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revista
de cultura # 46 |
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Guignard: o sonhador de Ouro Preto Carlos Perktold
Passados os momentos difíceis da perda dolorosa, todo o
Cerimonial se movimenta para receber na capela do Palácio o corpo do
artista querido. Findas as exéquias, o mestre é levado para Ouro Preto,
por sua própria escolha. Com sua morte, começa uma trajetória de
valorização de sua obra que ele imaginava ocorrer apenas em 2062, cem
anos após sua morte. Alberto da Veiga Guignard não é somente o nome de um
artista insubstituível. É o primeiro verso de uma saga pessoal ainda não
escrita. Ela começa em 25 de fevereiro de 1896, em Nova Friburgo (RJ),
onde nasce o menino com defeito congênito e termina com a morte do
artista no dia 26 de junho de 1962. O lábio leporino dificulta a ingestão
de alimentos e a respiração do infante, causando profunda angústia na
jovem mãe. Ela, impotente, via a dificuldade do filho em aprender a se
alimentar para sobreviver. Essa deformidade marca sua forma de se colocar
no mundo para sempre.
Com dificuldades financeiras, o pai morre num
“acidente” com arma de fogo, quando Alberto era ainda muito jovem.
Angustiante é a vida de filhos de pai suicida. Este episódio abre um vácuo
emocional na vida deles, impossível de ser coberto. E é com o peso da
dupla carga emocional do problema congênito e da morte do pai em circunstâncias
tão trágicas, que nosso mestre segue para a Europa com a mãe e o
detestado padrasto. Lá, este liquida com o que restava do dinheiro da viúva,
a mostrar como o mundo podia ser irônico: Guignard passa da experiência
de pai morto por dificuldades financeiras e, em seguida, a de ter padrasto
perdulário. O dinheiro é, desde sempre, uma dificuldade a mais desse
viajante da vida com bagagem cheia de falta, ausência e vácuo. O
restante de sua permanência na Europa ainda precisa ser melhor descoberto
e relatado, mas sabe-se por biografias dele, escritas por Frederico
Morais, Lélia Coelho Frota, Ivone Luzia Vieira e por depoimentos de
amigos, que o mestre viveu em Munique, onde, com disciplina germânica,
aprendeu as técnicas do desenho e da pintura. Ali expôs pela primeira
vez. Roma e Florença foram suas amantes de sempre. Paris foi outra presença
amiga onde dividiu quarto com Fernand Léger de quem recebeu, com dedicatória,
dois óleos lindíssimos pertencentes ao acervo de conhecida coleção
belo-horizontina. Tudo isso, antes de se mudar de vez para o Brasil. Guignard vai sentir ao longo da vida outra falta: a de
constituir a sua própria família. A tentativa de existência dela começa
com um casamento de curta duração com Ana Döring e continua com amores
mineiros como Amalita e Celina Ferreira. Conta a lenda que ele foi
abandonado pela mulher meses depois do casamento, com o casal ainda em
lua-de-mel. Ela, musicista, não deve ter suportado a voz com pouca
sonoridade do marido e a constante dificuldade dele para se alimentar.
Mesmo abandonado, ele sente a fundo a morte dela, anos depois. A falência
do casamento fica registrada como mais um ardil da sua vida. É possível
que os deuses tenham feito um acordo com ele: enquanto mortal, terás uma
vida difícil; depois de morto, serás imortal.
