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Revista de Cultura nº 4/5
 
Fortaleza/ São Paulo, novembro de 2000
 
...ESCUTÁVAMOS TRANSMISSÕES ESTRANGEIRAS A QUARENTA METROS...

Alfonso Peña

ag4pena1.JPG (27974 bytes)Narrador e ensaísta, Alfonso Peña (1950) encontra-se hoje entre os grandes escritores de seu país, Costa Rica, reconhecido não somente por sua estética renovadora, mas também por sua ação, sendo ele um valoroso produtor cultural, possivelmente o mais ativo em seu meio. Durante os anos 80 dirigiu e editou a revista de arte e literatura latino-americana Andrómeda, que circulou em 33 números. Desde 1995, dirige as Ediciones del Taller de la Imaginación (Gráfica+Poesía), onde já foram editados mais de cem obras de artistas contemporâneos. Com dois livros de narrativa publicados, Noches de celofán (1987) e La novena generación (1997), Alfonso Peña tem sido incluído em importantes antologias internacionas, merecendo aqui uma especial referência à Anthologie de la Nouvelle Latinoamericane, publicada em 1992 pela Belfond/UNESCO, em Paris. Com sua obra parcialmente traduzida ao inglês, francês e italiano, Alfonso Peña chega agora ao Brasil. O conto aqui publicado integra o livro A nona geração, cuja edição brasileira (Edições Resto do Mundo) será lançada em junho, com tradução de Floriano Martins e Ilustrações de Eduardo Eloy. (F. M.)
 
 

…E desde então, nas águas-furtadas dos brilhantes infelizes, onde flutua o sonho azul, pensa-se no porvir como na aurora, e ouvem-se risos que afastam a tristeza, e se dançam estranhas farândolas ao redor de um branco Apolo, de uma linda paisagem, de um violino velho, de um amarelecido manuscrito…

RUBÉN DARÍO, Azul

Na última vez em que a vi, Elsa usava um lindo vestido bege com riscos azuis. Como me obceca o azul! Freqüentemente lhe dizia: que bem que te cai o azul. Azul céu. Azul marinho.

Não creio que por causa de minhas palavras tenha se importunado. O assunto provém bem mais de uma questão familiar. Em muitos casos os sintomas foram semelhantes. Ao princípio, seus rostos adquirem um ar de ausência, tornam-se indolentes e a angústia vai se apoderando deles. Se anteriormente eram poupadores de linguagem, pelo contrário, agora tornavam-se faladores e tagarelas, e como é de se supor, se eram esbanjadores de vocábulos se convertiam depois em frias máquinas silenciosas.

Dentro desta incerteza, o tempo foi avançando. Fui a testemunha. O guardião da casa. Minha vida se reduziu a observar como minha família se evaporou. A única coisa – além do mais, de mim mesmo – que permaneceu em seu lugar foi a casa. Ela não se viu perturbada pela mudança que sofreu o bairro. Uma que outra vez lhe repararam as inclinações das calhas; a cada quinze anos o volátil cheiro da pintura tem acabado com os labirintos que formam a traça e as teias de aranha. No mais, tudo segue igual. Sempre na rua 26, quase, ao lado da farmácia Pinzón. Não posso dizer que a antiga, porque esta (a moderna), é um cubo de dois pisos congelado e asséptico. E a pracinha que dava para a frente da casa? Em poucos anos, converteu-se, em um parque, seguro, um modelo importado. Com saudade a relembro, sua amplíssima coluna de ciprestes, sobressaindo-se erguidos nos quatro pontos cardeais.

Reiteradamente trato de explicar-me, o que é que nos une, o fio condutor que faz com que estejamos juntos: eu e a casa?

Seguramente, é pelo fato de não mover-me de seus domínios. Paredes gastas. Mobílias carcomidas. Claro que o que digo, que o que penso, é somente para justificar-me, para amputar-me a mim do que me interessa, ou do que me dói, não?

Continuo pensando nela. Em seu regresso. De verdade que com Elsa a vida é tão diferente! "Havíamos feito um pacto", "Havíamos dito que permaneceríamos unidos", "Juramos que nenhum se afastaria".

Juntos vivemos a amargura de ver como a família ficava mutilada.

