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Revista de Cultura nº 4/5
 
Fortaleza/ São Paulo, novembro de 2000
 
O PATRÃO É O LEITOR: UMA CONVERSA COM JOSÉ NÊUMMANE PINTO

Lúcio Vilar

ag4neuman1.jpg (16426 bytes)Nascido em Uiraúna, terra que mais padres gerou no sertão paraibano, José Nêumanne Pinto escapou da batina enveredando pelo jornalismo através da porta da crítica de cinema, exercida no jornal Diário da Borborema, em Campina Grande, na década de 60. Na cidade, foi presidente do Cineclube Glauber Rocha e teve atuação em vários movimentos culturais ("poema processo", entre outros), exercitando sua outra paixão, a poesia, cuja atividade sempre conciliou satisfatoriamente com o jornalismo. De Campina Grande, seguiu para o Rio de Janeiro, onde assumiu funções burocráticas no Jornal do Brasil, mas só iniciou realmente sua trajetória na condição de jornalista no diário Folha de S. Paulo, em 1970. Depois passou pela sucursal do JB em São Paulo, integrando-se em seguida à equipe do jornal, no Rio, onde foi secretário de redação e chefe de reportagem. Em 1986, assumiu as editorias de política e opinião. Desde 1996, é chefe dos editorialistas do Jornal da Tarde e articulista do jornal O Estado de S. Paulo, além de ser comentarista da rádio Jovem Pan. Em entrevista para o Correio da Paraíba, José Nêumanne falou do livro Solos do silêncio e do CD As fugas do sol, que reúnem parte de sua produção poética, do movimento cultural na Paraíba, do exercício da cidadania, sobre as controversas e perigosas relações entre imprensa e poder no Brasil, tratadas no livro recém-lançado, Notícias do Planalto, onde foi citado em cinco passagens. (L. V.)
 
 

Seu livro Solos do silêncio foi transmutado, via multimídia, para CD. Qual é o significado dessa experiência?

Vamos logo esclarecer uma coisa. O CD As fugas do sol nada tem a ver com Solos do silêncio. É claro que nele a maior parte dos poemas lidos foi extraída do livro, mas, além de eu nunca haver podido ler todos os poemas, que não caberiam, em todos os sentidos da palavra, há no CD poemas que não estão no livro, sendo até mesmo inéditos.

Você me faz uma pergunta muito abrangente e isso me força a abusar um pouco de sua paciência e, sobretudo, da paciência de seu leitor. Então, peço vênia para me estender mais do que deveria.

Atribuo ao parceiro Marcus Vinicius mais mérito pelo CD do que a mim mesmo. Primeiramente, nunca pensei que minha poesia pudesse ser lida, pois sempre imaginei que meu, digamos, projeto poético fosse exclusivamente visual. Em segundo lugar, a atriz Tereza Rachel, de quem gosto muito, que tem uma voz maravilhosa, diz muito bem poemas e era casada à época com um amigo do peito, o cineasta Ipojuca Pontes, que, entre outras virtudes, nasceu em Campina Grande, dissera-me certa vez que leio mal meus poemas, prontificando-se até para gravá-los ela mesma.

O maestro Marcus Vinicius de Andrade – em cuja casa em Tambiá travei o primeiro contato com a poesia de vanguarda brasileira, a cultura paraibana e o tropicalismo, até hoje cultuado por nosso comum amigo Carlos Aranha – convenceu-me de que havia sonoridade na poesia e que ela poderia ser traduzida por minha própria voz, fazendo uns testes em seu estúdio. Ele, portanto, planejou o CD (dentro da coleção Poesia Viva, do selo CPC-Umes, que estreou com Caravana contrária, de Mário Chamie), testou-me, provou-me de que eu seria capaz e dirigiu a gravação da leitura dos 30 poemas que escolhi para ler. Depois, interveio musicalmente de uma forma muito mais do que satisfatória.

Do ponto de vista pessoal, a experiência do CD gratificou-me, por me mostrar a força da herança sonora da poesia popular nordestina em minha produção poética e minha própria capacidade de transmiti-la com a voz.

Do ponto de vista geral, eu lembro a você que As fugas do sol se insere num panorama em que a poesia tem buscado – e encontrado – novas molduras, novas linguagens, novas formas de comunicação – conforme percebeu a venerável e ligadíssima mestra Nelly Novaes Coelho, titular de literatura na USP.

Temendo parecer cabotino, eu lhe diria que sinto-o como o melhor que fiz, em forma dita ou fôrma impressa.
 
 

O sr. acompanha o movimento literário e/ou cultural da Paraíba? Poderia citar algum nome ou evento que tem lhe chamado a atenção?

Da diáspora paraibana tenho acompanhado desde o início a magnífica contribuição que os contemporâneos Zé e Elba Ramalho e o delfim Chico César têm dado a nosso cancioneiro nacional e à cultura paraibana em particular. Sou admirador e devedor da obra poética de Sérgio de Castro Pinto e Marcos Tavares, aos quais devo algumas das qualidades de minha própria poesia, embora não pense comprometê-los com os eventuais defeitos dela. Apesar de morarem em Olinda (assim como o magnífico poeta paraibano José Chagas, que vive e escreve em São Luís do Maranhão), João Câmara e Raul Córdula Filho podem ser citados, ao lado de Antônio Dias, que mora em Berlim, mas nasceu em Campina Grande, naturalmente, como grandes nomes das artes plásticas globais. Hildeberto Barbosa Filho mantém na imprensa paraibana as tradições inauguradas por um crítico do porte de Virginius da Gama e Melo. Infelizmente, o cinema paraibano parou em Aruanda, obra-prima seminal de um ciclo que terminou em Fogo morto. Mas em Recife Ariano Suassuna (para desespero de Carlos Aranha) produz a melhor literatura brasileira, gerada no pastoreio dos bodes na serra de Taperoá. De sua atuação de agitador cultural foi parido o melhor artista popular brasileiro, Antônio Carlos Nóbrega, o Chaplin brasileiro, que, por sinal, foi spalla de uma orquestra aqui na Paraíba.
 