Ouro Preto, uma constante em sua
obra a partir de 1944, marca-o para sempre. Ambos têm a sorte de terem se
encontrado várias vezes do seu alto, em frias manhãs cheias de névoas
que vão, aos poucos e em frente a seus olhos, despindo-se pela diluição,
expondo a beleza de suas montanhas, casas e igrejas que surgem como se
flutuassem do espaço mágico. A cena é eletrizante e a paixão,
fulminante. Guignard cai de amores pela cidade e pela suave luz, a qual,
refletida pelas montanhas, reverencia o barroco puro. E ela, reconhecendo
a grandeza dele, aceita, cheia de gratidão, aquele que estava a seus pés
e que mostraria sua beleza ao mundo, acolhendo-o para sempre. Ela se
entrega e ele torna-se seu dono. Guignard pinta suas “imaginantes” ou
“imaginárias” paisagens de Ouro Preto, como as chamou Lélia Frota,
hoje, uma consagrada referência poética. Mas não se imagine que essas
paisagens surgiram de sua fantasia de artista. Elas estão lá nesse
momento, concretas, objetivas e esperançosas como uma adolescente
apaixonada, esperando pela volta do poeta que as imortalizou; no mesmo
local onde, um dia, se conheceram e se amaram. Se o leitor tiver a paciência
de um fantasma, poderá ficar de tocaia no lugar onde ele pintava e
presenciar, numa dessas arrefecidas madrugadas de inverno, o idílio entre
o velho artista que volta, flutuando numa nuvem de suas paisagens soprada
por zéfiro e emoldurado por guirlandas de querubins, para a repetição
do encontro imortal do gênio com a natureza. Seus
retratos, um tema que merece teses de doutorado, são um capítulo à
parte de sua carreira. A força e a comovente simplicidade deles podem ser
comprovadas no retrato do garoto Rodrigo Assunção Gontijo. Conhecedor
das dificuldades da técnica do desenho, da qual era um mestre absoluto,
tinha consciência de que o retrato era a “arte mais difícil”. É
nele que o artista se projeta e convence o público do seu talento. É um
Midas moderno que, tocando, vira esplendor, ternura e arte, Guignard
brilhava até mesmo nas encomendas dos retratos objetivos. Naqueles
subjetivos, como no retrato de Geraldo Andrada (“O Príncipe Orsini”),
demonstrou toda sua afeição de amigo e o talento de artista definitivo,
fazendo dele uma iconografia de sua pintura. Naqueles de meninas ou
mulheres adultas, mostra como era galante associando-as às flores
colocadas nos cabelos ou na roupa, como se elas, sendo mensageiras da sua
posteridade, devessem se lembrar de que, para ele, elas seriam sempre
“minhas flores”. Fazia algumas exceções. No retrato de Celina
Ferreira pintou o Parque Municipal de Belo Horizonte no fundo da tela,
como se dissesse que dela, ele esperava mais que ser uma flor na vida
dele. Deixava em cada tela apenas uma leve camada de tinta, suficiente
para mostrar a grandeza do artista e tudo que ele queria dizer do modelo.
Nos retratos de crianças, fazia questão de retratá-las com a
simplicidade do infante que sabe pouco do mundo. Pinta-as com olhos ingênuos,
de quem imagina ser o mundo apenas o que é visto objetivamente,
projetando-se num jogo de espelhos entre modelo e artista.
Guignard foi um mestre altruísta, privilégio de professor
sem medo de concorrência futura; por isso nunca escondeu conhecimento. Os
alunos de mestres com esse perfil ganham ainda mais quando se colocam em
lugares de humildade, reconhecendo que, sem ela, não há aprendizagem.
Ser aluno deles é estar preparado para recebê-los como mensageiros dos
deuses. Se o aluno percebe a dimensão do que é ensinado e da importância
do lente, aprende a desenvolver o olhar e a ver com seus olhos aquilo que
o mestre vê com os dele. Assim, ganha anos de experiência em pouquíssimo
tempo. É um raro privilégio encontrar juntos os dois elementos desse
processo, porque, na nossa cultura, o conhecimento é adquirido ainda pelo
método mais difícil: a dura experiência pessoal. Jovens e tolos,
despreparados e ingênuos, acreditamos pouco nos mestres definitivos de
nossas vidas. Guignard nasceu diferente; diferença que contribuiu para
criar um estilo único de desenhar e pintar. Suas criações constituem-se
numa das mais brilhantes da pintura brasileira. Ao morrer deixou, para
seus amigos, saudade eterna; para o Brasil, um acervo que faz dele um
artista definitivo e imortal. |
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Carlos Perktold (Brasil, 1943). Ensaísta e crítico de arte. Autor de Ensaios de pintura e de psicanálise (2003). Tem presença dupla nesta edição da Agulha, sendo também o responsável pelo ensaio de apresentação do artista convidado, Vicente do Rego Monteiro. Contato: perktold@terra.com.br. Página ilustrada com obras do artista Alberto da Veiga Guignard (Brasil). |
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