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revista
de cultura # 46 |
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Altino Caixeta de Castro: do espanto da palavra e outras
perplexidades Maria Esther Maciel
O poeta mineiro Altino Caixeta de Castro (Patos de Minas,
1916-1996), autor de Cidadela da rosa – confissão da flor (1980),
Diário da Rosa Errância e
Prosoemas (1989) e Sementes
de sol (2004), ao também explorar as inquietudes do poeta perplexo
diante de tudo, optou pela palavra espanto, construindo a partir
dela toda uma poética. Não por acaso designou o poeta de “pastor do
espanto” e forjou a partir dessa imagem sua própria persona poética.
Mas não se ateve apenas à dimensão filosófica, existencial, da idéia
de espanto – à qual associou todo um referencial ontológico de
feição heideggeriana, mas redimensionou-a pela força da imaginação e
nela imprimiu um traço lúdico, advindo do sentido de
“maravilhamento” que a própria palavra espanto contém.
Espantar-se é também maravilhar-se diante de algo. E esse algo para o
“pastor” Altino Caixeta é a linguagem e todas as suas potencialidades
de jogo. E o que é o maravilhar-se senão o deixar-se seduzir? Na poesia
altiniana a sedução do poeta pelas palavras é explícita e se faz ver não
apenas na forma como brinca com elas e delas se faz brinquedo, como também
no processo de erotização do fazer poético. Uma espécie de libido
scribendi perpassa o ato de criação do poeta, seduzido que sempre
esteve pela força corporal, tátil, sonora, visual da escritura. Isso se
dá a ver de maneira explícita no poema “A palavra ousada”, do livro Cidadela
da rosa – com fissão da flor, onde se lê: que coisa mais misteriosa é a palavra, Altino sabe que as palavras podem deflagrar realidades
imprevistas, fingir um mundo que não existe senão apenas dentro delas ou
partir delas. Como Pessoa, sua perplexidade se “irresolve” na consciência
de que é possível tanto sentir com a imaginação quanto escrever pelos
sentidos o que a razão não entende. Mas seu pastoreio é menos o ato de
conduzir e/ou vigiar a linguagem – como fazem os pastores de cabras e
ovelhas – do que o ato de pastorejá-la, uma vez que o verbo
“pastorejar”, relacionado ao pastorear, aponta sobretudo
para a ação de fazer a corte, cortejar. A entrevista que se segue, gravada no início de 1990, na
casa do poeta em Patos de Minas, traz em viva voz esse espanto –
transfigurado em “maravilhamento” – de Altino Caixeta de Castro
diante da poesia. Nela, ele fala de sua descoberta do verso, do pastoreio
das cabras e das palavras, da rosa como metáfora do poema, da beleza, da
mulher, do artesanato da forma e do “transe” necessário ao fazer da
escritura. Com humor e erudição, cita poetas, filósofos e críticos de
vários tempos e tradições, declama versos seus e alheios, brinca e se
deslumbra com suas próprias perplexidades de poeta. [M.E.M.] MEM – Como se deu para você a descoberta da poesia? ACC – Minha história de poeta é muito triste, pois
descobri a poesia no pessimismo existencial de Augusto de Anjos. Quando eu
era criança, de cabeça raspada e pés descalços, vivendo na fazenda
Campo da Onça, decorei, pela primeira vez, um poema que vi em um
almanaque. Era aquele soneto de Augusto dos Anjos, que diz assim: “…o
homem que é triste/Para todos os séculos existe/ E nunca mais seu
pesar se apaga!” Eu tinha entre 7 e 9 anos de idade. Ou melhor, não
tinha idade. Creio que daí venham certos ressaibos – filosóficos,
talvez – da poesia de Augusto dos Anjos em minha poesia. MEM – Mas você continua sendo um poeta sem idade, por
trazer todos os tempos possíveis (e impossíveis) em sua poesia… ACC – Uma vez fiz para uma menina um verso de circunstância
– isso, antes que o Manuel Bandeira colocasse em voga a idéia do poeta
de circunstância – que dizia assim: “Eu não preciso do tempo /
porque sou eterno / Necessito apenas / dos mínimos espaços / que demoram
/ entre mim e seus braços”. Meu destempos, meus dez tempos são
minha eternidade provisória. MEM – Sem dúvida, o signo mais recorrente em sua poesia
é a palavra rosa. Como você explicaria esse signo? ACC – Como dizia Gertrude Stein, uma rosa é uma rosa é
uma rosa. É bastante interessante esse poema, porque nele a poetisa toca
uma questão da semiologia moderna. Ela antecipa o livro O sistema dos
objetos, de Jean Baudrillard. Ela, sem querer, fez uma semiologia do
objeto rosa. Aliás, a rosa é o arquétipo da coisa, como diz o Borges.
