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revista de cultura # 40 - fortaleza, são paulo - agosto de 2004 |
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Piazzas de Roberto Piva: fruição, contemplação e o misticismo do corpo Claudio Willer
Vale a pena começar pelo exame da recepção de Paranóia,
que não chega a ser daquelas obras esquecidas, que passam em branco para
serem descobertas décadas depois, como aconteceu com a poesia de Sousândrade,
a dramaturgia de Qorpo Santo e Os
Cantos de Maldoror e Poesias
de Lautréamont, entre tantos “malditos”. Vai sendo reconhecido como
marco na poesia brasileira. Contribuíram para isso a boa acolhida à
reedição em 2000 (pelo Instituto Moreira Salles), e, sem dúvida, o
documentário de Ugo Giorgetti (Uma outra cidade, de Ugo Giorgetti, SP Filmes, 2000, disponível em
vídeo). Sua recepção e circulação vêm sendo beneficiadas, de alguns
anos para cá, por um interesse maior por surrealismo e manifestações
afins, que se traduz em publicações como o recente almanaque Azougue
10 anos (editorial Azougue, 2004), no qual seu editor, Sergio Cohn,
localiza a origem da revista Azougue
em um encontro com Piva, na década de 1990. Em 1963, contudo, Paranóia
não poderia ter sido recebido com maior frieza. Distribuído em livrarias
e enviado à imprensa e críticos, foi objeto de um silêncio total. Teve
leitores, atraiu novos amigos à confraria já existente, acentuou a vocação
de Piva para lenda urbana, mas quase não há registros de seu lançamento,
e nenhum crítico, por muitos anos, o examinou. A primeira resenha não
foi publicada no Brasil, porém em La
Brèche, a revista dos surrealistas franceses, em fevereiro de 1965,
em companhia de Amore de Sergio
Lima, e do meu Anotações para um
Apocalipse. Isso, quando movimentações de autores jovens eram pauta,
assunto que interessava à imprensa. Tanto assim, que há dossiês de páginas
ilustradas em jornais e revistas da época sobre a Catequese Poética de
Lindolf Bell, o movimento do Kaos de Jorge Mautner e outros autores e
iniciativas associadas àquela geração. Algo tão estranho, tão fora de esquadro quanto Les
Champs Magnétiques de Breton e Soupault, a primeira obra de escrita
automática, suscitou, ao ser publicado em 1919, apreciações favoráveis,
outras contrárias, e outras nem tanto a favor, nem contra; mas não
passou em branco (conforme bem documenta Marguerite
Bonnet em suas notas para a Oeuvre
Complète de André Breton, coleção Pléiade, da Gallimard).
Encontrou críticos, devidamente estimulados pelos Jarry, Apollinaire e
outros inovadores, que haviam entendido o sentido do é preciso ser absolutamente moderno de Rimbaud, e da defesa do novo
em Baudelaire. A publicação em 1956 de Uivo
e outros poemas de Ginsberg, por sua vez, também provocou celeuma
imediata, com páginas e páginas de argumentação a favor e contra. A
polêmica contribuiu para a adoção dos autores beat
como porta-vozes de uma geração e de uma renovação cultural. O que
houve, no caso da beat, foi
demora na publicação. Para Ginsberg, conforme o depoimento em sua biografia por Jane Kramer
(citada por mim no prefácio de Uivo,
Kaddish e outros poemas), essa demora retardou o fim do período macarthista
e a circulação de obras de cuja tradição faziam parte, como a de
Whitman, William Carlos Williams e Hart Crane. Provocou, portanto, um
atraso cultural. Na mesma medida, a incapacidade de discutir Paranóia
mostrada por um ambiente conservador, impregnado de beletrismo, retardou
um debate, ou, ao menos, deixou passar a chance de registrar uma inovação.
