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revista
de cultura # 46 |
livros da agulha
"A
obra de Ana Hatherly", explica Floriano Martins, "mostra que sua
voragem investigativa define-se pela criação de entidades e que não
busca senão a visceralidade da escrita". A poeta defende que sua
obra pretende mostrar o grafismo da escrita ocidental, posta em confronto
com a escrita oriental e que, para mostrar as suas modulações, teve de a
tornar ilegível. Como ela mesma a define, "A Idade da escrita é a
minha idade, mas também é a idade da escrita no sentido de, como se
diz, a Idade da Pedra, a Idade do Bronze: corresponde a uma era, a um eon,
mas também a um sentimento do fim de uma era". Doutorada
em Literaturas Hispânicas na Universidade da Califórnia, em Berkeley
(Porto, 1929), catedrática da Universidade Nova de Lisboa e especialista
do barroco, Ana Hatherly - que lançou recentemente O Pavão Negro
(Assírio & Alvim) e Itinerários (Quasi) –, investiga, há
mais de 40 anos, o conceito de escrita, nas suas diversas formas: é
poeta, pintora, ficcionista, realizadora, ensaísta, integrando-se na
corrente experimentalista dos anos 60. Abriu-se, todavia, a outros
caminhos. O Mestre (1963), Eros Frenético (1968), Anagramático
(1970), Tisanas (1977), são obras únicas da literatura
portuguesa, bem como é singular a sua exploração da visualidade do
texto.” [da entrevista
cedida a Ana Marques Gastão, constante na antologia].
"A
obra de Cruzeiro Seixas", explica Floriano Martins no prefácio desta
edição, "está ligada intrinsecamente ao Surrealismo, a esta 'vida
de imaginação', a este 'certo poder de repulsa e de obstinação'.
Trata-se de uma poética de provocação de si mesma, de desafiar-se ao
chafurdar no lodaçal da própria existência, desafiar-se a mostrar onde
se ocultam o mistério e o erotismo que anunciam as imagens que saltam
magicamente de seus versos". Nas
palavras do poeta Cruzeiro Seixas: "Sei que sou uma figura que fica
no limiar das coisas. Para lhes não quebrar o encanto! Conheço os meus
limites; este limiar é a minha mais longa viagem. E pergunto: haverá
algo para além do limiar das coisas? […] Nunca chamei sobre mim outro
peso de responsabilidade que não este, de me reconhecer como um erro, o
que já não é pouco para as minhas forças. Erros meus, mas erros que são
a minha própria obra. Homenagem
à realidade
traz, ainda, cartas de Cruzeiro Seixas a Floriano Martins. Cruzeiro
Seixas nasceu em 1920, em Portugal. Pintor respeitado na Europa,
predominantemente surrealista, viajou por vários anos pelo continente
africano, chegando a morar em Angola, onde escreve seus primeiros poemas,
em 1952. Promoveu exposições na Alemanha, Bélgica, Brasil, Canadá,
Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Inglaterra, México e Portugal.
Em 1999, doa a totalidade da sua coleção à Fundação Cupertino de
Miranda – Centro de Estudos do Surrealismo. Colabora nas revistas
surrealistas Brumes Blondes (Holanda), La Tortue-Lièvre (Canadá),
Derrame (Chile) e nas francesas Infosurr, Phases e Ellebore.
Herberto
Helder, considerado um dos maiores poetas portugueses deste século, chega
ao Brasil com um dos seus mais singulares trabalhos. Neste mês, a Azougue
Editorial lança Os passos em
volta, considerado um clássico da literatura portuguesa contemporânea.
A obra é uma reunião de pequenas narrativas, muitas delas numa linguagem
que se aproxima da prosa poética. Os contos refletem a busca do autor por
um olhar em relação ao mundo, o que torna o livro mais pessoal do que
autobiográfico. No
ano de seu lançamento em Portugal, 1963, a obra foi imediatamente vista
como transgressora. Situada na tênue linha entre prosa e poesia, a
primeira tentativa como contista permanece, até hoje, como um caso único
na literatura portuguesa. Sua técnica narrativa e linguagem ainda são
consideradas vanguardistas. A transgressão da gramática e o aparente
fluxo de pensamentos ou a livre associação de idéias são, na verdade,
fruto de um trabalho consciente de um dos maiores artesãos da língua
portuguesa. A evidente influência surrealista é bagagem da ligação,
embora efêmera, de Helder com o grupo do Café Gelo, na Lisboa de 1950,
do qual também faziam parte escritores como Mário Cesariny e Luiz
Pacheco. A
tentativa de desconstrução da realidade pode ser encontrada em diversos
textos de Os passos em volta. Em Teoria
das cores, o autor relata a experiência de um pintor que, ao tentar
reproduzir as cores de um peixe na tela, percebe que o animal está
sofrendo uma mutação: “o problema do artista era que, obrigado a
interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia
que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava”. Assim como o pintor
do conto, Helder prefere transcrever a sua realidade, sob o seu ponto de
vista, ao invés de tentar entender um mundo em constante processo de mutação.
Nascido
em 23 de novembro de 1930, Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira é
natural da Ilha da Madeira. Aos 15 anos, foi estudar em Lisboa, onde vive
atualmente. Não
é tarefa muito fácil se destacar na terra de Fernando Pessoa e José
Saramago. Mas, Herberto Helder tem seu talento reconhecido e, agora, também
pode ser comprovado pelos brasileiros. Ele é possivelmente o mais
original e importante poeta vivo de Portugal, tendo estreado com o livro A colher na boca, em 1958. Mais recentemente, em 1994, publicou Do
mundo, obra pela qual recebeu o Prêmio Pessoa. Entretanto, devido ao
seu comportamento recluso, preferiu não receber a homenagem. Além disso,
também recusou uma premiação do Pen-club de Portugal, em 1982, pelo
livro "A cabeça entre as mãos" e, em 2000, foi
poeta-homenageado no Salon du Livre da França, mas também não
compareceu. Pelo estilo de vida discreto e pela intensidade de sua obra,
Herberto Helder é considerado por muitos críticos o “poeta mítico”
da atualidade portuguesa.
A
poesia de Ivan Junqueira aparece neste livro reunida não de forma
integral, mas sim como coletânea que resgata muito do que ficou de fora
de edições anteriores, além de poemas inéditos de sua produção
recente. É o próprio autor quem garante, para alegria dos amantes da
poesia, que sua produção permanece incompleta, visto que ele pretende
continuar a criar seus poemas e produzi-los até que seja possível.
Dos
textos, un mismo ciclo. Vías paralelas, la cotidianidad y su vuelta de
mirada para encontrar la memoria urbana, el tránsito real y sostenido del
mundo visible, su representación, y, luego, el mito con sus vértigos, lo
cual supone a un “iluso y sospechoso de herejía de los iluminados”,
apostilla que nos hemos ganado los poetas, grabada por la Inquisición a
nuestro San Juan de la Cruz Es
todo cuanto como autor puedo señalar. Fatalmente, la escritura sigue
siendo un estado problemático de la lengua: es un asunto dialógico. Y
toda explicación unilateral borra las proximidades y las anula. El
lector, incluso el lector desprevenido, que se acerca a las palabras, es
marcado por ellas instantáneamente, él no lo sabe; no comprende por qué
aparecen visitas inopinadas en sus sueños. Vuelve en las mañanas a ver
las cosas como la naturaleza las ha ofrecido siempre, sin desgaste, enseñoreándose
sobre la perspectiva, y, sin embargo, su mirada ya no es la misma, y la
vida comienza a dar volteretas entre recuerdos difusos. Este es su primer
y definitivo encuentro con la poesía. Sin
embargo, quisiera alentar (como hacemos los amigos con la confianza que
nos dan las circunstancias, aquella ante la cuales nos prevenía Horacio:
“Mientras hablamos habrá huido, envidioso, el tiempo. Goza el hoy; mínimamente
fiable es el mañana”) desde las pocas convicciones con las cuales nos
saluda el siglo XXI, el fervor por la vida, ante los espejos negros de la
noche, un punto de luz será suficiente para un nuevo amanecer. Leucónoe
pudo haber vivido la expectación del Carpe Diem. No estamos seguros, como
tampoco nosotros de haberlo cumplido en estas seis décadas de existencia.
