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editorial
Eventos ao toque da facilidade
Em
outubro passado um dos editores da Agulha esteve presente em
quatro eventos internacionais, dentro e fora do país. Encontros de
poetas no Chile e na Venezuela são já veteranos, o primeiro –
ChilePoesía – em sua terceira edição, e o segundo – Casa de la
Poesía Pérez Bonalde – vem se realizando há nada menos do que 12
anos. Ao contrário, os dois outros eventos, em Cuiabá [Mato Grosso]
e Aracati [Ceará], fizeram sua estréia. Todos eles, ainda que por
razões distintas, enfrentam problemas estruturais. São essenciais,
permitem uma livre circulação de idéias, o trânsito valioso da
cumplicidade entre poetas, uma aproximação com o público que de
outra maneira não se alcança, de modo que há que descobrir
mecanismos para uma revitalização desses encontros. E não se trata
do empecilho mais comum, a escassez de recursos – a julgar pela
lista de patrocinadores de cada evento –, mas sim de uma melhor
equalização dos mesmos.
Seja como for, há uma distinção básica entre as duas latitudes, ou seja,
o que se realiza no Brasil, ao contrário de inúmeros casos no restante
do continente, atende unicamente a uma perspectiva política, carecendo
de identidade cultural. Mesmo que se argumente em favor da
inexperiência, o desconhecimento da matéria com que se está lidando, há
sempre sinais de acomodação política, da gestão pouco afeita ao ambiente
cultural, do usufruto de uma pasta administrativa sobre a outra. O
descompasso na programação, este sim, é indicativo da falta de
profissionalismo – que não pode se justificar pela inexperiência. E aí
se acrescenta um profundo e arraigado caipirismo, que se evidencia de
maneiras diversas, seja no elogio excessivo da glória local, seja no
frisson articulado ante as vedetes da mídia. Tais detalhes impedem
qualquer orientação mínima do público em relação ao significado cultural
do evento.
Estes encontros de escritores se realizam ainda de forma precária no
Brasil e quando não atendem unicamente a uma toada política, estão
filiados a feiras do livro, que é uma iniciativa do mercado editorial,
com suas regras próprias, pertinentes ou não. Há um aspecto
interessante, que é o súbito interesse por convidar autores
hispano-americanos, embora ainda não saibam exatamente a quem convidar.
Por falta de uma assessoria de imprensa que lhes dê o respaldo que se
exige, vão buscar inicialmente os nomes dispostos pela mídia e, em
muitos casos diante da impossibilidade de tê-los presente, acabam, a
toque de caixa, limitando-se a indicações à mão, nem sempre com o
alcance devido. Desnecessário revelar a resultante de tudo isto.
Sim, são mínimos os exemplos no Brasil, e tudo tende a cair no mesmo
marasmo com que seguimos tratando dos aspectos mais graves de nossa
existência. O blá-blá-blá é sempre o mesmo: nossa nenhuma inclinação
para o ontológico, a estratégia inequivocamente funcional do país do
futuro, a eficiente cilada de um presente eterno sem respaldo histórico…
O risco de um estado eternamente jovem é o da recusa a toda
aprendizagem. Há que conquistar a juventude dentro da maturidade. O que
não se pode é utilizar essa condição de novato imutável como
justificativa para que nada se concretize seriamente neste país.
Por outro lado, há os eventos no restante do continente, muitos com uma
larga experiência, que não estão atrelados a partilhas políticas, e que
apresentam um outro tipo de inconveniência. Converteram-se em uma fonte
de lucros para seus realizadores, por força da própria estrutura que se
viram levados a criar para dar eficácia e credibilidade ao tema. O
dilema é que quando o negócio se estabelece altera-se o eixo de sua
sustentação originária. É uma regra básica de mercado. No mundo dos
negócios não há culpados; há apenas vítimas. E em muitos casos os
próprios organizadores se tornaram como um tipo curioso de vítima do
próprio sonho. Aqui, o caipirismo se manifesta de outra maneira, ao
buscar uma escala planetária para atuar. Em geral, nesses eventos, há
também uma figura curiosa, a do país convidado, que equivale a um
estratagema político, considerando, em muitos casos, a aplicação prática
nenhuma dessa representatividade.
Não há aqui nenhum interesse em particularizar nossas anotações em busca
de uma rejeição à própria natureza de tais eventos. Não vamos encarnar
falsos personagens, vestir a carapuça, nada. Não estamos para isto.
Nosso motivo condutor é evidenciar o que estamos perdendo diante do que
em muitos casos já obtivemos; ao mesmo tempo em que chamar a atenção
para o que podemos buscar ante um espaço imenso a ser conquistado.
Evidente que tudo pode dar errado e os equívocos se aliem, por exemplo,
somando a fatura empresarial dos eventos hispano-americanos à ardileza
política dos correlatos brasileiros. Nada pior.
Contudo, os encontros existem, e o ambiente em tais eventos é
constantemente orquestrado pelo acaso de alguns convidados, para uma
face ou outra da moeda da fortuna. Em geral, a tônica é a da dispersão,
todos aproveitam das graças da recepção, e pouco se efetiva em termos de
um panorama cultural que está na raiz dos discursos, mas que, na
prática, não vai além do intercâmbio etílico e da boa prosa. Há mesas de
debate, sim. Mas são montadas de maneira que atendem mais à logística
quantitativa do evento do que a um frescor de interlocuções. E falta
essencialmente a figura do mediador. Muito se perde por esta ausência.
Ali estamos todos, mas sempre voltamos ao restaurante do hotel. Entre
uma bebida e outra há conversas inteligentes que aclaram alguns aspectos
culturais, os mesmos que são travados quando se abrem as cortinas e está
dada a palavra oficial a cada convidado. Chega a ser patético, mas
sabemos o circo de pulgas que habita cada poeta em nosso tempo. Somos
uma bomba-relógio. Há que saber detoná-la.
Evidente que os eventos se diversificam, que refletem dilemas peculiares
e se distinguem entre si, que se mostram como trama política para
assunção eleitoral de alguns governos, ou para a manutenção de
estratégias empresariais. Não se trata aqui de discutir o mérito dessas
explorações, mas antes destacar aspectos que, de tão claros, já poderiam
ser evitados. Os próprios poetas convidados poderiam ajudar neste
sentido, por mais que a mordomia de determinadas instâncias falseie uma
vida à qual jamais tiveram acesso. A verdade é que há muito dinheiro
envolvido em tudo isto. Há uma aplicação política para tais
investimentos. Com resultantes de ordem distinta, claro. Mas nos parece
que o acaso requer bênçãos que não lhes são dadas. E os poetas bebem e
bebem e bebem. Eis como tudo no mundo se torna tão fácil.
Os editores |