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revista de cultura # 41 - fortaleza, são paulo - outubro de 2004 |
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As aventuras e os subterrâneos de Jack Kerouac Claudio Willer
* * * Para muitos comentaristas, Os Subterrâneos é a narrativa mais tipicamente beat de Kerouac. Seria a melhor descrição de como foi a vida
daqueles marginais, poetas e poetas-marginais do final da década de 1940
e início dos anos 50, em Nova York e, logo em seguida, em San Francisco e
pelo mundo afora. Era uma vida subterrânea mesmo, pois ainda não havia
acontecido o “estouro” da beat,
sua transformação em fenômeno literário e comportamental, abrindo
caminho para a contracultura e as rebeliões juvenis da década de 1960, e
convertendo seus escritores em personagens públicos. Isso só ocorreria
mais tarde, depois da publicação de Howl
and other poems (Uivo e outros
poemas) de Ginsberg (em 1956) e de On
the Road (Pé na Estrada) de
Kerouac (em 1957). A ação antecede, portanto, em alguns anos a entronização
e coroação de Kerouac como “rei dos beats”,
honraria que ele nunca quis, conferindo-lhe uma fama que não havia
pedido, e um tipo de notoriedade que só contribuiu para sufocar seu
talento e destruí-lo psicologicamente. Kerouac foi realmente um beat? Ele mesmo manifestou dúvidas a respeito, em seu período de
reclusão que durou de sua crise em 1961 até sua morte em 1969.
Certamente, tinha divergências de fundo, no plano da política e da
moral, com Ginsberg e outros de seus companheiros. Além disso, sua
literatura “de estrada” – On
the Road, Os Subterrâneos, Tristessa,
The Dharma Bums, Big Sur, Desolation Angels,
Lonesome Traveller –
corresponde a um dos aspectos de sua obra, a uma das facetas de seu enorme
talento como narrador e renovador da prosódia. Na mesma medida, sua atuação
como participante da geração beat
equivale a uma fase da sua vida e a um dos aspectos de sua complexa, múltipla
e contraditória personalidade. Passou pela beat,
deixando sua marca, como etapa da aventura que foi sua vida, um dos
momentos de sua trajetória pessoal, talvez um dos passos de sua via-crucis. Kerouac foi, na verdade, um romântico extremado e radical;
e sua vida, um percurso em busca do impossível: a concretização de seus
ideais, de uma ética da pureza, a ressurreição de seus personagens
queridos, a recuperação do tempo perdido, da infância idílica, da inocência
original do ser humano, da vitória sobre a morte. Nesse percurso, viajou
por seu país e por outros lugares do mundo, viveu e atuou intensamente,
para, ao fim, fechar-se em copas, recolher-se até morrer, isolado e
incompreendido, aos 47 anos de idade. A publicação de On
the Road no Brasil suscitou a previsível polêmica sobre seu valor
literário e sua importância. Chegou-se a falar em modismo e volta aos
anos 50. E até mesmo em “inútil exumação”, em um de nossos
suplementos literários. Nada a estranhar: a polêmica o acompanhou por
sua vida, e continuou depois dela. Mas é importante assinalar que o
reconhecimento da contribuição de Kerouac e a atenção dada à sua obra
só têm crescido, desde sua morte. Hoje, nos Estados Unidos e em outros
lugares, Kerouc é mais lido e melhor lido. Contribuiu para isso a publicação
póstuma de sua mais extensa e inspirada obra, Visions
of Cody, em 1972. E a maior atenção à sua obra evocativa, em que
fala da infância e juventude: Doctor
Sax, Maggie Cassidy e Vanity of
Duluoz. Tais livros não nos revelam “outro” Kerouac. Apenas
ampliam a compreensão de sua obra e sua personalidade. O destaque dado a
Kerouac como “beatnik” talvez tenha algo de um modismo ultrapassado;
mas não o interesse pelo Kerouac escritor. Este continua e permanecerá.