Borges, na verdade, buscou essa imagem em Crátilo, personagem de Platão.
Tanto é que tenho um poema em que rimo “rosa” com “coisa”. Uma
semi-rima sutilíssima, nunca usada nem pela Cecília Meireles ou pelo
Guilherme de Almeida, que era um mestre das semi-rimas. MEM – A rosa seria, em sua obra, uma metáfora do poema e
uma metonímia da prosa? ACC – Pode ser. Mas quando a rosa me chegou, eu não
pensei nisso. Só muitos anos depois é que soube dessa parolagem. Minha mãe
plantava rosas em torno de nossa casa. E minha poética é muito ligada à
minha mãe. Acho que por causa dela fiquei muito impregnado pelo sentido
da rosa. A vida inteira. Mais tarde descobri que a rosa era um símbolo
difícil, mesmo para a poética. Descobri, mais teimei no símbolo. A rosa tem também uma dimensão filosófica, de feição
heideggeriana, em seus poemas, apontando para a imagem da “morada do
ser”. E mesmo mística, se pensarmos na idéia da mandala que se faz
presente no livro Cidadela da Rosa: com fissão da flor. Isso me lembra um poema que está no livro O diário da
rosa errância: “Mandá-la para Vênus./ Mandá-la para Eros./
Mandá-la para Deus./Mandala do mistério.” Mas é verdade, a minha
rosa é metafísica. Mas a imagem da “morada” eu debito a Gaston
Bachelard, que escreveu aquele livro lindo, A poética do espaço.
Coloquei muitas moradas em minha poética, metaforizei várias vezes a
morada dentro de meus poemas. E a rosa ficou sendo a morada essencial. Já
Heidegger foi o filósofo-poeta que mais influenciou minha concepção da
poesia moderna. Para ele, o “poeta é o pastor do ser” e a poesia é
“a realização do ser pela palavra”. Isso me chamou muito a atenção.
Tanto é que meu primeiro livro ia se chamar Pastor de sonhos –
isso, trinta ou quarenta anos atrás. MEM – E por que você optou pela imagem do “pastor do
espanto” para definir o trabalho do poeta?
