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Inúmeras foram as publicações literárias que dirigiram questionários, encaminharam perguntas, enfim, propuseram enquetes a escritores. Esse foi, inclusive, um procedimento de especial predileção dos surrealistas, em suas sucessivas revistas.A propósito, é bom deixar claro que o envio destas duas perguntas vai cercado de todos os cuidados e precauções. Não há intenção de indigitar ninguém, estabelecendo um confronto entre os pólos da razão e da emoção, entre um time de autores, digamos, cartesianos e aristotélicos, e outro de místicos platônicos ou algo assim. Temos plena consciência das limitações dessas polaridades, da existência de zonas cinzentas entre elas, da contribuição que autores podem dar, inclusive, ao retificar esses termos e propor outras categorias.A mesma ordem de observações vale para a pergunta seguinte, sobre a célebre questão do valor poético. Nos dois casos, o que nos interessa é fazer que circulem idéias, informações, contando, para isso, com a colaboração de alguns dos melhores poetas contemporâneos brasileiros.Para a presente edição, selecionamos alguns retornos, onde está espelhada sobretudo a vontade de diálogo, não restando dúvida quanto à necessidade de se estabelecer esses focos de reflexão. As próprias opiniões aqui ventiladas, segundo esperamos, devem servir de estímulo a outros argumentos. (C. W.)
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LEONOR SCLIAR CABRAL - Não mitifico o exercício da poesia: é um trabalho que exige domínio formal. É preciso que o poeta esteja consciente do seu ofício: o que quer dizer, mas principalmente como. Abomino aqueles que se julgam poetas simplesmente porque falam, desconhecendo as diferentes funções da linguagem: a palavra é matéria-prima como a argila, os sons e silêncios. Dominar as formas que transpõem a palavra-comunicação para o estético, eis o fazer poético.
RUY ESPINHEIRA FILHO - Meu processo de criação é obscuro. Começa nos pântanos do inconsciente (que Jorge Luis Borges diz ser o nome moderno da Musa). Há, de início, um impulso, uma emoção emergindo. Não é um jogo de palavras, é emoção. A palavra é o meio, para o poeta, para o escritor, como as notas musicais o são para o compositor e as cores, volumes etc. o são para os pintores. Não é, como se gosta de repetir por aí, com palavras que se faz um poema: é com essa emoção expressa em palavras, o que é outra coisa. Nunca sei o que vou escrever – e mesmo depois jamais estou certo do que escrevi. Mas, ao fim, o impulso emocional se vê por algum tempo aplacado. CLÁUDIO DANIEL - Tudo é um jogo entre razão e sensação, logos e acaso. Não é possível planejar todos os detalhes de um poema; sem dúvida, no ato de criação, entram em cena elementos do inconsciente, palavras, objetos e situações que vivemos ou conhecemos e que nos marcaram de algum modo. Porém, cabe à razão ordenar tudo isso de modo consistente, tornar preciso o impreciso, como dizia Poe, transformar o abstrato em concreto. Cabe ao logos definir, por exemplo, a extensão do poema, recursos de linguagem que serão usados, o tipo de imagem ou de sonoridade que se quer empregar etc. A partir de uma pista inicial (um tema, idéia ou sensação), espontâneo na maioria das vezes, o intelecto trabalha. Todo bom poema é difícil, algo construído a partir das pesquisas do poeta; um jogo de xadrez com as palavras. Não acredito em inspiração como método e arte-final do texto; isso, para mim, é uma desculpa para justificar o texto discursivo, confessional. Enfim, para resumir: não vejo contradição entre o intelecto e a emoção, pois a mente humana, e o trabalho humano (qualquer trabalho) não pode ser realizado sem a unificação de ambas as mentes, a que sente e a que pensa, Apolo e Dioniso.
