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Revista de Cultura nº 4/5
 
Fortaleza/ São Paulo, novembro de 2000
 
ENQUETE AOS POETAS

Inúmeras foram as publicações literárias que dirigiram questionários, encaminharam perguntas, enfim, propuseram enquetes a escritores. Esse foi, inclusive, um procedimento de especial predileção dos surrealistas, em suas sucessivas revistas.A propósito, é bom deixar claro que o envio destas duas perguntas vai cercado de todos os cuidados e precauções. Não há intenção de indigitar ninguém, estabelecendo um confronto entre os pólos da razão e da emoção, entre um time de autores, digamos, cartesianos e aristotélicos, e outro de místicos platônicos ou algo assim. Temos plena consciência das limitações dessas polaridades, da existência de zonas cinzentas entre elas, da contribuição que autores podem dar, inclusive, ao retificar esses termos e propor outras categorias.A mesma ordem de observações vale para a pergunta seguinte, sobre a célebre questão do valor poético. Nos dois casos, o que nos interessa é fazer que circulem idéias, informações, contando, para isso, com a colaboração de alguns dos melhores poetas contemporâneos brasileiros.Para a presente edição, selecionamos alguns retornos, onde está espelhada sobretudo a vontade de diálogo, não restando dúvida quanto à necessidade de se estabelecer esses focos de reflexão. As próprias opiniões aqui ventiladas, segundo esperamos, devem servir de estímulo a outros argumentos. (C. W.)

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Poderia nos dizer como é seu processo criativo, o que acontece consigo quando escreve poesia? Em especial, o peso relativo ou o papel desempenhado por coisas como razão e emoção, cálculo e inspiração, composição a frio ou em estados de êxtase ou possessão, raciocínio e paixão etc?

LEONOR SCLIAR CABRAL - Não mitifico o exercício da poesia: é um trabalho que exige domínio formal. É preciso que o poeta esteja consciente do seu ofício: o que quer dizer, mas principalmente como. Abomino aqueles que se julgam poetas simplesmente porque falam, desconhecendo as diferentes funções da linguagem: a palavra é matéria-prima como a argila, os sons e silêncios. Dominar as formas que transpõem a palavra-comunicação para o estético, eis o fazer poético.

ag4enquete2.jpg (11135 bytes)THEREZA CHRISTINA MOTTA - Há vários estágios de processo criativo até que surja ou capte um poema. Os poemas brotam em momentos inesperados, à qualquer hora do dia ou da noite, dadas as circunstâncias necessárias, ou amadurecimento do poema para o ouvido. Tenho sempre de registrá-lo no momento em que vem. Se não fizer isso, depois serei incapaz de lembrá-lo. Há momentos em que me deixo levar pela própria inspiração e escrevo por tempo indeterminado. Por vezes várias horas, até sentir que terminei o que tinha de escrever. Depois vêm as revisões e releituras… o depuramento, o exugamento do texto, o trabalho de recomposição. Há poemas que já nascem prontos e pouco é mexido no texto original. Não há composições a frio para mim… mesmo que escreva racionalmente, ou seja, com um objetivo, como uma dedicatória, há uma voz subliminar que alimenta o texto e nunca sou eu conscientemente quem escreve, mas minha voz interior que é infinitamente mais sábia.. Sempre devo estar, por esse motivo, de certa forma, fora de mim, mesmo que observe conscientemente o que estou fazendo. Não falo ou escrevo em mim… é um estado de possessão… que ocorre a qualquer momento do dia e as circunstâncias a que me referi como necessárias, são fatos, pessoas, lugares, visões, lembranças, recorrências, objetos, analogias, de onde retiro o poema… pois uma voz surge no meio dos meus pensamentos ou memórias. Ela fala em forma de poema. Há poemas que identifico pela fala. O que é dito como meu estilo é a fala mais comum que surgem nos poemas. Escrevo, normalmente, sob impulso, maior ou menor… e não adianta tentar provocá-lo. Somente a paixão pode provocar esse impulso. 