MEM – Realmente, as imagens relacionadas a essas reminiscências
sensoriais estão muito presentes na sua poética. As cabras, os
carneiros, os pastos, o leite, os seios, a boca, o beijo, o ato de mamar são
recorrências explícitas. Algo da ordem da oralidade, no sentido psicanalítico
do termo, não? Se bem que a oralidade, do ponto de vista lingüístico,
também é uma das linhas de força de sua poética. ACC – Isso está no meu poema “Soneto em limbos”: Mamar
na luz que vem das nebulosas,/Dar pojo no mistério das
estrelas,/Depois lamber os úberes redondos/ Da ovelha fulva ou ser
lambido em limbos. Aí eu já estava “adulterizado” e usei as
leituras que eu tinha da psicanálise de Freud. Aliás, não sei se você
já reparou, mas esse é um soneto branco, sem rimas. Só tem ressonâncias
internas. Como fazem os ingleses. Os poetas ingleses quase não rimam nas
pontas. E não rimar nas pontas torna, muitas vezes, o poema mais bonito,
pela força das aliterações e sonoridades internas. E por falar em
psicanálise, costumo citar com freqüência um fragmento de Lacan –
“o inconsciente é o discurso do Outro” – que, de certa
forma, influenciou o primeiro poema do Cidadela da Rosa, intitulado
“Discurso”. Os críticos costumam elogiar esse poema. Affonso Romano
de Sant’Anna, por exemplo, que é um bom poeta e escreveu um livro sobre
Drummond, ficou surpreso porque eu dediquei o “Discurso” a Michel
Foucault, Roland Barthes e Julia Kristeva. Um caipira do interior de Minas
escrevendo uma dedicatória pedante aos grandes nomes da filosofia
contemporânea! – ele deve ter pensado. Na verdade, escrevi esse poema
em um espaço em branco de um livro de Foucault. Os críticos gostaram,
ficaram impressionados. MEM – O que você pensa sobre esses críticos e filósofos
franceses? ACC – Já li muito da literatura francesa. Sobretudo
Sartre, Baudelaire e Camus. Acho inclusive que o pessimismo artificial que
tenho, que não é o de Augusto dos Anjos, ao contrário do que pensam,
foi muito influenciado pela filosofia de Sartre, mais do que pela obra de
Camus. Tenho um poema no livro A cidadela da rosa, mais ou menos
inspirado no pessimismo sartreano. Aliás, nessa minha sonetilha houve um
erro tipográfico e o verso ficou melhor. Mas não foi o erro de Malherbe.
Você sabe qual foi o erro de Malherbe? Minha filha chama-se Roselle.
Malherbe, poeta francês do século XVI, escreveu mais ou menos isto:
“rosa, ela viveu o que vivem as rosas… o espaço de uma manhã”.
Mas o tipógrafo errou na grafia. Ao invés de “Et Rose, elle”,
colocou “Et Rosaelle. Ficou mais bonito. Esse foi o nome que dei à
minha filha, Roselle. No dia de batizar minha filha, consultei o Grand
Larousse e vi que “roselle” era um pássaro canoro existente na
França. E minha filha gosta muito do nome. Mas voltando à sua pergunta,
fiquei muito deslumbrado com a escritura de Barthes, quando li pela
primeira vez o livro Fragmentos de um discurso amoroso. Muito do Diário
da rosa errância está ali. Bebi no prazer do texto. Barthes era um
poeta, um grande poeta da escritura. Você sabia que ele morreu atropelado
porque atravessava a rua distraído, lendo o Cidadela da rosa?
(risos). Já o Foucault não era poeta, mas escrevia muito bem. Li As
palavras e as coisas umas três vezes quando morava em Brasília. MEM – Você tem uma habilidade impressionante para lidar
com as palavras. Ou melhor, uma volúpia pelas palavras e suas múltiplas
possibilidades sonoras, visuais e semânticas… ACC – Eu tenho e sempre tive uma volúpia pela palavra.
Geralmente, ela me seduz primeiro pela sonoridade. O som de uma palavra
sempre me leva a outras palavras que me levam a outras pela força dos
ecos, das paronomásias, das assonâncias, das ressonâncias. E muitas
vezes ou mais de uma vez, uma palavra me desviou da métrica. No meu livro
deve ter no máximo uns cinco versos alexandrinos, porque eu sempre me
dediquei mais aos decassílabos. E meus decassílabos são – perdoe a
modéstia – muito bem feitos, com cesura e tudo mais. Só tenho um verso
decassílabo feito para minha mãe que não pude corrigir. É um endecassílabo:
Única mulher que quero ver no céu. Tudo por causa da palavra única.
Eu poderia ter colocado “Prima mulher”, mas não encaixava. E eu
queria mesmo era “única”, não apenas porque era o vocábulo que
dizia mais precisamente o que eu queria dizer, mas pela beleza do proparoxítono.
MEM – Você é um poeta que ama a beleza e que faz dela o
tema privilegiado de vários poemas. O que é o belo para você? ACC – O que sempre me encanta na vida e na poesia é a
mulher. Nela está a beleza que me sensibiliza. A beleza que me estremece.