JORGE LÚCIO DE CAMPOS - O meu processo criativo – e isso parece ser recorrente na maioria dos poetas – é decerto instável no sentido de ser extremamente dependente de fases e alterações de contexto. Para minha sorte, quando me encontro num período, digamos, fértil de idéias e sensações, consigo produzir muito (e, ao menos para mim, convincentemente, em termos qualitativos), chegando, às vezes, a escrever um número surpreendente de poemas num curtíssimo espaço de tempo. Para minha sorte também, tais períodos não têm sido tão espaçados assim (digo isso me baseando no depoimento de alguns amigos que garantem ficar criativamente estagnados durante vários meses). Dificilmente deixo de criar durante um longo tempo. Por outro lado, ao menos num primeiro momento, sou também extremamente dependente do acaso. Alimento-me de insights, de encontros, de acendimentos sensório-mentais que dependem, e muito, das situações de meu cotidiano, das releituras que faço das coisas, das vivências que tenho com outras pessoas e textos. Já o meu segundo momento (e em todos os subseqüentes), faço questão de torná-lo extremamente regrado. A razão, o cálculo e o raciocínio reinam absolutos em comparação com a emoção, a inspiração e a paixão. Creio que uma vez obtida a energia original, o trabalho deve ser de lapidação, busca de concisão, depuração e empenho formal. Poesia para mim é isso: basicamente intuição e expressão. Não funciono bem em estados de êxtase, com certeza, raros ao longo de meus quarenta e um anos de vida. Mas reconheço serem eles fascinantes (embora também me amedrontem bastante), por dizerem respeito ao outro lado, àquilo que você sente como sua parte maldita, ou seja, àquilo que representa a sua mais íntima afirmação individual e, ao mesmo tempo, o afrouxamento (e mesmo a desqualificação definitiva) de tudo que se optou por valorizar em termos simbólicos.
FAUSTO RODRIGUES VALLE - É interessante como faço um poema. Não basta querer. Passo semanas sem escrever uma linha sequer, tenho a impressão de que não farei mais nada. Então, um dia, começo a ter uma sensação de que algo está querendo acontecer, fico grávido de alguma coisa que desejo externar. Já aprendi que ao ficar assim, é o poema, amorfo, que está querendo tomar forma. Fico caladão, quieto, sem no entanto me alienar. Continuo minhas atividades normais, sociais e/ou profissionais (agora sou aposentado). Sento-me ao computador (antes escrevia à mão) e, com a página à frente, vou escrevendo algo. Raramente vem o poema pronto. Geralmente vem o esqueleto, ou a idéia. Ou, no meio de tudo, apenas um verso aproveitável. A partir daí, trabalho o texto. Vou ao dicionário mil vezes, mesmo para ver palavras que julgo conhecer. No final, às vezes o poema fica pronto e me agrada. Às vezes, não, e é abandonado. O poema que me agrada, daí para frente, ainda é mexido muitas vezes, para inverter vocábulos, substituir outros, eliminar versos e/ou criar outros. O poema abandonado, depois de algum tempo, volta à tona, porque a idéia permanece. Então, de um verso, num dia mais propício, sai outro poema. Não creio numa inspiração, daquelas meio espíritas, que baixa na gente... e o texto vai saindo... Mas, não há dúvida de que é necessário um estado de espírito propício, "ficar grávido do poema". Depois de 4 livros publicados, creio que é necessário algo mais do que a inspiração. É preciso trabalho… e muita leitura, armar-se de uma cultura básica indispensável ao fazer poético. E, para finalizar, há os períodos de entressafra, que mesmo querendo e ficando grávido, não sai nada que presta… Em resumo, é a minha experiência.
ERIC PONTY - Ivan Junqueira me diz muito de uma emoção pensada, assim como em T.S Eliot etc. Acredito profundamente nisto e na fluidez do poema, pois o poema cria um elo de comunicações entre si. O Poema quando flui puxa o próximo verso até o seu final. É engraçado pois se percebe facilmente a distinção entre um poema que fluiu e outro que foi fluido. A fluência também não é mãe de todos e engana como na dita poesia marginal (que de marginal só tem o nome) que flui muito bem, mas quando termina ficou faltando o principal, o poético. Por exemplo neste poema de João Cabral de Melo Neto onde fluidez e poético são peças inseparáveis do poema: I / Saio de meu poema / como quem lava as mãos. // Algumas conchas tornaram-se, / que o sol da atenção / cristalizou; alguma palavra / que desabrochei como um pássaro. // Talvez alguma concha / dessas, ou pássaro, lembre, / côncavo, o corpo do gesto / extinto, que o ar já preencheu: // talvez, como a camisa/ vazia, que despi. Já neste poema de Ana Cristina César há fluidez, mas falta, a meu ver, o elemento poético que o transcenda: Um Beijo / que tivesse um blue. Isto é imitasse feliz a delicadeza, a sua, assim como um tropeço que mergulha surdamente no reino expresso do prazer. Espio sem um ai as evoluções do teu confronto à minha sombra desde a escolha debruçada no menu; um peixe grelhado um namorado uma água sem gás de decolagem: leitor embevecido talvez ensurdecido "ao sucesso" diria meu censor "à escuta" diria meu amor.