RUY ESPINHEIRA FILHO - Meu processo de criação é obscuro. Começa nos pântanos do inconsciente (que Jorge Luis Borges diz ser o nome moderno da Musa). Há, de início, um impulso, uma emoção emergindo. Não é um jogo de palavras, é emoção. A palavra é o meio, para o poeta, para o escritor, como as notas musicais o são para o compositor e as cores, volumes etc. o são para os pintores. Não é, como se gosta de repetir por aí, com palavras que se faz um poema: é com essa emoção expressa em palavras, o que é outra coisa. Nunca sei o que vou escrever – e mesmo depois jamais estou certo do que escrevi. Mas, ao fim, o impulso emocional se vê por algum tempo aplacado. 

CLÁUDIO DANIEL - Tudo é um jogo entre razão e sensação, logos e acaso. Não é possível planejar todos os detalhes de um poema; sem dúvida, no ato de criação, entram em cena elementos do inconsciente, palavras, objetos e situações que vivemos ou conhecemos e que nos marcaram de algum modo. Porém, cabe à razão ordenar tudo isso de modo consistente, tornar preciso o impreciso, como dizia Poe, transformar o abstrato em concreto. 

Cabe ao logos definir, por exemplo, a extensão do poema, recursos de linguagem que serão usados, o tipo de imagem ou de sonoridade que se quer empregar etc. A partir de uma pista inicial (um tema, idéia ou sensação), espontâneo na maioria das vezes, o intelecto trabalha. Todo bom poema é difícil, algo construído a partir das pesquisas do poeta; um jogo de xadrez com as palavras. Não acredito em inspiração como método e arte-final do texto; isso, para mim, é uma desculpa para justificar o texto discursivo, confessional. Enfim, para resumir: não vejo contradição entre o intelecto e a emoção, pois a mente humana, e o trabalho humano (qualquer trabalho) não pode ser realizado sem a unificação de ambas as mentes, a que sente e a que pensa, Apolo e Dioniso.

ag4enquete5.JPG (15596 bytes)BENJAMIN VALDIVIA - Meu processo para a elaboração de poesia consiste, há anos, em seguir uma frase espetacular: "toda a razão e toda a paixão". O equilíbrio de ambas tem o papel principal: a razão ébria, o impulso extremamente calculado. A dificuldade de integrar essas duas polaridades do ser humano faz com que brotem ocasionais faíscas: a poesia. 

JORGE LÚCIO DE CAMPOS - O meu processo criativo – e isso parece ser recorrente na maioria dos poetas – é decerto instável no sentido de ser extremamente dependente de fases e alterações de contexto. Para minha sorte, quando me encontro num período, digamos, fértil de idéias e sensações, consigo produzir muito (e, ao menos para mim, convincentemente, em termos qualitativos), chegando, às vezes, a escrever um número surpreendente de poemas num curtíssimo espaço de tempo. Para minha sorte também, tais períodos não têm sido tão espaçados assim (digo isso me baseando no depoimento de alguns amigos que garantem ficar criativamente estagnados durante vários meses). Dificilmente deixo de criar durante um longo tempo. Por outro lado, ao menos num primeiro momento, sou também extremamente dependente do acaso. Alimento-me de insights, de encontros, de acendimentos sensório-mentais que dependem, e muito, das situações de meu cotidiano, das releituras que faço das coisas, das vivências que tenho com outras pessoas e textos. Já o meu segundo momento (e em todos os subseqüentes), faço questão de torná-lo extremamente regrado. A razão, o cálculo e o raciocínio reinam absolutos em comparação com a emoção, a inspiração e a paixão. Creio que uma vez obtida a energia original, o trabalho deve ser de lapidação, busca de concisão, depuração e empenho formal. Poesia para mim é isso: basicamente intuição e expressão. Não funciono bem em estados de êxtase, com certeza, raros ao longo de meus quarenta e um anos de vida. Mas reconheço serem eles fascinantes (embora também me amedrontem bastante), por dizerem respeito ao outro lado, àquilo que você sente como sua parte maldita, ou seja, àquilo que representa a sua mais íntima afirmação individual e, ao mesmo tempo, o afrouxamento (e mesmo a desqualificação definitiva) de tudo que se optou por valorizar em termos simbólicos.