Veja o “Soneto do Belo”, que dediquei a um amigo meu que é cirurgião
plástico em Belo Horizonte e a quem chamei de “o esteta da plástica
impossível”, pois ele tenta construir artificialmente a beleza que já
existe na mulher. O poema diz assim: Da essência da beleza me
alimento, / De seu mistério sempre me estremeço, / como poeta, às
vezes, reconheço / que a beleza é maior que o pensamento. Nesse
soneto eu roubei um pouquinho de Schiller. Penso que a paródia é
grosseira, mas paráfrase é aceitável, é boa. E todos os poetas
parafraseiam. Os poetas não criam, nós imitamos no inventado. Quem cria
é Deus, que tira do nada. MEM – É exatamente isso que atravessa aquele seu poema
“Por que vim”, no qual você afirma: “Não vim para dizer. Se
cheguei tarde / não vim para dizer./ Cheguei tarde porque tudo está
falado.” A consciência de que cabe ao poeta inventar no inventado. ACC – É, e você replicou esse poema em um poema muito
bonito que dedicou a mim em seu livro Dos haveres do corpo. Mas eu
nunca estive de acordo com você, poetisa. Aliás, prefiro chamar as
mulheres de poetisas. Acho machismo chamar uma mulher de poeta….
ACC – Nunca gostei de romance. Gosto de fazer o
anti-romance. Quando eu morava em Brasília escrevi umas 70 páginas de um
anti-romance que intitulei Cibernéias, uma parafernália da prosa,
tudo empolado. Eu empolo a linguagem, as personagens, as minhas referências
culturais, tudo. Um texto completamente barroco. Outro dia eu li o romance
O nome da rosa, de Umberto Eco. Também uma parafernália, só que
uma parafernália semiótica. Fiquei interessado no livro por causa da
minha temática da rosa e por já conhecer Umberto Eco como crítico. E
foi uma surpresa ver que ele é também um grande romancista. Tanto o é
que as primeiras páginas de O nome da rosa – e isso foi
observado no mundo inteiro – não agradam aos leitores de romance. Isso
acontece com Os sertões de Euclides da Cunha. Umas quinze páginas
que são uma beleza e uma prova de fogo para o leitor. No caso do livro do
Umberto Eco, as primeiras páginas são melhores que o romance inteiro,
porque nelas o romance ainda não começou (risos). MEM – Voltando à poesia, qual é a sua concepção do fazer
poético? Para você, a criação poética é um trabalho de transpiração,
de inspiração, de respiração ou de transe? Ou é tudo isso ao mesmo
tempo? ACC – Acho que poesia é fazer. A própria
etimologia da palavra diz isso. Mas o fazer poético tem também
essa coisa grande, misteriosa, que é o transe. Que está lá no Fedro
de Platão: o daimon. O poeta é um “daimoniado”. Um diabo
no meio do redemoinho, como diz o Guimarães Rosa. Aliás, o Guimarães
Rosa é também um grande poeta. O Grande Sertão Veredas, para
mim, não é só um romance. É também um poema épico magnífico. Nele o
daimon não está separado do fazer, do artesanato. Penso
que todo poeta deve superar o artesão. Mas o artesanato é sempre
importante. João Cabral, por exemplo, o poeta da “Educação pela
pedra”, lavra o poema. Eu o comparo a Francis Ponge. Ele lavra o
poema-objeto. Ele vai além da semiótica de Peirce. E ele consegue
ultrapassar o artesão, mesmo que não admita isso. O poeta que não
supera o artesão não é poeta. Existe aquela história do sujeito que
estava lavrando tanto a pedra para construir uma estátua, usando com
tanto vigor o camartelo e o cinzel, que a pedra virou pó. O poeta que
acredita no artesanato puro e continua enxugando o poema corre o risco de
transformar em pó a poesia. Alguns poetas de hoje, que fazem o culto do
poema enxuto, concreto, têm, a meu ver, um quê de parnasianos. Por outro
