revista de cultura # 40 - fortaleza, são paulo - agosto de 2004






 

Invólucro: o corpo nas instalações de Giovana Zimermann

Mirian de Carvalho

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Giovana ZimermannNa tessitura do Pós-Modernismo, alguns artistas optaram pelo trabalho tridimensional, integrando-o ao fluxo de um processo estético receptivo ao corpo. E direcionado ao corpo. Processo esse que – dentre múltiplas manifestações – inclui apropriação de objetos. Ou seja, revestidos de outros sentidos e significados, os objetos integram-se ao trabalho artístico, não mais havendo cisão espacial entre eles e o visitante. Atuando de corpo inteiro, o visitante participa da ambiência e dos lugares da arte.

Definindo outro modo de ver e pensar a técnica e a arte – e valendo-se das coisas comuns – o artista pode criar perspectivas inusitadas de abordagem do cotidiano, ao instalar objetos que emprestam nova ordem ao mundo, muitas vezes questionando hierarquias sociais e políticas. Nas instalações, o corpo envolve-se na ambiência inaugurada pelo artista. Algumas induzem o corpo a posicionar-se, ou a transitar pelo espaço estético – pelo lugar onde se mostra o trabalho artístico. Em certos casos, o visitante pode realizar intervenções nessa espacialidade, ao impacto das sinestesias.

Os desdobramentos de tais propostas artísticas são inúmeros. Algumas vezes, a partir do contato com instâncias da linguagem, o visitante pode lançar-se ao conceito. Nesse caso o visitante atua na esfera da linguagem integrada à expressão artística. Em tais situações o conceitual pode surgir como escrita, ou estrato significativo de natureza lingüística pertinente ao trabalho de arte. Em certas instalações o artista reúne o objetual e o conceitual. Por vezes, além de articular objeto e conceito, ele opta pela inclusão – e releitura – de outras expressões artísticas, como por exemplo a escultura. Nessa reunião, a escultura integra-se à instalação, em desdobramentos não mais restritos ao campo escultórico.

Articulando a escultura ao objetual e ao conceitual, destaca-se o trabalho de Giovana Zimermann que, de 21 de junho a 4 de julho deste ano de 2004, realizou exposição no Rio de Janeiro. Nessa mostra denominada Invólucro, Giovana reuniu vários trabalhos relacionados entre si, com valor de instalação unitária que, enfocando o corpo, o transporta à esfera do conceito, através de fragmentos poéticos.

Giovana ZimermannConvidado a instalar-se nesse Invólucro, e atento à intensidade dos fenômenos sensoriais, o visitante se transporta a processos lingüístico-ideativos, que ultrapassam o espaço da mostra, em situações relacionadas ao sofrimento do corpo. Situações relacionadas à existência. E à vida, gerando possibilidades do ser-corpo, na reunião do ato e do conceito. No fluxo do que pulsa entre matéria e reflexão. Entre o corpo e a poesia.

Dos pés à cabeça, o corpo surge como “lugar” do sofrimento e do nascimento, traduzindo-se nos versos de Vinícius de Moraes – trazidos ao espaço da mostra: “Outra carne virá. A primavera / É carne, o amor é seiva eterna e forte. / Quando o ser que viveu unir-se à morte / No mundo uma criança nascerá.” Ao visitante imerso nessa espacialidade da eterna seiva, o nascimento se processa nos meandros de um invólucro. Que se faz corpo.

No trabalho de Giovana Zimermann, o corpo se reconhece paixão, no sentido originário. Sofre. Revela-se. Respira. Transpira. Vivente ante infortúnio e náusea, sensível e metaforicamente o corpo se agarra à vida por um fio, marcando em tensão ambiência e mundo. Tensão que nos envolve naquilo que temos de mais frágil. Tensão que nos envolve ante o que se revela possibilidade. Unindo o que pulsa nas veias e nervos, o corpo se torna pele. Carne. Parto. E, poética, por mostrar-se origem – foco originário, ungindo limites e expansões. Reunindo o sentir e o pensar. Pensar e sentir. Em ato, corpo e pensamento se vêem lançados à dialética da morte e da vida.

Para instaurar na ambiência a presença do corpo vivente, Giovana utilizou materiais diversos, expressando o corpo de modo implícito e explícito. Em todos esses meandros, o corpo vive. Mostra-se casulo. Ou enclausuramento. Mas mostra-se em estado de luminosidade, ainda que sob luzes veladas. Aderindo ao espaço do visitante, o corpo circunscreve-lhe a pele.

Com o pé distendido em ponta, entramos nesse espaço. Ao entrar, deixamos para trás as amarras das convenções sociais. Tomando consciência do sofrimento, e aderindo à tensão do viver, o visitante percorre os sentidos dos fios suspensos, e os objetos que no espaço da mostra despertam o tato. Em contato com imagens e coisas que dialogam entre si, o visitante agarra-se com unhas e dentes ao ímpeto da vida. Com o pé caminhante, atravessamos a divisória de madeira. Do outro lado, chegamos ao rosto que, de olhos fechados, aguça a visão. E pressente o sofrimento. E ouve a morte. E tangencia o ser, em busca da vida.