Começou com Antonio. De um dia para outro seu aspecto tornou-se sombrio, porém, isso sim, não deixava de falar. Vivia dizendo que tinha que ir viver com o tempo. Que o haviam chamado. Que mesmo que não acreditássemos, iria viver com Cronos. Todos tomavam essas afirmações como o vôo imaginativo do filho menor. Não lhe era dado demasiada importância e então ele estourava e dizia que éramos uns imbecis, pois não entendíamos que existia um lugar – um espaço – onde os relógios tinham seu mundo.

Em poucos dias, havia convertido seu quarto em um cômodo atulhado de relógios de parede, de mesa, pulseira, algibeira, e sentia-se muito comprazido ensinando a uma destrambelhada clepsidra.

Saía cedo pelas manhãs e regressava altas horas da noite carregando seus mecanismos. Uma tarde acomodou seus relógios em várias caixas e nos disse: "vou-me". Diante da casa havia um carro, esperando, com o motor ligado.

Com o correr dos anos, ficamos somente Elsa e eu. Antes que os velhos se fossem, já havíamos disposto (acumular datas e datas, dando voltas, sempre sobre o mesmo tema) não permitir que essa sorte caísse também sobre nós.

Uma manhã de janeiro marcou o signo esperado. Conseguimos vê-los, surgindo dissimuladamente, por uma cortina que dava para a rua. Seus olhos fixos, aderindo aos cristais, os dois repetindo como se fosse uma só voz: "Ah, sim, os cães, vistés como nos chamam, vistés o pequinês de pelo cinza, que beleza, escutastés, nos chamam…"

Desde aquele dia, aceitamos que uma maldição caía sobre nós: os Gálvez…

Elsa chorou desconsoladamente. Como pude, tratei de convencê-la de que não se preocupasse. No entanto, também quis chorar.

No dia seguinte, não nos separamos deles, mas era lamentável vê-los e escutá-los falando e balbuciando de cães de todas as raças e espécies. Assim foram transcorrendo os dias; até que em uma manhã me dei conta de que já não estavam…

ag4pena2.JPG (41921 bytes)Não tive necessidade de contar a Elsa o ocorrido. Leu em meus olhos, vislumbrou em minha pele que saltitava convulsivamente. Tratei de tranqüilizá-la, mas sua voz – com seu tom enérgico – surpreendeu-me ao dizer: "Tenho que limpar a casa". De momento, não entendi o que queria dizer com essa alocução. Minha resposta ficou travada em meus lábios. A vi correr até o interior da casa e trazer em seus braços o rádio Gründing; o precioso rádio onde escutávamos transmissões estrangeiras a quarenta e nove metros. Que fazés?, foi a única coisa que pude dizer. Como se estivesse sozinha, atravessou a sala, correu pelo saguão que dava à rua e jogou o rádio. Quando retornou, sua voz tinha um tom imperioso: "É que não vais me ajudar a limpar a casa", e continuou sem deter-se até o cômodo onde estava a televisão. Eu a segui, já o havia desligado e com grande dificuldade tratava de movê-lo (Era um daqueles primeiros televisores que chegaram ao país: pesava, pesava muito…), no momento de ajudar-lhe – penso nisto agora –, o fiz sem convicção, porém, quando entramos no saguão sentia que o coração me saltava ferozmente; assim como Elsa eu estava convencido de que o mal provinha dos desnecessários objetos que existiam na casa. Depois de atirar o televisor à rua, continuamos com o que restava…

Após esse tráfego, sentamo-nos no sofá, nos abraçamos e assim permanecemos não sei quantas horas. Desde esse momento, compreendemos que algo novo, que algum acontecimento desconhecido se apresentava diante de nós.

Concordamos que o mais prudente seria seguir dormindo pelo dia e vivendo pela noite e a madrugada. Entusiasmados com a idéia nos pusemos a trabalhar: bloqueamos a porta do pátio e gradeamos todas as janelas que existiam na casa. A porta principal a asseguramos com fortes ferrolhos. Depois de executar essa operação, prometemos que não sairíamos à rua, salvo quando fosse necessário. Daí em diante, nosso habitat estava dentro da casa; a rua, o exterior não devia nos importar. Em poucos dias havíamos nos acostumado a esse novo ritmo de vida. Sentíamo-nos comprazidos, por havermos despertado em nós habilidades que tínhamos adormecidas.

