revista de cultura # 46
fortaleza, são paulo - julho de 2005






 

Pedaços da vida nos objetos de Farnese de Andrade

Mirian de Carvalho

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Farnese de AndradeAberta de 1 fevereiro a 10 de abril deste ano de 2005 no CCBB/RJ, a mostra de Objetos de Farnese de Andrade seguiu para São Paulo em maio. Nos trabalhos expostos, segundo observação nossa, o visitante pode distinguir três núcleos temáticos, reunindo objetos por analogias técnico-imagísticas. De acordo com esta “leitura”, tais núcleos poderiam denominar-se: Clausuras do Céu e da Terra; Águas Fechadas; e Elos Relacionais. Das Clausuras do Céu e da Terra constam oratórios, móveis, caixas, e peças similares – quase todas de madeira – envolvendo fragmentos de objetos, ou objetos inteiros, de cunho profano e/ou sagrado. Nesse núcleo se insere o Auto-Retrato de múltiplas imagens, agregando paisagens e peças que o integram à memória da família, da infância, e do lugar de origem. Lugar que não se atém à cidade natal. Lugar que se inicia na anterioridade das águas. E, rememorando visão simbólica dos oceanos e/ou do líquido aminiótico, chegamos aos objetos que nos conduziram ao nome Águas Fechadas. Presos em águas densas – verdadeiras redomas compactas de resina –, encontram-se, tal como nos outros núcleos, inúmeros fragmentos e coisas inteiras de cunho profano – parte e todo – que se reúnem a imagens sacras.

Farnese de AndradeEnquanto nos dois primeiros núcleos desta nossa ordenação dos Objetos, ou seja, em Clausuras do Céu e da Terra e em Águas Fechadas, há um sentido de fechamento, respectivamente como abrigo e placenta, nos Elos Relacionais os trabalhos não sugerem relação entre continente e conteúdo, posto que a ordem do todo e da parte não implica envoltório: trata-se de montagens a céu (ou limbo) aberto. Mas esses elos – nem abertos nem fechados – estabelecem vínculos mnemônicos e imagísticos com os trabalhos dos outros núcleos. Expostos à luz do espaço físico, eles exercem fascínio de enigmática travessia aos demais objetos, e, simbolicamente, interligam fechamento e abertura nos espaços desses objetos, em meandros que encarnam entre-espaços e entre-tempos. Limite. E linha de passagem. Em sendo o espaço luminoso seu único “invólucro” – um envoltório virtual –, os Elos Relacionais estão presentes nos outros trabalhos da mostra, através de simbolismo que abrange fragmento e completude – reunidos pela ambigüidade e pela ambivalência – nos dois outros núcleos. Nos Elos Relacionais se insere referência a Morandi, bem como se inserem outras menções ao mundo da arte, realizando passagem da realidade objetiva à realidade sensível no plano artístico. Desfazendo vínculos relativos à concepção do tempo e do espaço do mundo, os Elos Relacionais atuam como vínculo entre o tempo e o espaço quiméricos, intrínsecos aos objetos como um todo, cuja nomenclatura igualmente abrange o onírico.

Farnese de AndradeTal como ocorre com o nome Viemos do Mar, atribuído pelo artista a alguns objetos, certos títulos se repetem em trabalhos diversos, como por exemplo: Ser, Pensamento, Anunciação, e ainda o ambíguo Sem Título. Por meio de vínculos verbais, tal repetição intensifica sentidos íntimos nessa rede de objetos, que se configuram pela reunião do fragmentar e da unidade – observando-se que, no conjunto, a unidade ganha valor e função de fragmento. Porém, observe-se, guardando relação íntima com o fantástico e o misterioso, nos Objetos de Farnese desaparece a cisão entre parte e todo. Entre sagrado e profano. Cria-se uma realidade de ordem estética. Uma realidade regida pelos princípios da imaginação. Nesse encontro do “todo” e da “parte” em busca de outros sentidos, pressentimos a presença do humano. Pressentimos fôlego. Respiração. Nessa ambiência onírica, insurge-se um corpo fragmentar. Ou seja, a plenitude do corpo se revela na instância do fragmento. Corpo lúdico. Corpo telúrico. Corpo d’água. Corpo sagrado. E, dentre tantos outros, corpo humano. E, se “viemos do mar”, tal como quer o artista no núcleo por nós denominado Águas Fechadas, esse mar nos trouxe às prisões da terra. E ao inatingível céu. Então, resta-nos o jogo das marés. Resta-nos brincar de chegada e partida – ao silêncio das águas endurecidas. Ao silêncio do envoltório de madeira. Ao silêncio da placenta d’água. Ou da transparência do vidro. Ou ao solilóquio do imaginário. “Para não morrermos pela verdade”, resta-nos o jogo ambíguo da arte.