Séneca marcó con gran estilo la inconveniencia de esperar una avanzada
edad para comenzar el disfrute de la vida. En fin, ante una existencia
noblemente transitada, las gorduras y vinos de una vida placentera no la
encorvan ni la arredran. Estos
poemas que hoy compartimos necesitan, por lo menos, informar su mensura,
no sus razones que no las tienen. Vocales
de ceniza son acopios citadinos de conversas con variada gente con la cual
me he topado en los caminos. Son frases sueltas, epítetos, silencios que
han venido acechándome; incluso, sonidos imprevistos, olores, intuiciones
que no han querido mudarse y persisten como signos lacrados en la memoria,
y, aunque parezca ingenuo por el lugar común de escuchar a los pájaros,
debo confesar que me agradan sus conversas. Puedo creer que nuestras
cuerdas vocales, tuvieron sus primeros maestros en esos seres alados y,
por qué no decirlo, tantos libros que se han quedado conmigo a lo largo
de los años, impertérritos, ajenos a las veleidades y al acoso de los días,
siempre como un bálsamo fluyente cubriéndome con amorosa constancia. La
canción de Pirra es una imagen muy lejana, que a ratos desde su opacidad
emite destellos para no dejarse acallar por la razón. La mitología nos
dice que los dioses decidieron exterminar a los hombres por causa de sus
irremediables conductas disolutas y heréticas, costumbres sólo
reservadas a los dioses. Eso ocurrió en la edad de bronce. Un diluvio
(parecido al de Noé) limpió a la tierra. Sólo se salvaron Deucalión y
Pirra, gracias a la expedita atención de Epimeteo, padre de aquel, y a la
inteligencia de Pirra que pidió a Deucalión ofrecer un sacrificio a los
dioses. Agradó tanto a Zeus esta ofrenda que les permitió vivir y formar
una nueva humanidad. Tomarían piedras de los caminos para lanzarlas sobre
sus hombros hacia atrás. Las piedras que lanzaba Pirra, se convertían en
mujeres, las de Deucalión, en hombres. ¿Qué queda de esos griegos, en
el alma de los hombres y mujeres de nuestro tiempo? Se
dice, no sin cierta verdad proporcional a su locura, que los poetas
(incluso los más prosaicos) tienden a cifrar sus versos, en una especie
de criptografía ineluctable para ellos mismos; pues bien, la certeza nos
lleva a un sentido inverso: los poetas no cifran, se descifran. Y como
toda traducción es una traición; incluso la que proviene de las imágenes,
sufre de la precariedad connatural a lo humano, ser huidiza y azarosa. El
mundo, los mundos posibles contestamos, sólo acaece en la intuición del
lector. Si esto fuera así, en los presentes textos, agradecería a
Horacio su arte poética, y al lector, por supuesto, el haberme hecho
destinatario de sus voces. [José
Francisco Ortiz]
Estamos ante una nueva publicación de Magdalena Chocano, poeta limeña residente en Barcelona desde hace ya algunos años, y una de las voces, desde la aparición en Lima de Poesía a ciencia incierta en 1983, más interesantes y sólidas de la nueva poesía peruana. Magdalena Chocano representa un caso muy frecuente en la poesía latinoamericana desde comienzos del s. XX, es decir, encarna la figura del poeta que nace y se forma en un lugar y vive y se nutre en otro, lejano, y ese puente que persona y obra tienden entre diferentes tradiciones y sensibilidades, esa manera envidiable de incorporación y acercamiento, tiene como resultado en este caso una mirada rica, transgresora, atrevida y hasta me atrevería a decir que limpia y nueva sobre a la hora de buscar una vía personal de expresión. Quizá sea ésta una de las razones por las que la poesía latinoamericana contemporánea encierre tantas miradas diferentes, tantos poetas responsables de una visión no compartida, única, alejada de tendencias, aunque deudoras, en la mejor forma, de las tradiciones que les preceden. Todo esto lo expongo pues a mi parecer la poeta aquí mencionada recoge en su corta e intensa obra lo mejor de esa ya clásica situación. Chocano es una poeta solitaria, su obra, bebiendo en sus orígenes de la poesía francesa desde el XIX hasta las vanguardias y de la norteamericana e inglesa, se une de manera espléndida a una larga lista de excelentes primeras figuras peruanas que hacen de ese país una reserva de la mejor creación actual. No hay más que adentrarse en el rico panorama peruano para encontrar poetas excelentes, poetas que si se mira, no comparten apenas presupuestos, si no es la excelencia en su trabajo. "Contra
el ensimismamiento" ya desde su título apuesta por una poesía
depurada, que va al centro de la emoción mediante una severa depuración
de toda facilidad. La poeta investiga por el camino difícil, el más
desolador, el menos complaciente, a veces permitiendo que el
ensimismamiento haga su efecto descubridor, y se nota que cuando nos
acercamos a momentos en que la palabra o el concepto se adentran por la
senda sublime, de inmediato la línea se tuerce, buscando siempre el
alejamiento, el retiro, la enorme distancia que exige el placer como
verdadero arte, sentido, vida vivida. Esta
atención suprema, esa tensión nerviosa, diría, produce la rara certeza
de estar ante la obra de un creador auténtico. Todo responde a una verdad
necesaria, nada sobra, nada falta, y el poema encierra la emoción
pequeña de las grandes ocasiones. Esta
atmósfera arqueológica casi, atemporal, detenida, donde se inserta el
pensamiento como un arañazo del ser, como un accidente liviano, y que a
la vez separa a cada ser de su semejante. Esta atmósfera visionaria se va
expresando siempre por los límites del lenguaje, llevando el sentido y el
poder de nombramiento hasta los extremos hasta poderse comparar con el
poder de la profecía. El lenguaje crea y descubre lo oculto dentro de
nuestro espíritu, saca a la luz lo que queda bajo el peso de lo
cotidiano, el peso de los actos y el fondo del pensamiento racional para
sacar a la luz lo que brilla como esquirlas, como una brasa, y que es el
verdadero secreto del gozo, lo sorprendente, que se nos revela. Magdalena
Chocano, cuando escribe: "cuerpo / ceniza mía ya acaecida / y
mientras tanto / el alfabeto solemne como un río desbordándose hacia el
crepúsculo" se adelanta a los acontecimientos, nos hace sentir el
poder liberador de la
palabra, por lo tanto, hurga y se trata con los misterios destellantes de
la poesía. [Rodolfo
Häsler]
As
Elegias Urbanas de Marco Vasques buscam recuperar
contemporaneamente um lirismo hoje ausente, que é próprio dessa forma
poética, marcada pelo tom de lamento triste, e que foi muito explorada no
Brasil no pós Segunda Guerra Mundial, principalmente por poetas como
Cecília Meireles e Murilo Mendes, inspirados na repercussão fabulosa
obtida por Rilke com sua obra poética e principalmente com as Elegias de
Duíno. O tom apocalíptico característico nesses poetas
ainda ecoa de forma sutil nestas Elegias Urbanas, assim como uma bomba
atômica, envergonhada, é certo; porém o que mais resplandece nelas, e
é esse seu maior acerto, é o registro desencantado mas ao mesmo onírico
e surreal da vivência urbana contemporânea. Ressalta uma das elegias que
“o perfume da última bomba atômica/ cometeu suicídio por sentir
vergonha”, notícia que deveria ser comemorada não fosse a anestesia
absurda e nauseabunda que se pressente e expressa na alteridade dessa voz
poética. É nela que se constata que o sentimento apocalíptico subsiste
de forma pulverizada em todos os humanos, “carregando armas/ nos
portamalas// e a bagagem que nos sobra/ são metais agudo asfalto/ faixas
prédios advertências/ placas ossos vozes e verbos/ que ressoam no
ouvido”. Nas elegias de Vasques evidencia-se que o potencial de
destruição do humano se miniaturizou e se pulverizou, resultando num
sujeito cindido e agônico que busca uma univocidade, constatada possível
somente através da linguagem. Solidão, miséria, vazio, falta de sentido
para a vida, o amor controlado pela assepsia dos laboratórios e a sombra
do suicídio rescendem dos poemas denotando o que é contemporaneamente a
existência urbana nas grandes cidades. A vida urbana, em sua rotina,
padece amputada de experiências e de ritos que lhe dêem sentido,
situação que causa anestesiamento e o espanto de se descobrir “ainda a
respirar”, após apalpar-se a face no espelho e auscultar-se num
estetoscópio. Em lugar do homem o que há é um espantalho oco e as
Elegias Urbanas de Marco Vasques, em sua vitalizante negatividade, vão
contra a barbárie
e assinalam a única positividade possível à arte, epigrafada por
Maiakóvski num dos seus poemas: “Que a terra gema em sua mole
indolência:/ Não viole o verde das minhas primaveras/ Mostrando os
dentes, rirei ao sol com insolência:/
No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!” Nesse cenário, portanto,
essas elegias são uma afirmação de uma experiência sensível,
recuperada na poesia, a se colocar contra o estado de coisas que submete o
humano à coisificação e à numeração desde sempre rotineiras.
Plangentes, essas elegias expõem a finitude como uma onipresença
desanestesiante – “o cemitério é aqui e ali/ na estrada rua casa/
retrato na parede foto/ lembrança objeto guardado/ beijo abraço noite de
sexo” - e foram escritas para lembrar que a vida está ao alcance da
mão de cada um, à flor da pele. [Ademir
Demarchi]
Hasta
no hace mucho tiempo atrás, la información referida a la literatura
brasilera era tan escasa y restringida en nuestro medio, que cualquier
estudio que quisiera realizarse sobre ella debía partir de dos premisas
fundamentales: la primera, la de luchar contra esa visión folclórica e
inexacta que solemos tener en argentina de ese país: Brasil, el país del
“carnaval” y la dolce vitta.
La otra --más ideológica, quizá--, la que se nos machacó en los años
de la dictadura con autores propios
de color local y el típico
tropicalismo del Boom
latinoamericano: de José Mauro de Vasconcelos a Jorge Amado. Sin
duda, en estas miradas se infiere la reductora visión de
"turista" que suele traer el argentino de las playas de aquél
país. Brasil es un cosmografía cuya diversidad, complejidad y densidad
disuelven cualquier intento de acercamiento rápido. Por eso, nuestro
recorrido a modo de un verdadero panorama
sobre la literatura de Brasil intenta sobreponerse a la mirada turística,
somera, despojada de todo rigor. ¿Cómo abordar lo inconmensurable?
¿Sobre qué poeta, sobre qué narrador, sobre qué autor fijar la mirada?
¿Sobre los más canónicos, o los desconocidos? ¿Quién, quiénes son
canónicos en Argentina? ¿Quién quienes son desconocidos? Cualquiera
fueran las respuestas a estos interrogantes, al realizar este panorama
enfrentamos el riesgo de dar respuestas inapropiadas, incompletas. La
impropiedad radica en no ver que en un panorama
de este tipo no se puede abarcarlo todo. En función de estas premisas
generales, y de sus implicancias particulares, decidimos que era necesario
que este panorama fuera el
resultado de un cruce entre la mirada de especialistas académicos y
periodistas, donde el ensayo y el reportaje se conjugan para presentar
autores, voces y obras de una literatura, tan extensa como la vastedad de
su territorio. Sin embargo, allí no termina nuestro proceso de mestizaje:
también hemos intentado conjugar las voces de aquí y de allá. En este panorama
participan académicos y periodistas brasileros, pero también
académicos, traductores y periodistas de nuestro país. Es un intento de
hacer dialogar del lado de allá y del lado de acá, las voces de la gente
que hace, piensa y siente la literatura. Este
primer Panorama de la Colección
Literaturas de Ediciones Recovecos dedicado a una literatura de
Latinoamérica no vería hoy la luz sino se hubieran involucrado amigos de
Argentina y de Brasil, sino hubiera surgido de ambas márgenes una genuina
generosidad y una tenaz paciencia hasta su edición. Estoy seguro que como
todo trabajo en el campo de la difusión este panorama
tiene ausencias y faltas, pero creo que fue hecho con la intención de
difundir, de dar a conocer al un público lector de del interior del país
no sólo las voces de la literatura contemporánea sino su trazo
histórico, su tradición, sus herencias. Como lo podrán apreciar, no
hemos puesto ni una sola línea de Rubem Fonseca, uno de los autores más
populares del Brasil, galardonado el año pasado con el Premio Rómulo
Gallegos y reconocido en todo el mundo como uno de los escritores más
interesantes de la literatura brasilera contemporánea. Tampoco hay, una
sola línea sobre quien fuera uno de los poetas más importantes de los
últimos 30 años, Haroldo de Campos, muerto menos de un año atrás.
