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Revista de Cultura nº 4/5
 
Fortaleza/ São Paulo, novembro de 2000
 
SÉRGIO CAMPOS: A FORTUNA E OS RUMORES DA CRÍTICA

Leontino Filho

ag4leontino1.JPG (32034 bytes)O texto que se publica a seguir é parte de um laborioso estudo da obra de Sérgio Campos (1941-1994) escrito por Leontino Filho, originalmente com o propósito de constituir-se como tese acadêmica. O largo volume, intitulado Sob o signo de Lumiar (1997), posteriormente adaptado para uma linguagem ensaística, no entanto permanece inédito, o que se lamenta duplamente, tanto pelo valor intrínseco do estudo em si, quanto pelo fato de ser a única luz crítica lançada sobre a obra de um grande poeta brasileiro, morto prematuramente e hoje relegado a um injusto esquecimento, até mesmo pelos próprios poetas. (F. M.)
 
 

No espaço de dez anos, Sérgio Campos publicou exatamente doze obras. Sua estréia em livro individual aconteceu, em 1984, com A casa dos elementos, composto por seis odes (ao mar, à terra, ao fogo, ao ar, aos quatro ventos elementares e aos quatro pássaros elementares) e um soneto ao Pássaro Anael. Uma estréia, certamente tardia, o poeta nascido no Rio de Janeiro em 1941, estava com 43 anos.

Quando cursava a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, o autor integrou o chamado Grupo dos Novíssimos da poesia paulista, reunidos em torno de Massao Ohno, participando de antologias ao lado de nomes como os de Carlos Felipe Moisés, Eduardo Alves da Costa, Álvaro Alves de Farias, Lindolf Bell, Renata Pallottini, Roberto Piva, entre outros. Nesse intervalo de quase vinte anos sem publicar, Sérgio Campos dedicou-se às suas atividades profissionais. Por um bom tempo foi Defensor Público, cargo, que, de certa forma, deixaria alguns traços em sua maneira de enxergar a vida e de lutar para abrandar as injustiças sociais. 

A paixão pela poesia e, também, pela música, passou a ser cultivada no silêncio das horas, no permanente encontro com o demônio dos versos, que chega sorrateiramente e não deixa escapatória para aqueles que almejam um destino poético para as suas vidas.

Em 1985, juntamente com o artista plástico Mario Wagner, editou o livro Bichos, álbum artesanal onde as preocupações com a ideação do poema e a concepção gráfica do trabalho apontavam para uma nova ordem de operacionalizar a temática do fabulário, que passaria a fazer parte de outros livros. Posteriormente, haveria de recordar sua infância e adolescência, passadas em Juiz de Fora, no livro Ciclo amatório, o seu mais memorialístico relato poético. Nele encontramos os primeiros e definitivos sinais da estratégia do pardal, na série juizdeforânea, onde se pode ler A morte do Caixeiro Viajante – o pai que vive o seu eterno retorno (um Odisseu caseiro, se isto é possível), e uma Penélope que enviuva e engravida-se de solidão.

Ciclo amatório foi saudado pelo escritor e crítico Antônio Carlos Villaça, como uma obra pungente, reflexo de um poeta ontológico que revela o tom sofrido e apaixonado daqueles que se debruçam sobre suas próprias vivências. Acompanhando os muitos traços autobiográficos do patético ciclo, diz: "Sérgio Campos, montanhês e musical, é um grande poeta de nossa língua. Um poeta essencial. Um poeta ontológico. E já agora antológico. Este livro do Ciclo Amatório, sofrido e redentor, o situa no primeiro plano da poesia brasileira. A paixão da música o salvou de si mesmo. A paixão da música o salvará, em definitivo. […] é um poeta filosófico, mítico, místico, assim como Blake, Merton, Jorge de Lima com quem se parece."

Fechando esta primeira fase do autor, temos Montanhecer (1987), um exercício lúdico de tudo: as conhecenças da palavra, o poeta-texto apanhado pela rede sígnica do poema; as conhecenças da música, o poeta-som; as conhecenças do vinho, o poeta-fruto celebrando seus prazeres e as conhecenças da montanha, o poeta-chão, lugar onde nasce o poeta da desinvenção: a sombra silenciosa fincando espinhos, raízes no corpo da terra.

ag4leontino2.JPG (67342 bytes)Estas quatro obras formam a primeira etapa da poesia de Sérgio Campos, um período em que nos deparamos com uma visão mais nostálgica (desejada) do ato de rememorar e em que a celebração da poesia assume uma perspectiva de criação, voltada para um universo idealizado em suas fronteiras tênues. A aventura dessa fase revela uma intencionalidade crítico-criativa que denominamos como condição de pluralidade para os outros traçados do futuro. As peculiaridades do tom (mais saudosista, lento e enternecido), a opção por uma linguagem mais voltada para a tradição, dentro de um discurso poético mais celebratório (versos mais longos, presença de certa preferência pela técnica do soneto, sobretudo) e uma percepção do mundo afetada pela carga lírica coincidem com a problematicidade do sujeito diante dos seus dilemas. É plausível chamarmos de Poética da deslembrança esta etapa. 