Mas se não houvesse um único palavrão ou blasfêmia,
também não teriam entendido nada. O obstáculo não residia apenas na
agressividade, mas na densidade, e em não se situar ou enquadrar em
nenhuma das correntes ao longo das quais se distribuiu a poesia brasileira
na segunda metade do século XX: geração de 45, poesia concreta, poesia
engajada, marginal, etc. Autores com uma linguagem mais forte vêm
conquistando, a partir da década de 1970, seu lugar ao sol. Contudo,
falta ainda uma leitura adequada de muitos poetas refinados e
substanciosos, a exemplo de Celso Paulini e Rodrigo de Haro, para falar de
autores mais ligados à “geração 60”; e um livro como O Equivocrata de Raul Fiker (Massao Ohno, 1976), é como se não
tivesse sido publicado. Piva difere da poesia informal que ganharia mais
prestígio a partir da década de 1970, embora poemas de Paranóia voltassem à circulação em 1976, na antologia 26
Poetas Hoje (organizada por Heloisa Buarque de Holanda, publicada pela
Editorial Labor, reeditado em 1999 pela Editora Elefante), que repercutiu
ao apresentar a poesia marginal como novidade. Distingue-se também de uma
poesia licenciosa que, por meio de seus melhores representantes (como Glauco Matoso e Sebastião Nunes),
vem produzindo sátira e humor negro através de um discurso do
baixo-corporal que resulta em carnavalização pornográfica, atacando,
sem dúvida, a hipocrisia. No entanto, tomando a distinção de André
Breton entre signo ascendente e descendente, respectivamente, a pimenta
com asas transformada em libélula, e a libélula sem as asas transformada
em pimenta do apólogo de Bashô (em Le
la, o prefácio de Breton para sua coletânea de poemas Signe
Ascendant), vê-se que Piva se move nas duas direções. Tanto estão
presentes o escatológico, o pornográfico e grotesco, quanto, até em
maior grau, o lírico e apaixonado, o sublime e maravilhoso. Além disso,
há, em sua obra, diferença de fundo com relação a muito da literatura gay
e GLS na qual, se imaginarmos uma troca, por exemplo o rapaz a quem se
dirige o poeta substituído por uma moça, voltaríamos ao comum, a alguma
platitude lírica. Talvez incomode por desconhecer fronteiras e convenções,
ao operar em todas essas dimensões e registros. Seu repertório vocabular
é amplo, mas não pende nem para o erudito, nem para o chulo. É o mesmo
de sua fala: não separa expressão oral e escrita. Conforme já observei
aqui (no texto sobre Paranóia),
certas expressões em sua poesia resultam do hábito da nomeação direta,
ao querer que as coisas recebam seus nomes. Para ele, um pau sempre foi um
pau, e não um pênis, e um cu é um cu, tanto quanto uma rosa é uma rosa
ou a Praça da República é a Praça da República. Por sua clareza, é
um contendor do eufemismo na poesia brasileira. Mas o principal motivo da resistência da crítica com relação
a Paranóia, outras obras de
Piva, e também de outros poetas, sempre foi o caráter não-discursivo. O
Brasil recebe mal autores mais oníricos, delirantes ou alucinados.
Aplica-se o que Philip Lamantia dizia dos Estados Unidos, no período de
afirmação beat, ao denunciar
que uma escrita de natureza analógica,
metafórica, não-realista, foi praticamente interditada nesses cinqüenta
últimos anos, mesmo sendo uma prática corrente, quase um hábito na França,
insistindo ainda que a consciência literária americana se fixara no
realismo e no positivismo, tolerando uma vanguarda apenas à margem (Em
seu depoimento para a coletânea Entretiens
- Beat Generation, citado por mim na edição de 1999 de Uivo,
Kaddish e outros poemas).
Alguns poemas – O
Jardim das Delícias, Homenagem
ao Marquês de Sade e Piazza IX
– são no mesmo verso longo de Paranóia.
Mas há um duplo movimento, de expansão e condensação, desde os blocos
de poesia em prosa, como Heliogábalo,
até os poemas em versos curtos, quebrados, distribuídos pela página,
que têm afinidade, nem tanto com o Mallarmé de Um
Lance de Dados, mas com Maiakovski, outro autor da sua predileção, e
os futuristas. Neles, quebra os nexos, não apenas lógicos, porém sintáticos,
com palavras soltas na página e até glossolalias, possíveis onomatopéias:
Não vale/ sair/ com asas/ o cra cra
cra cra cra (…) cra/ se
amassava/ nas velas apagadas/ quem/ quer/ o telhado/ de lágrimas? (O Robô Pederasta) Uma chave de Piazzas
e do que viria a seguir está na primeira frase do livro, em um texto em
prosa poética apresentado como introdução: Uma
tarde em que eu ouvia Palestrina por toda uma vida sem obstáculo, sem a
floresta do afogamento, meu companheiro surgiu no balaústre do meu quarto.
É poesia da contemplação e fruição, e do encontro, não apenas de
interlocutores e companheiros, porém de cúmplices: Sem
ler/ Freud ou Villon/ os garotos/ rompem barreiras (Piazza VI). O dramático confronto entre o “eu” e o mundo de Paranóia
pode ser resolvido através da iluminação: eu
acordo com uma luz que me acena por cima dos tetos aquelas mesmas flores
após a longa chuva de corações. (…) Eu
acordo & elas existem como luz encarnada crescendo em escala até o
supremo Girassol. E da revelação, simbolizada pela referência aos místicos,
ao caprichoso hálito de Jacob Boehme, e por uma espécie de travessia
do espelho, ao entrar nos quadros de Hieronimus Bosch, cujos títulos são
citados: Freud é o Inferno Musical
Nietzsche é o Paraíso Meu
companheiro é o Jardim das Delícias. A poesia é um meio para o
conhecimento e a descoberta: suas mãos escrevendo & pescando/ ninfas escatológicas. Mas,
para chegar lá, o percurso é aquele da iniciação: Como um enorme porco verde perto de um lago o Demônio esteve 2 noites
ao meu lado plantando seus pesadelos & o Sono. Antecipa Quizumba
e Ciclones, onde os temas da iniciação e do conhecimento revelado
ganham relevo. Os encontros correspondem a momentos privilegiados, mágicos:
quando não vais à escola para
assistir Flash Gordon & ler Otto Rank nas esquinas/ o mundo continua
sendo um breve colapso logo que as pálpebras baixem/ & meu amor por
ti uma profanação consciente de eternas estrelas de rapina (O Jardim das Delícias). Então, Uma
tarde/ é suficiente para ficar louco/ ou ir ao museu ver Bosch (Piazza
I), levando-o a reencontrar o
estado originário da imaginação (…) na
primeira figura da natureza (na Introdução).
