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revista
de cultura # 46 |
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Armando Silva Carvalho: o texto não faz nem refaz o mundo Ana Marques Gastão
AMG
– O poema inaugural de “Sol a Sol” define a ternura e a admiração
entre dois grandes poetas: Fiama Hasse Pais Brandão e Armando Silva
Carvalho. O “ser-se criança um do outro” na amizade transformou-se em
matéria de um livro, matéria simples, porque límpida, cristalina no uso
da linguagem, mas densa no conteúdo. Esta obra não é, no entanto, uma
escrita a quatro mãos? ASC
– Não somos pianistas, nem eu nem a Fiama. Isto no sentido da exibição
em público, do concerto programado. Eu tinha à minha frente uma pauta, a
escrita da Fiama, com os seus dizeres, que partiam duma poética filosófica
e desembocavam no mais primitivo franciscanismo. O caso de crianças um do outro, com toda a carga de ternura que encerra, não
vai muito além do literário. Convivi com a Fiama em tempos já antigos,
faculdades, política. Depois fomos envelhecendo: ela no seu quadro clínico
que os deuses não resolvem, eu com todas as paredes da razão a darem-me
música de câmara. A última vez que a vi ela já não me viu. AMG
– Duas crianças a caminho da escrita, jogando às escondidas, duas
“bocas escassas”, duas falas, a de Fiama pensante, a de Armando Silva
Carvalho puxada pela nora, pelo “animal do sexo. Um encontro em livro
para falar do mundo? ASC
– Os encontros nos livros são os melhores encontros. Não azedam o diálogo,
as falas não se atropelam. Trouxe para dentro dos textos duas infâncias
opostas. A minha vinha do campo: do sol a sol dos jornaleiros, da rude
relação com a subsistência, do sexo à pressa entre matas e moitas. A
da Fiama, julgo eu, foi mais de êxtase, num jardim perto do mar, com a
descoberta da vida após a leitura dos mitos. AMG
– Um encontro que poderia não ter acontecido, ambos “discípulos de
um deus embriagado”? ASC
– Se nos tivéssemos visto em crianças, tenho a certeza que não daríamos
um pelo outro. Estas crianças de agora e no texto, são liberdades dum
terreno poético onde todos nós gostaríamos de jogar, a fazer de conta.
E o deus embriagado é o deus dos versos, um pouco irresponsável e muito
presumido a interpretar o mundo. AMG
– E onde fica a humanidade do relacionamento entre amigos/poetas, que
está com certeza na sua memória? O atropelo é vida, não literatura…
AMG
– Jogo de encaixe, de vozes, aberto a diversos registos poéticos, à
intertextualidade, à citação (não só Fiama passa por este livro),
“Sol a Sol” é uma obra da exaltação do mínimo. O vasto mundo
capta-se nas coisas poucas. Assim se lima a vida? ASC
– Ninguém lima vida, a vida é que nos lima, nos lixa, desculpe lá a
grossura do verbo. Mundo vasto mundo, já disse o outro que não se
chamava Raimundo. Sabe, as rimas são o meu fraco, e também a facilidade
nas aliterações. Se não me tivessem mandado estudar, provavelmente
devia ter ficado poeta popular, de rima certa, e redondilha a saltar da
ponta do lápis. A exaltação do mínimo em termos de polifonia foi um
arrojo meu que os poemas podem suportar. Cantar com a voz dos outros
misturada, faz com que no sintamos menos sós, e faz com que a nossa
mesquinhez se disfarce sobre a capa das irmandades electivas. E Fiama é
uma criatura poética que merece ser exaltada, no mínimo como no máximo.
AMG
– AMG – O livro, na sua heterogeneidade, incorpora as respirações do
viver, da natureza. Faz corpo com o mundo, não o “mundo quedo” de
Fiama, mas o que se paga com o corpo no abismo de uma imagem de amor.
Nunca alcançamos? ASC
– Há gente que gosta de alcançar, seja a hipotética perfeição, seja
o consenso do mundo, que no fundo é uma forma de fama. Eu apenas pretendo
pagar o que julgo ter-me sido concedido como um direito. Direito ao amor,
ou melhor, à imagem do amor. Direito ao pensar e ao sentir o mundo em que
vivemos. Se acaso isso for interpretado como um caminhar ao lado ou dentro
do mundo, eu ficarei bem com a minha consciência. Tudo isso tem um preço
enorme, é claro. E as palavras deste livro estão aí para quem queira lê-las
naturalmente. A exposição pública só se salva se for a tentativa dum
equilíbrio instável junto daquilo a que chama o abismo. AMG
– Em vários momentos do livro, fala-se do amor como construção,
imaginação. Vêem-se os seres vivos desaparecer da superfície do texto,
porque se transformam em escrita. Escrita e vida fundem-se como? ASC
– Quero que fique bem definido que não embarco nada nessas teorias da
transubstanciação do texto com que alguma gente anda por aí a incensar
certas escritas de forma obstinada e religiosa. O texto não faz nem refaz
o mundo. Quando muito pode fazer surgir um mundo de fulgor que,
obviamente, nunca vai além do texto que o segrega. A vida é a vida, a
palavra é palavra. A fusão da vida pela palavra é uma forma indirecta
de viver, e até pode ser que seja mais rica de sensações. Não é por
meio do mais fascinante tecido poético que o texto se faz mundo em
totalidade majestática e intemporal. E não saindo do texto, do meu, se
os seres desaparecem nele é porque já começaram a desaparecer duma
forma de vida que não corresponde à minha noção de vida humana, em
termos amorosos ou éticos. Tudo é menos e tudo é mais daquilo que é,
escreveu Paul Celan. AMG
– Esta selecção de poemas também é “pensativa”, na medida em que
reflecte sobre grandes temas da literatura, como o amor, o envelhecimento
ou a morte. Concorda? ASC
– Quando se bate no poeta porque ele pensa, e muita gente neste país
gosta da lírica do derrame ou da paisagem interior ensopada em lágrimas
refinadíssimas, é preciso ter os flancos protegidos e para isso nada
melhor que ter um pouco de “cabeça” nos lugares mais sensíveis do
texto. Ora os grandes temas da literatura sempre foram, em primeiro e último
lugar, a vida travestida dos sujeitos que a produzem. Vladimir Nabokov, um
senhor que de modesto tinha pouco, dizia que tinha à sua volta, sobre
ele, dentro dele, as ferramentas da sua escrita, com um brilho tão
acerado como os instrumentos enfiados nos bolsos e nas dobras dum
fato-macaco magnificamente rebuscado dum mecânico.