Em 1990, Sérgio Campos adentrou no mundo manual. Cria as edições com este nome e começa uma caminhada de divulgação poética que inclui a sua obra e a de outros escritores brasileiros. Ao longo de quase cinco anos de existência da Mundo Manual Edições, vieram a lume quinze livros (basicamente títulos seus, de Floriano Martins e Francisco Carvalho), todos em edições bem cuidadas, caprichosamente trabalhadas, com o esmero que a poesia merece.

O próprio Sérgio Campos afirma: "a edição de um livro é, para nós, matéria de estética. Entendemos que o livro tem alma, é um ser vivo, respira, sente a experiência táctil do contacto com seu leitor." A preocupação técnico-estética com a edição do livro volta-se, em toda sua amplitude, para a confecção de uma Poética Camaleônica, presente na objetividade das imagens, nos isomorfismos lingüísticos, no corte abrupto dos temas e no recurso da montagem, uma verdadeira escritura de tatu.

A Trilogia de lumiar assenta-se no misto de rigor e de ludismo, na especulação metafísica, na tematização de uma cultura poética marcada pela confluência de linguagens. A trilogia é um divisor de águas na obra camposiana: águas que vão e voltam sempre diferentes – o rio heraclitiano com o seu movimento contínuo, atravessando as coisas, processamento dos contrários, permanente diálogo com o tempo.

A Poética camaleônica visa desorientar o observador. Camufla as origens labirínticas das perdas. Os fios que tecem a trama dos poemas são fabricados com o desembaraço dos bichos e dos frutos (princípio lúdico e experimental da construção com a palavra). Com a fragilidade dos mitos nos dias de hoje, a exasperação mítica em Sérgio Campos é interpenetrada por leituras-traduções (traições) de realidades mutantes e com a devoração das palavras pelo lobo e pelo pastor ao mesmo tempo. Pois, "entendemos apenas que a palavra está viva e goza saúde, senão boa, apta a colocá-la fora de perigo, e que a poesia é a arte da palavra, que a palavra é o ser da poesia."

O mundo em Nativa idade, O lobo e o pastor e As iras do dia – todos publicados em 1990 –, sob o signo do imaginário, projeta reciclagens e recriações do outro, como forma de apropriação das vivências do poeta e do(s) seu(s) duplo(s). A história da vida desenrola-se num "fora de mim" (o exterior) e num "dentro de mim" (o interior), passos de uma linguagem de descoberta.

A poesia é aprendizagem. O narrador investe-se da figura do menino experimental que reatualiza sua população de bichos e de frutos. A escrita alegra-se com seus brinquedos. As infidelidades à lírica tradicional, nessas experiências ditas infantis, propiciam o tratamento do tecido fossilizado de que as matérias oníricas e fabulares do poeta são nascentes. A poesia torna-se domicílio, onde a paixão pelos seres do fabulário infantil faz-se presente no dia-a-dia. Percebe-se, pois, uma saída da Idade da Razão para a Idade do Infante, esta última com todas as suas abstrações, sutilezas e alegrias da escritura e a primeira com a sua forte carga de seriedade, elogios à secura do próprio verbo.

ag4leontino3.JPG (40689 bytes)Domar as palavras é ter consciência de lobo e pastor ao mesmo tempo. A sensação de estranhamento, à maneira de seres mutantes, define a problemática da pessoa em permanente confronto com a originalidade, falso mecanismo do homem preso nas malhas do passado. As arcaicas clausuras da memória são refeitas com a procura de uma voz poética que sente o gozo expressivo de silenciar frente à mesmice. Diante das armadilhas intertextuais, o poeta-lobo circula por entre a plasticidade de sua fome. O poeta-pastor, com sua obra em espiral, constrói sua casa com uma tapeçaria esgarçada de mito e rito – ruptura dos dias idênticos. Lobo e pastor comungando na mesma missa pagã, que se transformou em ritual sagrado do mundo posterior ao greco-latino, pré-lógico e mítico.

Em As iras do dia, mito e modernidade se entrelaçam em definitivo. O imaginário assume, dentro das três dimensões da solidão – o continente, a ilha e o exílio –, sua perfeita tradução no anti-herói (o anti-Odisseu) autodefinindo sua anti-saga. O auto-retrato de Sérgio Campos permanece na área fronteiriça da poesia: a referencialidade clara das coisas e o ludismo verbal, como expressões das rasuras e correções do dizer enviesado.