Ellos no necesitaban –estamos convencidos-- de nuestro espacio; nuestras
páginas no le agregan ni le quitan nada a sus excepcionales obras. En
contra partida sí, –creemos--, nuestro panorama
le lleva a nuestros lectores una amplia información sobre esa maravillosa
literatura brasilera que es algo más que una inmensa estepa verdeamarela. [Carlos
Gazzera]
A
professora Lúcia Maria Teixeira Furlani é, hoje, a maior especialista na
obra e na vida de Patrícia Galvão (1910-1962), a Pagu, musa do Movimento
Antropofágico, que foi casada com Oswald de Andrade (1890-1954) e Geraldo
Ferraz (1905-1979). Depois de lançar em 1999 Pagu – Patrícia
Galvão: livre na imaginação, no espaço e no tempo (São Paulo,
Editora Unisanta), que já está em quinta edição, publicou em 2004 Croquis
de Pagu e outros momentos felizes que foram devorados reunidos (São
Paulo, Editora Cortez/Editora da Unisanta) em que organizou desenhos
produzidos pela artista entre 1929 e 1930. Além
disso, desde 18 de maio, por iniciativa da autora, está no ar o site
www.pagu.com.br que reúne artigos, poemas, dados biográficos, trechos de
livros e muitas fotografias de Pagu. Também foi lançado nesse dia, na
Universidade Santa Cecília (Unisanta), em Santos, o Centro de Estudos
Pagu que tem por objetivo resgatar a memória de Patrícia Galvão, além
de preservar e difundir a cultura brasileira. Organizado
por Lúcia Teixeira com a colaboração de Rudá de Andrade, filho de Pagu
com Oswald de Andrade, e da jornalista Leda Rita Cintra Ferraz, Croquis
de Pagu tem prefácio do jornalista e crítico de livros e cinema
Geraldo Galvão Ferraz, filho da homenageada com Geraldo Ferraz. No
prefácio, Galvão Ferraz diz que a mãe foi “trágica sobretudo, mas
foi engraçada, palhaça até”. E lembra que ela foi, também,
“militante, intelectual, feminista, filha, mãe, mulher, amante, amiga,
inimiga, política, romântica, doce, pimenta, gim-tônica com limão,
flor e espinho, irreverente, desbocada, lírica e expressiva”. Já
para a organizadora, Patrícia Galvão, sem fazer carreira artística, foi
“uma personalidade rara, rebelde e inovadora na vida, na arte e na
cultura, em todos estes domínios: jornalismo, poesia, romance, desenho,
crítica de artes, política militante, dissidência política”. O
livro reúne 22 desenhos do Caderno de Croquis de Pagu, a maioria
dos quais possui legendas do próprio punho da artista. Traz também o Álbum
de Pagu, produção pertencente ao mesmo período do Caderno,
quando ela emergiu no Modernismo, mais precisamente na Antropofagia, sob a
influência de Oswald e da pintora Tarsila do Amaral. O movimento da
Antropofagia, alegoricamente, baseava-se no exemplo dos índios caetés
que devoraram o padre português Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo
do Brasil, no litoral de Alagoas em 1556, depois de um naufrágio, para
argumentar que o intelectual brasileiro deveria, primeiro, digerir as
idéias européias para, depois, produzir suas próprias criações. Seu
veículo de expressão foi a Revista da Antropofagia, de 1929. Os
desenhos do Caderno de Croquis de Pagu, um tanto ingênuos, ficaram
guardados por 75 anos com o filho de Patrícia Galvão, Rudá de Andrade
que, em 2001, dirigiu com Marcelo Tassara um documentário baseado no
livro Pagu — livre na imaginação, no espaço e no tempo, de
Lúcia Teixeira, e, por isso, com o mesmo título. Já os desenhos do
Álbum de Pagu haviam sido publicados por Augusto de Campos em Pagu:
vida-obra (São Paulo, Brasiliense, 1982). Patrícia
Rehder Galvão, nascida em São João da Boa Vista, interior do Estado de
São Paulo, foi jornalista,
escritora, animadora cultural e militante política. Como jornalista,
trabalhou no Diário da Noite, A Fanfulla, Diário de S.Paulo, Correio
da Manhã, A Tribuna, de Santos, e Agência France Presse, em São
Paulo. Publicou
os romances Parque Industrial (edição da autora, 1933), sob o
pseudônimo Mara Lobo, considerado o primeiro romance proletário
brasileiro, e A Famosa Revista (Americ-Edit, 1945), em
colaboração com Geraldo Ferraz. Parque Industrial foi publicado
nos Estados Unidos em tradução de Kenneth David Jackson em 1994 pela
Editora da University of Nebraska Press. Seus
contos policiais, escritos sob o pseudônimo King Shelter e publicados
originalmente na revista Detective, dirigida pelo dramaturgo Nelson
Rodrigues (1912-1980), foram reunidos em Safra Macabra (Livraria
José Olympio Editora, 1998). Em 1950, candidata a deputada estadual pelo
Partido Socialista Brasileiro, sem ter sido eleita, publicou em edição
própria Verdade & Liberdade, panfleto de propaganda política
em que denuncia os totalitarismos comunista e fascista, defendendo um
socialismo democrático. Como
animadora cultural, revelou e traduziu grandes autores até então
inéditos no Brasil como James Joyce, Eugène Ionesco, Arrabal e Octavio
Paz. Teve um trabalho marcante como incentivadora do teatro amador,
especialmente em Santos. Finalmente, como ativista política e membro do
Partido Comunista Brasileiro, combateu a ditadura de Getúlio Vargas,
o que lhe valeu 23 prisões. Depois, deu a volta ao mundo, sozinha,
como correspondente de jornais. De passagem pela China, obteve as
primeiras sementes de soja que foram introduzidas no Brasil. Ao visitar
Moscou, desiludiu-se com o comunismo soviético, rompeu com o PCB,
passando a defender um socialismo de linha trotskista. Lúcia
Teixeira reproduz em seu livro um trecho do panfleto Verdade &
Liberdade em que Pagu diz: “(...) Dos vinte aos trinta anos, eu
tinha obedecido às ordens do Partido. Assinara declarações que haviam
entregue, para assinar sem ler (...). Mas, não haviam conseguido destruir
a personalidade que transitoriamente submeteram. E o ideal ruiu, na
Rússia, diante da infância miserável das sarjetas, os pés descalços e
os olhos agudos de fome. Em Moscou, um grande hotel de luxo para os altos
burocratas. Na rua, as crianças mortas de fome: era o regime
comunista...” O
apelido Pagu foi-lhe dado pelo poeta modernista Raul Bopp (1898-1984),
autor de Cobra Norato, que imaginou
que seu nome fosse Patrícia Goulart. Mas ela mesmo inventou muitos
pseudônimos para si, como Zazá, Gim, Solange Sohl, Mara Lobo, Pat, Pit e
Leonie. O
cinema brasileiro já homenageou Pagu várias vezes: além do
documentário de Rudá de Andrade, há o filme Eternamente Pagu,
dirigido por Norma Benguell, no qual ela foi interpretada por Carla
Camurati. Patrícia Galvão aparece também no filme O Homem do Pau
Brasil, de Joaquim Pedro de Andrade, e foi tema do documentário Eh,
Pagu!, Eh!, de Ivo Branco. Lúcia
Teixeira lembra ainda que os anos de prisão, tortura e perseguição
deixaram muitas marcas em Pagu, o que a levou a tentar o suicídio duas
vezes — a primeira, em 1949, quando deu um tiro na cabeça, na casa do
artista Flávio de Carvalho, em São Paulo; e a segunda, em setembro de
1962, quando, diagnosticada com câncer nos pulmões, foi a Paris
submeter-se à cirurgia no Hospital Laennec. Com o fracasso da operação,
“ao antever o sofrimento e a morte iminentes, atira no próprio
peito”, escreve a autora. “Mais uma vez sobrevive”. Retornou,
então, para Santos, onde morre em dezembro. Doutora
e mestre em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade
Católica (PUC), de São Paulo, Lúcia Maria Teixeira Furlani é
diretora-presidente do Instituto Superior de Educação Santa Cecília,
que mantém a Universidade Santa Cecília. Publicou também A claridade
da noite — os alunos do ensino superior particular noturno (Cortez,
2001), Autoridade do professor: meta, mito ou nada disso? (Cortez,
2004) e Fruto proibido — um olhar sobre a mulher
(Pioneira/Unisanta, 1992). Ainda
dentro de um espontâneo processo de redescoberta de Pagu, a Ediouro, do
Rio de Janeiro, acaba de lançar Paixão Pagu — uma autobiografia
precoce de Patrícia Galvão, texto autobiográfico e originalmente
uma carta escrita pela autora ao marido Geraldo Ferraz em fins de 1940.
Pagu fala de suas relações com pais e irmãos, de seu casamento com
Oswald de Andrade, de sua militância política e de seus encontros com
Luís Carlos Prestes, Jorge Luís Borges, Eduardo Mallea, Raul Bopp,
Guilherme de Almeida e outros. O volume traz ainda textos de Rudá de
Andrade, Geraldo Galvão Ferraz, Kenneth David Jackson, cronologia e
fotos. [Adelto
Gonçalves]
¿Cómo
explicarnos la poesía de Patricia Guzmán? ¿Cómo aproximarnos a este
lenguaje cuya sensibilidad nos señala la agonía y la luz que nos alcanza
hasta ir sacudiendo lo más recóndito de nuestro ser? ¿Cómo buscar una
explicación racional a las cosas del espíritu? No de la carne, ni del
cuerpo que queda en sombría espera, sino del espíritu que se resiste
abrazado a un cielo más alto y luminoso como en aquellos versos del
[dulce] San Juan de la Cruz: “Quedéme y olvidéme, / el rostro recliné
sobre el amado, / cesó todo, y dejéme, /
dejando mi cuidado, / entre las azucenas olvidado”.
He aquí la inspiración iluminadora. Yo no rehuyo de este ímpetu
que va filtrando –guiado por esas misteriosas razones del alma- las
experiencias más hondas y conmovedoras del espíritu.
Mis ojos buscan en la confidencia de estas palabras ese cielo que
resplandece hasta revelarnos la presencia del ángel y de un cuerpo a que
asciende y resucita transformado por una experiencia que es la esencia
misma de la vida. Traspasando
los límites de todo lo que aflige, la poeta superpone a la imagen de la
muerte la plenitud del espíritu y la profundidad del amor. Y en esa
profundidad la presencia trágica de la muerte se estrella contra una
voluntad que rechaza todo signo de conmiseración.
