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Pedaços da vida nos objetos de Farnese de Andrade
Mirian
de Carvalho
Aberta de 1 fevereiro a 10 de abril deste ano de
2005 no CCBB/RJ, a mostra de Objetos de Farnese de Andrade seguiu
para São Paulo em maio. Nos trabalhos expostos, segundo observação
nossa, o visitante pode distinguir três núcleos temáticos, reunindo
objetos por analogias técnico-imagísticas. De acordo com esta
“leitura”, tais núcleos poderiam denominar-se: Clausuras do Céu e
da Terra; Águas Fechadas; e Elos Relacionais. Das Clausuras
do Céu e da Terra constam oratórios, móveis, caixas, e peças
similares – quase todas de madeira – envolvendo fragmentos de objetos,
ou objetos inteiros, de cunho profano e/ou sagrado. Nesse núcleo se
insere o Auto-Retrato de múltiplas imagens, agregando paisagens e
peças que o integram à memória da família, da infância, e do lugar de
origem. Lugar que não se atém à cidade natal. Lugar que se inicia na
anterioridade das águas. E, rememorando visão simbólica dos oceanos
e/ou do líquido aminiótico, chegamos aos objetos que nos
conduziram ao nome Águas Fechadas. Presos em águas densas –
verdadeiras redomas compactas de resina –, encontram-se, tal como nos
outros núcleos, inúmeros fragmentos e coisas inteiras de cunho profano
– parte e todo – que se reúnem a imagens sacras.
Enquanto nos dois primeiros núcleos desta nossa ordenação
dos Objetos, ou seja, em Clausuras do Céu e da Terra e em Águas
Fechadas, há um sentido de fechamento, respectivamente como abrigo e
placenta, nos Elos Relacionais os trabalhos não sugerem relação
entre continente e conteúdo, posto que a ordem do todo e da parte não
implica envoltório: trata-se de montagens a céu (ou limbo) aberto. Mas
esses elos – nem abertos nem fechados – estabelecem vínculos
mnemônicos e imagísticos com os trabalhos dos outros núcleos. Expostos
à luz do espaço físico, eles exercem fascínio de enigmática travessia
aos demais objetos, e, simbolicamente, interligam fechamento e
abertura nos espaços desses objetos, em meandros que encarnam
entre-espaços e entre-tempos. Limite. E linha de passagem. Em sendo o
espaço luminoso seu único “invólucro” – um envoltório virtual
–, os Elos Relacionais estão presentes nos outros trabalhos da
mostra, através de simbolismo que abrange fragmento e completude –
reunidos pela ambigüidade e pela ambivalência – nos dois outros núcleos.
Nos Elos Relacionais se insere referência a Morandi, bem
como se inserem outras menções ao mundo da arte, realizando passagem da
realidade objetiva à realidade sensível no plano artístico. Desfazendo
vínculos relativos à concepção do tempo e do espaço do mundo, os Elos
Relacionais atuam como vínculo entre o tempo e o espaço quiméricos,
intrínsecos aos objetos como um todo, cuja nomenclatura igualmente
abrange o onírico.
Tal como ocorre com o nome Viemos do Mar, atribuído
pelo artista a alguns objetos, certos títulos se repetem em
trabalhos diversos, como por exemplo: Ser, Pensamento, Anunciação,
e ainda o ambíguo Sem Título. Por meio de vínculos verbais, tal
repetição intensifica sentidos íntimos nessa rede de objetos,
que se configuram pela reunião do fragmentar e da unidade –
observando-se que, no conjunto, a unidade ganha valor e função de
fragmento. Porém, observe-se, guardando relação íntima com o fantástico
e o misterioso, nos Objetos de Farnese desaparece a cisão entre
parte e todo. Entre sagrado e profano. Cria-se uma realidade de ordem estética.
