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Revista de Cultura nº 4/5
 
Fortaleza/ São Paulo, novembro de 2000
 
LAURO MAIA: O ACENDEDOR DE LAMPIÕES

Calé Alencar

ag4lauro1.JPG (20350 bytes)Este breve depoimento de Calé Alencar acerca do compositor Lauro Maia (1913-1950) foi originalmente inserido na 3ª edição (revista e ampliada) de O balanceio de Lauro Maia, do musicólogo Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez), um projeto editorial da Equatorial Produções (Fortaleza), que incluía ainda a gravação de um CD com músicas de Lauro Maia interpretada por vários artistas (Raimundo Fagner, Ednardo, Evaldo Gouveia, Lúcio Ricardo, Vocalistas Tropicais, 4 Ases & 1 Curinga e o próprio Calé Alencar), configurando-se em duplo e importante registro da obra deste compositor. As imagens aqui reproduzidas foram gentilmente cedidas pelo acervo da Equatorial Produções. (F.M.)
 
 

Lauro Maia não foi um multimídia, jamais soube o significado real da Internet nem descobriu a era da informática passeando na ponta dos dedos pelas infovias. Mas é universal e eterno. Sua música nos contempla e nos conforta do alto de sua compreensão de ser um criador de pérolas musicais, um universalista olhando o mundo e a música feita no mundo a partir de seu/nosso quintal.

O trem blim blão/ blim blão/ vai saindo da estação/ e eu deixo o meu coração/ com pouco mais/ com pouco mais/ com pouco mais/ lá na gare o meu bem/ acenando com o lenço/ bandeira da saudade/ muito além.

A imensa criatividade espelhada na obra musical de Lauro Maia tem berço. Sua morenice cachaça-com-refresco tem berço. O Barão de Camocim, que construiu e nos presenteou o Palacete Guarany, era tio-avô do Lauro. O gosto de Lauro Maia pela música veio do berço, embalado pelos acalantos e pela sonoridade do piano de dona Laura, sua mãe, nas aulas de piano do Boulevard Visconde de Cauype com o garoto Lauro arredio e indisciplinado, como de resto seria por toda a vida. Depois vieram as aulas com Elvira Pinho.

Quando estou cansado/ eu invoco uma cachaça/ e vou curti-la/ nos bancos da praça.

Em pouco tempo o menino Lauro, ainda de calças curtas, estaria tocando piano no Cine Majestic. Foi também ao piano que ele teve registrada, em acetato, sua interpretação para o choro Saudades do Cariri, gravação realizada nos estúdios da rádio PRE-9 com acompanhamento de orquestra e participação especial de Zé Menezes, também autor da música, conhecido no meio artístico da época como Zé Cavaquinho e ainda hoje encantando platéias do mundo com sua genial musicalidade. O acetato pertence hoje em dia ao Arquivo Nirez e foi reproduzido no disco Lauro Maia-80 Anos, lançado em 1993 para comemorar os 80 anos de nascimento do compositor Lauro Maia Teles.

Eu já cheguei/ vim trazer o samba que eu fiz/ para apresentar/ ao sambista que veio do morro/ e que tem valor/ receber a medalha de ouro/ e depois voltar.

ag4lauro2.JPG (10206 bytes)Craque da bola musical, o Laurão, assim chamado pelos amigos mais íntimos, dedicou-se a estudar flauta e acordeon. Hoje se sabe que andou matando o tempo com estudos de piston no pequeno quarto de pensão da Avenida Pasteur, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, onde morou com a mulher Djanira e os meninos Elvira e Lauro Filho. Mas foi tocando acordeon que Lauro Maia integrou a orquestra do Maestro Euclides Silva Novo ainda na PRE-9, onde ocupou o cargo de diretor-artístico.

Você tem uns olhos que falam de amor/ de um amor que não tem par/ e você tem no olhar/ um quê de pedir/ um quê de matar.

Ainda em Fortaleza, Lauro Maia ocupou cargos públicos, conseguidos através de concurso, e passou pelos bancos do Liceu e da Faculdade de Direito. Para a festa de formatura de sua turma compôs a Valsa do Ruby, mas não compareceu ao evento provavelmente por ter esquecido da hora tomando umas e outras com alguns colegas de batente etílico e o compromisso de doutor advogado ficaria mesmo para depois.

Bati na porta que cansei/ chamei/ chamei/ chamei/ e ela não me atendeu/ mas que mulher/ sabendo que era eu/ nem respondeu.

As historinhas sobre Lauro Maia vão chegando sem muito esforço. Tem o livro do Nirez, O Balanceio de Lauro Maia, e as pessoas, conhecedoras do meu interesse por este nosso notável compositor e pelo imenso respeito que tenho por sua música, me revelam coisas e causos, memórias, fatos e histórias do tempo em que era super normal um artista ser endeusado, respeitado por seu talento e querido por todos, ídolo em sua própria terra, ter o seu nome em escola de samba e quando botar um piano em cima de um caminhão só pra fazer uma serenata não era assim uma grande ousadia mas sim uma farra bem resolvida e naturalmente alegre e só acabada na manhã do dia seguinte. É coisa de cinema.