Tanto assim, que a bibliografia a seu respeito, os estudos dedicados à
sua vida e obra, tem aumentado do começo dos anos de 1970 até hoje. A
biografia pioneira por Ann Charters é de 1973; do mesmo ano, Kerouac’s
Town de Barry Gifford e Visions
of Kerouac de Charles E. Jarvis. Há outro Visions
of Kerouac, por Martins Duberman, de 1977. Allen Ginsberg escreveu
sobre ele Visions of the Great
Rememberer, de 1974, e em inúmeras outras ocasiões. De 1976 é The Naked Angels de John Tytell, sobre o trio constituído por
Kerouac, Ginsberg e Burroughs. De 1978, o interessantíssimo Jack’s
Book, de Barry Gifford e Lawrence Lee, um livro-colagem de depoimentos
a seu respeito.
Foi o biografável por excelência. Personagem de si mesmo.
Atrai-me, dessas biografias, Visions
of Kerouac de Charles E. Jarvis. É uma obra oportunista. Aproveitando
a estada de Jack em Lowell, sua cidade natal, pouco antes de morrer na Flórida
com um buraco no estômago de tanto beber, bem como o fato de serem
conterrâneose terem sido colegas, Jarvis se pôs a transcrever os delírios
do alcoólatra terminal. Registrou uma voz crepuscular, literalmente vinda
das sombras, pois Kerouac, metáfora viva, já não suportava a luz e
preferia ficar na penumbra de uma sala com venezianas cerradas. O segmento
final da hipérbole traçada por sua vida é mostrado com lente de
aumento, na plenitude do que contém de trágico e de patético. Jarvis e
Kerouac caminhando à noite por Lowell, reencontrando lugares da infância
e juventude: duas assombrações percorrendo uma cidade fantasma. Tudo isso também favoreceu a recepção de Kerouac, como
escritor e não apenas como protagonista de um enredo que tem algo de
folclórico e circunstancial. Contribuiu para o exame do valor e importância
de Os Subterrâneos dentro do
conjunto de sua obra. Sabe-se que seu caso amoroso com “Mardou Fox”,
que se transformou em triângulo envolvendo Gregory Corso (Yuri Gligoric
no livro), tendo ainda como participantes da história Allen Ginsberg
(Adam Moorad) e Lawrence Ferlinghetti (Larry O’Hara), ocorreu no ápice
do período mais agitado e criativo de sua vida, de 1951 a 1955, quando,
além de viajar sem parar, escreveu onze de seus livros. Segundo a lenda
criada ao redor da rapidez de Kerouac para escrever, este teria sido o
mais espontâneo de seus textos: logo após terminar o caso com Mardou,
mandou-se para Long Island, onde morava “Memère”, sua idolatrada mãe,
trancou-se no sótão da casa, e escreveu suas 111 páginas “em três
noites de lua cheia, em outubro de 1953”. Há exagero nessa história da velocidade de Kerouac para
escrever. Sabe-se que On the Road não
foi feito apenas em três semanas, mas sim em duas etapas, com boa parte
refeita depois, em uma sucessão de copidesques para atender editores.
Chegou-se a sugerir que o verdadeiro On
the Road, em sua integridade, seria Visions
of Cody. Mas, de qualquer modo, Os
Subterrâneos está em primeiro lugar na escala da rapidez. E, por
isso, como obra especialmente representativa de sua “prosódia bop”,
do estilo criado por ele. São jorros de linguagem, blocos compactos de
texto misturando relato, evocação e reflexão, indo e vindo no tempo,
dentro dos mesmos longos parágrafos. Valendo o paralelo com o jazz, este
é um livro com uma batida acelerada e muito “swing”. E um exemplo
bem-sucedido do que buscava: levar para o papel o fluxo da consciência, a
sucessão de imagens e idéias. E, principalmente, fruir o som e o ritmo
das palavras, os valores fonéticos e prosódicos da língua falada.
