.
.
.

agulha - revista de cultura # 48
fortaleza, são paulo - novembro de 200
5

editorial

Eventos ao toque da facilidade

Em outubro passado um dos editores da Agulha esteve presente em quatro eventos internacionais, dentro e fora do país. Encontros de poetas no Chile e na Venezuela são já veteranos, o primeiro – ChilePoesía – em sua terceira edição, e o segundo – Casa de la Poesía Pérez Bonalde – vem se realizando há nada menos do que 12 anos. Ao contrário, os dois outros eventos, em Cuiabá [Mato Grosso] e Aracati [Ceará], fizeram sua estréia. Todos eles, ainda que por razões distintas, enfrentam problemas estruturais. São essenciais, permitem uma livre circulação de idéias, o trânsito valioso da cumplicidade entre poetas, uma aproximação com o público que de outra maneira não se alcança, de modo que há que descobrir mecanismos para uma revitalização desses encontros. E não se trata do empecilho mais comum, a escassez de recursos – a julgar pela lista de patrocinadores de cada evento –, mas sim de uma melhor equalização dos mesmos.

Seja como for, há uma distinção básica entre as duas latitudes, ou seja, o que se realiza no Brasil, ao contrário de inúmeros casos no restante do continente, atende unicamente a uma perspectiva política, carecendo de identidade cultural. Mesmo que se argumente em favor da inexperiência, o desconhecimento da matéria com que se está lidando, há sempre sinais de acomodação política, da gestão pouco afeita ao ambiente cultural, do usufruto de uma pasta administrativa sobre a outra. O descompasso na programação, este sim, é indicativo da falta de profissionalismo – que não pode se justificar pela inexperiência. E aí se acrescenta um profundo e arraigado caipirismo, que se evidencia de maneiras diversas, seja no elogio excessivo da glória local, seja no frisson articulado ante as vedetes da mídia. Tais detalhes impedem qualquer orientação mínima do público em relação ao significado cultural do evento.

Estes encontros de escritores se realizam ainda de forma precária no Brasil e quando não atendem unicamente a uma toada política, estão filiados a feiras do livro, que é uma iniciativa do mercado editorial, com suas regras próprias, pertinentes ou não. Há um aspecto interessante, que é o súbito interesse por convidar autores hispano-americanos, embora ainda não saibam exatamente a quem convidar. Por falta de uma assessoria de imprensa que lhes dê o respaldo que se exige, vão buscar inicialmente os nomes dispostos pela mídia e, em muitos casos diante da impossibilidade de tê-los presente, acabam, a toque de caixa, limitando-se a indicações à mão, nem sempre com o alcance devido. Desnecessário revelar a resultante de tudo isto.

Sim, são mínimos os exemplos no Brasil, e tudo tende a cair no mesmo marasmo com que seguimos tratando dos aspectos mais graves de nossa existência. O blá-blá-blá é sempre o mesmo: nossa nenhuma inclinação para o ontológico, a estratégia inequivocamente funcional do país do futuro, a eficiente cilada de um presente eterno sem respaldo histórico… O risco de um estado eternamente jovem é o da recusa a toda aprendizagem. Há que conquistar a juventude dentro da maturidade. O que não se pode é utilizar essa condição de novato imutável como justificativa para que nada se concretize seriamente neste país.

Por outro lado, há os eventos no restante do continente, muitos com uma larga experiência, que não estão atrelados a partilhas políticas, e que apresentam um outro tipo de inconveniência. Converteram-se em uma fonte de lucros para seus realizadores, por força da própria estrutura que se viram levados a criar para dar eficácia e credibilidade ao tema. O dilema é que quando o negócio se estabelece altera-se o eixo de sua sustentação originária. É uma regra básica de mercado. No mundo dos negócios não há culpados; há apenas vítimas. E em muitos casos os próprios organizadores se tornaram como um tipo curioso de vítima do próprio sonho. Aqui, o caipirismo se manifesta de outra maneira, ao buscar uma escala planetária para atuar. Em geral, nesses eventos, há também uma figura curiosa, a do país convidado, que equivale a um estratagema político, considerando, em muitos casos, a aplicação prática nenhuma dessa representatividade.

Não há aqui nenhum interesse em particularizar nossas anotações em busca de uma rejeição à própria natureza de tais eventos. Não vamos encarnar falsos personagens, vestir a carapuça, nada. Não estamos para isto. Nosso motivo condutor é evidenciar o que estamos perdendo diante do que em muitos casos já obtivemos; ao mesmo tempo em que chamar a atenção para o que podemos buscar ante um espaço imenso a ser conquistado. Evidente que tudo pode dar errado e os equívocos se aliem, por exemplo, somando a fatura empresarial dos eventos hispano-americanos à ardileza política dos correlatos brasileiros. Nada pior.