ag4enquete7.JPG (16106 bytes)CARLOS NEJAR - O meu processo de criação inicia-se, em regra, por um verso que me nasce, como se viesse por dentro do ar. Uma "nuvem de sementes". Depois desenvolvo o texto e aperfeiçôo com a lógica do sonho. O inconsciente sabe muito mais do que a razão percebe. E o poema é primeiro escrito com a caneta no papel, preciso senti-lo pulsar como uma pomba no instante. Depois o coloco no computador e ali, aos poucos, é o tempo que o poda. 

FAUSTO RODRIGUES VALLE - É interessante como faço um poema. Não basta querer. Passo semanas sem escrever uma linha sequer, tenho a impressão de que não farei mais nada. Então, um dia, começo a ter uma sensação de que algo está querendo acontecer, fico grávido de alguma coisa que desejo externar. Já aprendi que ao ficar assim, é o poema, amorfo, que está querendo tomar forma. Fico caladão, quieto, sem no entanto me alienar. Continuo minhas atividades normais, sociais e/ou profissionais (agora sou aposentado). Sento-me ao computador (antes escrevia à mão) e, com a página à frente, vou escrevendo algo. Raramente vem o poema pronto. Geralmente vem o esqueleto, ou a idéia. Ou, no meio de tudo, apenas um verso aproveitável. A partir daí, trabalho o texto. Vou ao dicionário mil vezes, mesmo para ver palavras que julgo conhecer. No final, às vezes o poema fica pronto e me agrada. Às vezes, não, e é abandonado. O poema que me agrada, daí para frente, ainda é mexido muitas vezes, para inverter vocábulos, substituir outros, eliminar versos e/ou criar outros. O poema abandonado, depois de algum tempo, volta à tona, porque a idéia permanece. Então, de um verso, num dia mais propício, sai outro poema. Não creio numa inspiração, daquelas meio espíritas, que baixa na gente... e o texto vai saindo... Mas, não há dúvida de que é necessário um estado de espírito propício, "ficar grávido do poema". Depois de 4 livros publicados, creio que é necessário algo mais do que a inspiração. É preciso trabalho… e muita leitura, armar-se de uma cultura básica indispensável ao fazer poético. E, para finalizar, há os períodos de entressafra, que mesmo querendo e ficando grávido, não sai nada que presta… Em resumo, é a minha experiência. 

ag4enquete9.JPG (12763 bytes)ALFREDO FRESSIA - Tenho, para começar, uma necessidade física: estar deitado. Eu anoto frases, às vezes meras palavras, em qualquer momento e em qualquer lugar. Mas quando o poema vai produzir-se, eu preciso estar deitado, e na minha cama. E sozinho. Trata-se sem dúvida de uma negação de tudo o que poderia perturbar o processo, diria quase o ritual de criação, o corpo, o peso do corpo em primeiríssimo lugar. Fico desamparado diante daquelas anotações e de repente dá um clic, alguma coisa que poderia chamar-se inspiração, suponho. Esse clic me é desconhecido. Não quero dizer que seja necessariamente irracional, é misterioso, é um segredo que me escapa inteirinho, e o que é pior, é bem frágil, pode vir (de onde, meu Deus?) com mais ou menos intensidade ou pode não vir. O fracasso de fato é o mais freqüente. Em todo caso, fico durante a criação perfeitamente dividido. Se existisse uma "esquizofrenia harmoniosa", essa seria a expressão justa para designar o momento da criação. O clic escreve e o Alfredo (leve, deitado, sem peso, só) vigia, joga fora, acha que isto sim, que aquilo não, sugere às vezes – tudo com modéstia – e olha para o clic que continua tirando coisas de um poço que às vezes deixa o Alfredo perplexo. Durante essa espécie de espetáculo privado, o Alfredo não tem a menor idéia de para onde a coisa vai. E também é a Coisa quem decide parar, o momento justo. O Alfredo não é propriamente burro, mas ele vem sempre depois. E é depois que o clic se foi (para onde, meu Deus?) que o Alfredo se mete, corrige, deixa seus 30 anos de poesia entrar no jogo, potencializa uma aliteração aqui, reitera uma imagem lá. Mas é um servicinho de faxina muito modesto. Taí um bom resumo: o Clic e o faxineiro. 

