|

|
editorial
Um
estranho país chamado Brasil
É
possível que em alguma parte do planeta o cidadão sinta-se sufocado
pela irrealidade – esta é, de certa maneira, a idéia que muitos
fazem de uma sociedade como a estadunidense. Em um país como o
Brasil, por exemplo, o que sufoca a todos é o excesso de realidade. Não
se trata de fantasia ou ficção – quando muito um efeito ótico ou
uma representação teatral, recursos já quase sem função. Tudo
corresponde em exatidão à realidade: miséria, corrupção, fraude,
privação. Enfim, vive-se ali em um estado criminal, tudo
perfeitamente embrenhado no imaginário-fantoche de sua gente. Onde
ficará este país de que ouvimos falar apenas através da mídia?
No
futebol brasileiro é comum observar os monstros sagrados percorrerem
o gramado como se fosse um mundo só deles. São tão supremos em sua
individualidade que perdem por completo o senso da partilha. Isto
reflete o modelo de ascensão social no Brasil. A rigor, não é o que
perdemos, mas antes o que jamais tivemos. O conceito de boa índole é
um vírus, da mesma natureza do bom selvagem. Se acaso é verdade que
a oportunidade faz o ladrão, este é um país de grandes
oportunidades. Gente oriunda de qualquer classe social, uma vez em
condição de poder, esbanja recalque, realça o sentimento de exclusão.
Refiro-me
ao poder em instância miúda, a que atinge o cotidiano em facetas múltiplas:
o protocolador de processos em uma repartição pública, a atendente
de serviço de informação por telefone, o apresentador fortuito de
um programa de televisão. A deliberação da própria vida nas mãos
do rancor, miséria espiritual, que se origina na falta de comida, saúde,
estudo etc. Porém quem acredita mais nesses ditos de campanha
eleitoral? Golpe fatal da realidade: a descrença total em qualquer
auxílio, retificação ou alívio. Torna-se a maquinação em
verdade, e muito mais eficaz. Exímia projeção de um artifício: já
não temos nada a perder.
Talvez
apenas por um falso apego religioso, relutância sem princípio, inanição
mental, medo atávico, algo que não nos permita visualizar com
clareza o alvo, uns poucos ainda relutem em aderir ao novo credo: a
realidade é tudo o que temos. O Ronaldinho fenômeno, o Domingão
do Faustão, a Igreja Universal, o Rock in Rio, o Jornal
Nacional, este editorial, os romances do Paulo Coelho, nada nos
redime. Somos uma sociedade completamente vitimada pela realidade,
cujo único aspecto inacreditável, porém não fantasioso, é o fato
de que somos todos cúmplices – as exceções por vezes nem fazem idéia
de onde estão. Com isto, não cabe a ninguém reclamar, e as
indisposições soam como… Pensemos um pouco.
Em
um de seus mais belos poemas, Jorge Luis Borges conclui dizendo que
“essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo”. Trata-se
de uma noção fantástica que o poeta argentino tinha do senso de
justiça, algo inato e incorruptível. A expressão “salvar o
mundo” foi absorvida pela irrealidade, tornou-se chavão cinematográfico
a refletir prepotência. Neste trâmite, nem mesmo a poesia foi salva.
E a casta intelectual, à qual pertencem todos os poetas, foi se
tornando tão venal quanto os jogadores de futebol.
Ficamos
unicamente com a realidade. Nossas evocações mágicas ou místicas já
nem mais arbitrárias são, nem conduzem a analogia alguma. Ídolos caídos,
nada mais. Um grande surto de decepção e a realidade impondo seus méritos.
Mas tudo isto se passa nesse longínquo país chamado Brasil, que já
não sabemos onde fica. Talvez para o resto do mundo esta seja uma notícia
apenas curiosa. Para nós, brasileiros, trata-se do palimpsesto de
farsas acumuladas, pele sobre pele, onde o fundo do poço torna-se
improvável, um truque a mais, uma mágica circense.
Quem
nos livra então da realidade? Não temos cinema para tanto. Alguns
poucos ídolos aposentados ou gastos pela ganância. Uns símbolos
maltrapilhos, desacreditados por conveniência. Só nos resta a
realidade. O país do futuro tornou-se um país sem imaginário. Não
tem mais José a quem se dizer: e agora? Não tem mais ninguém.
E está longe, longe de casa e ainda mais longe da irrealidade.
Os editores
Carta
Aberta ao Ministério da Cultura
LEIA
- DIVULGUE - PARTICIPE |