Sem reivindicar originalidade, posto que não é nossa a idéia, observe-se que se revela nítida a memória do brinquedo nos Objetos de Farnese. No percurso da mostra, o visitante é convidado a “brincar” com o fragmento, para se apossar – ou perder o todo. Ou jogar com o todo – mar, terra, céu, corpo, e demais circunscrições dos paraísos perdidos – para reunir ou desmembrar as partes. Caminhando pelo universo dos objetos, o andarilho se vê impelido a brincar com o brinquedo, realizando no ato lúdico a atuação da criança, tentando agregar imagens, experiências e sentimentos diversos e caóticos. Prazer e medo. Amor e ódio. Vida e Morte. No entreato dessas tensões, tudo se desfaz e refaz. E se desfaz. Ao curso da brincadeira, o visitante se recorda de que um dia arrancou as rodas dos carrinhos. E os olhos dos bichos de pelúcia. No entreato dessas tensões, voltando ao tempo atual, a criança veste as bonecas, e as leva para dormir. Mas a criança também empurra os olhos das bonecas pra dentro da órbita. Arranca braço. Perna. Cabeça. E, sem querer, derruba no chão as prateiras da casa – e se diverte com cacos de espelho, com estilhaços da louça e pedaços das estatuetas quebradas. Doce infância dos fragmentos. Doce infância da “vida que jamais conseguiu acreditar na morte”. E da morte que persegue a vida. E, de modo lúdico e / ou em ato de mórbida candura, a criança tenta sempre re-arrumar, a seu modo, pedaços do que se foi – partes dispersas. Lacunas, a seu redor. Ignorando o todo e a parte.

Farnese de AndradeBonecas e coisas em frangalhos. Olho por caixa. Braço por perna. Bolas de vidro no lugar dos olhos. Paisagens e fotos imemoriais. Gamela. Concha. Pedaços de móveis. Utensílios e pessoas de cabeça para baixo. Genitália explícita ou sugerida. Ex-votos. Homem por santo. Santo por homem. Que adulto não se faz criança, diante do desmembramento – lúdico e sádico – do todo, e da reunião dos fragmentos, nos Objetos de Farnese? Ou, ante a memória da casa, dos cantos da sala, das vasilhas, dos móveis, e da inexorável ordem que a vida impõe? Que adulto não se faz criança, tentando romper a clausura das águas e de outros “espaços” ensimesmados? Ou, tentando adivinhar “frestas no eu que sobrou da véspera? À neutralidade do tempo – tudo são fragmentos que tentamos juntar. E juntamos. Mas tudo são fragmentos. Disse um filósofo que “a única realidade do tempo é o instante”. Inexorável parte. Fugidio tempo que vive a morrer. E nascer. Fragmento envolto no instante, o corpo. Brinquedo. E jogo. Dádiva. E ruptura.

“O anel que tu me deste era vidro e se quebrou”.

Mas dos pedaços da vida construímos nosso mundo. 

Mirian de Carvalho (Brasil). Doutora em Filosofia, professora de Estética da UFRJ, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte. Autora de A escultura de Valdir Rocha (2004). Contato: mir3@infolink.com.br. Página ilustrada com obras do artista Farnese de Andrade (Brasil).

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