Elsa descobriu que tinha uma grande habilidade para o desenho. Começou por fazer desproporcionadas figuras, depois foi avançando, corrigindo, polindo, até chegar a dominar bastante bem a técnica do lápis. Seus desenhos e traços se estenderam por paredes, pelo piso, pelas madeiras dos poucos móveis que restavam… Sua aptidão converteu-se quase em uma mania. A qualquer momento chegava e me dizia: "Vem, vem ver o desenho que acabo de terminar".

Em algumas ocasiões enquanto Elsa desenhava (manchas e riscos avançando descomedidamente…) eu revia empoeiradas revistas que encontrava na biblioteca. Com interesse lia artigos que versavam sobre Acupuntura, algum ensaio sobre a Eternidade do Universo, ou simplesmente ficava embevecido (À procura de imagens…) analisando o retrato de uma apergaminhada senhora ou de um engomado senhor. Por minha mente desfilavam muitas idéias, até que me decidia e lhe pegava um grito:

– Façamos um jogo…

– De que se trata?

– Já o conheces…

– Oh, não!, outra vez o jogo das caras…

– Não te agrada?

– Sim, mas deixa-me terminar esse esboço…

Enquanto Elsa terminava seu desenho eu me dedicava a recortar o retrato do senhor X e da senhora Z; e, a partir desse instante, tinha início o jogo das caras.

Nas madrugadas atrás o havíamos concebido, entre sessões febris, onde a imaginação rodava atordoadamente, desvelando novos descobrimentos, achados…

Estás pronta?

Agora o recordo: utilizava em minha voz um tom falseteado como de Arlequim, ou de anunciador de miudezas. E, outra vez: Está pronta a clarividente! Que sim? Então conosco se encontra a cara macilenta do senhor X. Este senhor está enfastiado de seu rosto, lhe agradaria converter-se em um personagem importante, como por exemplo em: "Valentino 93".

ag4pena3.JPG (59035 bytes)Tomava a revista em minhas mãos, recortava o retrato do senhor X e o mostrava a Elsa. De imediato ela começava a desenhar. Enquanto estava em sua tarefa eu passeava por corredores e aposentos da casa, falando em voz alta, gesticulando e bufando acerca do senhor X.

E como vai a clarividente? Pode ou não comprazer… Que sim. Pois bem… Vejamos… Parece-me que não está mal… Porém talvez fosse conveniente retocá-lo… reafirmar… esse é seu caráter… Está de acordo a clarividente? Adiante!

E eu continuava, caminhando, correndo, brincando por corredores e erguendo a voz, a cada momento: "Vocês sabem, respeitável público, que se a clarividente falha, ou não acerta em sua interpretação a senhora Z com seu rosto apergaminhado vai contrariar-se… Vos digo, sem que a senhora Z me escute, também ela sonha em chegar a ser a senhora ‘Cosmético modelo 99’… A clarividente não pode falhar… Por favor não pode ficar como uma caricatura… Seria lamentável… Que horror… Um casal desigual… Terrível desilusão! Seu galã não é como sonhou. Excelente clarividente! Conseguiste! Senhoras e senhores, observem o milagre. Recordam a cara engomada do senhor X. Pois bem, admirem-no, a clarividente o converteu em flamante ‘Valentino 89’"…

Aplausos, aplausos, senhoras e senhores…

Conosco está a senhora Z. Nesta oportunidade a clarividente terá que trabalhar com muito sigilo. A manobra não é fácil. Imaginem o que significa transformar uma cara esquartejada e derruída em um cosmético modelo 99’… Percebem o que isto significa?

Assim, como efetuávamos esse jogo, da mesma maneira, tínhamos outros divertimentos. Recordo-me de alguns que talvez pelo grotesco e mordaz não possam ser esquecidos, claro, Guiñol da rua 27, a dança da Casa dos Mortos, o que é e como é André! Partíamos de um silêncio, de uma pausa, de um instante de sonolência… O que pode ocorrer, quando se fixam os olhos no mosaico, mas isso que se está vendo o transformais em uma imagem que se tem que dar e então dizeis: "Zás, aqui começa a contrariedade".