ASC
– Sim, claro, com a idade que tenho, com a vida que levo e vejo os
outros levarem à minha volta, a frase a cheirar a operário na boca do
aristocrata homem das borboletas, é uma boa resposta para os temas do
envelhecimento, meu e do mundo, do meu mundo. Como dizem os nossos políticos,
deixem-me trabalhar com as minhas ferramentas nos grandes e pequenos temas
da literatura através da vida que melhor conheço, a minha. AMG
– Em “Sol a Sol” acolhem-se os dias vividos no desencontro, no declínio,
sente-se o desfolhar da memória. Caminha-se como no escuro? ASC
– Mal de nós se o sol não surgisse em plena noite. Mesmo quando se tem
o amor todo para devastar, e o tempo é ainda um conceito que não se liga
aos dias e muito menos ao corpo. AMG
– Impõe-se, em “Sol a Sol” uma liquidez espiritual, a da “oração
à planta mais humilde”? ASC
– Eu quando digo natureza não penso nas litografias românticas dos
poentes, nem sequer nos programas lúdicos da Discovery. Penso na consciência
humana e no seu habitat. Penso nos botânicos, nos zoólogos e noutras
criaturas que estudam o planeta e a vida nele, já que Deus parece
apostado em levar por diante um qualquer apocalipse tecnológico. Ao falar
religiosamente das plantas estou a admirar aquele viver num silêncio
infatigável, sem a agressividade pela sobrevivência dos outros seres. AMG
– Que relação estabelece entre “Canis dei” e “Sol a Sol”, na
perspectiva de uma metafísica? No primeiro respirava-se a música de deus
no ar da peste, no segundo a matéria de deus deita-se a seu lado no lençol?
Necessidade da tal “noite calma”? ASC
– Considero a ideia de Deus uma aquisição pessoal assumida em Canis
Dei. Neste meu último livro tento ir mais longe e seguir as margens duma
sensibilidade mais apaziguada por certas visões ou percepções, no meio
das catedrais tecnológicas do massacre. Mas a calma da noite será sempre
uma aparência mística. AMG
– No fundo, há sempre, em toda a sua obra poética, a busca de um
lar… ASC
– O lar seria evidentemente uma natureza melhor assumida e que nos
levasse à lei da família dos afectos, dos clãs, dos ciclos do ser. AMG
– Espreita, embora muito discretamente, a sua dimensão ético-política
neste livro. A escrita, a sua, não poderá deixar de passar por aí? ASC
– Quando escrevo não deixo de ser um cidadão da vida. E não gosto
muito de ouvir os que afirmam o contrário ou assumem uma posição de
indiferença absoluta ou até desprezo pelos movimentos do corpo cívico,
o que não tem nada a ver com arregimentações partidárias. A
literatura, se quiser continuar, não pode ficar parada e pasmada na
palavra pela palavra, nem cair nas mãos do negócio.
ASC
– Os prazeres desinteressados só devem existir na cabeça do filósofo.
Ao
escrever este livro, a minha experiência repetiu-me o mesmo estado de dúvida
perante o texto e também certos tiques hedonistas sempre que limpo as
palavras depois dum banho mais ou menos revelador. Como na câmara escura,
é preciso ter os olhos habituados aos trabalhos de parto. AMG
– O epíteto de sarcástico tem ocultado a sua mais relevante característica,
o lirismo, lirismo crítico como já lhe chamei. Que é, afinal, o canto lírico
para si? ASC – Fiquemo-nos pela sua definição que aceito com agrado. Mas ocorrem-me ainda palavras como vigilância, pudor, uma certa visão do comum da terra, algumas noções de justiça, dignidade, e por que não de fraternidade. Para mim, o canto lírico é aquele cuja fragilidade subjectiva se sustenta também da respiração dos outros, numa terra pouco a pouco irrespirável. |
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Ana
Marques Gastão (Portugal, 1962). Poeta, crítica literária e redatora
cultural do Diário de Notícias, de Lisboa. Autora de livros como Terra
sem mãe (2000), A definição da noite (2003) e Nós/Nudos
(2004). A fotografia do poeta está assinada por José Carlos Carvalho.
Contato: amgastao@dn.pt.
Página ilustrada com obras do artista Vicente do Rego Monteiro (Brasil). |
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