Pues la poesía de Patricia Guzmán es como un asidero que la libra
de la peor agonía, de aquélla que nace del espíritu. Su poesía
configura el paisaje donde habita su alma, y su alma no conoce más voz
que la del ángel, y sus ojos no avizoran más cielos que la luz que
triunfa rescatando el cuerpo de la agonía que lo consume. Ya muy
elocuentemente lo ha señalado el poeta y crítico Luis Alberto Crespo:
“…la obra poética de Patricia Guzmán se nos da como una experiencia
iniciática desde el cuerpo hasta su aura, no sólo ya durante la
averiguación de un vaticinio de ángel -o esposo o amada o lo deseado y
deseante- sino en la observancia de una religión de amor, celebrada en
los sentidos, así en la vida como en la muerte…” Ciertamente, “en
la observancia de una religión del amor” que
nos sobrecoge y nos
acerca también a una experiencia desgarradora
que nos conduce a zonas más recónditas de la vida. Así vamos por
los espacios de esta poesía, como guíados por una voz que se alza
sobre los misterios del sufrimiento y con renovado ímpetu nos
dice: “Reclamo mi cuerpo / entre tanta sordera / tanta lengua en lo
oscuro” (p.19); y, más adelante: “Voy a matar mi animal / levantarme
crecida” (p. 25). Y ese
levantarse, alzarse por encima de la agonía es lo que le otorga un
sentido místico y vertical a esta experiencia
que trasciende el dolor que flagela el cuerpo para intuir, dentro de su
propia interioridad, la realidad que le afli[j]e y la llama que purifica.
Será por eso que percibimos en el ángel
y el pájaro símbolos
portadores de la brevedad y, también, de la infinitud de la vida. El
título mismo del libro, Con el ala
alta, sugiere la fragilidad y la esencia del ser encarnada en la sutil
imagen de un pájaro. Símbolo que se reitera
y se intercala con la figura del ángel. Ambos son
signos centrales y unificadores de esta experiencia. Pero ya, desde
el primer libro (De mí, lo oscuro),
el pájaro despliega sus alas como insinuando un sentimiento que produce
una dolorosa sensación: “Todo se llena de pájaros / untado de un canto
/ que no me pertenece / que crece / entre otros” (p.26), nos dice el
hablante. Y luego la imagen se intensifica: “Pájaro revuelto / de miedo
/ de duda / saltó / dio tumbos dentro de mí / que lo suelte / que hago
queja / Hago mi costumbre” (p.36).
Hay que imaginar la relación que establece la imagen del pájaro y
cómo ésta se corresponde con otros símbolos. Hay que situarse en el
centro mismo de esa imagen que nos transmite la más dolorosa experiencia
de una voluntad que persiste estremecida. Pero yo, querido lector, no
busco interpretar los recursos expresivos que con sutil destreza se
despliegan a través de esta poesía. Si bien es verdad que toda
poesía va dándonos sus claves en la lectura. En ésta la persistente
presencia del pájaro y del ángel se manifiestan como símbolos mayores a
través de todo el libro. Hay otros sugeridores de una diversidad de
interpretaciones, pero el ángel persiste como esencia unificadora. Su
presencia consiste en eliminar toda inseguridad, todo desasosiego. Su
huella queda transfigurada en el hablante poético, en el rumor de un
sufrimiento que se transluce en amorosa serenidad: “Yo me quiero ir al
país del ángel / Yo quiero saber de qué se alimenta / Yo quiero limpiar
su casa / El ángel no habla / El ángel canta para mí si los pájaros y
mis hermanas se callan…” (p. 80). Este es un lenguaje que rompe
nuestra concepción de la realidad y nos hace sentir el triunfante
esfuerzo de quien ha salido del dolor transfigurado. Para mí, este es el
gran tema [principal] del libro. No
la formulación de una poética de lo que aniquila sino de lo que
trasciende y transforma todas las cosas, incluyendo los misteriosos
caminos de la muerte. Es dentro de esta hondura de pensamientos que deseo
contemplar la actitud del hablante. Asomarme en el
discurrir de este lenguaje a
la triunfante exaltación del espíritu. Pues la poesía de Patricia
Guzmán surge de lo más íntimo de esa enigmática y compleja realidad
que la sostiene sobre la superficie misma de sus versos. De
esa conciencia de lo perecedero, de la fragilidad de la vida ante la
muerte, es donde se afirma su
voluntad y se alza su voz estremecida para revelarnos lo que hay de
profundo y trascendente en el ser humano. No
es ésta una estética del dolor, sino un lenguaje que logra la armonía
de lo inaccesible, de lo imperecedero. He aquí el paisaje de una voz que
fluye hasta tocar las inefables
zonas del espíritu. En él aparece el esposo como una presencia
amortiguadora del dolor: “A menudo mi esposo me recuerda mis méritos
como para / que me duela menos despertar” (p.125).
Así el esposo se convierte también en el protagonista silencioso
de una realidad a la que responde amorosamente. Su actitud siempre imprime
una sensación de seguridad en el hablante poético.
Claro que su presencia no alude sólo al esposo terrenal sino
también al ideal de unión perfecta como observamos en el poema de San
Juan de la Cruz y en el libro Cantar
de los cantares (que hace alusión a la iglesia como la amada): “El
esposo tiene siempre más de dos alas / Debajo de ésta / nazco cada día
/ Debajo de ésta / me alimento / Debajo de ésta / me pongo el collar de
perlas” (128). La
poeta traza la dimensión de su mundo fiel a un sentimiento que refleja su
experiencia como una necesidad mística. Este lenguaje pone a prueba la
interioridad de su universo poético y la visión que fortalece su
espíritu. Me parece que esa imagen edénica que antecede los últimos
versos del libro nos motiva a meditar nuestra presencia en el universo y
la altura de nuestra humanidad: “…para que de El Edén surja un
río / que riegue el jardín / para que el río se transforme / en cuatro
cursos de agua / y el hombre se transforme / en un ser vivo” (173). Pocos
libros en la poesía contemporánea muestran esta lucha interior, esta
vigilancia del espíritu que sobrepasa todo entendimiento. Con el ala alta
parece ser una respuesta al escepticismo de las sociedades
contemporáneas. De ahí que este lenguaje deje de lado todo signo de
conmiseración para descubrirnos la visión de una poeta que sin ignorar
el dolor, y sin doblegarse a sus padecimientos, nos revela un sentido más
alto, más luminoso, más
humano de la vida. [David
Cortés Cabán]
Philippe
Jaccottet, uno de los poetas actuales más importante en lengua francesa,
nació en Moudon (Suiza) en 1925. Después de cursar estudios de letras en
Lausana, vivió durante algunos años en París como colaborador de la
editorial Mermod. En 1953 se casa con la pintora Anne-Marie Haesler y se
instala en Grignan, en el valle francés del Drôme, donde vive desde
entonces. En ese mismo año de 1953 aparece su primer libro de poemas, L’Effraie
et autres poèmes, al que han seguido L’ignorant (poèmes
1952-1956), Airs (poèmes 1961-1964), À la lumière
d’hiver y Pensées sous les nuages. Sus últimos libros, Cahier
de verdure, Après beaucoup d’années y Et, néanmoins,
combinan la prosa y el verso, algo que también caracteriza a su actividad
diarística: La semaison (carnets 1954-1979), La nouvelle
semaison (carnets 1980-1994) y Carnets 1995-1998. Philippe
Jaccottet es asimismo autor de prosas poéticas o semiensayísticas
(recogidas en libros como Éléments d’un songe, Paisajes avec
figures absentes, La promenade sous les arbres o Notes du
ravin), notas de viaje (Cristal et fumée) y del relato L’obscurité.
Algunas anotaciones antiguas, a medio camino entre el ensayo breve y la
anotación diarísticas, han sido reunidas recientemente por el poeta en Observations
et autres notes anciennes (1947-1962). También ha sido importante su
labor como crítico y ensayista, de la que dan testimonio L’entretien
des Muses, Une transaction secrète, Écrits pour papier
journal, Gustave Roud y Rilke par lui-même.
Especialmente celebrada ha sido su labor traductora, de la que cabe
detacar sus versiones de Homero, Góngora, Hölderlin, Rilke, Musil,
Ungaretti y Mandelstam, algunas de las cuales han sido recogidas
recientemente en D'une lyre à cinq cordes. Traductions
de Philippe Jaccottet 1946-1995.
Aqueles
que já estão acostumados com uma certa homogeneidade que a poesia
brasileira de melhor extração vem assumindo já há algum tempo,
acolherão com interesse o novo livro de poemas de Sérgio Medeiros, Alongamento.
Já no anterior, Mais ou menos do
que dois (Iluminuras, 2001),
Sérgio surgira com uma nota estranha, desconhecida e incômoda, uma
atmosfera “marienbadiana”, propositalmente rarefeita e sem chaves.
Tradutor de Lewis Carroll, o poeta acredita na atualidade do nonsense como
instrumento poético e de investigação do mundo. Em duas ocasiões em
sua obra, Carroll fala exemplarmente de chaves: no primeiro capítulo de Alice
no país das maravilhas, em que a menina tenta abrir a porta para o
jardim, mas está ou pequena demais para alcançar a chave sobre a mesa ou
grande demais para passar pela porta minúscula. A chave acaba se
mostrando inútil, pois Alice escapa da toca do coelho por outros meios,
que permanecem inexplicados. Outras chaves aparecem em Sílvia
e Bruno, nas mãos do jardineiro louco, responsável pelo portão que
dá passagem para o mundo das fadas. Apesar de ter apenas uma chave grande
o suficiente para a fechadura do portão, o jardineiro insiste em
experimentar todas as outras primeiro. Também
não é com a chave insipidamente correta que devemos tentar buscar a
entrada para a poesia de Sérgio Medeiros. Melhor é escorregar para ela
por meios menos controlados, como Alice para fora da toca, deixando
intactas, impenetráveis, todas as portas, mas permeáveis os mundos que
elas separam. O desenho na capa de Alongamento,
de autoria do próprio Sérgio, já representa, com traços abertos e
autônomos, um corpo que escorregou para a água e não se afogará sem
antes descrever um balé cheio de voluntarismo.
