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Floriano Martins
Há muitos casos em que a ironia é um instrumento preciso e inconfundível dessa evidência, expressa em múltiplas faces a partir da intensidade com que a assume o poeta. Pensemos na ironia corrosiva de Kafka ou na sofisticada agudeza irônica da prosa borgeana. Evidencie o poeta uma verdade alegórica ou a transcendência de sua própria verdade interior, defenda a originalidade do arbítrio ou o arbítrio da originalidade, sua obra não encontrará radical mais contundente do que o de sua própria invenção, organismo vital do que quer que venha a violar. Seguramente o leitor não se revelará figura indispensável ao universo de tais aparentes contradições enquanto não entender a harmonia hierárquica com que essas forças interagem. Antes do leitor, é natural, interessa-nos aqui a presença inconfundível do criador, hoje uma espécie de audaz sobrevivente à fanfarra publicitária de uma arte feita para todos em dissonância brutal com o dístico memorável de Lautréamont. Define-se a obra de Uílcon Pereira (São Paulo, 1946-1995) dentro daquela obsessiva voracidade do eu shakespereano, obsessão desdobrada a partir de sua visão peculiar do exercício de auto-ironia e do sentido omnívoro de sua versão da originalidade. Lugar evidente da intertextualidade, ao mesmo tempo em que cenário vertiginoso do saque, da pilha; não pura e simples usurpação divertida do texto alheio como entende parcela da crítica , mas sim um exercício de invasão aos prejuízos causados pelos domínios precários e evasivos de um falso sentido de originalidade. Mesmo em sua "grande e pacífica diversão", não busca outra coisa o texto de Uílcon Pereira em seu fundamento irônico que não seja a negação da originalidade como extensão de uma realidade literária. Insiste em dizer: "sou todos os homens", recusando a deformidade de seu tempo em torno dos falsos atributos da identidade do ser. Alimentada por suas leituras ele mesmo um sequioso e confesso devorador de textos , não define-se sua vontade criativa pela violação criminal do alheio, mas sim pelo questionamento corrosivo dos fantasmas que determinam os usufrutos da arte, da criação. Em tal sentido, há um grande equívoco na leitura que se tem feito da obra deste poeta: não reproduz textos alheios, mas sim os deforma a partir de uma consciência irônica de que a diferença somente será evidenciada pela descontinuidade, em seu grau zero de transformação constante da matéria-prima. Talvez pudéssemos falar em paródia, se acaso mantivesse alguma espécie de diálogo com o alheio convocado. Disse-me o poeta argentino Leónidas Lamborghini (1927), em entrevista que lhe fiz: "Interessa-me a paródia como olhadela da qual as coisas são vistas bem distintas A paródia, penso, é nossa tragédia verdadeira e, portanto, teria que ser nossa arte verdadeiramente séria." De fato, há uma distinção crítica estabelecida pela paródia que complementa nossa defesa da descontinuidade. Contudo, no caso de Uílcon Pereira não se pode falar em paródia ou, se preferem, no exercício paródico em isolado.
E qual então a evidência da obra de Uílcon Pereira? Dupla ação: um permanente sentido crítico em relação ao nonsense prefixado pela indústria da arte e a defesa constante de um espaço da diferença, da descontinuidade. Todos os meandros de sua escrita são o território de um diálogo permanente, pensemos na série de entrevistas que compõem Ruidurbano (tomo I: Entre/vistas, 1992; tomo II: Uma antologia, 1993) ou na tessitura fabular que orienta o leitor a circular pelos espaços prismáticos do que ele próprio denomina de "cidade não-lugar", no caso de A educação pelo fragmento (1996). No primeiro: a evidência se mostra na forma de uma corrosiva ironia: a articulação jornalística de um romancista que percorre todos os cenários de difusão de sua obra, colhendo os louros de sua pródiga aceitabilidade no mercado editorial. Alimenta-se o autor protagonista de sua própria trama de um cruzamento múltiplo de reações oriundas do lance intrincado dos arquétipos de nossa sociedade. Sujeita-se então a uma série de entrevistas programas de auditório, revistas especializadas, folhetins de subúrbio, rádios interioranas etc. , onde cinicamente ilude a todos com um pastiche bizarro que aglutina Cervantes e Blade runner, canções pop e Justine, Guimarães Rosa e Satiricon, tiras de gibi e O jogo da amarelinha. No segundo: fragmenta-se em infinitos eus que confluem para a formação de uma verdadeira unidade territorial, reverberações de um espaço idealizado com ironia pelo autor, o lugar comum da própria existência humana. Como se fosse um compositor pop com formação clássica, sua escrita articula-se através de compassos insólitos, algo incomuns, quase sempre fora de tempo. Suas variações, contudo, são todas em torno de um mesmo tema: Àssombradado. O "não-lugar" de que nos fala faz com que sua poética não radique na corriqueira argumentação do fragmentário, mas sim na definição de um espaço indiscutível da unidade. Não perde-se em si. Ao contrário: desorienta a todos para que a partir dessa desordem momentânea possa fundar seu território poético.
Mesmo na trilogia anteriormente publicada, No coração dos boatos (tomo I: Outra inquisição, 1982; tomo II: Nonadas, 1983; tomo III: A implosão do confessionário, 1984), quando ainda sofria uma acentuada atração por Pierre Menard e as táticas burlescas do palimpsesto, já era possível observar que sua fiação narrativa buscava a síntese de um "não-lugar". Não nos cabe, no entanto, discutir o quanto que Uílcon Pereira despoja-se de suas obsessões ao ambientar, com sua ironia convulsiva, os obscuros territórios da "divina comédia humana" (Belchior). Importa, isto sim, salientar o risco que corre ao definir um espaço vertiginoso de descobertas de si mesmo, afinal ao leitor que se aventure no desdobramento perene de sua leitura. O excitante em sua narrativa fragmentada, na plenitude de seus ardis, não é a exigência de uma credibilidade no artifício que tece, mas sim a identificação com o enigma de seu curso, com a realidade efêmera, ostensivamente banal, de seu mundo rotulado justo pelo desgaste das relações diretas entre os homens. Há uma teoria da descontinuidade que necessita ser defendida a ferro e fogo. Não há uma linguagem idealizada, ao mesmo tempo em que o mundo dos signos é o mundo das diferenças, do exercício perene da sensibilidade. Não há outra maneira de imaginar senão à luz da diversidade. Somente a diferença toca o indivíduo. Por outro lado, nenhum poeta realiza-se fora de sua escrita. Ao questionar a fragilidade difusora da obra de Uílcon Pereira em grande parte resumida a seu estóico esforço epistolar , não faço senão recusar qualquer argumento que impeça o trânsito de uma das mais contagiantes aventuras livrescas que se tenha a dispor entre nós. O envolvimento de sua escrita sobretudo a partir desse diferencial de consciência crítica a que já me referi conclama alguns de seus célebres pares, lamentavelmente um tanto ausentes da realidade editorial brasileira: Francis Ponge, Hermann Broch, Marosa di Giorgio, Robert Graves, William Burroughs. Átomos, claro, mas que garantem a convulsão descontínua em que age o humano em nós. Assim o faz a educação pelo fragmento (alheio) em Uílcon Pereira, justamente em função de uma evidência do descontínuo, raiz de toda poesia. |
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