Podem acontecer no cemitério/
faminto da última FOME/ com tumbas & amantes cheios de pétalas/
porque o céu foi nossa última chance/ esta noite (Piazza
VIII). A relação se completa no mundo sem pecado do Paraíso, em uma cidade sagrada tão/ AZUL (Piazza
XII). Assim, conforme sinalizado em uma epígrafe de Freud – O
Eros quer o contato, pois tende à união, à supressão dos limites
espaciais entre o Eu e o objeto amado (em Heliogábalo)
– Piva expressa um misticismo do
corpo, para utilizar a expressão de Norman Brown em Life
against death (publicado no Brasil como Eros
e Tanatos pela Editora Paz e Terra, na década de 1970 - mas Piva já
o conhecia antes, na época em que escreveu Piazzas).
Nessa obra, Hieronimus Bosch, referência de especial importância, que
reaparecerá em Coxas, de 1979,
associado ao êxtase e ao delírio – o
leitão blindado dança no zigue-zague de Hieronimus Bosch seu tango de
petúnias –, é examinado como representante (junto com William
Blake, entre outros) do adamismo, a doutrina iniciática, possível
variante do gnosticismo dissoluto, que busca reverter a Queda. Quer
reconquistar a inocência perdida, que, para Norman Brown, utilizando
termos freudianos, equivale a recuperar e incorporar a condição de
perverso polimorfo da sexualidade infantil.
Mas como é o locus
paradisíaco, o illo tempore revelado
em Piazzas? Uma indicação é
dada pela homenagem ao Marquês de Sade, onde proclama que falta ao mundo uma partitura ardente como o hímen dos pesadelos. No
posfácio, contrapõe à ordem estabelecida, ao aqui e agora, a Liberdade Sexual Absoluta em todas as suas mais extremadas variações
levando em conta a solução do Marquês de Sade para quem a Justiça é a
Santidade de Todas as Paixões. Heliogábalo,
o poema mais longo do livro, evoca o devasso imperador-adolescente romano
que desconhecia limites, e por isso foi escolhido como tema por Artaud (em
Heliogábalo, o anarquista coroado)
e Stephan George (em Algabal).
Assim, ao declarar que a poesia é a
mais fascinante Orgia ao alcance do Homem, Piva deixa claro que
misticismo não significa alheamento, e que contemplação não é
passividade ou resignação. Reafirmando a crença na superação da
dicotomia entre o simbólico e o real, supõe a recíproca, que a orgia é
poética. O que aconteceu entre Paranóia e Piazzas, fazendo que passasse, em um espaço de tempo tão breve, do furor ao lirismo e ao misticismo? Uma interpretação possível é que Piva se completou, com o acréscimo de seu primeiro livro. Poesia – e a fala em geral – é sedução, comunicação para alcançar o outro. Com Paranóia, deixa de ser uma virtualidade, algo potencial. Passa a ser ele, acrescido do que tem a dizer. A obra se torna uma conexão com a realidade, e mais, projeta-se nela e a transforma. Possibilita novas etapas de uma aventura, uma trajetória pela linguagem e pela vida, que inclui Abra os olhos e diga Ah! de 1976, Coxas, de 1979, 20 poemas com Brócoli, de 1981, Quizumba, de 1983, Ciclones, de 1997, e o próximo livro, já anunciado, Estranhos sinais de Saturno. |
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Claudio
Willer (Brasil, 1940). Poeta, tradutor e ensaísta. É um dos editores da Agulha.
Da
bibliografia sobre Piva, cabe destacar os ensaios Vida Experimental, de Carlos Felipe Moisés, em O Desconcerto do Mundo, do Renascimento ao Surrealismo (Escrituras
Editora, São Paulo, 2001), e A
arte de transgredir (uma introdução a Roberto Piva),
de João Silvério Trevisan, em Pedaço de mim (Editora Record, Rio de Janeiro, 2002), este último disponível
em Agulha
# 38, www.revista.agulha.nom.br/ag38piva.htm.
Contato: cjwiller@uol.com.br.
Página ilustrada com obras do artista Francisco Quintanar (México). |