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revista
de cultura # 46 |
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Maria Teresa Horta: corpo solar e lunar no corpo do texto Ana Marques Gastão
Como em Fulgor
(1): Tacteio à minha Tento deslumbrar Demoro-me demasiado Para a minha sede A escrita da poetisa de Minha Senhora de Mim (1971) tem sexo, por se encontrar próxima da
historicamente determinada vida das mulheres - ao nível da experiência
interior, corporal, social e cultural -, pelas temáticas abordadas, pelo
seu universo existencial, pelos aspectos da linguagem e da construção poética
ou narrativa, consoante o registo em que a autora se move. E depois há
ainda o outro corpo, o corpo da linguagem, uma body
writing, a corporização do texto, no qual a exaltação dos sentidos
é voraz, dolente, vertiginosa, na continuidade entre elementos diversos,
como o mundo real e o imaginário, a ferida e o espanto, a sombra e o
fogo. Enumera-se assim o lugar do desejo, que não deixa de ser, no
sentido barthiano, o lugar da escrita (2), como se viajássemos dentro de
uma cantabile ária, expressa a partir de um dentro - a experiência,
vivência do verso - e não apenas do que é exteriormente perceptível: Escreve a poetisa em Segredo (3): Não contes do meu nem que corro os para uma sombra mais espessa deixa que feche o Não contes do meu nem o que faço
As “directrizes”, não programáticas, da poesia
de Maria Teresa Horta são pelo menos duas: actualizar o passado literário,
o cantar à antiga em que a “persona” lírica é a amiga medieval ou a
pastora quinhentista, recuperando/renovando a malha de um tecido
tradicional; e, na vontade fatigada, subverter o pensamento de claustro
característico da solidão feminina, criando um discurso avesso ao
brando, e, no entanto, cálido, rigoroso e musical, na imaginação e no
invento da paixão, na ameaça da solidão de onde emerge o fascínio. O
sujeito poético profere, pois, um discurso de ruptura, desabrido, que, na
fase inicial, dir-se-ia marcado pela imagem surrealizante, cortante,
enxuta, laminar, de que é exemplo o seu Poema de Insubordinação incluido em Tatuagem (6), certamente um dos mais emblemáticos do Grupo Poesia
61, a que pertenceu ao lado de Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto
Jorge, Gastão Cruz e Casimiro de Brito: (…) Preto Preto como um cardo submerso Preto de saliva na ogiva
Escrever é, portanto, um acto do corpo, sendo a
escrita simultaneamente fundação do mundo, “cristal do tempo”, para
Maria Teresa Horta, autora que jamais poderá ser arredada da criação,
com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, desse livro claramente
feminista (ao contrário da restante obra da escritora de Ema):
as Novas Cartas Portuguesas,
publicadas debaixo de fogo, em 1971 (8). A obra teve um destino previsível:
imediatamente retirada de circulação, levou as três Marias a tribunal
onde foram condenadas por atentado ao pudor e pornografia. Mas não só
uma leitura político-social deverá acompanhar este texto a três vozes
que denuncia a opressão da mulher no domínio privado e público, estamos
perante um documento literário único e inovador, até pelo seu carácter
híbrido e fragmentário, no qual coabitam vários registos: epistolar,
poema em verso ou prosa, diálogo, etc. E ainda o corpo no corpo da ficção de Maria Teresa
Horta. Entre outros romances, novelas, contos, destacam-se Ambas as Mãos sobre o Corpo (9),
dominado por um intimismo lânguido, onírico, pelo prazer sensual do
texto; Ema, livro convulsivo, pálido
de morte, terrífico (10) e A Paixão
Segundo Constança H. (11), cruamente
tecido, por entre as asas dos anjos, no laceramento da loucura feminina,
da paixão, da traição, no eclipse de um Eu devastado. Certo que a poetisa esquece mais facilmente a ficcionista do que a
ficcionista esquece a poetisa. Mas nenhuma deixa para trás o corpo, nem a
precipitação intensiva no desatino das sensações ou a viagem psicanalítica,
o texto deslizando, lento, ritmado, na circularidade da lágrima, do
prazer, do medo, da loucura. A loucura feminina... Obsessiva, a escrita
romanesca da autora de Cristina
(12) vive de encruzilhadas dialécticas: palavra/corpo, solidão/espera,
esquecimento/medo, amor/morte. Se a poesia de
Maria Teresa Horta é vital, a ficção dir-se-ia mortal. Existe o escuro
e nele a matéria da escrita. Corpo, desejo, dor, amor, separação,
abandono, violência, homicídio, loucura, indiferença... Eis alguns dos
habitantes do seu universo, regido por um alfabeto marcado pelo império
da palavra sobre a frase. Palavras-clarão, cintilações reveladas numa
obra romanesca fragmentária e, por isso, singular, expressão de
totalidades em redução, tendo como personagens mulheres que falam do
mundo como se vivessem dentro de um livro em monólogos gritantes, lentos,
mordidos, ardidos, mulheres acolhidas em paisagens líquidas, indefinidas,
povoadas de emoções, desconcertos e inconformações à sombra de um tão
pouco amor. Os romances de Maria Teresa Horta são narrativas ao
arrepio da convencionalidade, tão frágeis quanto mortíferos, obsessivos
na sua luminescência feminina e nocturna. Tudo se ilumina da sombra, de
uma obscuridade essencial, distinta da meramente verbal, no adensamento
das atmosferas plúmbeas, adequadas ao estilhaçamento, à perda do ser.
É a noite, na acepção de Blanchot (13), a vingar neste universo; a
possibilidade da escrita, procura tacteante, espaço de mergulho, meio de
conhecimento - na sua simplicidade aparente -, dentro da matéria escura,
do que dói.
NOTAS
1. “Fulgor” in Só
de Amor, de Maria Teresa Horta, Gótica, 1992. 2. Roland Barthes, Le
Plaisir du Texte, Paris, Éditions du Seuil, Oeuvres Complètes, Tome
IV, 1972-1976. |
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Ana Marques Gastão (Portugal,
1962). Poeta, crítica literária e redatora cultural do Diário de Notícias,
de Lisboa. Autora de livros como Terra sem mãe (2000), A definição
da noite (2003) e Nós/Nudos (2004). A fotografia do poeta está
assinada por José Carlos Carvalho. Contato: amgastao@dn.pt.
Página ilustrada com obras do artista Vicente do Rego Monteiro (Brasil).
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