lado, acho que eles têm o lado lúdico do trocadilho, do desmembramento
do vocábulo, que me agrada muito. Mas a filosofia deles está um pouco
para aquilo que o Bilac coloca naquele soneto, que diz: “Quero que a
estrofe cristalina, /Dobrada ao jeito/ Do ourives, saia da oficina/ Sem um
defeito.” São versos de uma grande modernidade, não acha? Um culto
da forma, tal como se vê hoje. Mas antes dele, Álvares de Azevedo, poeta
romântico que morreu muito moço, já escrevera: “Se a estátua não
saiu como pretendo/Quebro-a mas nunca seu metal emendo.” Mentira
dele, pois ele emendava sim. Mas foi um grande poeta. MEM – E a idéia de que o silêncio seria o espaço por
excelência da poesia? ACC – É, essa idéia é boa. É o que chamei de “zero
absurdo”. Mas você não pode eliminar o som da poesia, a letra, a
forma. O silêncio faz parte das palavras. MEM – Qual é, para você, o papel da crítica de poesia? ACC – Sempre fui desconfiado dos críticos. Tanto, que eu
não quis para meu livro uma apresentação. E poderia ter pedido um prefácio
ao Oswaldino Marques, aquele poeta que mora em Brasília e que escreveu um
estudo sobre a poesia de Cassiano Ricardo. Mas preferi escrever o meu próprio
exórdio, o “Topos exordial do inédito”. Prefiro eu mesmo fazer minha
autocrítica. Como eu já disse, em se tratando de crítica, prefiro a crítica
feita pelos poetas. Foi o T.S. Eliot que deu o grande golpe na crítica
acadêmica com o seu New Criticism. MEM – Você acredita, como Octavio Paz, que a poesia
moderna está sob o signo da “paixão crítica”? ACC – Um poeta invejável, o Octavio Paz. Eu o conheci
pessoalmente, fazendo uma conferência sobre poesia em Brasília. Mas sabe
o que aconteceu comigo? Não tolerei a conferência dele, pois ele só
falava coisas que eu já sabia. (risos) Saí no meio. Isso aconteceu também
com uma conferência do Hernâni Cidade, sobre Fernando Pessoa. Ele começou
a falar da vida particular do Pessoa. Eu, que estava esperando uma conferência
sobre os aspectos filosóficos de Pessoa, sobretudo o seu existencialismo,
preferi ir embora. Mas acho que o que realmente marca a poesia moderna é
a estranheza, não a crítica. O poeta moderno é um estranho na e à
sociedade. Octavio Paz tratou disso melhor do que ninguém. MEM – Vamos falar um pouco sobre o Diário da rosa errância
e prosoemas? O que o levou a escrever um livro de prosa poética? ACC – Nada me levou ao livro. Foi tudo circunstancial. Eu
nem sabia que tinha escrito esse livro, sinceramente. Acho que eu o
escrevi em uma semana, em Belo Horizonte, em 1985. Do jeito que eu sempre
gostei de escrever: nas páginas brancas de um livro. No caso, um livro de
Roland Barthes. Depois passei a limpo. Minha mulher, Alfa, e Roselle,
minha filha jornalista, que adoram adular os meus neurônios, me
estimularam a publicar o livro. Resolvi entregar também para minha filha
a série de 200 prosoemas intitulada “A minha deslumbrada”, para ela
selecionar alguns. Ela selecionou 93. E engraçado você ter dito, um dia,
que esses textos tinham algo do surrealismo. Eu já tinha, naturalmente,
lido André Breton nessa época. Mas meu surrealismo no livro foi
inconsciente. O que me inspirou mesmo – e aqui me refiro aos Prosoemas,
que estão no final do livro – foi o trabalho dos pintores italianos, em
especial de Fra Angelico, Leonardo da Vinci e Michelangelo. El Greco também
me influenciou. Já no Diário da rosa errância, retomo a temática
da rosa. Mas fiz aí uma coisa que nunca tinha feito antes: escrevi textos
em prosa com frases curtas, concisas, nas quais a palavra vai puxando a
palavra. Lembro que minha filha me falou: pai, esse livro está muito erótico!
