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revista
de cultura # 46 |
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artista convidado: vicente do rego monteiro |
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Vicente do Rego Monteiro: presentes retinianos Carlos Perktold
Enquanto esses intelectuais permaneceram no Partido, sempre
se mantiveram também em posições privilegiadas nas editoras, editorias
e em postos de governo, decidindo os rumos de publicações em livros ou
artigos em jornais, exposições, encaminhamento de artistas e os prêmios
nas artes plásticas, formando a opinião pública. Os integrantes do
Partidão jamais apoiaram pessoas sem talento, mas, por interferência
emocional e política, em ocasiões nas quais deveriam prevalecer o
engenho do artista e a beleza das obras, deixaram e/ou não permitiram que
se premiassem artistas talentosos e importantes. Aluisio Valle, pintor
fluminense de Paraíba do Sul, era “de direita” e, por isso, até hoje
suas belas marinhas continuam desvalorizadas no incompreensível mercado
de arte.
A grande tragédia biográfica de Rego Monteiro é que ele
viveu na época em que o marxismo imperava nos meios culturais e ele
insistia em ser de direita. Mais do que isso. Era monarquista. Jamais
abriu mão de suas convicções anacrônicas e cometia o sacrilégio político
de escrever manifestos a favor daquilo em que acreditava e, num pequeno
prelo manual criado por ele mesmo e no qual imprimia também suas
monotipias, tirava centenas de cópias dos panfletos e os distribuía nas
ruas de Recife, irritando e provocando o ódio de todos. Foi o grande azar
de Vicente. Foi a má sorte do Brasil. Este é o registro histórico
lamentável para a esquerda que não teve a grandeza de separar o ideólogo
do artista. Vale insistir: os esquerdistas não concordavam com as suas idéias
políticas ultraconservadoras, detalhe que é tabu biográfico. Na maioria
dos textos sobre a sua vida, esse assunto aparece como um diáfano pano de
fundo. E é também tabu histórico a ojeriza que a esquerda lhe devotava.
É oportuno registrar que, passados os melhores tempos de
sua vida em Paris, no meio do mais efervescente vanguardismo – de 1922 a
1932 e de 1947 a 1957, além do período de 1960 a 1964 – teve a sua
obra reconhecida e projetada na capital francesa, participando de
importantes exposições. No Brasil, ocupou posição de realce no
movimento modernista, tendo apresentando dez quadros na Semana de Arte
Moderna. Na ocasião, Graça Aranha afirmou: “a remodelação da Estética
no Brasil é iniciada na música de
Villa Lobos, na escultura de Brecheret e na pintura de Di Cavalcanti,
Anita Malfatti e Vicente do Rego Monteiro”. Em 1930, Rego Monteiro trouxe a Escola de Paris com vários
de seus integrantes para expor trabalhos em Recife, São Paulo e Rio.
Picasso estava entre os expositores e os dois tinham convivência na
Europa. A exposição foi um fracasso nas três cidades porque o
modernismo só seria aceito no Brasil a partir de 1950, mas é possível
que parte daquele malogro se deva ao nome Rego Monteiro envolvido na promoção.
Seis anos depois, ele insistia na sua autodestrutividade e chamava os
trabalhos do artista espanhol de “oportunista, especulativo, anárquico
e de esquerda”, provocando novas inimizades e rompendo com parte dos
cubistas parisienses.
A recusa comprova que o pernambucano não aprendia com o
passado, insistia numa escola ideológica ultrapassada e, por isso, não
mudava o seu futuro no Brasil. São esses os motivos de sua ausência na
lista dos artistas escolhidos para o Prêmio de Viagem ao Exterior,
garantido pelo Salão Nacional. Qualidade nunca lhe faltou para recebê-lo.
Vicente ganhou, ao longo de sua vida, apenas dois prêmios estaduais de
pintura em concursos secundários. Morto em 1970, é hora de esquecermos a
sua ideologia e louvá-lo naquilo que teve de melhor: pintor e poeta. Como pintor Vicente começa cedo, incentivado pela mãe e
trilhando o caminho natural dos talentosos: o aprendizado da técnica do
desenho aprimorado, a simplicidade do traço até chegar na segurança de,
com três ou quatro linhas, sugerir uma figura humana; pintura de
retratos, paisagens, naturezas-mortas e abstratos. É possível que Rego
Monteiro seja o mais original dos pintores brasileiros, cujo ingresso
definitivo na pintura ocorre em 1922, aos vinte e três anos de idade.