ERIC PONTY - Ivan Junqueira me diz muito de uma emoção pensada, assim como em T.S Eliot etc. Acredito profundamente nisto e na fluidez do poema, pois o poema cria um elo de comunicações entre si. O Poema quando flui puxa o próximo verso até o seu final. É engraçado pois se percebe facilmente a distinção entre um poema que fluiu e outro que foi fluido. A fluência também não é mãe de todos e engana como na dita poesia marginal (que de marginal só tem o nome) que flui muito bem, mas quando termina ficou faltando o principal, o poético. Por exemplo neste poema de João Cabral de Melo Neto onde fluidez e poético são peças inseparáveis do poema:

I / Saio de meu poema / como quem lava as mãos. // Algumas conchas tornaram-se, / que o sol da atenção / cristalizou; alguma palavra / que desabrochei como um pássaro. // Talvez alguma concha / dessas, ou pássaro, lembre, / côncavo, o corpo do gesto / extinto, que o ar já preencheu: // talvez, como a camisa/ vazia, que despi.

Já neste poema de Ana Cristina César há fluidez, mas falta, a meu ver, o elemento poético que o transcenda:

Um Beijo / que tivesse um blue. Isto é imitasse feliz a delicadeza, a sua, assim como um tropeço que mergulha surdamente no reino expresso do prazer. Espio sem um ai as evoluções do teu confronto à minha sombra desde a escolha debruçada no menu; um peixe grelhado um namorado uma água sem gás de decolagem: leitor embevecido talvez ensurdecido "ao sucesso" diria meu censor "à escuta" diria meu amor.

ag4enquete11.JPG (40103 bytes)HECTOR RANEA SANDOVAL - Reconheço que muitos poemas os escrevo porque uma palavra chave, ou uma frase, algumas vezes já armada surge subitamente. Com o tempo aprendi que devo escrevê-lo ou perdê-lo, não há outra opção. Uma vez ali se pode refrear tudo, nesse único verso. Às vezes, reconheço, por ofício, que é um título, outras vezes o título surge muito depois. Daí que alguns de meus poemas tenham um título invertido, ou seja, ao final do poema. Nesta etapa, muitos poemas surgem em uma mesma seção. O que não os torna iguais, ao contrário, às vezes surgem engendros inapresentáveis. Em geral, reconheço isto enquanto os escrevo e, por surgirem vários em fileira, podem provocar a ruptura do transe.

No geral, o cálculo (ou seja, tal como o entendo, o tratar de encontrar um programa) faz com que se ressinta a capacidade de escrever. Por isso prefiro deixá-lo para depois, ao tratar de por em ordem o resultado da batalha. Prefiro mais a liberdade e isso às vezes me faz conseguir efeitos expressionistas, com os sinais de pontuação, interrogação ou exclamação (que por algum tempo estiveram fora da poesia).

Costumo escrever com papel e lápis (ou caneta) e logo transferir o poema para os arquivos de meu PC. Nessa operação já seleciono o possível do inapresentável. Mais adiante virá outra seleção mais dura. Costumo desfazer os começos, às vezes seções inteiras do poema e, certamente, seções inteiras podem cair no esquecimento em função de tal procedimento.

