Não só acolheu em suas páginas as escritas que representavam a vanguarda universal (T.S. Eliot, St.-John Perse, Jean Cocteau, Paul Valéry etc.), como também se divulgaram ou se deram a conhecer autores mexicanos e latino-americanos de notável influência nas gerações posteriores (Alfonso Reyes, Jorge Luis Borges, José Gorostiza, Pablo Neruda etc.).

A maturidade, a inteligência e a generosidade fizeram de Villaurrutia um dos escritores centrais da revista. Os poemas que ali publicou, recolhidos mais tarde em Dos nocturnos (1931), Nocturnos (1931) e Nostalgia de la muerte (1938), são poemas importantes, fundamentais inclusive para o desenvolvimento da moderna lírica mexicana.

Anteriormente, encabeçara com Salvador Novo e José Gorostiza, a revista Ulisses (1927-28), marco inicial do pensamento do grupo Contemporáneos; e, mais tarde, com Octavio Barreda, continuaria os ideais dessa revista, fundando El Hijo Pródigo (1943-1946), uma das melhores publicações surgidas no México e, para uns, em qualquer país de língua espanhola (1).

Poeta, crítico, dramaturgo, Villaurrutia é sempre inteligente, culto, agudo, mas por trás de seus jogos de palavras e suas surpresas irônicas se oculta uma funda e desolada angústia. 

Tipicamente moderno, ele é o poeta da angústia existencial, todavia, sentia-se irritado pelo modernismo imperante em muitos ambientes literários mexicanos, e admirava López Velarde – feito compartilhado com todos os escritores de Contemporáneos – vendo no poeta de La suave Patria a superação do modernismo e a ponte até as tendências que a eles interessavam: o onírico, o surreal (2), a tensão ante um mundo cada vez mais fantasmagórico e ameaçador, a constante presença da morte.

Como assinalou Tomás Segovia em Actitudes, no mundo de Villaurrutia "não vivemos no sonho; não vivemos na vigília; vivemos no mundo intermediário da insônia, e esse mundo é o medo. Aqui não existem personagens… senão fantasmas aterradores. Para Villaurrutia, a realidade é descontínua, aparece e desaparece, esfuma-se, interrompe-se. Essas interrupções, esses desvanecimentos é o que quase sempre evoca em sua escrita a palavra morte".

Também o poeta Alí Chumacero, ao prologar o teatro de Villaurrutia, concluiu que, "ante a angústia da morte, transformada em bela nostalgia, o escritor preferia ter descansado em seu mundo privado o drama de saber-se parceiro".

O teatro foi para Villaurrutia outra paixão: bolsista da fundação Rockfeller na Universidade de Yale, fundou em seguida o primeiro grupo de teatro experimental na Cidade do México. Na juventude, esforçou-se para fazer conhecidos autores modernos, norte-americanos e europeus. Depois, no experimental Teatro Orientación apresentou suas primeiras obras: Parece mentira (1933) e ¿En qué piensas? (1934), preâmbulo de obras maiores: Invitación a la muerte (1940), La hiedra (1941), inspiradas em Hamlet e na Fedra, de Racine.

Foi como poeta, no entanto, enfoque deste opúsculo, que Villaurrutia evoluiu rapidamente de uma simples percepção da poesia a concepções em que a alucinação, o sentido da noite, o sonho, o tema da morte, o mar, o gelo (3) tomaram conta do que há de mais importante em sua obra. Em seus melhores momentos, a representação plástica das emoções – particularmente em seus "noturnos" (4) – proporcionou um dos aspectos definidos de sua sensibilidade. A noite para Villaurrutia simboliza a outra fisionomia de uma mesma claridade, a outra praia do desejo clandestino. Poucos exemplos são encontrados na história da lírica latino-americana, em que a fidelidade à angústia e à predileção pela solidão tenham produzido com tal eficácia essas amostras da mais autêntica emoção. Sua influência foi decisiva no desenvolvimento posterior da poesia mexicana.

A leitura recente de críticas sobre a poesia de Villaurrutia tem mostrado que os poemas noturnais e de morte são inferiores àqueles de energia homoerótica e amor. Eliot Weinstein adverte que "tecnicamente, ele tomou a prosódia e alguns dos temas do modernismo… e desnudou o fluxo retórico, condensando-o à voz divertida da vanguarda espanhola…" 

No entanto, é a sua voz noturnal que sempre remete o leitor ao que de estéril e angustioso tem a existência. Villaurrutia é um ser não redimido, por isso, busca o amor e a morte pelo mesmo caminho; e enquanto mais se aproxima de um, mais próximo está também do outro, da fatalidade de seu encontro, da grandeza de sua própria destruição.