O requinte com as palavras e o imaginário, em As iras do dia, relativiza a fase do imitatio, numa recomposição da tradição moderna. Logo, o poeta revisita as experiências vitais-literárias em brevíssimas homenagens a Donne, Perse, Rilke, Hölderlin, San Juan de la Cruz, Dante, Homero, José Kozer, Javier Sologuren, Drummond, Bilac, Lúcio Cardoso, Dantas Mota, só para citarmos alguns. Há pequenas homenagens, apropriação de versos inteiros – furtos –, o que instaura uma dialogia poética, nos moldes de Borges. Como percepção da voz que tenta, a todo momento, escapar dos espectros recém-paridos pelas ondulações estéticas (a rigorosa técnica dos mestres), que alteram a sublimidade de um patrimônio de exaustas experiências: no inventário de ruínas, a única originalidade é o pergaminho rasurado da própria origem.

Nas relações imagísticas da Trilogia de lumiar, observamos algumas semelhanças e diferenças entre a Poética camaleônica de Sérgio Campos e a ardilosa poesia do peruano Javier Sologuren, que, de casa pronta e arrumada, manifesta uma preocupação mítica com o cotidiano. Os dois autores formulam um programa de aproximação com os aspectos objetivos e subjetivos do mito, já que tais características interpenetram-se e complementam-se nas suas tematizações criativas. Não há exclusividade dos atos de pensar, de imaginar e de representar o mundo. Os fragmentos dos textos interessam pela sua capacidade de simular supostas verdades que variam de acordo com os campos das experiências individuais, de tal modo, que as excessivas intimidades são descartadas. A apreensão do movimento das coisas fornece, portanto, uma visão conjunta do universo.

É propósito nosso enxergar, na aproximação Sérgio Campos/Javier Sologuren, o movimento significante de uma poesia contemporânea preocupada com a intensificação do poder imaginário da palavra. Entendemos que o tratamento poético da palavra propicia o desnudamento de uma realidade mais imediata. E que a verdade da poesia é, para nós, uma ilusão da realidade, realidade esta que só poderá ser concretizada por meio dos signos lingüísticos-poetizados.

Para o grande poeta, a realidade é, paradoxalmente, uma utopia, uma meta a ser perseguida com ardor e labor, seu êxito está justamente em jamais alcançar êxito, apenas avizinhar-se do meramente utópico. Acertadamente, Steiner afirma: "Um grande poeta é aquele em torno de cujo uso de qualquer palavra isolada se reúne um conjunto magnético de ressonâncias, de implicações e sugestões." 

A Trilogia de lumiar revela o poeta definido por Steiner. Sérgio Campos como leitor da realidade, conjuga o seu imaginário poético-verbal aos fundamentos da casa em construção, "idêntica morada" percorrida detalhadamente por Gaston Bachelard em A poética do espaço.

ag4leontino4.JPG (45054 bytes)Para arrematar esta descrição didática das fases da obra camposiana, nos reportamos, agora, à terceira e última etapa do seu percurso; trata-se dos livros Mobiles de sal (1991), A cúpula e o rumor (1992) e Leitura de cinzas (1993), que denominamos de Poética das confessas afinidades: com o processo de criação, os exercícios da arte circular, as ilhas da casa, a encantação dos fios, os mobiles de sal, as máscaras e os elos, as ruínas horizontais, o missal de chuvas e a própria leitura de cinzas com a sua magicomédia (a recorrência aos bichos – elo que liga as três fases) e as mortes difíceis.

Em 1994, ano de sua morte, o poeta publicaria seu último trabalho, intitulado Mar anterior: poesia selecionada e revista, um verdadeiro testamento poético de um autor preocupado com os caminhos da palavra na sociedade contemporânea. Os mares definitivos encontram-se nesta sua constante autocrítica e no processo metalingüístico. Ensimesmado feito caracol, ele abre outros mananciais para traduzir/trair o duro ofício, que é deixar-se impregnar pela emoção de poder entender e revelar um pouco do vasto imaginário do nosso mundo manual

Aqui, atingimos o ponto crucial dessa produção, com a Trilogia de lumiar, analisada no seu processo construtivo. Apreende-se o funcionamento da relação entre poesia de expressão (sempre mais retórica) e poesia de construção (mais contida, por sua vez, anti-retórica). Veremos que o escritor carioca consegue formular uma lírica de contenção, assumindo os riscos de alguns transbordamentos de conteúdo, o que é próprio daqueles que não hesitam em palmilhar os (des)compassos da arte. O poeta, na sua ânsia de trabalho, no seu afã criativo e com a sua lucidez, experimenta filiar-se à uma tradição que vinculou-se à palavra, à invenção/construção de um mundo novo, nascido das mínimas vivências. Tal vertente possibilita-nos falar do poeta-inventor, aquele que não desperdiça linguagem: Sérgio Campos.

Com todo este material disponível, circulando pelo viés de uma lírica plural, com as suas escaramuças (misto de pasmo e devoção) e as suas metáforas marítimas e domiciliares, a crítica passa a gestar suas imagens num exercício de garimpagem, em que o importante é captar as estratégias de tempo, de memória, de bichos, de frutos e de gente na feitura dos textos nascentes.

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