Ou seja, em mim o processo de criação é mais o resultado de um êxtase, diria erótico (todo relato começa por ser uma fantasia erótica), porém o processo continua, às vezes por anos, buscando nesse verso inicial novas ressonâncias. Não me valho do imediatismo senão como processo de tradução de algo que está em mim, mas não como geração de um produto artístico/literário.

Para sintetizar, creio que no processo de transferência uso muito o sistema de êxtase, mas a razão vale na hora de selecionar os poemas que considero legíveis de outros. Falta ainda a leitura em voz alta ou por outra pessoa, que também pode ser um método de qualificação.

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É capaz de nos dizer como reconhece o valor de um poema? Ou, usando termos mais simples, se é capaz de traduzir, decodificar, nos explicar o que, ao ler um poema que ainda não conhecia, o leva a achar esse poema bom ou ruim (ou mediano, ou parcialmente bom ou ruim, ou qualquer outra coisa)?

LEONOR SCLIAR CABRAL - A segunda pergunta está ligada à primeira resposta. Avalio um poema na medida em que reconheço o domínio formal de quem o produziu, com o intuito de revelar ou desvelar o que deixamos de perceber pela saturação, cansaço ou negligência.

THEREZA CHRISTINA MOTTA - O valor de um poema ou de um poeta é dado pela assimilação rápida do poema na primeira leitura… se ao lê-lo pela primeira vez, me causa impacto, sei que o poema é bom. E se ao relê-lo continua me causando impacto, é como a música que ouvimos inúmeras vezes e não nos cansamos de ouvir. O poema deve causar-nos imediata emoção. Mas se assim não for, poderá nos causar emoção quando estivermos prontos para entendê-lo. Por outro lado, posso graduar a emoção que me causa, para determinar se o poema é bom, regular ou ruim. A maior ou menor carga de emoção que sinto ao lê-lo determina a qualidade do poema para mim, independentemente de suas qualidades estéticas. 

ag4enquete3.JPG (16756 bytes)RUY ESPINHEIRA FILHO - No reconhecimento do valor de um poema entra a emoção e toda uma história de sensibilidade e aprimoramento intelectual. O que nos leva a gostar de um poema é a nossa afinidade, o que desperta em nós em contato com ele. Se o poema não me emociona, não toca em mim o leitor de poesia, não pode ser amado. Também há a apreciação meramente intelectual, que se limita à crítica técnica, mas esta muitas vezes legitima a mera aplicação de técnicas (para usarmos expressão de Mário de Andrade), o que, por si só, não produz mais do que construções formalistas. 

CLÁUDIO DANIEL - O que distingue a poesia de qualquer outro tipo de texto (artigo de jornal, discurso político, receita de bolo, carta de namorada ou diário pessoal)? A linguagem. A poesia é uma reflexão sobre a maneira como as palavras se articulam entre si. Um poema não é extraordinário apenas por causa do assunto que aborda, ou pelas circunstâncias em que foi escrito, nem a biografia aventurosa de um autor justifica maus versos. Um poema é feito de palavras, como dizia Mallarmé, e a análise deve partir daí, em minha opinião: das palavras. Um poema de valor fora do comum é aquele em que o texto é construído de uma maneira que surpreende o leitor, que altera nossa maneira habitual de ler, falar, ouvir e sentir. Um poema que causa impacto, como a pedra no meio do caminho, de Drummond. Ou como a Psicologia da composição e a Antiode, de João Cabral. Novos conteúdos são obtidos de novas formas, que propõem certos desafios ao leitor. Ao romperem com normas sintáticas, gramaticais – e, portanto, com certos padrões cartesianos de pensamento –, poemas como os de Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, fundam não apenas novas técnicas, mas novas formas de olhar e viver o mundo. Já um poema que não causa surpresa, incômodo, estranheza e encantamento, é algo dispensável. Para ficarmos no cotidiano, no lugar-comum, já temos os romances e os jornais. Poesia é outra coisa. E é essa outra coisa que nos interessa, sempre.

