Vicente do Rego Monteiro Vicente do Rego Monteiro
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revista de cultura # 46
fortaleza, são paulo - julho de 200
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Vicente do Rego Monteiro

editorial

Um estranho país chamado Brasil

É possível que em alguma parte do planeta o cidadão sinta-se sufocado pela irrealidade – esta é, de certa maneira, a idéia que muitos fazem de uma sociedade como a estadunidense. Em um país como o Brasil, por exemplo, o que sufoca a todos é o excesso de realidade. Não se trata de fantasia ou ficção – quando muito um efeito ótico ou uma representação teatral, recursos já quase sem função. Tudo corresponde em exatidão à realidade: miséria, corrupção, fraude, privação. Enfim, vive-se ali em um estado criminal, tudo perfeitamente embrenhado no imaginário-fantoche de sua gente. Onde ficará este país de que ouvimos falar apenas através da mídia?

No futebol brasileiro é comum observar os monstros sagrados percorrerem o gramado como se fosse um mundo só deles. São tão supremos em sua individualidade que perdem por completo o senso da partilha. Isto reflete o modelo de ascensão social no Brasil. A rigor, não é o que perdemos, mas antes o que jamais tivemos. O conceito de boa índole é um vírus, da mesma natureza do bom selvagem. Se acaso é verdade que a oportunidade faz o ladrão, este é um país de grandes oportunidades. Gente oriunda de qualquer classe social, uma vez em condição de poder, esbanja recalque, realça o sentimento de exclusão.

Refiro-me ao poder em instância miúda, a que atinge o cotidiano em facetas múltiplas: o protocolador de processos em uma repartição pública, a atendente de serviço de informação por telefone, o apresentador fortuito de um programa de televisão. A deliberação da própria vida nas mãos do rancor, miséria espiritual, que se origina na falta de comida, saúde, estudo etc. Porém quem acredita mais nesses ditos de campanha eleitoral? Golpe fatal da realidade: a descrença total em qualquer auxílio, retificação ou alívio. Torna-se a maquinação em verdade, e muito mais eficaz. Exímia projeção de um artifício: já não temos nada a perder.

Talvez apenas por um falso apego religioso, relutância sem princípio, inanição mental, medo atávico, algo que não nos permita visualizar com clareza o alvo, uns poucos ainda relutem em aderir ao novo credo: a realidade é tudo o que temos. O Ronaldinho fenômeno, o Domingão do Faustão, a Igreja Universal, o Rock in Rio, o Jornal Nacional, este editorial, os romances do Paulo Coelho, nada nos redime. Somos uma sociedade completamente vitimada pela realidade, cujo único aspecto inacreditável, porém não fantasioso, é o fato de que somos todos cúmplices – as exceções por vezes nem fazem idéia de onde estão. Com isto, não cabe a ninguém reclamar, e as indisposições soam como… Pensemos um pouco.

Em um de seus mais belos poemas, Jorge Luis Borges conclui dizendo que “essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo”. Trata-se de uma noção fantástica que o poeta argentino tinha do senso de justiça, algo inato e incorruptível. A expressão “salvar o mundo” foi absorvida pela irrealidade, tornou-se chavão cinematográfico a refletir prepotência. Neste trâmite, nem mesmo a poesia foi salva. E a casta intelectual, à qual pertencem todos os poetas, foi se tornando tão venal quanto os jogadores de futebol.

Ficamos unicamente com a realidade. Nossas evocações mágicas ou místicas já nem mais arbitrárias são, nem conduzem a analogia alguma. Ídolos caídos, nada mais. Um grande surto de decepção e a realidade impondo seus méritos. Mas tudo isto se passa nesse longínquo país chamado Brasil, que já não sabemos onde fica. Talvez para o resto do mundo esta seja uma notícia apenas curiosa. Para nós, brasileiros, trata-se do palimpsesto de farsas acumuladas, pele sobre pele, onde o fundo do poço torna-se improvável, um truque a mais, uma mágica circense.

Quem nos livra então da realidade? Não temos cinema para tanto. Alguns poucos ídolos aposentados ou gastos pela ganância. Uns símbolos maltrapilhos, desacreditados por conveniência. Só nos resta a realidade. O país do futuro tornou-se um país sem imaginário. Não tem mais José a quem se dizer: e agora? Não tem mais ninguém. E está longe, longe de casa e ainda mais longe da irrealidade.

Os editores

 

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Vicente do Rego Monteiro

sumário

1 a audácia do tédio - sobre algumas raízes profundas do movimento do orpheu. ricardo daunt
2 acerca de la creación literaria y artística y su importancia como vía de conocimiento. adriano corrales arias
3
armando silva carvalho: o texto não faz nem refaz o mundo (entrevista). ana marques gastão
4
demônios, paraísos perdidos & telejornais. josé carlos a. brito
5
diez marcas en la sombra. benjamin valdivia
6
altino caixeta de castro: do espanto da palavra e outras perplexidades (entrevista). maria esther maciel
7
gerardo chávez: a propósito de un autorretrato de memoria. carlos henderson
8
guignard: o sonhador de ouro preto. carlos perktold
9
gnose, gnosticismo e a poesia e prosa de hilda hilst. claudio willer. 
10
julio cortázar, altermundista - algunas reflexiones sobre su pensamiento social. carlos véjar pérez-rubio
11
la función o transformación de los poetas. salomón valderrama cruz
12
la posibilidad de representación plástica en la obra de federico garcía lorca. susana giraudo
13
lina zerón en su morada de mariposas (entrevista). josé geraldo neres
14
maria teresa horta: corpo solar e lunar no corpo do texto. ana marques gastão
15
pedaços da vida nos objetos de farnese de andrade. mirian de carvalho

artista convidado vicente do rego monteiro (pintura) texto de carlos perktold
resenhas livros da agulha ana hatherly - cruzeiro seixas - herberto helder - ivan junqueira - josé francisco ortiz - magdalena chocano (por rodolfo häsler) - marco vasques (por ademir demarchi) - panorama de la literatura brasileña - patrícia galvão (por adelto gonçalves) - patrícia guzmán - philippe jaccottet - sérgio medeiros (por myriam ávila) - sosígenes costa (por helena parente cunha) - versos comunicantes II - william blake (por claudio willer)
música
discos da agulha ataualba meirelles - carlos malta - fernando moura (por pedro tinoco) - iso fischer (por etel frota) - luciana souza (por josé nêumanne pinto) - maogani - marimbanda (por floriano martins) - mario checchetto & alexandre zamith - putumayo
cumplicidade galeria de revistas  

Vicente do Rego Monteiro

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jornalista responsável
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jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

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(peru)
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bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(
estados unidos)
eduardo mosches
(méxico)
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(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
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(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
jo
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josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
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rodolfo häsler (espanha)

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artista plástico convidado (pintura)
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