O
livro contém poemas/textos produzidos de 2004 a 2000, assim, em percurso
inverso, começando com uma segunda versão à qual se segue a primeira
versão do poema-título. Pode-se dividir o volume em duas partes: a
primeira é um elogio à visão, ao primado dos olhos, cujos músculos se
pretende alongar, passando do infinitamente distante ao infinitamente
próximo (como a Alice que cresce e encolhe numerosas vezes durante suas
aventuras), mas substituindo ao foco monológico e preciso a visão do
jardineiro louco que nunca presencia uma cena inconteste, e sim um
transformar disso naquilo sem referência fixa. A segunda parte tem um
acento predominantemente musical (Sérgio Medeiros é um grande apreciador
da música contemporânea) e performático. Une as duas partes o uso tanto
de olhos como da audição como instrumentos táteis: “mal consigo ver: ouço – a areia úmida”. A
série de instantâneos em frases mais ou menos articuladas, conforme o
caso, tem no inusitado e na concisão a sua força: “a água
desabotoa”, “a água bate contra o til duro”. Seus símiles,
estranhamente, não perdem com a irreconciliabilidade dos termos seu
impacto de verdade revelada: “como unha lixada, o barco afunda em si
mesmo”; “- a nuvem que mais se alça também se esfarela como coisa
pisoteada uma vez;”. A percepção é ao mesmo tempo aguda e distorcida,
no sentido de que seu ponto de fuga se encontra fora do enquadramento: é
uma percepção de semivigília, uma percepção ao despertar, quando nada
ainda se encaixou no corriqueiro (como na consciência recém-desperta do
Marcel, de Proust, em que se entrecruzam vários quartos antes que ele
possa decidir em qual deles acordou).
O
treinamento do olhar, de forma alguma parte essencial de nossa tradição
poética, que em seus melhores momentos se esmerou no treinamento do
ouvido, vem se tornando, nas últimas décadas, uma preocupação da atual
geração de poetas brasileiros. Vejo a origem dessa preocupação na
atenção com que esses poetas lêem a poesia americana moderna, a qual,
fundada sobre um longo hábito literário inglês da observação, tem na
fanopéia sua expressão característica. Certamente, a apreciação da
poesia chinesa exerce também grande influência nesse sentido, mas, ainda
aqui, muitas vezes via tradução inglesa. Ezra Pound já usava, no ABC,
a metáfora do homem cuja visão alcançava um maior espectro do que a dos
demais para caracterizar o poeta. Não se trata apenas de “ver com olhos
novos”, mas de se deleitar sensualmente no visto, desfazer-se da
subjetividade no objeto: é-se o que se vê. Na
função de “vedor”, em que tem como antecessor o já citado
Jardineiro Louco de Carroll, Sérgio se retira do enquadramento para
deixar brilhar uma certa auto-suficiência altiva das coisas que, zombando
da confiança dos humanos em sua natureza estática, estão, com o
auxílio do vento e das alterações de luz, constantemente em movimento e
mudança: “a baía/ puxa a luminosidade/ como uma coberta/ que encolhe/
na água/ – não se agasalha/ nunca/ inteira”. Se em alguns momentos
essa percepção orquestral da paisagem parece resvalar para a “bela
imagem”, que, como a bela melodia, corre o risco de apenas provocar o
aplauso da platéia, o poeta, menino experimental, nunca perde a
consciência de que está lidando com letras sobre papel. Com gosto
tipográfico, arranja o texto sobre a página, confere títulos,
subtítulos e parênteses, faz farto uso de sinais como barras,
asteriscos, reticências, til, colchetes, como para lembrar ao leitor o
estatuto de composição (no sentido de linotipia) do poema. Esse recurso,
com ser talvez desconfortável para o olhar acomodado, tem como
conseqüência adiar a entrega hedônica do leitor às impressões
recolhidas. As duas formas de visualidade da escrita – a evocativa e a
concreta – convivem, rivalizam, dialogam ou brigam, tornando a leitura
mais rica em cada caso. A
seção final do livro, intitulada (darwinianamente?) “O Passo do
Macaco”, coloca literalmente em cena uma outra forma de obliteração da
subjetividade no texto poético, explorando o aparato teatral
(sonoplastia, instruções e objetos de cena, maquinário, divisões em
atos) aliado a uma apresentação mais propriamente cinematográfica da
seqüência dramática ou dramático/performática. As diversas
seqüências são classificadas como dança folclórica, réquiem,
opereta, balé e pantomima. Trata-se, em cada caso, de um espetáculo
total, no qual se dá a personagens, texto, rubricas, som, cenário e
platéia igual participação, com predominância apenas do ritmo, que
envolve e rege todas as outras instâncias. Interpõe-se à sua eventual
encenação uma série de instruções impossíveis: um barítono sem voz
“imita o miado de uma gata parda famélica que acabou de dar
cria” ou “o som de uma enxurrada de ossos enchendo uma sepultura
vazia”, “O mar deitado de bruços volta a si molemente na praia,
calado”, uma mulher, “à medida que for adquirindo vivacidade, também
exibirá uma consistência mais quebradiça” e por fim, feito múmia, se
esfarelará de vez. A habilidade com que o autor consegue compor uma
multiplicidade de elementos insensatos, surrealistas e nonsênsicos de
forma a lhes dar um sentido – na acepção da Física, não da
Semântica – é demonstrativa da qualidade do seu trabalho poético –
na acepção etimológica do termo. É
fácil concordar com o autor quando ele diz preferir, entre as várias
peças d’ “O Passo do Macaco”, a pantomima “As Costas de...”,
que fecha o volume. A peça/poema, que tem como personagem única uma
sereia e como cenário o fundo do mar, começa com a advertência de que
“No primeiro e no segundo atos, a audiência – um público pequeno –
só terá acesso AO FUNDO DO MAR indiretamente”, explicação que parece
satisfazer uma impecável lógica carrolliana, que suporia no leitor a
expectativa de um palco literalmente imerso na água e a platéia
diretamente colocada diante dele. A explicação, porém, não é tão
ociosa como poderia parecer a princípio, pois, de fato, “No terceiro e
último ato, a audiência finalmente irá ao FUNDO”. Assistimos, a
seguir, a uma seqüência de três atos classificados como “erótico
(sic)”, “mais erótico que o anterior (sic)” e “extremamente
erótico (sic)”, postulando-se, assim, a existência de um transcritor
que, de uma distância crítica, “edita” o texto recebido. Distância
e proximidade, como no poema “Alongamento”, são os dois fatores em
jogo na pantomima. Desta vez, no entanto, não se trata de mensurações,
mas da contraposição de elementos do cotidiano e outros fantásticos,
provenientes do imaginário literário ou mitológico. A atualização de
metáforas se insere no âmbito de uma ação corriqueira como jogar uma
camisa na cesta de roupa suja ou abrir o registro do chuveiro. O atrito
entre gestos tão cotidianos que deles nem nos damos conta e situações
inusitadas como o afundamento do público parece se resolver na busca
frustrada por um significado
arcano e irrecuperável, soterrado sob a inexorabilidade do dia-a-dia.
Não é, entretanto, a profundidade, mas a nota irônica que wins
the day, pois o público, ao fim da peça, entra literalmente pelo
cano. As
observações que reúno aqui a respeito de Alongamento
representam apenas impressões de viagem pelo texto de Sérgio Medeiros.
Dificilmente serão as mesmas em novas incursões desta e de outros
viajantes. Este é um livro que provoca o leitor de muitas maneiras
diferentes, oferecendo à leitura sempre um novo interesse e excluindo de
vez só uma sensação: a de déja
vu. [Myriam
Ávila]
Guardar
na memória a lembrança dos grandes nomes que já não mais fazem parte
do inventário dos vivos é um modo de preservar a seiva que os nutriu, na
esperança de também servir de alimento às novas gerações. No ano de
2001, nós, baianos, fizemos questão de comemorar os cem anos de
nascimento do poeta de Belmonte, o mago das imagens feéricas, o inventor
de castelos e paisagens multicromáticas, o vate das origens míticas de
sua terra, Sosígenes Costa. Esta comemoração, embora praticamente
limitada à sua Bahia natal, se reveste de maior significado, por ter sido
o poeta pouco reconhecido enquanto viveu e longamente esquecido após a
morte, em 1967. Em
boa hora os escritores Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca, ligados à mesma
zona cacaueira do poeta, decidiram organizar O Triunfo de Sosígenes
Costa que, por certo, contribuirá para a divulgação de um dos
maiores nomes da literatura brasileira de todos os tempos. As
autoras e os autores desses bem elaborados ensaios são reconhecidos
escritores e/ou professores baianos, cujos mini-currículos precedem os
respectivos textos. Entre os indiscutíveis méritos do volume, avulta o
de integrar o movimento de resgate da grandeza de um verdadeiro artista da
palavra que, até o seu centenário, em 2001, possuía apenas dois livros
de estudo sobre sua riquíssima produção, o de José Paulo Paes, Pavão
parlenda paraíso (1977) e o de Gerana Damulakis, Sosígenes Costa
- o poeta grego da Bahia (1996). Em
2001, ano do centenário do poeta, novos esforços foram desenvolvidos
para trazer sua obra à tona. A Fundação Cultural de Ilhéus, então
dirigida pelo escritor Hélio Pólvora, fez-lhe várias homenagens,
organizou um seminário na Associação Comercial de Ilhéus e apoiou
edições importantes, como Crônicas
& poemas recolhidos, organizado por Gilfrancisco Santos, e o CD Antologia
Poética de Sosígenes Costa, com 28 poemas selecionados por Gerana
Damulakis e Hélio Pólvora, com introdução deste último. A Fundaci
apoiou também a edição da Obra
poética completa do autor belmontino, realizada através do Conselho
Estadual de Cultura/Secretaria de Cultura e Turismo da Bahia, sob a
direção de Waldir Freitas Oliveira. Pólvora
organizou ainda o livro A Sosígenes, com Afeto, com textos de
vários ensaístas e poetas. Na ocasião, a Academia de Letras da Bahia
promoveu um curso em homenagem ao poeta, e a revista Iararana
dedicou inteiramente a ele a sua ediçãon° 7. Mais recentemente, em
2004, Florisvaldo Mattos publicou o ensaio Travessia de oásis.