E respondi que não tinha importância, porque meu erotismo não tem
“pornéia” (risos).
ACC – Pois é. Tenho um soneto em versos alexandrinos,
chamado “Perpétua”. Todo simbolista. E o que me levou a escrever o
poema foi exatamente a palavra “Perpétua”, que me seduziu. Sou um
seduzido pelas palavras. São elas que me erotizam no poema. MEM – Como você vê a poesia contemporânea no Brasil? ACC – Não vejo nada. Além de João Cabral, não existe
nenhum grande poeta no Brasil hoje. MEM – Você poderia falar um pouco sobre sua formação?
É realmente impressionante a sua erudição, a sua história de leituras
nos mais variados campos do saber. ACC – Sou um autodidata no campo das Letras. Cursei Farmácia
e Bioquímica, mas não fiz nenhum curso na área de Humanidades. No meu
tempo, tudo era mais limitado. Não havia as escolas de Filosofia que
existem hoje. Talvez eu devesse ter escolhido o Direito, que é mais próximo
da Literatura. Mas eu sempre li de tudo. Só não li muitos romances.
Apenas alguns clássicos. Li muita Geografia, Filosofia, Química, História,
Biologia. Os livros de ciências são tão importantes para a poesia
quanto os de literatura. Goethe, por exemplo, era um cientista. Ele
escreveu uma tese sobre as cores e pôs muito da sabedoria científica
dentro dos seus versos. Eu não quero me comparar a Goethe, pois é impossível
fazer uma comparação dessas, mas eu coloquei muito de minha sabedoria
esparsa, vinda do campo das ciências, dentro de meus poemas. Sem querer,
sem saber. Inconscientemente. Aquele poema mesmo, o “Discurso”, que
está na Cidadela, foi escrito dentro do livro Arqueologia do
Saber, do Michel Foucault. A arqueologia me atrai até hoje. MEM – Mas você é um arqueólogo das palavras, que sabe
“escavar o palimpsesto do que te resta”… ACC – Pode ser. Mas para meter a pá no entulho do sexo
para desenterrar ninhos… (risos) MEM – Você é também um poeta que ama as mulheres, que
elege musas para seus poemas. O que tem a dizer sobre isso? ACC – Vinícius de Moraes dizia: As feias que me perdoem, mas a beleza é fundamental. Mas não é bem assim. Às vezes basta que uma mulher tenha um belo nome. Ou uma pinta no nariz. Ou olhos de cabrita assustada, no espanto de ser. Ou mágoas de Flor-Bela. A mulher é necessária ao poeta. Ela é – vou usar aqui um neologismo – uma “ademarragem” para o poema. Mas a química, a filosofia, a física, a arte também são. A mulher não é a única musa do poeta. Uma vez fiz uns versos inspirados na poesia surrealista de Murilo Mendes, que dizem mais ou menos assim: os carneiros esgrimam o enigma dos chifres / as mulheres esgrimam o enigma das lágrimas. Aliás, tenho em um caderno várias frases surrealistas que fui anotando aos poucos. Uma delas é: A tua simpatia (de pathos) passeia primaveras em meu rosto. A outra: Atingido de azul, trapaceio com as palavras a claridade de um anjo. E tem uma outra, que fiz para uma menina de 17 anos, que me mostrou uns poemas que havia escrito: Anjo isósceles, com inspiração para agarrar o azul. Foi daí que tirei para o meu futuro livro o título Inspiração para agarrar o azul. Um livro que talvez eu nunca escreva, mas que já existe. |
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Maria Esther Maciel (Brasil, 1963). Poeta, ensaísta.
Autora de livros como A lição do fogo (1998), A memória das
coisas (2004) e O livro de Zenóbia (2004). Entrevista
originalmente publicada na revista Alpha
(Patos de Minas, UNIPAM, 2002). Contato: memaciel@gmail.com. Página
ilustrada com obras do artista Vicente do Rego Monteiro (Brasil). |
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