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Revista de Cultura nº 4/5
 
Fortaleza/ São Paulo, novembro de 2000
 
A POESIA DE JORGE LÚCIO DE CAMPOS



ag4jorge1.JPG (15053 bytes)Jorge Lúcio de Campos é um professor e especialista em estética, em design e artes visuais, que começou a publicar poesia em 1990. Seus livros mais recentes são Belveder (Diadorim, 1994), A dor da linguagem (Sette Letras, 1996), e À maneira negra (Sette Letras, 1997). Estranho ainda não terem saído nessa profusão recente de antologias os seus poemas eruditos, feitos de imagens que sugerem mistérios, promovendo um encontro harmônico de vozes, dicções e referências literárias. Alterna textos curtos e precisos com outros em prosa, quase narrativas, com algo de borgeano e surrealista ao mesmo tempo. Cita inumeráveis artistas plásticos, em seus títulos e dedicatórias, mas não os descreve ou comenta; antes, procura transpor o signo visual para a linguagem, em uma tradução do intraduzível. Ativo na rede eletrônica, tem sua própria página, que atende pelo nome de http://come.to/jorgelucio. (C. W.)
 
 

A CABEÇA FELIZ

Cortaram-na, mas o corpo, que ainda não sabe, continua a se agitar como uma máquina quente. As mãos tremulam e apalpam como se pudessem digitar o vazio. A medula espuma. Os nervos disparam raios. Os músculos se contraem, tentando fazer algo. As pernas galopam. O coração fumega, esbaforido.

Tudo não passa de um esforço ingrato e inútil que, em alguns poucos minutos, já não fará sentido. O conjunto logo desistirá e o que era antes uma usina de vida virará uma peça de açougue exposta ao vento, às moscas, ao inevitável apodrecimento.

Feliz só mesmo ela que, cuidadosamente recolhida num saco plástico (um mais que providencial espaço térmico) já não pensará, já não sofrerá, já não esquentará a própria cabeça.
 
 

TRÊS MUNDOS

A Maurits Cornelis Escher

1
Um velho
sol avança

o quase-céu
de uma sentença

em minha
boca

2
É de supor
sentada 

a tarde
estilhaçada

que o
encobre

3
Não que 
vivo esteja

o bastante
pra correr

suave e
antever 

a aurora
de fumaça -

o infinito
que o des-

basta
 
 

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MIRAGEM

Não vejo como prever
a pele despida, funâmbula

com detalhes de âncoras
e arpejos de sol

Embora seja estranho
o riso triste, pousado

nos lábios - o olhar
distante, bifurcado

encharcado
de mar
 
 

PINTURA PARA JOVENS

A Max Ernst

O que vejo no quadrado da janela é
só vontade, muito louca, de sentir vontade;
um grão de areia em sua essência de colar na perna
e moldar o corpo, é claro, quando assim se quer; 
cinérea placa que rutila e alucina toda vez
que vê o sol

Mas, no fundo, o que reflui é o que bem 
conta e, vez por outra, rumo ao nácar
preservado sempre gira e ri da morte de quem
olha no quadrado da janela, com vontade, muito louca
de sentir

que cães e gatos enredados como artrite,
agulhados, se despejam no vazio; e cada um -
ali em frente - a rigor já nem existe e alucina toda vez
que vem o sol.

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A CRUELDADE PATERNA 

A David Salle

Observando daqui o nado ágil de minha filha, já quase não comporto tanto orgulho. Olhos atentos, acompanho a trajetória de espuma que as braçadas desenham na superfície aquática. Aos poucos me convenço de que, de fato, nada pode ser mais belo. Fora isso, tudo parece banal e o nível de hipocrisia diminui numa situação como esta: um pai - sentado em seu banquinho à beira da piscina - interrompe o bate-papo e se dá conta de que a filha nadadora está bem à frente, com seu jeito cetáceo, num jogo de imersões e empuxos que só as boas águas propiciam.

Não devo reclamar quando os presentes tecem, boquiabertos, rasgados elogios. Afinal, afora a técnica impecável, o desempenho da menina, por si só, impressiona. Sua habilidade em chegar ao fundo, tocar os últimos ladrilhos e lá permanecer durante horas sem que isso a aniquile, é digna de louvor. Mas a aparência de minha filha - sua forma binária e esdrúxula - pode gerar cochichos e, de minha parte, sobram risos amarelos. Aprender a lição por mais que dirija impropérios (ou mesmo peça desculpas) à platéia - um golpe de ar na cena faiscante.

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