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Revista de Cultura nº 4/5
 
Fortaleza/ São Paulo, novembro de 2000
 
FRANCISCO MATOS PAOLI: CANTO DA LOUCURA

Ivan Silén

Porque sou o poeta,
escárnio maior da palavra …

Francisco Matos Paoli

ag4paoli1.JPG (28647 bytes)Creio que um dos livros mais importantes de Matos Paoli é Canto de la locura (1962). Sempre defendi radicalmente este poemário diante de alguns poetas latino-americanos que se empenham cegamente em não reconhecer este grande texto da língua espanhola. Este poemário é a culminação e continuidade da geração dos metafísicos e a aparição imediata da promoção de Guajana (1963-1970). Recolhe a experiência da clausura (o cárcere, o manicômio) e seus versos dão testemunho desse rompimento político-esquizo do poeta Matos Paoli quando diz: Estou quase desprendido. Esse rompimento, essa ruptura, será uma constante através de todo o poemário. O imperativo categórico (Sei que devo ser santo) enfrentará a culpa que o poeta sente por momentos (Mesmo a consciência vacila no remorso). No entanto, por trás dessa culpa, por trás desses imperativos plurais (…há que enlouquecer), a loucura se abre como Deus, abre-se como vazio (Eu, mesmo que demente…) e como desconhecimento de si onde o poeta se lança, em forma tripartida, à experiência do eu político, do eu religioso e do sou.

Neste vazio de Deus que a loucura arrima há um desejo fundamental que abre o texto: quero conhecer-me. Há uma vontade de conhecer-se que continuará através de todo o texto. Esta necessidade se faz urgente, embora sem que tenha pressa, porque na experiência mística o poeta se torna ausência (Sei que agora não estou - agora estou perdido). Não está, porque o Oculto o invade e o transborda. A experiência do místico é tal que o poeta tem que suspender-se: Não estou, não estou, o Oculto me invade. Este não estou é uma forma lírica de gritar por ajuda, porém este só pode vir de Deus, ou vir do próprio rapto que o extravia. Mas há nesta loucura, apesar do vazio, apesar do não-ser, um saber que a própria loucura não pode ocultar, nem lhe pode arrebatar o poeta (Depois de tudo sei…). O poeta arrebatado, ido, internado, encarcerado, vai se enriquecendo de um saber oculto que a poesia lhe desvelará como beleza. Nesta relação com o-terrível, o poeta enfrentará o erótico de Deus que o seduz, que o fascina: Eu sei que o Inocente seduz. A santidade se arrasta através da própria experiência do escárnio. O poeta quisera viver de outra maneira, porém esta outra maneira lhe foi proibida. Então, a humanidade que há no poeta do inferno-cárcere e no do inferno-manicômio se queixa: Sei que sou o maldito… - Quisera viver sem ter que ser profeta. No entanto, o Cristo-gato que o segue, o Cristo-Deus que o guia, permite ao poeta a reconciliação consigo mesmo (Já estou reconciliado com o pó…) e lhe permite a possibilidade de ser outra coisa: eu sou um monje… minha vocação de sombra me desperta. Essa reconciliação, esse aceitar-se como o que à beira do abismo, na própria queda, lhe permitirá não somente a saída do cárcere, não somente a saída da loucura, mas também a saída de Deus.

Poderíamos desenvolver outros temas, poderíamos trazer outros versos, mas para este momento creio suficiente o que está dito aqui. Creio que a melhor homenagem que o leitor pode fazer a Matos Paoli, e ao uso que ele faz da língua, é submergir com ele nessa viagem da loucura e nessa viagem de o-Cristo que Canto de la locura arrasta. O resto é inútil. Matos Paoli está por nascer, latino-americana e universalmente. Oxalá não cheguemos tarde.