Procurou criar uma literatura orgânica e animada, um texto sobre a vida
que, por sua vez, fosse vivo e pulsante. Ginsberg tinha razão ao falar em “ioga da palavra” ao
referir-se a essa fruição das palavras como ritmo e sonoridade,
desligadas de seu sentido imediato. E também estava correto ao mostrar
como Kerouac trazia, integralmente, sua “pessoa” para o texto. Não só
a mente pensante, a consciência reflexiva, mas a pessoa como totalidade:
suas paixões, emoções, nervos e carne. E Kerouac tinha plena consciência
disso. No começo de Os Subterrâneos,
fala de sua “egomania” como dificuldade para narrar (em uma narrativa
escrita em três noites...), assim ironizando a idéia de uma literatura
“impessoal”, derivada de Eliot e dominante entre os formalistas da época.
Sua contribuição foi decisiva para recuperar o sujeito, a fala do
narrador, a primeira pessoa na criação literárias, com reflexos não só
na ficção moderna, mas no jornalismo participante praticado a partir dos
anos 60, com Tom Wolfe e outros.
Kerouac foi uma personalidade dividida, e isso se reflete
em sua relação com as mulheres. Só conseguia ter dois tipos de relação.
Um deles, breve, intenso, sensual, com figuras atípicas, excêntricas,
marginalizadas, discriminadas, como Mardou, Tristessa e a mexicana Terry
de On the Road. Outra, com alguém
que fosse um prolongamento de sua mãe e de sua família, como Stella
Sampas, que foi sua namorada de juventude em Lowell, com quem se casou em
1962 e viveu até o fim, ambos cuidando de “memère” Gabrielle. Seus
dois casamentos anteriores não duraram, juntos, mais que um ano; o
primeiro, de 1945, com Edie Parker, dois meses. A mesma divisão aparece em outros aspectos e momentos de
sua vida. Sempre escolhia os extremos. De duas uma: ou a agitação das
festas e reuniões beat de Nova
York e San Francisco, as viagens frenéticas pelo país em companhia do
loquaz e acelerado Neal Cassady; ou então, a reclusão e o silêncio,
como no final de Dharma Bums
(1957), relato de seu retiro como eremita por dois meses em Desolation
Peak (Pico da Desolação – quem trabalhou lá como guarda florestal foi
Gary Snider). O tema é retomado em Desolation
Angels, escrito antes de Dharma
Bums, porém relatando fatos posteriores, na seqüência da mesma
peregrinação budista. Foi mesmo um solitário, e não por acaso um de
seus livros se chama Lonesome Traveller, viajante solitário. A fama, depois de 1957, com
o sucesso de On the Road, o
perturbava tremendamente. Não se sentia ajustado à imagem de arauto beat,
ao que as pessoas esperavam dele, a começar pelo fato de não ser mais o
rapaz retratado em On the Road, cuja ação transcorrera dez anos antes (o livro bateu
um recorde de fila de espera em editoras – sete anos, do término até
sair). A vida como marginal inédito se adequava mais a ele: na condição
de escritor famoso, era obrigado a conviver com uma sociedade com a qual
pouco tinha a ver. Dois níveis de incompreensão o incomodavam e confundiam.
Um, a mitificação do escritor-viajante, esquecendo que, ao mesmo tempo,
também escrevera sua obra evocativa (o “ciclo de Lowell”), além de
seus poemas (Mexico City Blues e
San Francisco Blues), além de um texto budista, The
Scripture of the Golden Eternity, e do Book
of Dreams, transcrição de sonhos. Outro, da crítica: como On
the Road teve uma acolhida triunfal e se tornou um best-seller,
resenhistas e críticos sentiram-se na obrigação de abordar suas obras
seguintes com especial rigor, apontando defeitos, mostrando o quanto eram
inferiores, mais fracas que a primeira. Esteve entre dois fogos: aquele da
criação de um mito Kerouac, por alguns, e a tentativa de destruição
desse mito, por outros. Seu último livro da fase “de estrada”, Big
Sur, é o relato dessa crise. Mais uma vez, tenta isolar-se, na casa
de praia de Lawrence Ferlinghetti. Ao chegar lá, a solidão o incomoda;
tem um ataque de delirium tremens,
alucinações nas quais combate demônios, e o livro termina com a visão
de uma cruz aparecendo no oceano, sua reconciliação com o catolicismo.