A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, ampliando as
abordagens temáticas. Agora, esta coletânea reúne vários estudos que
fizeram parte das comemorações do centenário do poeta, contribuindo
para a divulgação de parte de sua fortuna crítica. O
Triunfo de Sosígenes Costa
está dividido em três partes distintas, das quais farei um breve resumo:
os ensaios críticos, os depoimentos e a antologia. Heitor
Brasileiro Filho fala de vários dados biográficos do poeta de Belmonte,
como sua chegada a Ilhéus em 1926, onde foi aprovado em concurso para
telegrafista e, paralelamente, passou a exercer a função de
escriturário da Associação Comercial de Ilhéus, da qual só saiu
aposentado, em 1953. Há também referências aos companheiros de
juventude de Sosígenes que pertenciam à "antiacademia" dos
Rebeldes, fundada a fim de criar uma nova era literária. Entre os
Rebeldes, figuram Jorge Amado, Édison Carneiro, Dias da Costa, com quem
Sosígenes, apesar do temperamento reservado, manteve correspondência. Hélio
Pólvora enfatiza aspectos referentes à Academia dos Rebeldes que, apesar
de ter surgido com idéias demolidoras, reagiu contra os exageros
inovadores da turma de São Paulo e Rio de Janeiro. Recentemente
descobriram-se crônicas de Sosígenes, entre as quais as que, em 1928,
criticam ou ridicularizam as tendências futuristas, como a de 21 de
março: “A poesia moderna é toda assim, disparatada. Escangalha-se a
métrica sem dó, remete-se ao bom-senso uma patada e compara-se a lua ao
pão-de-ló”. Todavia, entre as citações de crônicas arroladas neste
ensaio, verifica-se que SC nem sempre é radical: “Do futurismo de quem
tem talento, eu gosto”, afirma em 1 de outubro de 1928. Gerana
Damulakis se refere aos vários caminhos de uma obra de pluralidade
reconhecida. É a autora de um dos dois mencionados livros básicos dos
estudos sobre o poeta, Sosígenes Costa - o poeta grego da Bahia,
bastante citado pelos autores do presente volume. Gerana optou por
conjugar dois de seus trabalhos, “Castelão de mitos” (presente em
cada poema) e “Sosígenes Costa e o Barroco”. A
ensaísta menciona também a presença dos heróis e dos episódios da
Bíblia, da mitologia antiga, da História, do recurso aos arquétipos
para a elaboração de metáforas onde se envolvem reis e deuses. As
misturas de temas diversos, até mesmo os disparates provocados pelas
rimas difíceis ou despropositadas, também atuam para manter ou aumentar
o interesse pelo processo mental do poeta que associa, por exemplo, o
pavão vermelho do soneto homônimo, com um correspondente como o
sentimento de alegria.
Cyro
de Mattos destaca “nesse poeta de pavões e dragões, vinho e aroma, a
vertente negra” expressa em vários poemas, alguns deles mais longos,
como “Iemanjá”, de 769 versos. É oportuno lembrar que o elegante
sonetista de gosto clássico e classicizante e de rica imagética
suntuosa, com explícita preferência pela metrificação e pela rima,
também sabe instrumentalizar-se com registro popular na saga cacaueira
glorificadora do índio e nos poemas de inspiração afro-brasileira, em
que recorre ao verso-livre e à linguagem coloquial pontilhada de
expressões típicas. Cyro
associa a vertente afro-brasileira de Sosígenes às criações de Castro
Alves, Jorge de Lima e Ascenço Ferreira e defende a questão da
legitimidade do tema abordado por escritores de diversa origem étnica,
desde que exista uma real “fusão afetiva que é transposta pela
imaginação e/ou vivência para o significante e significado do
discurso”. Ruy
Póvoas faz uma apreciação do estudo realizado por Cyro de Mattos, a
propósito do filão afro-brasileiro da poesia de Sosígenes Costa,
concentrando-se na linguagem herdada dos escravos e que o poeta soube
utilizar com tanta maestria. Póvoas destaca a exploração da
musicalidade, “da sonoridade através de arranjos lexemáticos e
sintáticos” e revela como Sosígenes manuseava com desenvoltura e
segundo as exigências estilísticas do poema, o nagô ou a língua de
Angola, o que atesta a familiaridade do poeta com a vida e as práticas
religiosas dos terreiros de candomblé. A
partir da explicação dos vocábulos e da análise de versos e fragmentos
escritos nesses dialetos, o autor enfatiza os recursos sonoros e musicais
explorados por SC, além de fazer referências aos cultos, rituais e
costumes do povo africano. No final, ele acrescenta um glossário que
servirá de subsídio para possíveis esclarecimentos. Aleilton
Fonseca trata inicialmente de questões relativas ao caráter reducionista
do cânone literário, procurando explicar o lugar discreto ocupado pelo
poeta em relação ao panorama da poesia brasileira do seu tempo.
Provavelmente o culto excessivo de SC pelos modelos clássicos, superados
na época áurea do nosso modernismo, teria contribuído para que seu nome
não figurasse entre os astros de primeira grandeza seus contemporâneos. Aleilton,
através da fundamentação teórica baseada na categoria da visibilidade,
via Ítalo Calvino, volta sua atenção principalmente para a poética
visual e condena as classificações que pretendem enquadrar SC na
estreiteza de algum ismo, ora como parnasiano ou simbolista, ora
modernista. “Estes rótulos só se aplicam adjetivamente a procedimentos
parciais de sua poética, mas não têm força substantiva quando
aplicados unitariamente”. Em resumo, graças à obra multifacetada e à
inventividade, SC é um moderno, em toda a extensão da palavra. Florisvaldo
Mattos focaliza sobretudo a dimensão cromática de SC que “lhe confere
singularidade capaz de se tornar um diferencial no seu processo
criativo”. Apesar dessa ênfase nas cores e na “apoteose visual” em
Sosígenes, Florisvaldo chama a atenção para os demais sentidos, tantas
vezes recaindo no jogo sinestésico
ou no privilegiar das sensações olfativas. Para o ensaísta, o
requintado gosto do poeta de Belmonte e algumas de suas referências
irônicas poderiam levar a supor que ele fosse contrário às novas
tendências poéticas, mas, na verdade, o que ele não aceitava eram os
exageros da vertente futurista. Basta que se recorde o nacionalismo da
“epopéia cabocla” Iararana. “O modernismo em Sosígenes
Costa, de brilhante, tornou-se fosfóreo”. Jorge
de Souza Araújo, em alusão à variedade de tons de SC, comenta sobre a
ourivesaria de sua dicção metrificada e rimada, sobre seus ataques às
modernosidades da Semana de 22, o que não impediu o tom prosaico de
composições despojadas dos luxos imagéticos. Araújo, a propósito do
romance surrealista de Jorge de Lima, O Anjo, aponta como o poeta
baiano aceitava a recomendação do poeta alagoano no tocante ao destino
do homem que nasceu para contemplar e, só por castigo, luta e trabalha,
mostrando-se Sosígenes avaro dessa contemplação. Seu
fabulário e expressionismo verbais fundem o tosco da fala corriqueira com
o refinamento aristocrático e classista, a opulência verbal com a
singularidade do mito, o ocidente e o oriente, o contingente e o estelar,
a mitologia cabocla/mestiça/afro-nordestina, mais o universalismo de
impressões temáticas absolutamente originais. Tudo é Sosígenes como o
Jorge de Lima de Invenção de Orfeu. Maria
de Fátima Berenice da Cruz comenta o poema “Case comigo, Mariá”,
reacendendo “a discussão em torno do conceito de poesia e da função
desta como difusora da cultura de um povo”. Todavia, faz-se necessário
analisar o referido poema, enfocando o escritor como aquele que soube, em
seu tempo, articular elementos da cultura popular com os mitos da
criação do universo, com a teoria dos nomes, e até com conceitos
contemporâneos que nos falam de ausência de fronteiras entre as
culturas. O
poema institui o mito da criação poética, contextualizando-o no
imaginário popular brasileiro, povoado de reis e rainhas: Não sabes
que o mar é casado / com a
filha do rei? Comparecem no poema outros mitos, como o das Sereias, o
do peixe que, mais tarde, casa-se com Maria. Segundo a autora, SC revive e
reatualiza sempre o mito do texto literário que se “caracteriza por sua
incompletude no instante em que a leitura se renova”. Cid
Seixas focaliza outros aspectos de Iararana, poema que inaugura a
temática cacaueira e que, apesar de figurar ao lado das outras obras
nativistas, ainda não recebeu o destaque reivindicado pelos mais recentes
estudos revisionistas do poeta. Cid Seixas discute a diferença entre os
ideais do grupo modernista de São Paulo e Rio de Janeiro impregnados das
ressonâncias europeizantes que haviam importado, em contraste com os
jovens baianos da Academia dos Rebeldes em defesa das tradições
nacionais e locais vistas e sentidas de dentro, ao invés do olhar que
buscava o lado exótico do primitivo e que já havia encantado os
viajantes. Cid também discute a posição de José Paulo Paes que, em
1979, apresentou ao público o poema de Sosígenes e seu estudo,
sustentando a “idéia recorrente de que o texto do poeta da roça está
marcado por um caráter anacrônico”, uma vez que foi concluído só em
1933. Embora
Iararana e Cobra Norato
sejam consideradas epopéias modernas, o poema de Raul Bopp continua sendo
alvo de maiores deferências, enquanto estudiosos baianos procuram fazer
justiça ao criador do mito mestiço em meio às matas primitivas do
Brasil. Celina
Scheinowitz dedica-se a uma análise minuciosa do longo poema épico Iararana,
que apresenta um mito de origem para o cacau e alegoriza a formação
étnico-cultural da região, ao sul da Bahia. Acusado de se manter alheio
ao movimento modernista, com esse poema Sosígenes adere às novas
tendências nacionalistas, através da glorificação do herói indígena
em detrimento do invasor português e do escravo africano. Celina chama a
atenção para o uso de inúmeros termos relacionados à terra dos
índios, com seus costumes, lendas, mitos, crendices, fala, o que
contribui para a criação do clima nativista. Celina
realiza exaustivo e paciente levantamento dos termos relacionados com a
flora e a fauna regionais, expressões idiomáticas, conectivos marcadores
da conversação, interjeições, além de aspectos ligados à pronúncia
e à morfossintaxe, destacando ainda traços estilísticos. O ensaio se
conclui com a reafirmação de Iararana “em posição de destaque no panteão do Modernismo
brasileiro, ao lado de Macunaíma, de Cobra
Norato, ou de Martim Cererê”. Marcos
Aurélio Souza concentra sua análise na visão anticolonialista de Iararana,
flagrando o lado violento da ação colonizadora presente no poema. Para
Marcos Aurélio, a crítica ao colonizador feita por SC, não deve ser
entendida nos moldes de ingênua xenofobia ou tentativa de retornar a uma
pureza racial cabocla, conforme sugerira José Paulo Paes. O longo poema
acena, simbolicamente, para o (re)estabelecimento daquilo que pode ser
chamado de uma época áurea, o que não é, todavia, uma tentativa de
retorno ao período pré-colonial. Isso porque a defesa do discurso
sosigenesiano é pelo hibridismo e não pela crença ingênua de
reconstrução de um mundo puramente indígena.