Nessa ocasião, assimila o cubismo e o adiciona ao barroco colonial,
representado pela quase permanente simetria de suas composições,
resultando numa extraordinária forma, surgida através dos matizes
inspirados na arte indígena e na cerâmica marajoara. Todo este conjunto
de detalhes formou o belo, estranho e misterioso escorço nas composições
equilibradas, provocador de imediata paixão pictórica, um presente para
as retinas. Sua técnica apuradíssima resultava também em trabalhos
imaculados, tão marcante era a sua limpeza. Mas não é somente a forma
que encanta o espectador. Com freqüência seus quadros representam temas
religiosos, e apenas Raimundo de Oliveira ganha dele neste conteúdo: são
cenas bíblicas, crucificações, via sacra, santa ceia, animais e muitas
figuras humanas. Surpreendentemente para um monarquista, há uma preocupação
social quando pinta operários, vaqueiros e pessoas em trabalhos duros e
humildes, calceteiros, cambiteiros,
carroceiros ou aguardenteiros.
Vale dizer, sua arte soube conciliar a plasticidade, a
harmonia e o lirismo da forma, adquiridos pela experiência francesa com o
ritmo inspirado na primitiva decoração indígena, que ele tão
profundamente estudou. Na década de 1960, seu atelier
foi invadido por extremistas em Brasília e, com dificuldades financeiras,
pinta e expõe a sua confissão autobiográfica na tela “Solidão”,
sentimento ou estado de quem havia percorrido um caminho brilhante e se
sentia isolado frente a um país cujos compatriotas ainda o
desvalorizavam. Suas poesias foram escritas na maturidade da
vida e lhe serviram como um temporário descanso da pintura,
tornando-se um refúgio intelectual do artista. Ganhou os prêmios de poesia “Mandat des Poètes”, em
1955 e o "Guillaume Apollinaire”, em 1960, ambos na França, país
que nunca lhe perguntou pelas suas preferências políticas. A análise
delas pode ser comprovada no belo livro Vicente
do Rego Monteiro, um brasileiro da França (Editora Mackenzie, 2004)
no qual a escritora paulista Maria Luiza Guarnieri Atik expõe com
delicadeza e sensibilidade a beleza de seus versos. Mas não foram essas suas únicas atividades. Vicente foi
figurinista, jornalista, diagramador, costureiro, mecânico e piloto de
corridas automobilísticas, dançarino, editor, tipógrafo, fazendeiro e
tradutor. Foi casado com francesa e teve mansão em Montparnasse, mas
quando morou em Recife, durante a Segunda Guerra Mundial, negligenciou as
leis do país que o adotara e não pagou os impostos da bela residência,
obrigação cumprida pelo
inquilino parisiense. Terminada a guerra, este reivindicou e conseguiu na
justiça a posse da propriedade, pagando uma ninharia como indenização
para o casal. Artistas, poetas, escritores ou intelectuais talentosos de
direita sempre foram incômodos porque sabemos que o que é bom fica e,
respaldo pelo radicalismo político que um dia termina,
chega o momento em que a inevitável pergunta, contida no título
do livro de Affonso Romano de Sant´Anna sobre o
poeta e também direitista, é feita: O
que fazer com Erza Pound? Parafraseando o poeta mineiro, o que fazer
com Rego Monteiro? No caso do pernambucano é a hora em que ante tanta
misteriosa beleza e originalidade de suas obras a resposta é:
garantir-lhe a imortalidade. |
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Carlos Perktold (Brasil, 1943). Ensaísta e crítico de arte. Autor de Ensaios de pintura e de psicanálise (2003). Integra o Círculo Psicanalítico de Minas Gerais e as Associações Brasileira e Internacional de Críticos de Arte (ABCA e AICA). Contato: perktold.bh@terra.com.br. Página ilustrada com obras do artista Vicente do Rego Monteiro (Brasil). |
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