BENJAMIN VALDIVIA - Um critério válido para distinguir um poema é o de Huidobro: "os verdadeiros poemas são incêndios". Ou melhor, como disse o poeta mexicano Desiderio Macías Silva: se encarceramos as fogueiras e através de suas grades as labaredas dão as mãos e as grades ardem, essa é a poesia. O que não chega a acender a prisão da linguagem ou a nova prisão que se forma (dentro do leitor), não é verdadeiro (ao menos não o é para esse leitor em particular). O resto são poemas.

ag4enquete6.JPG (12840 bytes)JORGE LÚCIO DE CAMPOS - Como sugeri, anteriormente, o processo criativo (não só em termos poéticos) não pode, sob pena de se auto-desqualificar, deixar de marcar uma invariável positividade. Um artista criativo é aquele que consegue conceder (direta ou indiretamente) à sua obra a capacidade de afirmação e instauração do sentido. Como disse, por detrás da complexidade da fatura da boa poesia (assim como da boa pintura etc. etc.), estão dois agenciamentos mínimos fundamentais: a intuição (o bom poeta é sempre aquele bem-sucedido na extração-captura ordenadora do sentido bruto-caótico das coisas) e a expressão (o bom poeta é sempre aquele que sabe expressar, adequadamente – de forma a torná-lo esteticamente compartilhável – o resultado concreto daquela extração-captura). Dentro de tal contexto, a valoração de um poema se mostra, então, muito relativa. Depende enormemente dos elementos mínimos disponibilizados, no ato do encontro, pelo poeta e pelo leitor-avaliador de sua poesia. Isso sem contar com os aspectos psicológicos que, inevitavelmente, interferem no processo, acelerando-o ou estancando-o. A grande arte nunca foi e ainda não é da ordem das multidões, pois sua universalidade não pode ser fabricada, apesar do esforço, cada vez mais agressivo, dos meios de comunicação e dos agentes do mercado. A grande poesia é da ordem solitária dos indivíduos-neles-mesmos e de suas clandestinas partilhas interpessoais.

CARLOS NEJAR - Minha percepção não é a de um determinado gênero, seja poesia, seja prosa. Habito na linguagem, algo mais amplo. E a linguagem vem da depuração da fala. O reconhecimento de suas camadas mais espessas. Mas o texto deve reunir um conjunto de elementos que o tornem valioso. A arte de levitar apenas pertence aos que insuflam vento nas palavras, tornando-as mais leves do que o ar. 

ag4enquete8.jpg (22444 bytes)FAUSTO RODRIGUES VALLE - Sinto que o poema é bom, não levando em conta a boa linguagem e outros detalhes necessários à poesia, quando ele me provoca uma certa excitação, ou estranhamento, e eu passo a lê-lo exaustivamente. Um exemplo, lembrado agora, é o poema Predomínio Do Negro, de Wallace Stevens, na boa tradução de Paulo H. Britto. Lembraria outros exemplos, mas fico por aqui.

ALFREDO FRESSIA - Tem de acontecer duas coisas. A primeira é aquilo que o Coleridge chamava "a suspensão voluntária da descrença" (the willing suspension of disbelief). Sem isso não há poesia (nem ficção nem arte alguma) que sobreviva. Quando a gente não crê, não pode crer, não consegue crer na obra que está sob nosso olhar, é melhor parar e dar o poema por muito ruim, ou a nós mesmos por maus leitores. O segundo momento se poderia denominar, para usar a mesma formulação do Coleridge, a suspensão da suspensão da descrença. Se depois de suspender a suspensão da descrença o leitor reconhece os procedimentos de que o autor usou, sua parte de originalidade, sua parte de obediência e de desobediência a uma tradição, sua habilidade e até sua genialidade, então é porque esse poema é mais do que um mero texto bem amarrado. A capacidade de comunicação profunda está subentendida nesses dois momentos, e a busca da "capacidade de comunicação" é sempre um modo perigoso de ler. Mas é verdade que se encerra ali um mistério. E essa terceira instância, a do mistério, seria imprudente (porque também é inútil) querer revelar.