Mas a crise já vinha de antes. Sua ida a Tanger e à Europa em 1957,
relatada em Desolation Angels, só
lhe provocou tédio e sensações de vazio. Em The
Dharma Bums, tentou mudar o estilo, passando a usar frases curtas, com
mais ênfase no relato dos acontecimentos, e menos no seu fluxo de consciência.
Por isso, é o livro preferido por muitos: trata-se de sua obra mais “fácil”,
linear e discursiva. Suas viagens depois de 1956 foram uma busca cada vez
mais errática, cujos objetivos iam se distanciando. Seu biógrafo Charles E. Jarvis achou que Os
Subterrâneos constar como seu relato mais fiel e confessional, e ao
mesmo tempo o mais beat, não passava de “uma monumental ironia”. A fidelidade é
relativa, como aliás em toda a criação literária. Há um depoimento de
Gregory Corso (para Jarvis), segundo o qual Mardou Fox não tivera tanta
importância assim: havia sido mais uma transa, uma eventual companheira
de cama de Kerouac. O testemunho ajuda a entender o processo criativo de
Kerouac. Mardou foi protagonista de Os
Subterrâneos, não por sua importância como caso amoroso, mas como símbolo.
Jack Kerouac reviveu um dos mitos fundadores da literatura:
a volta às origens, a reconquista do tempo primordial. Para entender
melhor sua busca, bem como a constelação simbólica sobre a qual repousa
sua obra, é preciso voltar à sua infância em uma comunidade de
“canuks”, franco-canadenses católicos radicados em Massachusets. Este
era seu verdadeiro mundo, que idealizava e procurava recuperar. Tanto é,
que, dentre seus romances, seu preferido era Visions
of Gérard, onde foi mais longe na evocação e busca do que perdera.
Assim como, para muitos comentaristas, sua obra mais interessante é Doctor
Sax, igualmente evocativo, mas alegórico, desdobramento de um sonho
relatado em On the Road, o combate de um mago, inspirado em William Burroughs,
contra a serpente mítica do Mal. A vida de Jack Kerouac transcorreu sob o signo da perda e
da solidão. Perda de seu irmão Gérard, morto aos quatro anos de idade,
e, em sua obra, símbolo da inocência, paradoxalmente projetada em Neal
Cassady, delinqüente e devasso, mas que, para Jack, era um santo. Perda
de sua língua natal, o dialeto franco-canadense (só foi falar inglês na
escola). Na década de 1930, seu pai Leo perdeu sua gráfica e suas posses
me uma inundação. Seu melhor amigo de infância, George Sampas (irmão
de sua mulher Stella) morreu na guerra. É como se a inundação do rio
Merrimack em 1936 fosse, simbolicamente, uma correnteza levando embora
seus entes queridos, sua língua natal, seus amigos e seus laços comunitários.
Sua obra foi uma tentativa de nadar contra essa correnteza, contra o
Tempo. Uma viagem impossível, que o consumiu e esgotou. A correnteza
acabou jogando-o na margem. A crônica de seus últimos anos é patética:
sempre bêbado, dialogando com fantasmas, repetindo variações do mesmo
monólogo. Jean-Louis Lébris de Kerouac, Jack para o mundo, não foi
o único derrotado na vida e vitorioso na criação literária. Essas
contradições, impasses e paradoxos não são apenas um drama pessoal.
Sua obra, por mais particular que fosse, também é universal, espelho de
todos nós. Em cada um de seus leitores está, talvez adormecido, o beat
aventureiro e o adulto que deseja recuperar a infância. A luta e derrota
contra o Tempo, a contradição entre o sujeito e seu mundo: aí estão
temas que não são exclusivos de Kerouac, porém o fermento da criação
literária, aspectos dessa coisa contraditória que é a própria condição
humana. |
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Claudio Willer é um dos editores da Agulha. Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Valdir Rocha (Brasil). |