Contudo, os encontros existem, e o ambiente em tais eventos é constantemente orquestrado pelo acaso de alguns convidados, para uma face ou outra da moeda da fortuna. Em geral, a tônica é a da dispersão, todos aproveitam das graças da recepção, e pouco se efetiva em termos de um panorama cultural que está na raiz dos discursos, mas que, na prática, não vai além do intercâmbio etílico e da boa prosa. Há mesas de debate, sim. Mas são montadas de maneira que atendem mais à logística quantitativa do evento do que a um frescor de interlocuções. E falta essencialmente a figura do mediador. Muito se perde por esta ausência. Ali estamos todos, mas sempre voltamos ao restaurante do hotel. Entre uma bebida e outra há conversas inteligentes que aclaram alguns aspectos culturais, os mesmos que são travados quando se abrem as cortinas e está dada a palavra oficial a cada convidado. Chega a ser patético, mas sabemos o circo de pulgas que habita cada poeta em nosso tempo. Somos uma bomba-relógio. Há que saber detoná-la.

Evidente que os eventos se diversificam, que refletem dilemas peculiares e se distinguem entre si, que se mostram como trama política para assunção eleitoral de alguns governos, ou para a manutenção de estratégias empresariais. Não se trata aqui de discutir o mérito dessas explorações, mas antes destacar aspectos que, de tão claros, já poderiam ser evitados. Os próprios poetas convidados poderiam ajudar neste sentido, por mais que a mordomia de determinadas instâncias falseie uma vida à qual jamais tiveram acesso. A verdade é que há muito dinheiro envolvido em tudo isto. Há uma aplicação política para tais investimentos. Com resultantes de ordem distinta, claro. Mas nos parece que o acaso requer bênçãos que não lhes são dadas. E os poetas bebem e bebem e bebem. Eis como tudo no mundo se torna tão fácil.

Os editores

sumário

1 a palavra poética de carlos nejar [entrevista]. álvaro alves de faria
2 a vertigem da cidade de afonso henriques neto [entrevista]. floriano martins
3
best-sellers & ocultismo: política e seitas secretas, do iluminismo até dan brown. claudio willer
4
candido portinari: retrato do brasil. jacob klintowitz
5
cecilia mattos: el destino es el viaje [entrevista]. tatiana oroño
6
floriano martins: ir al desgaste de todo [entrevista]. franklin fernández
7
jaimes freyre: agua poética para borges. gary daher canedo
8 juan calzadilla: no hay más que lo que uno no encuentra [entrevista]. víctor rodríguez núñez
9 la mariposa de brodsky. víctor toledo
10
la novela policial escrita por mujeres en chile. daniela aspeé venegas
11
la seducción de las palabras. thelma nava
12 liduíno pitombeira
: duas russas, entre três américas e um prêmio [entrevista]. luciana gifoni
13
nadja (1928), de andré breton: atracción demencial de la piedra imantada. carolina a. navarrete gonzález
14
pablo valarezo: el marimbero de la mitad del mundo para todo el mundo [entrevista]. edwin madrid
15
panorama da dramaturgia brasileira. paula valéria andrade

artista convidado luis manuel serrano (méxico) [la realidad y el sueño en cajas. josé ángel leyva]
resenhas livros da agulha
l alex galeno [por claudio willer] l antonio bivar & sam kashner [por claudio willer] l carlos felipe moisés l eduardo langagne [por juan domingo argüelles] l eliseo diego [por julio bolívar] l floriano martins [por luis fernando cuartas] l heliodoro baptista [por teresa sá couto] l roberto piva [por maria estela guedes] l rodrigo petronio [por mario dirienzo] l rosa alice branco [por mario dirienzo] l ulises estrella [por floriano martins] l víctor toledo [por david cortés cabán]
música
discos da agulha
l carlos malta l dimos goudaroulis l grupo syntagma l marco morel [por pablo reyes] l marcos ariel e tigres da lapa l marcos valle e victor biglione l miguel briamonte l pablo valarezo l telma tavares l zarabatana
cumplicidade galeria de revistas
l decir del agua [estados unidos] l tse-tse [argentina]

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(
estados unidos)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
jo
sé ángel leyva (méxico)
josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidado (objetos & colagens)
luis manuel serrano

apoio cultural
jornal de poesia

banco de imagens
acervo edições resto do mundo

os artigos assinados não refletem necessariamente o pensamento da revista
agulha não se responsabiliza pela devolução de material não solicitado
todos os direitos reservados © edições resto do mundo

escreva para a agulha
floriano martins (florianomartins@rapix.com.br)
Caixa Postal 52874 - Ag. Aldeota
Fortaleza CE 60150-970 Brasil
claudio willer (cjwiller@uol.com.br)
Rua Peixoto Gomide 326/124
São Paulo SP 01409-000 Brasil

ÍNDICE GERAL RETORNO PORTAL BANDA HISPÂNICA JORNAL DE POESIA

.

procurar textos