 

ag4neuman2.JPG (53012 bytes)O caso Collor-Gate e outros igualmente emblemáticos exemplos de exercício de cidadania que marcaram a década de 90, são suficientes para afirmar que o Brasil amadureceu politicamente?

Não diria suficientes, mas que ajudaram, ah ajudaram. Mais emblemático do que o Collor-gate (nada que ver com a pasta de dentes) eu diria ter sido o fato de 1999 haver iniciado com o assassino serial Hildebrando Paschoal sendo poupado sigilosamente por seus colegas da Mesa da Câmara dos Deputados e ter finado com o dito cujo atrás das grades. Esse, sim, foi um tremendo avanço da cidadania. E saúdo de público o presidente Fernando Henrique (para desesperar ainda mais Carlos Aranha) por ter encerrado o ciclo militar na República brasileira, enterrando, sem choro nem vela, a carreira do brigadeiro Walter Bräuer, que, envergando seu pijama engomado, acaba de expor suas tendências nazistas nas páginas amarelas da Veja. Páginas amarelas, aliás, como amarela era a cor das Diretas-Já. Lembra-se? 
 
 

O fato de ter sido citado no livro Notícias do Planalto – onde se narra os bastidores do Governo Collor e suas relações nem sempre ortodoxas com profissionais e órgãos de imprensa no Brasil , lhe trouxe algum incômodo?

Não. Por que me traria? Sou citado cinco vezes no livro. Todas as citações são verdadeiras, apesar de nem sempre exatas ou completas. E meu comportamento não pode ser questionado em nenhuma delas. Até porque não teria como mesmo. Quanto ao livro, só li a parte que me toca. E, como sou personagem (mas nunca protagonista, graças a Deus), eximo-me de comentá-lo, como já o fiz antes, negando-me a participar de entrevistas do autor para o "N de Notícia" da Globonews e a BBD de Londres.
 
 

É possível ter relações com o poder e manter um mínimo de isenção?

Escrevi um ensaio sobre o maior desafio de um repórter político: ser íntimo da fonte o suficiente para lhe arrancar informações e dela distante o bastante para não ser pressionado a omitir quaisquer notícias que a desabonem. Mantenho o que escrevi. Aí está o busilis da profissão – mais do que ético, o problema é de postura profissional propriamente dito. O patrão do jornalista não é a fonte nem o dono do jornal, mas, sim, o leitor.
 
 

ag4neuman3.JPG (67502 bytes)O sr, acha que as relações entre imprensa e poder no Brasil estão fadadas a serem sempre incestuosas do ponto de vista político?

Acho que não são mais tão incestuosas como já o foram. E cada vez mais o leitor punirá o incesto com a indiferença, o que será fatal para o jornalista e o jornalismo, como atividade política ou negocial. Essa indiferença terá fatais resultados contábeis nas tiragens, no caso da imprensa, e nos índices de audiência, no dos meios eletrônicos de comunicação de massa.
 
 

O docente uspiano e jornalista Carlos Eduardo Lins (Folha de S. Paulo), diz que o jornalista brasileiro é "educado demais", diferente do norte-americano que não hesita em fazer as perguntas mais constrangedoras para o presidente da República, por exemplo. O que o sr. pensa a esse respeito?

Gosto muito do Carlos e ele tem toda razão quanto a isso. Talvez o que mais contribui muito para esse nosso defeito seja o diabo do espírito latino, mais pessoal e passional, em relação ao anglo-saxônico, mais impessoal e profissional (até porque mais frio). A solução talvez esteja na irreverência, de mãos dadas com a independência. Os piores defeitos de um profissional de comunicação são a reverência e a dependência. O cristão não pode ter dois senhores. O jornalista, cristão ou não, senhor nenhum.
 
 

O sr. concorda com a crítica que percebe na mídia impressa uma tendência para para "virar supermercado", vendendo de panelas a livros, discos e fitas de vídeo?

Fiz uma palestra para promotores no Rio sobre o salto de vendas da Folha de S. Paulo, que lançou a moda do jornal como envelope de marketing no Brasil, encartando um Atlas do New York Times. Não costumo ser bom profeta, mas daquela vez parece que acertei quando disse que a moda ia passar por falta de produto a ser encartado e os jornais voltariam às tiragens normais de antes desses encartes. Hoje a moda arrefeceu um pouco e daqui a pouco os jornais poderão voltar a ser, não como eram antes, mas mais parecidos com o que foram. Só temo que a trincheira política, do tipo "Combat", de Pascal Pia e Albert Camus, na época da resistência francesa à invasão nazista não tenha mais razão de ser. No mercado globalizado, a indústria da comunicação tende a confirmar a denominação: ser indústria mesmo.

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