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Editorial
Velhos
tempos
Em um artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, a 3 de junho, intitulado Conversa Fiada, o arquiteto Oscar Niemeyer tratou, com a autoridade
conferida por seus 96 anos de idade, dos “velhos tempos”.
Reafirmou sua convicção na necessidade de “melhorar o ser
humano”, motivo de sua militância política. Lembrou que “o
partido era para muitos coisa sagrada, uma religião e sua crença”.
Prosseguiu, lembrando os velhos militantes: “Hoje continuo a admirá-los,
convicto, como eles, de que a proposta de Marx e Engels é legítima e
apaixonante”. Um erro, para Niemeyer, teria sido a “falta de modéstia”,
representado por Kruschev: “Ele, que, ambicioso, voltado para o
poder, elaborou o lamentável relatório contra Stálin”. O nostálgico
modernizador da arquitetura brasileira associou engajamento, luta por
tempos melhores, à submissão: “Até na luta política a modéstia
seria eficaz, evitando erros como esse. E, mais ainda, na sociedade
sem classes adotada, aceitando-se as limitações que o novo regime
– igual para todos – vai estabelecer”.
No final do mesmo mês de junho de 2004, morreu Leonel
Brizola, último grande líder do trabalhismo brasileiro, dirigente de
um partido socialista, crítico à esquerda do governo Lula. No Jornal Nacional da TV Globo, declarações de um militante em lágrimas:
“Para nós, Brizola foi um pai! Um verdadeiro pai…!” No dia
seguinte, durante o cortejo fúnebre em São Borja, a mesma TV
registra outra declaração de um adepto, também em lágrimas, também
envolto na bandeira do PDT, lenço vermelho no pescoço: “Fui um
soldado!”
Mas como!? Religião? Coisa sagrada? Um pai? Soldado? A
transformação da sociedade não visava a emancipação, e a conseqüente
superação de todas essas instâncias, símbolos e metáforas da
submissão à autoridade? Ou, sob a capa da militância esquerdista,
quer seja socialista, como no caso dos brizolistas enlutados, ou
comunista ortodoxa, como em Niemeyer, manifesta-se outra coisa?
Declarações como essas são a expressão de um imaginário
associado a militâncias que também poderiam justificar-se invocando
avanços sociais reais e ações efetivas de governo. Mas seu vocabulário
é mais parecido com aquele dos militantes de ultra-direita, os
integristas católicos da TFP, alguma outra ressurreição do
falangismo.
O ensaísta italiano Roberto Calasso, no brilhante A
Literatura e os Deuses (publicado no Brasil em 2004 pela Companhia
das Letras), comenta a pseudomorfose entre religioso e social. Consiste no …social
que, progressivamente, invadira e anexara vastas plagas do religioso,
primeiro sobrepondo-se a ele, depois infiltrando-se numa insana
mescla, e por fim englobando-o em si. Daí resulta a teologia
social. Esta, diz Calasso, …se
desvincula cada vez mais de toda dependência e ostenta a sua
peculiaridade, que é tautológica, publicitária.
A
Literatura e os Deuses é de 2001. Em 1972, Octavio Paz já dizia algo
semelhante, em Los Hijos Del
Limo. Em vez de teologia
social, usou a expressão catecismos
leigos, aqueles que prometem paraísos
geométricos para o futuro, ao postularem uma racionalidade e
conseqüente previsibilidade do devir histórico. Nesse ensaio – e
em um sem-número de ocasiões – Paz insistiu na crítica às …religiões
envergonhadas, sem deuses, mas com sacerdotes, livros santos, concílios,
beatos, hereges e réprobos. (…) A
crítica da religião desalojou o cristianismo, e em seu lugar os
homens se apressaram em entronizar uma nova deidade: a política.
(…) O tema mítico do tempo
original converte-se no tema revolucionário da futura sociedade.
Antes ainda, em 1935, André Breton já havia argumentado
que o estalinismo se identificava aos valores mais tradicionais, a
começar pela defesa irrestrita da família, da pátria, de um
moralismo fechado. Desde então, foram muitas as críticas à esquerda
a partir de uma perspectiva anti-autoritária, argumentando que as
esquerdas se haviam convertido em substitutos da religião. Mas nunca,
antes, a própria militância havia dado razão a essa crítica, de
modo tão claro.
Durante um período de uns duzentos anos, a vida política
das sociedades e das partes do planeta que, genericamente,
correspondem ao Ocidente, foi regida pela polaridade entre esquerda e
direita. Isso, desde a época da revolução francesa até – até
quando…? Até 1989 e a queda do Muro de Berlin? Até 1991 e o fim da
União Soviética? Ou até 2003 e a posse do governo Lula no
Brasil…? – enfim, até algum momento, alguma data na passagem do século
XX ao XXI. Criticar a esquerda, ou as esquerdas, ficou, ao longo de
quase dois séculos, por conta da direita, ou das direitas, em nome da
manutenção do establishment,
da ordem estabelecida, ou da tradição, do retorno ao passado,
defendida pelos integristas e fascistas.
Ninguém, aqui, se identifica à direita ou às direitas
históricas. Mas é preciso indagar qual é o sentido dessa polaridade
esquerda-direita, no momento em que, do discurso de esquerda, parece não
sobrar muito mais que o lamento nostálgico, a evocação de uma
pureza perdida nos “velhos tempos” da militância, daqueles tempos
que foram bons porque havia disciplina, submissão, abdicação,
sacrifício, pais a serem respeitados e cultuados, exércitos onde
perfilar-se. Ou então, pior ainda, quando sobra desse discurso apenas
a adesão a algum caudilhismo ou fundamentalismo ou qualquer outra
modalidade de autoritarismo, desde que se manifeste contra a presente
ordem mundial. Há uma valorização às avessas: se, historicamente,
a esquerda se mostrou autoritária, então isso significa que o
autoritarismo é bom.
A crítica inevitável – aliás, nem se trata de crítica,
apenas de constatação: acabou
– é em favor de outra coisa, de algo efetivamente novo e
transformador. De um novo que talvez seja algo antigo: daquilo que, à
margem da política instituída, por vezes subterraneamente, se
manifestou, ao longo do período de vigência da sociedade burguesa,
como rebelião em defesa de uma visão poética do mundo.
Algo se encerrou. Mas não estamos no fim dos tempos, porém
em um tempo que nos desafia a enxergar onde se anunciam novos tempos.
Os editores |