Agora que o penso, parece-me que o que ocorreu com Elsa, também pertence ao imprevisto: um jogo. Mesmo que meditando com frialdade, fora da paixão, é essa espécie de signo, o estigma dos Gálvez.

Desde que ficamos com a casa, nunca havíamos querido abrir a porta, no que pesem os chamados que se davam pelo dia.

Uma manhã (decerto que estávamos adormecidos) a porta emitiu alguns distantes ruídos. Logo o repique da madeira foi crescendo até que nos despertou por completo. Sentei-me na borda da cama, tinha enormes desejos de mandar ao caralho o inoportuno. De repente chegou Elsa; mostrava-se animada. Até sorria. Tinha um rosto descansado…

Sem deixar de sorrir me disse:

– Vejamos quem chega primeiro à porta?

– Queres que abramos? – interroguei alarmado.

– E a promessa, onde a deixais?

– E se é apenas para mudar a rotina…

– Não me parece… – insisti gravemente, tratando de apazigua-la.

– Toma-o como um jogo – Asseverou com um tom de convencimento.

– Está bem… – disse aceitando de má maneira.

Não havia concluído a frase, quando já, ela, corria pelos corredores da casa. A segui sem dar muita atenção… Ao contrário, me sentia temeroso. Já havia perdido o interesse de escutar outras vozes…, a dela era suficiente. Manipulou os ferrolhos e com rapidez abriu a porta. Quando a luz da rua se filtrou pelo umbral e inundou as paredes interiores, nesse momento compreendi que algo estranho se passava. Amoldado a uma das paredes, escutei uma série de saudações, de obrigados, veja Você… Quando voltou a fechar a porta, de imediato observei que trazia uma flor de crisântemo agitando-a na mão esquerda.

– E isso? – perguntei alterado.

– Era a vendedora de flores, me presenteou esta, é linda, não é verdade?

Os dias que seguiram estiveram realçados pela angústia. Era como se um vagalhão de resíduos terrosos tivesse turvado nossa vida. Elsa se tornou invisível. Não falava. Não desenhava. Os hábitos e costumes que havíamos levados até essa manhã foram esquecidos por completo.

– E a quem culpar?

Só se podia tirar uma conclusão: a velha, a horrível velha vendedora de flores. Ali, sobre a mesa de noite do quarto, estava a resposta: a murcha flor de crisântemo.

Em múltiplas ocasiões tratei de falar com ela. Quando consegui, encontrei-me com uma barreira que evadia toda comunicação, que com refinados artifícios me afastava. O que podia pedir diante desse desusado comportamento? O que se era de notar é que a casa estava no umbral de presenciar uma nova retirada…

…em um amanhecer ultramarino, em uma tarde azul, madrugada carregada de refletidas pérolas. Nos dissemos adeus. Em silêncio, a beleza do solilóquio. Não quis acrescentar nada mais. A insistência de que era uma flor. Aqueles gestos carregados de melancolia: braços como suaves estames, olhos como carpelos, pétalas acinturadas… E não podia ser de outra maneira: a reverberação nas estâncias; muitos aromas de flores conhecidas…

Em certos momentos um girassol que me falava entrecortadamente: "compreende-me sou do Reino das Flores…"

E dizer para mim, como tratando de ser condescendente, tem que estar doente. Porém nada disso. Ao contrário. A resposta rápida desequilibradora: "Claro, estou doente, não percebes que não podemos ficar trancadas!" Três, quatro passos, sacudindo seu corpo como o talho de uma faia noturna. Estar alerta. À espera. E suas últimas palavras: "Pertenço ao Reino das Flores", me disse a senhora… E de imediato aquele terrível pranto, enormes gotas que resvalam por suas bochechas texturizadas, pelas folhas-epidermes, pétalas-cabelos… O assombrar-me, não aceitar o que ocorre, o não pode ser, é uma ilusão, outro de nossos jogos…

Admitir que aquela bela flor corre vertiginosamente pelos corredores da casa e que seu envolvente hálito fica martelando para sempre em minha memória…

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