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NOTAS

(1) Apesar do grande reconhecimento da revista Hijo Pródigo, seu fechamento deveu-se à desistência do patrocinador, que via nela uma continuação dos ideais do grupo de Contemporáneos, àquela época, segundo ele, fora dos propósitos literários do país, atento às produções regionais.
(2) Sobre esse aspecto, e no tocante ao surrealismo, o crítico e poeta Floriano Martins adverte: "embora o México seja considerado indiscutivelmente um dos grandes centros do surrealismo, esclareço que sua eclosão em tal esfera deu-se em duas instâncias: a primeira vinculada ao mundo das artes plásticas (…) e a segunda determinada pela residência mexicana de alguns surrealistas franceses e, durante algum tempo, do peruano César Moro, de tal forma que o surrealismo não teve influências diretas na poesia mexicana, exceto no caso único de Octavio Paz."
(3) Reitere-se a aproximação com Baudelaire a partir da leitura das duas estrofes finais do poema Morte, de As flores do mal, em tradução de Jamil Almansur Haddad: "Ó Morte, ó capitão! Deixemos estes cais! / Este país é o tédio! Ah, soltemos a vela! / Se o firmamento e o mar são negrumes fatais / O nosso coração, de clarões se constela! // Verte-nos teu veneno, ele é que nos conforta! / Tanto o cérebro nosso é de fogo incendido / No abismo mergulhar, Inferno ou Céu, que importa? / Para o novo encontrar no mais desconhecido!".
(4) Nocturnos, no original, deriva do latim nocturnu. Dentre as várias referências, ressalta-se um sentido: aquele que anda sempre só e melancólico. Daí, a relação com os títulos dos poemas aqui traduzidos.

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 TRÊS NOTURNOS DE XAVIER VILLAURRUTIA

(traduzidos de Jorge Pieiro)



NOTURNO 

Tudo o que a noite
desenha com sua mão
de sombra:
o prazer que revela
o vício que despe.
Tudo o que a sombra
faz ouvir com o forte
golpe do seu silêncio:
as vozes imprevistas
que a intervalos estimulam,
o grito do sangue,
o rumor de uns passos
perdidos.
Tudo o que o silêncio
faz escapar das coisas:
o bafo do desejo,
o suor da terra,
a fragrância sem nome
da pele.
Tudo o que o desejo
unta em meus lábios:
o sonhado deleite
de um contato,
o conhecido gosto
da saliva.
E tudo o que o sonho
torna palpável:
a boca de uma ferida, 
a forma de uma entranha, 
a febre de uma mão
que se atreve.
Tudo!
circula em cada ramo
da árvore de minhas veias,
acaricia minhas coxas, 
inunda meus ouvidos, 
vive em meus olhos mortos,
morre em meus lábios rijos.
 
 

NOTURNO EM QUE NADA SE OUVE

Em meio a um silêncio deserto como a rua antes do crime
sem respirar sequer para que nada turve minha morte
nesta solidão sem paredes
ao tempo em que fugiram os ângulos
no túmulo do leito deixo minha estátua sem sangue
para sair em um momento tão lento
em uma interminável queda 
sem braços para estender
sem dedos para alcançar a nota que cai de um piano invisível
sem mais que uma olhada e uma voz
que não recordam ter saído de olhos e lábios
que são lábios? que são olhadas que são lábios?
e minha voz já não é minha
dentro da água que não molha
dentro do ar de vidro
dentro do fogo lívido que corta como o grito
E no jogo angustioso de um espelho defronte a outro
cai minha voz
e minha voz que madura
e minha voz queimadura
e meu bosque maduro
e minha voz queima dura
como o gelo de vidro
como o grito de gelo
aqui no caracol da orelha
o latido de um mar no qual não sei nada
no qual não se nada
porque tem deixado pés e braços na margem
sinto cair fora de mim a rede de meus nervos
mas foge tudo como o peixe que se dá conta
até cem no pulso de minhas têmporas
muda telegrafia a que ninguém responde
porque o sonho e a morte nada têm já que se dizer.
 
 

NOTURNO ETERNO

Quando os homens erguem os ombros e passam
ou quando deixam cair seus nomes
até que a sombra se assombra
quando uma partícula mais fina ainda que a cinza
se adere aos cristais da voz
e à pele dos rostos e às coisas
quando os olhos cerram suas janelas
ao raio do sol pródigo e preferem
a cegueira ao perdão e o silêncio ao suspiro
quando a vida e o que assim chamamos inutilmente
e que não chega senão com um inominável nome
se despe para saltar ao leito
e afogar-se no álcool ou queimar-se na neve
quando a vi quando a videira quando a vida
quer entregar-se covardemente e às escuras
sem dizer-nos sequer o preço de seu nome
quando na solidão de um céu morto
brilham umas estrelas esquecidas
e é tão grande o silêncio do silêncio
que de imediato quiséramos que se falasse
ou quando de uma boca que não existe
sai um grito inaudito
que nos lança à cara sua luz viva
e se apaga e nos deixa uma cega surdez
ou quando tudo tem morrido
tão dura e lentamente que dá medo
alçar a voz e perguntar "quem vive"
hesito sem responder
à muda pergunta com um grito
pelo temor de saber que já não existo
porque acaso a voz tampouco vive
senão como uma recordação na garganta
e não é a noite senão a cegueira
o que enche de sombra nossos olhos
e porque acaso o grito e a presença
de uma palavra antiga
opaca e muda que de pronto grita
porque vida silêncio pele e boca
e solidão recordação céu e fumo
nada são senão sombras de palavras
que não saem ao passo da noite

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