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Jorge Pieiro "A morte distrai como fantasia" (J. P.)
Villaurrutia viveu a tensão de uma época culturalmente revolucionária. Seu nome, então, está intrinsecamente ligado ao de quase todos os empreendimentos culturais do México, a partir dos anos 20. Nasceu na capital federal em 1903 e ali encontrou seu sonho verdadeiro em 1950. Tinha baixa estatura, era delgado, elegante no vestir, e possuía "formosa voz, grave e fluente como um rio escuro". Por educação e temperamento era um cosmopolita. Disse Octavio Paz sobre Villaurrutia que "não era um homem de idéias, era um homem extraordinariamente inteligente. Incapaz de crer, isolou-se em um mundo privado, povoado pelos fantasmas do erotismo, do sonho e da morte." Realizou estudos secundários no Colégio Francês, daí a influência da literatura francesa, que o fez interessar-se sobretudo por Gide, Proust, Valéry, Giraudoux, e – entre os clássicos modernos – Baudelaire, com quem tem bastante em comum. Joyce, os ingleses e os poetas norte-americanos foram vivenciados em suas leituras, assim como o alemão Heidegger foi lido em uma época em que ninguém, ou quase ninguém, o conhecia no México. Na Escola Nacional Preparatória conheceu Jaime Torres Bodet y Salvador Novo, futuros companheiros de aventuras literárias. Freqüentou alguns anos a faculdade de Direito, abandonando-a em seguida para dedicar-se exclusivamente à literatura. Foi um dos fundadores e militante de Contemporáneos (1929-1931), uma das revistas literárias mais importantes e influentes entre as publicações em língua espanhola da época. Não só acolheu em suas páginas as escritas que representavam a vanguarda universal (T.S. Eliot, St.-John Perse, Jean Cocteau, Paul Valéry etc.), como também se divulgaram ou se deram a conhecer autores mexicanos e latino-americanos de notável influência nas gerações posteriores (Alfonso Reyes, Jorge Luis Borges, José Gorostiza, Pablo Neruda etc.). A maturidade, a inteligência e a generosidade fizeram de Villaurrutia um dos escritores centrais da revista. Os poemas que ali publicou, recolhidos mais tarde em Dos nocturnos (1931), Nocturnos (1931) e Nostalgia de la muerte (1938), são poemas importantes, fundamentais inclusive para o desenvolvimento da moderna lírica mexicana. Anteriormente, encabeçara com Salvador Novo e José Gorostiza, a revista Ulisses (1927-28), marco inicial do pensamento do grupo Contemporáneos; e, mais tarde, com Octavio Barreda, continuaria os ideais dessa revista, fundando El Hijo Pródigo (1943-1946), uma das melhores publicações surgidas no México e, para uns, em qualquer país de língua espanhola (1). Poeta, crítico, dramaturgo, Villaurrutia é sempre inteligente, culto, agudo, mas por trás de seus jogos de palavras e suas surpresas irônicas se oculta uma funda e desolada angústia. Tipicamente moderno, ele é o poeta da angústia existencial, todavia, sentia-se irritado pelo modernismo imperante em muitos ambientes literários mexicanos, e admirava López Velarde – feito compartilhado com todos os escritores de Contemporáneos – vendo no poeta de La suave Patria a superação do modernismo e a ponte até as tendências que a eles interessavam: o onírico, o surreal (2), a tensão ante um mundo cada vez mais fantasmagórico e ameaçador, a constante presença da morte. Como assinalou Tomás Segovia em Actitudes, no mundo de Villaurrutia "não vivemos no sonho; não vivemos na vigília; vivemos no mundo intermediário da insônia, e esse mundo é o medo. Aqui não existem personagens… senão fantasmas aterradores. Para Villaurrutia, a realidade é descontínua, aparece e desaparece, esfuma-se, interrompe-se. Essas interrupções, esses desvanecimentos é o que quase sempre evoca em sua escrita a palavra morte". Também o poeta Alí Chumacero, ao prologar o teatro de Villaurrutia, concluiu que, "ante a angústia da morte, transformada em bela nostalgia, o escritor preferia ter descansado em seu mundo privado o drama de saber-se parceiro". O teatro foi para Villaurrutia outra paixão: bolsista da fundação Rockfeller na Universidade de Yale, fundou em seguida o primeiro grupo de teatro experimental na Cidade do México. Na juventude, esforçou-se para fazer conhecidos autores modernos, norte-americanos e europeus. Depois, no experimental Teatro Orientación apresentou suas primeiras obras: Parece mentira (1933) e ¿En qué piensas? (1934), preâmbulo de obras maiores: Invitación a la muerte (1940), La hiedra (1941), inspiradas em Hamlet e na Fedra, de Racine. Foi como poeta, no entanto, enfoque deste opúsculo, que Villaurrutia evoluiu rapidamente de uma simples percepção da poesia a concepções em que a alucinação, o sentido da noite, o sonho, o tema da morte, o mar, o gelo (3) tomaram conta do que há de mais importante em sua obra. Em seus melhores momentos, a representação plástica das emoções – particularmente em seus "noturnos" (4) – proporcionou um dos aspectos definidos de sua sensibilidade. A noite para Villaurrutia simboliza a outra fisionomia de uma mesma claridade, a outra praia do desejo clandestino. Poucos exemplos são encontrados na história da lírica latino-americana, em que a fidelidade à angústia e à predileção pela solidão tenham produzido com tal eficácia essas amostras da mais autêntica emoção. Sua influência foi decisiva no desenvolvimento posterior da poesia mexicana. A leitura recente de críticas sobre a poesia de Villaurrutia tem mostrado que os poemas noturnais e de morte são inferiores àqueles de energia homoerótica e amor. Eliot Weinstein adverte que "tecnicamente, ele tomou a prosódia e alguns dos temas do modernismo… e desnudou o fluxo retórico, condensando-o à voz divertida da vanguarda espanhola…" No entanto, é a sua voz noturnal que sempre remete o leitor ao que de estéril e angustioso tem a existência. Villaurrutia é um ser não redimido, por isso, busca o amor e a morte pelo mesmo caminho; e enquanto mais se aproxima de um, mais próximo está também do outro, da fatalidade de seu encontro, da grandeza de sua própria destruição.
NOTAS (1)
Apesar do grande reconhecimento da revista Hijo Pródigo,
seu fechamento deveu-se à desistência do patrocinador, que
via nela uma continuação dos ideais do grupo de Contemporáneos,
àquela época, segundo ele, fora dos propósitos literários
do país, atento às produções regionais.
TRÊS NOTURNOS DE XAVIER VILLAURRUTIA (traduzidos de Jorge Pieiro)
NOTURNO Tudo o que a noite
NOTURNO EM QUE NADA SE OUVE Em meio a um silêncio deserto
como a rua antes do crime
NOTURNO ETERNO Quando os homens erguem os ombros e
passam
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