Dentro e fora do Invólucro tecido por Giovana, o corpo nos humaniza entre o que temos de fragilidade e desejo – unindo o que pulsa nas veias e nervos. Próxima ao vermelho da cortina – a inscrição: Das Entranhas. Por empatia o visitante se apercebe “dentro” do conjunto de cateteres de plástico, pendentes do alto ao chão. No solo, eles se emaranham sobre película espelhada, originariamente placa de aço. À apropriação desse “objeto”, refletem-se possibilidades latentes na matéria. Possibilidades latentes nesse espelho de semi-obstruído lume. Tensões do brilho contido ante a morte e a vida. Ao chão, acoplada aos “tubos hospitalares”, a bolsa de sangue. Ambíguo objeto. Ambígua cor. Ou substância. No líquido orgânico, ambigüidade sugerindo cansaço. E fôlego. Exacerbada tensão. Entre o que vive e o que se localiza do outro lado.

Giovana ZimermannMobilizado pelos sentidos reagindo a esse jogo antitético, o visitante se dirige ao conjunto de disquetes enfileirados na parede. Tal fossem vasos comunicantes ligados aos tubos de plástico, eles registram o corpo em movimentos vitais. No lugar das etiquetas, fragmentos fotográficos – vísceras. Fragmentos da carne. Informação a ser processada, como se as imagens gritassem a palavra existir – principal motivo desse corpo, reivindicando espaço e tempo da respiração.

Mas, fatal, a demora. Fatal, nossa culpa. Assim, integrando o ambiente, o texto de Marianne Moore se dirige ao visitante: “O que é nossa inocência, qual é nossa culpa? Todos estão nus, ninguém está seguro, e onde está a coragem? (...)” Se, dentro desse jogo dos contrários, inocência e culpa se tangenciam, estamos presos à vida por um fio. E soltos para a liberdade. Demarca-se então o passo que leva o visitante a inserir-se em Linhas, Cordas ou Cordões Umbilicais.

Nesse “recorte” da mostra, a tensão entre morte e vida cria direções, que se completam na idéia do cordão umbilical relacionado à imaginária placenta, alimentando seres pendurados em fios de nylon. Flexionadas em várias posições, pequenas figuras humanas – materializadas em resina pintada de branco – oscilam no ar, presas aos fios translúcidos. Linhas? Cordas? Cordões umbilicais? De tudo, um pouco. Vôo. Mergulho. Viagem. Chegada. Nascedouro. Podemos tocar seus corpos. Retê-los nas mãos. E logo o visitante se sente “dentro” dessa ambiência demarcada por linhas, ou cordas, ou cordões umbilicais. Por estar dentro, percebe-se dentro. Captado pelo Invólucro.

Mas tal envoltório não atua como estigma do corpo aprisionado. O interior não se determina lugar fechado. Trata-se de lugar em transformação. Lá, o corpo se posiciona. Mostra-se protegido. Insurge-se objetual. Estende-se ao conceito. E realiza-se de modo poético transformando linguagem e coisas. Nomeia. Cria referenciais. Nosso ou do outro, o corpo requer cuidado. Participa. Participa, expandindo espacialidades táteis. E situações significativas além desses espaços. Nós nos instalamos nesses lugares – espécie de originário nascedouro – alimentando-nos o percurso.

Giovana ZimermannNesse espaço dos cordões umbilicais soltos no ar, surpreende-nos o lugar oposto: presas à parede, pequenas caixas de acrílico contendo cinzas. Mais um momento da tensão entre a morte e a vida. E início de um novo olhar, fazendo-nos reviver no mito da Fênix o mito da aranha fiandeira. Nos fios prontos à “tecelagem”, encantatório começo ao alcance das mãos. Tecendo. Desatando os nós do corpo em sofrimento.

Nesse Invólucro concebido por Giovana Zimermann, o corpo se revela matéria, pensamento e linguagem. Sobrevive. Nasce. Dos pés à cabeça renasce, criando tramas de cordões umbilicais. Tramas atadas à precariedade do tempo. Mas, liberto em tirantes de fôlego, o corpo resiste. Dentro do Invólucro, somos o corpo que se instala e se move, lançando-nos a outros espaços. Nessas tramas, somos o corpo arfante de vida. Somos o corpo lançado ao limiar de si mesmo. Momento em que, na ponta de um fio, revelam-se nossos atos. Atravessando parede e cortina. 

Mirian de Carvalho (Brasil). Doutora em Filosofia, professora de Estética da UFRJ, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte. Autora de A escultura de Valdir Rocha (2004). Contato: mir3@infolink.com.br. Página ilustrada com obras da artista Giovana Zimermann (Brasil).

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