Sob essa ótica, ao invés de epígono do modernismo, SC deve ser considerado
precursor de uma nova visão da história, bem diversa das magnanimidades
oficialmente narradas, segundo a ideologia do colonizador. A
segunda parte de O Triunfo de Sosígenes Costa consta de
depoimentos: do amigo de sempre, Jorge Amado, no ensejo da publicação da
nova edição revista e ampliada da Obra poética e do livro de
José Paulo Paes, Pavão parlenda paraíso, primeiro estudo de
conjunto da obra do poeta baiano. O segundo depoimento é de Waldir
Freitas Oliveira que lamenta o pouco conhecimento que se tem do poeta, de
sua vida, seus estudos, sua correspondência e publica uma carta que SC
havia dirigido a Clóvis Moura. A carta demonstra que Sosígenes não
concordara com a crítica que Clóvis Moura lhe fizera, a respeito de sua
“falta de experiência de luta ou de um passado revolucionário”. O
poeta argumenta que “a intenção, nesse caso, redimiria a
insuficiência”. Também discorda da afirmação de que só se pode
fazer literatura revolucionária através de uma visão marxista dos
fatos: “Não me considero possuidor desta qualidade eminente. E por isso
lhe envio um exemplo de minha poesia e nela poderá V. constatar o que
afirmo”. Em
seu depoimento, James Amado, referindo-se à poesia como destino, narra
poeticamente a versão mítica de SC sobre as origens do cacau,
transformado em riqueza para os recém-criados grapiúnas, gente nova e
“livre de crimes antigos”. James fala da atividade do poeta como
telegrafista e do seu gosto pela vida solitária, mas preenchida de flores
raras e pássaros, que recebiam seus cuidados. Neste depoimento também
temos notícia de seu desempenho de pianista que executava músicas no
piano de meia-cauda, alternando peças clássicas e populares. James
transcreve um poema de Sosígenes, em que ele revela sua simpatia por
Freud e Marx e pela quebra das hierarquias. Zélia
Gattai declara sua admiração pelo poeta, amigo de Jorge e depois também
dela. E assim o define: “Pessoa discreta, calado, sempre bem posto,
Sosígenes preferia ouvir, prestar atenção e sorrir em vez de participar
de grandes papos e gargalhadas”. Zélia transcreve o “Bilhete
começado pelo boa-noite”, enviado por SC a uma dona de pensão. Um dia
eu contei a Sosígenes que o líamos em voz alta, nos momentos de lazer. Na
terceira parte, os organizadores incluíram uma antologia, onde os
leitores podem deleitar-se com os poemas mais representativos da obra
sosigenesiana. Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca estão de parabéns pela
iniciativa de homenagear Sosígenes Costa, o mago que transformava a
pálida realidade corriqueira em suntuosidades principescas, mas também
sabia trocar os requintes do vocabulário áulico pela simplicidade dos
falares regionais, os faustos da realeza pelos fascínios dos mitos
afro-brasileiros ou indígenas. De parabéns estamos todos nós,
brasileiras e brasileiros, por termos cada vez mais acesso às
revelações do poeta sabedor de fulgores estelares e dureza de chão,
conhecedor de espinhos do mato e cintilares de pavões. [Helena
Parente Cunha]
“No
hay muerte posible para la poesía”, afirmaba Eugenio Montale en su
discurso ante la Academia Sueca, en diciembre de 1975, cuando ya los
anuncios milenaristas campeaban sobre el ocaso del siglo XX y la caída de
paradigmas era tan estrepitosa como la sucesión de acontecimientos
mundiales inesperados y asombrosos. No habrá muerte para la poesía al
menos mientras el hombre viva y se interrogue, indague, cuestione a sus
semejantes y descrea de la eternidad. No habrá defunción en tanto haya
razones para dudar de las certezas y la palabra se renueve y crezca,
renazca de los vestigios de su propia naturaleza, asuma la caducidad de
sus formas y mantenga fidelidad al cambio, al origen, al sentimiento. La
poesía, al fin y al cabo, no existe sin la emoción del nombre, no de lo
que se encuentra, sino de lo que se busca. Cada hallazgo es el inicio de
una nueva exploración en el tiempo. Sed y deseo, rebelión y sosiego,
orden y caos, fuego y cenizas, conocimiento e ignorancia empujan la
palabra hacia la poesía, hacia la alteridad de lo banal y lo divino.
¿Cómo puede acabar entonces lo que denomina el misterio, lo que
significa, lo que da vida al vacío, aquello que hace tan íntima como
universal la vivencia de una persona, el despertar y el sueño de la
humanidad, de nuestra humanidad? Pero
la amenaza de extinción tiene un movimiento pendular sobre la poesía en
la medida que la estupidez y la banalidad avanzan sobre la historia y la
cultura. La demencia del poder cobra víctimas sin calcular el precio
letal no sólo para las víctimas sino para los opresores, los invasores,
los verdugos, los magnates. Nadie escapa a las consecuencias de la
barbarie tecnológica ni al saqueo de la memoria. Nadie queda exento de
las furias de la naturaleza, de los efectos radiactivos, de la
contaminación, de la capacidad destructiva de la llamada civilización
moderna. El fin del hombre es el fin de la poesía, de la conciencia, de
la palabra, del significado. Y hay momentos en que esos fines del mundo
son visibles, al menos de una forma parcial. Se viven desde dentro o desde
fuera y quedan como testimonios de esa posibilidad de lo absoluto. Para
mucha gente el mundo y la poesía terminaron cuando, por ejemplo, los
nazis intentaron podar el árbol de la vida para obtener un fruto ario y
ser los dueños del planeta, o cuando Stalin se dio a la tarea de purgar
al mundo de ideas diferentes a las suyas, o cuando los militares en
América Latina torturaron y desaparecieron a quienes nombraban el futuro
de manera distinta. No pueden quedar sin palabras las imágenes del
ejército invasor con su utilería de poder y sus consignas de libertad y
democracia sobre las ruinas de la vieja Bagdad, en el saqueo de su pasado.
¿Tendrían porvenir Las mil y una noches? Si la poesía aún nos
conmueve, entonces su lugar en el mundo está asegurado, porque el dolor y
el gozo, la belleza y la vida son motivos y motores para intentar nombrar
el ser, para aspirar a ser. La
poesía aún trae, como los ángeles, mensajes de un ayer remoto o
inmediato. No son quizás los hombres reales, los individuos específicos,
quienes trascienden los siglos, sino los personajes envueltos en su
aspecto mítico representando el paso de su gente por la historia, los
sucesos, la fuerza del acontecimiento, su marca indeleble en la
conciencia. Arquetipos, diría Mircea Eliade para
referirse a la presencia de una memoria colectiva, popular,
imaginativa, mitológica, ahistórica. La muerte suele ser el inicio del
mito. Tal vez por ello Dante Alighieri incorporó su nombre en La
Divina Comedia, sabiendo que el autor, el hombre real, histórico, es
pasto del olvido. En cambio el Dante que desciende a los infiernos guiado
por la claridad del ingenio y el saber de sus maestros, de las luminarias
del tiempo, de la palabra, se vacuna contra la caducidad y la amnesia. De
otro modo lo argumenta Fernando Pessoa --y lo pone en función con sus
heterónimos-- cuando señala en su Erostratus que son muy escasos
los libros que resisten la acumulación de los siglos y representan la
urdimbre emocional y mental de una sociedad determinada o de un momento.
La poesía da cuenta de esa intimidad, del peso de la tragedia, del
significado de la felicidad, del canto de los deseos. El escritor a menudo
se reduce al papel de testigo, al de cronista de la imaginación, a la
expresión profunda del sentimiento o a la desnudez formal de la palabra,
al hecho del espanto, a la ocurrencia de lo imprevisto, pero pocas veces
habla de sus reflexiones, de sus hallazgos, de su viaje, de su historia
personal y sus contextos. Quizás porque teme ser desvirtuado,
descolocado de su espejo. Como decía Borges, inventado por un
interlocutor que no es él mismo. Tampoco por un crítico que no conversa
con la obra sino que la clasifica y la interpreta, más bien por un lector
que pregunta y escribe, al tiempo que edita las respuestas, y sin
proponérselo da lugar a un personaje, a un relato donde se filtra el
mito. José
Saramago ha hecho su gran novela, La muerte de Ricardo Reis, a
partir de la muerte física de Fernando Pessoa y el arribo a Lisboa de su
heterónimo Ricardo Reis, quien regresa de Brasil, como los elefantes
blancos, a vivir el final de su existencia en su tierra de origen. Ambos
personajes, ambos heterónimos, se interrogan y se descubren ante un
lector que no ignora que se halla frente a dos fantasmas, uno que
permanece activo durante los nueve meses que tiene después de fallecer y
otro que vive los últimos nueve meses antes de desaparecer de la
realidad. Ese, me parece, es el gran descubrimiento del novelista y la
clave para recrear la esencia de un poeta como Pessoa, pero es quizás la
misma o semejante dualidad que vive el poeta común, cuando escribe y
cuando sale a las calles o retorna a la rutina familiar. José Ribamar
Ferreira, por ejemplo, no es el mismo que el poeta brasileño Ferreira
Gullar, no obstante que ambos ocupan el mismo cuerpo. Para José Ribamar
la banalidad no necesariamente se convierte en poesía, pero Ferreira
tiene la capacidad de hacer que lo banal ascienda por el lenguaje al nivel
de la poesía. La clave está entonces en ese diálogo de dualidades,
porque el poeta entrevistador no es en ese momento un poeta, sino
simplemente un hombre que interroga, indaga, explora en los terrenos de
otro hombre poeta que no habla como poeta, sino como representante de la
obra y quizás a ratos como declarante y responsable de una biografía.
Ambos ocupan sus lugares y asumen sus papeles, uno pregunta y el otro
contesta asumiendo que es el poeta el que habla, pero bajo el entendido de
que el poeta lo es sólo cuando escribe, cuando crea, repitiendo sin cesar
las mismas preocupaciones humanas de la historia, más comprometido a
decirlo de formas diferentes, o como nos recuerda Rubén Bonifaz Nuño, De
otro modo lo mismo. Así, el que responde lo hace desde su perspectiva
de primer crítico de su obra y conocedor del proceso escritural, pero lo
hace también como poseedor de una memoria, testigo y actor de un periodo
de la historia, relator de las causas y los efectos que empujan al hombre
a transformar la banalidad en materia poética, a verbalizar el tiempo y a
inventar la eternidad que, bien lo sabemos, no existe. Un
libro de entrevistas con poetas no es un volumen de creación, es
simplemente una caja de curiosidades que vuelca sus contenidos en el
momento que la abrimos. Una caja de Pandora si se quiere. Versos conversos
en el momento de la transferencia y juego de deseos, reconocimiento de los
tramos que anda el individuo y fases de su realidad y su mitología, de su
vida y de su obra. Bien lo dice el poeta Marco Antonio Campos, quien posee
larga experiencia en el oficio de entrevistar, no se trata de un género
literario, ni de una pieza crítica, basta con conocer la obra antes de
interrogar, de enterarse un poco sobre la trayectoria del poeta, de
conocer algo sobre su vida, trazar una guía para el cuestionario y estar
alerta, desde un segundo plano, a cualquier pista que ofrezca el
entrevistado para conducirlo a ciertos espacios de reflexión y memoria
que nos lleven al descubrimiento del autor frente a su propio asombro.