ag4enquete10.JPG (32092 bytes)ERIC PONTY - Sim e usarei os dois exemplos da questão anterior. Em João Cabral de Melo Neto onde fluidez e poético são peças inseparáveis do poema como nos versos grifados onde o poético está presente e há uma cadência nos versos:

Algumas conchas tornaram-se, / que o sol da atenção / cristalizou; alguma palavra / que desabrochei como um pássaro.

Em Ana Cristina esta tenta usar a contenção do poético e consegue brilhantemente até conseguir fazer o mesmo desaparecer como nos versos (?):

que tivesse um blue. Isto é imitasse feliz a delicadeza, a sua, assim como um tropeço que mergulha surdamente no reino expresso do prazer.

Um outro exemplo seria o de Cora Coralina como em Beco da Escola, com sua sintaxe comum sem trazer emoção (vide Ana Cristina), com versos que poderiam ser expressos pela maioria das pessoas com as mesmas idéias e decodificações dos fatos desgastados:

Um corricho, de passagem, / um dos muitos vasos comunicantes / onde circula a vida humilde da cidade. / Um bequinho de brinquedo, miudinho, / Chamado no meu tempo de menina / beco da escola. // Uma braça de largura, mal medida. / Cinqüenta metros de comprido… avaliado. / Bem alinhado. Direitinho. / Beco da escola… / Escola de velhos tempos. / Tempos de velhas mestras. / Mestra Lili. Mestra Silvina. Mestra Inhola. / Outras mais, esquecidas mestras de Goiás.

HECNOR RANEA SANDOVAL - O reconhecimento de meus poemas, creio havê-lo explicado. No caso de poemas de outros, como no caso dos meus, considero bons os poemas que me ensinam algo novo, um recoveco de mim (ou daquele outro) que me era desconhecido. Especificamente isso passa quando me transfere uma paixão por alguma palavra, ou uma lembrança que se agita também dentro de mim, sendo tudo desconhecido.

Trato de ser um leitor que se deixa levar, não para encontrar o significado (penso, como Beckett, que "significa quem pode"), mas sim para que as palavras me transmitam um pouco do prazer que sentiu o poeta ao escrevê-lo. Essa decodificação é essencialmente uma questão de liberdade. Quando o poeta se sacrifica diante do formalismo que, às vezes, ele mesmo se impõe, acaba deixando para atrás a liberdade que o entrega aos leitores.

É muito difícil para mim ler poesia. sobretudo porque os poemas em outras línguas (exceto o inglês e o italiano) me são praticamente inacessíveis (posso capturar alguns – pouquíssimos – em português) e a tradução é sempre, suspeito, outro poema (talvez tão excelente como o original) e não me permite transferir com precisão a dor do espírito que o criou.

Ou seja, a liberdade é essencial na avaliação, porém às vezes não basta. Tem que haver uma música interna (não rima nem métrica, necessariamente) que às vezes está ausente e faz com que o poema pareça falso.

De qualquer maneira, no geral, não tento avaliar; prefiro deixar para outro momento a leitura de algum que me resulte menos bom, para despejar minha ação de meu juízo. Por isso me resulta difícil ler. Isso traz consigo outro infortúnio: quando estou em meio a um processo criativo, me resulta muito duro ler porque é outro idioma e pode interferir com o meu. Às vezes devo purgá-lo como uma condenação, sobretudo porque sempre estamos a ler poetas melhores do que nós.

rretorno à capa desta edição

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