Uma realidade regida pelos princípios da imaginação. Nesse encontro do
“todo” e da “parte” em busca de outros sentidos, pressentimos a
presença do humano. Pressentimos fôlego. Respiração. Nessa ambiência
onírica, insurge-se um corpo fragmentar. Ou seja, a plenitude do
corpo se revela na instância do fragmento. Corpo lúdico. Corpo telúrico.
Corpo d’água. Corpo sagrado. E, dentre tantos outros, corpo humano. E,
se “viemos do mar”, tal como quer o artista no núcleo por nós
denominado Águas Fechadas, esse mar nos trouxe às prisões da
terra. E ao inatingível céu. Então, resta-nos o jogo das marés.
Resta-nos brincar de chegada e partida – ao silêncio das águas
endurecidas. Ao silêncio do envoltório de madeira. Ao silêncio da
placenta d’água. Ou da transparência do vidro. Ou ao solilóquio do
imaginário. “Para não morrermos pela verdade”, resta-nos o jogo ambíguo
da arte.
Sem reivindicar originalidade, posto que não é nossa a idéia,
observe-se que se revela nítida a memória do brinquedo nos Objetos
de Farnese. No percurso da mostra, o visitante é convidado a
“brincar” com o fragmento, para se apossar – ou perder o todo. Ou
jogar com o todo – mar, terra, céu, corpo, e demais circunscrições
dos paraísos perdidos – para reunir ou desmembrar as partes. Caminhando
pelo universo dos objetos, o andarilho se vê impelido a brincar
com o brinquedo, realizando no ato lúdico a atuação da criança,
tentando agregar imagens, experiências e sentimentos diversos e caóticos.
Prazer e medo. Amor e ódio. Vida e Morte. No entreato dessas tensões,
tudo se desfaz e refaz. E se desfaz. Ao curso da brincadeira, o visitante
se recorda de que um dia arrancou as rodas dos carrinhos. E os olhos dos
bichos de pelúcia. No entreato dessas tensões, voltando ao tempo atual,
a criança veste as bonecas, e as leva para dormir. Mas a criança também
empurra os olhos das bonecas pra dentro da órbita. Arranca braço. Perna.
Cabeça. E, sem querer, derruba no chão as prateiras da casa – e
se diverte com cacos de espelho, com estilhaços da louça e pedaços das
estatuetas quebradas. Doce infância dos fragmentos. Doce infância da
“vida que jamais conseguiu acreditar na morte”. E da morte que
persegue a vida. E, de modo lúdico e / ou em ato de mórbida candura, a
criança tenta sempre re-arrumar, a seu modo, pedaços do que se foi –
partes dispersas. Lacunas, a seu redor. Ignorando o todo e a parte.
Bonecas e coisas em frangalhos. Olho por caixa. Braço por
perna. Bolas de vidro no lugar dos olhos. Paisagens e fotos imemoriais.
Gamela. Concha. Pedaços de móveis. Utensílios e pessoas de cabeça para
baixo. Genitália explícita ou sugerida. Ex-votos. Homem por
santo. Santo por homem. Que adulto não se faz criança, diante do
desmembramento – lúdico e sádico – do todo, e da reunião dos
fragmentos, nos Objetos de Farnese? Ou, ante a memória da casa,
dos cantos da sala, das vasilhas, dos móveis, e da inexorável ordem que
a vida impõe? Que adulto não se faz criança, tentando romper a clausura
das águas e de outros “espaços” ensimesmados? Ou, tentando adivinhar
“frestas no eu que sobrou da véspera? À neutralidade do tempo – tudo
são fragmentos que tentamos juntar. E juntamos. Mas tudo são fragmentos.
Disse um filósofo que “a única realidade do tempo é o instante”.
Inexorável parte. Fugidio tempo que vive a morrer. E nascer. Fragmento
envolto no instante, o corpo. Brinquedo. E jogo. Dádiva. E ruptura.
“O anel que tu me deste era vidro e se quebrou”.
Mas dos pedaços da vida construímos nosso mundo.
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