No geral, o cálculo (ou seja, tal como o entendo, o tratar de encontrar um programa) faz com que se ressinta a capacidade de escrever. Por isso prefiro deixá-lo para depois, ao tratar de por em ordem o resultado da batalha. Prefiro mais a liberdade e isso às vezes me faz conseguir efeitos expressionistas, com os sinais de pontuação, interrogação ou exclamação (que por algum tempo estiveram fora da poesia). Costumo escrever com papel e lápis (ou caneta) e logo transferir o poema para os arquivos de meu PC. Nessa operação já seleciono o possível do inapresentável. Mais adiante virá outra seleção mais dura. Costumo desfazer os começos, às vezes seções inteiras do poema e, certamente, seções inteiras podem cair no esquecimento em função de tal procedimento. Ou seja, em mim o processo de criação é mais o resultado de um êxtase, diria erótico (todo relato começa por ser uma fantasia erótica), porém o processo continua, às vezes por anos, buscando nesse verso inicial novas ressonâncias. Não me valho do imediatismo senão como processo de tradução de algo que está em mim, mas não como geração de um produto artístico/literário. Para sintetizar, creio que no processo de transferência uso muito o sistema de êxtase, mas a razão vale na hora de selecionar os poemas que considero legíveis de outros. Falta ainda a leitura em voz alta ou por outra pessoa, que também pode ser um método de qualificação.
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LEONOR SCLIAR CABRAL - A segunda pergunta está ligada à primeira resposta. Avalio um poema na medida em que reconheço o domínio formal de quem o produziu, com o intuito de revelar ou desvelar o que deixamos de perceber pela saturação, cansaço ou negligência. THEREZA CHRISTINA MOTTA - O valor de um poema ou de um poeta é dado pela assimilação rápida do poema na primeira leitura… se ao lê-lo pela primeira vez, me causa impacto, sei que o poema é bom. E se ao relê-lo continua me causando impacto, é como a música que ouvimos inúmeras vezes e não nos cansamos de ouvir. O poema deve causar-nos imediata emoção. Mas se assim não for, poderá nos causar emoção quando estivermos prontos para entendê-lo. Por outro lado, posso graduar a emoção que me causa, para determinar se o poema é bom, regular ou ruim. A maior ou menor carga de emoção que sinto ao lê-lo determina a qualidade do poema para mim, independentemente de suas qualidades estéticas.
CLÁUDIO DANIEL - O que distingue a poesia de qualquer outro tipo de texto (artigo de jornal, discurso político, receita de bolo, carta de namorada ou diário pessoal)? A linguagem. A poesia é uma reflexão sobre a maneira como as palavras se articulam entre si. Um poema não é extraordinário apenas por causa do assunto que aborda, ou pelas circunstâncias em que foi escrito, nem a biografia aventurosa de um autor justifica maus versos. Um poema é feito de palavras, como dizia Mallarmé, e a análise deve partir daí, em minha opinião: das palavras. Um poema de valor fora do comum é aquele em que o texto é construído de uma maneira que surpreende o leitor, que altera nossa maneira habitual de ler, falar, ouvir e sentir. Um poema que causa impacto, como a pedra no meio do caminho, de Drummond. Ou como a Psicologia da composição e a Antiode, de João Cabral. Novos conteúdos são obtidos de novas formas, que propõem certos desafios ao leitor. Ao romperem com normas sintáticas, gramaticais – e, portanto, com certos padrões cartesianos de pensamento –, poemas como os de Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, fundam não apenas novas técnicas, mas novas formas de olhar e viver o mundo. Já um poema que não causa surpresa, incômodo, estranheza e encantamento, é algo dispensável. Para ficarmos no cotidiano, no lugar-comum, já temos os romances e os jornais. Poesia é outra coisa. E é essa outra coisa que nos interessa, sempre. BENJAMIN VALDIVIA - Um critério válido para distinguir um poema é o de Huidobro: "os verdadeiros poemas são incêndios". Ou melhor, como disse o poeta mexicano Desiderio Macías Silva: se encarceramos as fogueiras e através de suas grades as labaredas dão as mãos e as grades ardem, essa é a poesia. O que não chega a acender a prisão da linguagem ou a nova prisão que se forma (dentro do leitor), não é verdadeiro (ao menos não o é para esse leitor em particular). O resto são poemas.