Entre poetas, a veces nos leemos las manos. El lector mismo percibirá
cuándo una pregunta es la señal de un hallazgo, o por lo menos de feliz
extrañeza para el
entrevistado. El poeta que entrevista en realidad está persiguiendo y es
perseguido por su propia curiosidad, atiende a un anhelo, a una necesidad
de escuchar la afirmación o la negación de sus conjeturas sobre la obra
o, quizás, en el mejor de los casos pero no el más frecuente, hallar que
la persona es congruente con sus palabras, sobre todo con las escritas. Lo
dice mejor Ezra Pound en El arte de
la poesía: “Las artes nos dan los mejores datos para determinar
qué clase de criatura es el hombre. Como nuestro tratamiento del hombre
se debe determinar por nuestro conocimiento o nuestra concepción de lo
que es el hombre, las artes proporcionan datos para la ética.” No
se trata de curarse en salud, pero cada entrevista pretende sobre todo
acercar al lector a la obra poética. Estas conversaciones ofrecen vías
de acceso más amplias, más despejadas hacia el poema. La anécdota y la
reflexión son útiles en la medida en que señalizan el camino, pero de
ninguna manera sustituyen el criterio del lector, su encuentro con los
versos. La poesía habla por sí sola. En este segundo volumen de Versos
Comunicantes reunimos a grupos de poetas pertenecientes a las
generaciones que irrumpieron en Iberomérica en la segunda mitad del siglo
XX, con sus voces anhelantes de cambios, en una centuria caracterizada
justamente por eso, por la convulsiva rapidez de las transformaciones.
Tributarios de las vanguardias son, muchos de ellos, iniciadores de
búsquedas o miembros de fenómenos literarios en sus respectivos países,
eruditos o traductores, difusores de la poesía escrita en lenguas y
geografías distantes en tiempo y en espacio, promotores de lectura y el
arte editorial, luchadores incansables o sosegados rebeldes en tiempos de
“paz”, reconocidos por sus premios o desconocidos por sus obras, cada
cual va respondiendo al conocimiento o la ignorancia del otro. Lo
que en definitiva estaba planeado para cerrarse en dos volúmenes se ha
extendido imperiosamente a tres. Sabemos, y lo repetimos, hay grandes
poetas no incluidos en esta muestra, algunos por las dificultades para
conseguir una entrevista hecha por un poeta que sea lo suficientemente
interesante para ser incorporada, otras por la dificultad para entrevistar
a personajes que tiene por principio no conceder entrevistas. Nada nos
justifica, eso es definitivo. Ni siquiera la respuesta de algún escritor
inflamado por la pedantería que, luego de insinuar su ausencia en el
primer volumen, se niega a ser entrevistado porque afirma está ahíto de
responder a cuestionarios sobre su trabajo poético, “algunos de
verdadera profundidad”. En México, tales reacciones pueden resultar
extrañas mas no inexplicables y comunes. La herencia de nuestra relación
con el poder, la de los intelectuales en general, y la de esa perniciosa
cerrazón en capillas y círculos autorreferenciales nos condenan a la
escasa generosidad con nuestro entorno, y a la apertura servil con lo de
fuera. Nada bueno nos deja ignorar o ningunear la voluntad doméstica, la
dignidad de casa. No
obstante, este segundo volumen muestra la voluntad de ofrecer
acercamientos a la poesía iberoamericana a través del oficio
periodístico y editorial, a través de las propias versiones de sus
protagonistas y sus poemas. Países y poetas quedarán sin representación
en este esfuerzo por saber algo más de la poesía escrita en español y
en portugués en los últimos cincuenta o sesenta años, sobre todo con
entrevistas a escritores aún vivos en el momento de publicarlas o
recientemente fallecidos. Esos vacíos deberán ser cubiertos de uno u
otro modo. El tercer volumen intentará algo en ese sentido, pero de
antemano reconozco su insuficiencia. No sólo en México, sino en el resto
de los países hay grandes ausencias. En México, porque los poetas
nacidos en los años cuarenta conforman un amplio grupo de vigorosas
propuestas y en esta serie decidí privilegiar a los poetas vivos nacidos
en los años treinta --no ocurre lo mismo cuando se trata de otros
países, pues incluyo poetas menores de cincuenta años--. Del primer
grupo ya figuran algunos; otros que estaban considerados, como lo dije,
están exhaustos de preguntas. Del segundo grupo, el de los años treinta,
lamento sobre todo no contar con entrevistas a José Emilio Pacheco y
Gabriel Zaid. Con José Emilio, debo confesarlo, tengo entrevistas que son
largas conversaciones directas o telefónicas, pero en un plano informal,
no autorizado. La conversación es un arte de Pacheco, con su prodigiosa
memoria y su insistente humildad que de tanto justificarse despliega
fascinantes caminos a su persona y a su mundo borboteante de erudición.
Sé que el joven escritor Ricardo Venegas prepara una antología de
entrevistas con poetas mexicanos nacidos en los años cincuenta. En cuanto
al panorama latinoamericano se nos escapan algunas regiones de
Centroamérica y de Sudamérica, como es el caso de Costa Rica y Paraguay.
Hacia Portugal hemos hecho una aproximación y contamos con la enorme
presencia de António Ramos Rosa, Nuno Júdice, Rosa Alice Branco (volumen
tres) y Manuel António Pina, mas extrañamos a una figura como Herberto
Helder. Brasil queda bien representado, pero es un país con una larga y
rica tradición poética que inevitablemente nos deja un vasto territorio
literario por descubrir. Insisto, no justifico las ausencias, las lamento. ¿Cómo
puede entonces pensarse en la muerte de la poesía justamente cuando
visualizamos un campo tan ignorado como difícil de abarcar? En estos
enfoques panorámicos de la poesía iberoamericana podemos constatar la
inutilidad de las banderas vanguardistas, el silencio de movimientos
emergentes que pregonen rupturas o anuncien estéticas inaugurales, al
tiempo que escuchamos las palpitaciones contundentes de una poesía
madura, de búsqueda, sí, pero sin la escandalosa rigidez del
pensamiento, sin la pretensión excluyente del pasado o el anuncio de una
sola vía para la novedad y el misterio, sin dejar de lado la herencia
iluminadora de un siglo que marcó pautas, destruyó y construyó
discursos con técnicas y herramientas capaces de abrir la mente y hacer
visible lo que se mira pero no se ve, sin minimizar el inconsciente ni
entronizar su automatismo, sin regatear un ápice a la inconformidad y sus
aportes. Textos y contextos que transcurren entre afanes de libertad y
rebeldía, entre manifestaciones y apego a las razones que apartan a la
poesía y a los poetas más allá de la consigna, más allá de la
premonición y el augurio, del anuncio, del futuro, de la represión y la
causa, más allá, como deseaba Pound, de toda babosa emoción. La poesía
conversa. [José
Ángel Leyva]
Desde
o pioneiro Escritos de William Blake,
preparado por Alberto Marsicano para a L&PM, apareceram outras
edições brasileiras de sua obra. Mas ainda é pouco, diante da riqueza e
complexidade desse poeta-profeta, messiânico, arcaico, e ao mesmo tempo
atual, um precursor do Romantismo que passou a ser efetivamente lido a
partir do Simbolismo. Por isso, é oportuna esta tradução dos seus Songs,
ocasião para leitura ou releitura do Tigre
e tantas outras de suas peças famosas. Discípulo
notório de Swedenborg e Jacob Boehme, Blake acrescentou-lhes um
panteísmo e uma visão pagã de mundo. Para Elaine Pagels, em seu livro
sobre evangelhos gnósticos, William
Blake, observando esses retratos distintos de Jesus que aparecem no Novo
Testamento, tomou o partido daquele que os gnósticos preferiam, no lugar
da “visão de Cristo que vêem todos os homens”. Em apoio, cita
trechos de The Everlasting Gospel, com sua relativização da percepção do
Cristo: Ambos lemos a Bíblia noite
e dia,/ Mas tu lês negro onde eu leio branco. Mas
Blake foi, mais que gnóstico, um criador de mitologias pessoais. Povoou o
universo de divindades. Todas, é claro, alegorias. Demiurgos ou arcontes
não faltam, em sua crítica à religião patriarcal. Um deles é Nobodaddy, o Pai-Ninguém, chamado de Pai do Ciúme que, silencioso
e invisível, se esconde entre as nuvens, e cujas palavras e leis,
interditando o fruto proibido, são escuridão
e obscuridade. (cito da edição da The Oxford University Press dos
poemas de Blake – tradução minha) Outro, Urizen, homófono de Your reason, You reason,
ou Our reason. Em O
Livro de Urizen, é o Demônio
que engendrou a Eternidade
descrita como Estranha, estéril,
escura e execrável. É como se O Livro de Urizen fosse uma combinação do Gênesis com o Apocalipse, na descrição dos embates do ensandecido Urizen com outros princípios criadores, o Eterno Profeta e Los, divindade primeira, derrotada, não antes de gerar Orc, o ser humano, de Enitharmon. Urizen por sua vez engendra contínuas aberrações: Thirel, Utha, Godna, Fuzon. Do pranto de Urizen nasce uma rede de lágrimas, a Rede da Religião, que por sua vez gera o esquecimento, a separação entre a esfera humana e divina. A visão de mundo desse poema é terrível: a vida transcorre sob a égide da morte:/ O Boi geme no matadouro/ O cão no frio umbral. (O Livro de Urizen foi traduzido por Alberto Marsicano em Escritos de William Blake, L&PM). Há mais personagens equivalentes aos arcontes do gnosticismo. Por exemplo, em Milton: Tudo tem seu Guardião, cada Momento, Minuto, Hora, Dia, Mês & Ano. […] Os |