Sambei num samba dos bons/ sambei até o sol raiar/ sambei/ não me sinto cansado/ sambei um bocado/ sambei de rachar.

ag4lauro3.JPG (42593 bytes)Dia de sol meio parecido com o sol de Fortaleza e eu andando pelas ruas do Rio e fascinado com a idéia de descobrir coisas novas e novas músicas e documentos de Lauro Maia nos arquivos do Museu da Imagem e do Som. Existem registros dos elogios feitos à música de Lauro Maia por Villa-Lobos e Tom Jobim e também de uma certa inveja que o poeta Manuel Bandeira nutria por não ter ele mesmo escrito os versos onde Lauro Maia compara o lenço com a bandeira da saudade (escutem o Trem de Ferro).

Na entrada do MIS, numa caixa de vidro, está a clarineta de Abel Ferreira. Pode ser deste instrumento o som que se escuta na gravação do Samba de Roça, de Lauro Maia e Humberto Teixeira, magistralmente interpretado por Orlando Silva em gravação de 1943.

Durante o tempo em que esperava os funcionários do MIS voltarem do almoço deu para sentir como é tratada a memória dos nossos artistas. Neste museu que conheço agora está um respeitável acervo da cultura musical brasileira em condições de precariedade absoluta. A senhora do arquivo é muito gentil e a pasta com recortes, cartas, documentos e letras de músicas, nunca solicitada, está pela primeira vez fora das gavetas. Lauro Maia Teles, nascido aos seis dias de novembro de mil novecentos e treze, em Fortaleza, e falecido no dia cinco de janeiro de mil novecentos e cinqüenta na cidade do Rio de Janeiro, vítima de tuberculose. Tinha 36 anos e o amor da gente de sua terra.

Não se meta em arruaça/ que o resultado é apanhar/ na nossa roda não tem um caboclo/ que deixe a peteca cair.

Em seus papéis a gente percebe o método empregado nas composições, quase todas com anotações de sons onomatopáicos, entradas de instrumentos, apitos, vozes de solistas e coro, manuscritos, escalas musicais, que ele era também um grande arranjador. Escutem Terra da Luz, composição de Humberto Teixeira, onde Lauro Maia criou o arranjo e dirigiu a orquestra para a gravação do cantor Déo e o Coro dos Apiacás. Além de ser uma das primeiras oportunidades de trabalho que o Lauro teve no Rio auxiliado pelo cunhado Humberto, é um trabalho primoroso, revelador de seus amplos conhecimentos musicais.

ag4lauro4.JPG (37091 bytes)Uma grande surpresa no meio da papelada é o tratado sobre a cura da tuberculose, escrito a lápis em papel almaço, caligrafia firme e precisa, não demonstra nenhuma revolta por sua condição de paciente terminal, ao contrário, atira na direção da possibilidade de cura.

A linda serrana/ foi o meu primeiro amor/ foi ela quem me conquistou/ foi quem primeiro me beijou/ e quando eu comecei a querer bem/ a linda serrana me abandonou.

Lauro andou por uns tempos pesquisando e fazendo anotações sobre a música folclórica do Cariri e de outras cidades do interior cearense, escutando de tudo e somando ao seu talento urbano e jazzístico as coisas da preta Maria Catolé, do Crato, e os ritmos e tradições vindas lá do fundo da alma da gente do Ceará. É interessante observar que ao mesmo tempo em que compunha sambas de harmonias pré-bossanovistas de fazer inveja a Noel Rosa e Assis Valente, Lauro Maia mostrou ao Brasil os ritmos extraídos da base folclórica e popular e principalmente, sob a direção de Paurillo Barroso, tornou o balanceio um ritmo consagrado em apresentações dos Vocalistas Tropicais e corpo de baile em memoráveis noites no Cassino Atlântico, onde Lauro Maia também fazia apresentações ao piano.

Ô balancê/ balançá/ balança pra lá e pra cá/ eu vou até de manhã/ só nesse balanceá.

Lauro divulgou ainda os ritmos miudinho, ligeira, batuque-catolé, samba-batucada, remelexo, tudo isso com um jeitinho bem cearense de fazer música brasileira da melhor qualidade.

Roda o vento e roda a lua/ roda a terra e roda o mar/ a orquestra agora roda/ pra você rodopiar.

A música é o maior alento para o gênio inventivo e generoso. Quem como eu pôs os olhos no prédio da Fênix Caixeiral percebe a beleza de uma Fortaleza agora sobrevivente apenas em fotografias vez por outra publicadas nos jornais da cidade equatorial abençoada pelo mar verde-luz e por Nossa Senhora da Assunção, o nome português do Forte Schoonenborch fundado em 1649 por Matias Beck às margens do Marajaig, o riacho Pajeú. Quem viveu como Lauro Maia em Fortaleza, a partir da segunda década do século vinte, iluminada a gás carbônico e popularizando a figura do acendedor de lampiões, só podia criar, a partir deste cenário, uma obra de peso e medida, legado de seu talento à história da Música Popular Brasileira, como é e será sempre a que se escuta/ vê/ degusta/ cheira/ apalpa no convívio com a sua música.

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