CARLOS NEJAR - Minha percepção não é a de um determinado gênero, seja poesia, seja prosa. Habito na linguagem, algo mais amplo. E a linguagem vem da depuração da fala. O reconhecimento de suas camadas mais espessas. Mas o texto deve reunir um conjunto de elementos que o tornem valioso. A arte de levitar apenas pertence aos que insuflam vento nas palavras, tornando-as mais leves do que o ar.
ALFREDO FRESSIA - Tem de acontecer duas coisas. A primeira é aquilo que o Coleridge chamava "a suspensão voluntária da descrença" (the willing suspension of disbelief). Sem isso não há poesia (nem ficção nem arte alguma) que sobreviva. Quando a gente não crê, não pode crer, não consegue crer na obra que está sob nosso olhar, é melhor parar e dar o poema por muito ruim, ou a nós mesmos por maus leitores. O segundo momento se poderia denominar, para usar a mesma formulação do Coleridge, a suspensão da suspensão da descrença. Se depois de suspender a suspensão da descrença o leitor reconhece os procedimentos de que o autor usou, sua parte de originalidade, sua parte de obediência e de desobediência a uma tradição, sua habilidade e até sua genialidade, então é porque esse poema é mais do que um mero texto bem amarrado. A capacidade de comunicação profunda está subentendida nesses dois momentos, e a busca da "capacidade de comunicação" é sempre um modo perigoso de ler. Mas é verdade que se encerra ali um mistério. E essa terceira instância, a do mistério, seria imprudente (porque também é inútil) querer revelar.
Algumas conchas tornaram-se, / que o sol da atenção / cristalizou; alguma palavra / que desabrochei como um pássaro. Em Ana Cristina esta tenta usar a contenção do poético e consegue brilhantemente até conseguir fazer o mesmo desaparecer como nos versos (?): que tivesse um blue. Isto é imitasse feliz a delicadeza, a sua, assim como um tropeço que mergulha surdamente no reino expresso do prazer. Um outro exemplo seria o de Cora Coralina como em Beco da Escola, com sua sintaxe comum sem trazer emoção (vide Ana Cristina), com versos que poderiam ser expressos pela maioria das pessoas com as mesmas idéias e decodificações dos fatos desgastados: Um corricho, de passagem, / um dos muitos vasos comunicantes / onde circula a vida humilde da cidade. / Um bequinho de brinquedo, miudinho, / Chamado no meu tempo de menina / – beco da escola. // Uma braça de largura, mal medida. / Cinqüenta metros de comprido… avaliado. / Bem alinhado. Direitinho. / Beco da escola… / Escola de velhos tempos. / Tempos de velhas mestras. / Mestra Lili. Mestra Silvina. Mestra Inhola. / Outras mais, esquecidas mestras de Goiás. HECNOR RANEA SANDOVAL - O reconhecimento de meus poemas, creio havê-lo explicado. No caso de poemas de outros, como no caso dos meus, considero bons os poemas que me ensinam algo novo, um recoveco de mim (ou daquele outro) que me era desconhecido. Especificamente isso passa quando me transfere uma paixão por alguma palavra, ou uma lembrança que se agita também dentro de mim, sendo tudo desconhecido. Trato de ser um leitor que se deixa levar, não para encontrar o significado (penso, como Beckett, que "significa quem pode"), mas sim para que as palavras me transmitam um pouco do prazer que sentiu o poeta ao escrevê-lo. Essa decodificação é essencialmente uma questão de liberdade. Quando o poeta se sacrifica diante do formalismo que, às vezes, ele mesmo se impõe, acaba deixando para atrás a liberdade que o entrega aos leitores. É muito difícil para mim ler poesia. sobretudo porque os poemas em outras línguas (exceto o inglês e o italiano) me são praticamente inacessíveis (posso capturar alguns – pouquíssimos – em português) e a tradução é sempre, suspeito, outro poema (talvez tão excelente como o original) e não me permite transferir com precisão a dor do espírito que o criou. Ou seja, a liberdade é essencial na avaliação, porém às vezes não basta. Tem que haver uma música interna (não rima nem métrica, necessariamente) que às vezes está ausente e faz com que o poema pareça falso. De qualquer maneira, no geral, não tento avaliar; prefiro deixar para outro momento a leitura de algum que me resulte menos bom, para despejar minha ação de meu juízo. Por isso me resulta difícil ler. Isso traz consigo outro infortúnio: quando estou em meio a um processo criativo, me resulta muito duro ler porque é outro idioma e pode interferir com o meu. Às vezes devo purgá-lo como uma condenação, sobretudo porque sempre estamos a ler poetas melhores do que nós. |
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