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CANTO DE LA LOCURA
(fragmentos)

Al principio Dios imita la retama. (Pero es dulzor.)
Nos hace ser tan dóciles
como los efluvios que van sin voluntad
a romperse en el hastío.
Después cuando entramos
en la casa grande com pupilas,
dios nos mece, nos mece aprisionados
sin saber qué es la paz com que cantamos.
Dios engaña a este mismo Luzbel
tan lúbrico de cielos falsos.
Lo lleva a la colina,
le enseña la columna del ruiseñor,
lo empuja hacia el abismo de las alas,
y de pronto nos hace el dolor
como criatura afortunada.
Pero el Dolor no es el Todo
porque tiene el orgullo más alto que la gloria,
porque construye nuestra sociedad com briznas
y como desafío azul a la Deidad.
Yo, aunque demente,
no me cojo miedo en la insolidario alondra,
me atrapo en el diáfano estertor de la tiniebla,
me fecundo a mí mismo
al saber que soy el otro rodeado de centellas.
Después de todo, sé que la inmensidad no existe,
que es una tórtola, una tórtula
sin nido en qué morir.
Lo que existe es la blanca posesión
de Dios en mí,
una fruta en el hueso que nos pide el Angel
cuando acabamos de matar
la árida faz de las Dominaciones.
Sin poder, sin aquí,
casto, perfecto,
lo mismo vuelo que quietud,
abyecto ya de luz
y rico de pobreza,
como el fiel que repudia
el gran ovario en que la luz divide
el Pensamiento Cero.
Sé que debo ser santo
porque la orilla tiembla
cuando paso del hoy al mañana
sin desprenderme de lo mío augusto:
el saco infatigable de la nada.
¿Pero de qué me vale la corrección,
ordenar, ordenar,
sonreír,
si de pronto el fiat de la Historia se subleva
para que no haya historia?
¿De qué me vale apretar la mano del vecino,
tan candorosa y fatal,
si de pronto el mar emblanquece,
pierde su impío azul,
y Dios empuja las olas hasta una raíz
de pájaro alelado?
Sé que debo ser santo,
no huir de la danza invitante,
no matar la esperanza,
no evitar al ladino
repleto de tiempo y tiempos.
Pero de pronto Dios nos dice:
no me hables de voluntad, de desidia libre,
ni de la serena antorcha de los ricos
que juegan com la sombra desvelada
hasta el desprecio mismo de los Muertos.

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CANTO DA LOUCURA
(fragmentos)

No princípio Deus imita a retama. (Mas é doçura.)
Nos faz ser tão dóceis
quanto os eflúvios que são sem vontade
rompidos no fastio.
Depois quando entramos
na casa grande com pupilas,
deus nos embala, nos embala aprisionados
sem saber o que é a paz com que cantamos.
Deus engana a este mesmo Lúcifer
tão lúbrico de céus falsos.
Leva-o à colina,
lhe mostra a coluna do rouxinol,
o empurra até o abismo das asas,
e de imediato nasce em nós a dor
como afortunada criatura.
Porém a Dor não é o Todo
porque possui o orgulho mais alto do que a glória,
porque constrói nossa sociedade com fiapos
e como desafio azul à Deidade.
Eu, mesmo que demente,
não me amedronto na insolidária cotovia,
me agarro no diáfano estertor da treva,
fecundo a mim mesmo
ao saber que sou o outro rodeado de centelhas.
Depois de tudo, sei que a imensidão não existe,
que é uma rola, uma rola
sem ninho onde morrer.
O que existe é a branca possessão
de Deus em mim,
uma fruta no osso que nos pede o Anjo
quando acabamos de matar
a árida face das Dominações.
Sem poder, sem aqui,
casto, perfeito,
tanto o vôo quanto a quietude,
abjeto já de luz
e rico de pobreza,
como o fiel que repudia
o grande ovário em que a luz divide
o Pensamento Zero.
Sei que devo ser santo
porque a margem treme
quando passo do hoje para o amanhã
sem desprender-me do meu augusto:
o saco infatigável do nada.
Mas de que me vale a correção,
ordenar, ordenar,
sorrir,
se logo o fiat da História é sublevado
para que não haja história?
De que me vale apertar a mão do vizinho,
tão cândida e fatal,
se logo o mar embranquece,
perde seu ímpio azul,
e Deus empurra as ondas até uma raiz
de pássaro aparvalhado?
Sei que devo ser santo,
não fugir da dança convidativa,
não matar a esperança,
não evitar o ladino
repleto de tempo e tempos.
Mas logo Deus nos diz:
não me fales de vontade, de desídia livre,
nem da serena tocha dos ricos
que brincam com a sombra desvelada
até obter o próprio desprezo dos Mortos.

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