![]() |
revista de cultura # 39 - fortaleza, são paulo - junho de 2004 |
|
A propósito de Surrealismo e dos manifestos de André Breton: algumas considerações Claudio Willer
1. A imaginação Imaginação
querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares. (...)
Só a imaginação me dá contas do
que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição
terrível; é bastante também que eu me entregue a ela, sem receio de me
enganar (como se fosse possível enganar-se mais ainda). (Breton,
primeiro Manifesto do Surrealismo,
em Manifestos do Surrealismo,
Editora Brasiliense, 1985, pgs. 34-35) Que
misteriosa faculdade é essa rainha das faculdades! (...)
A imaginação é a rainha do verdadeiro, e o possível é uma das esferas
do verdadeiro. Positivamente, ela é aparentada com o infinito. (...) ...todo
o universo visível é apenas um lugar de imagens e de signos aos quais a
imaginação deverá atribuir um lugar e um valor relativos; é uma espécie
de alimento que a imaginação deve digerir e transformar. (Baudelaire, em Charles
Baudelaire, Poesia e Prosa, organizada por Ivo Barroso, diversos
tradutores, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1995, pgs. 804-809) Mas
a inteligência e a vontade têm por auxiliar e por instrumento uma
faculdade muito pouco conhecida e cuja onipotência pertence
exclusivamente ao domínio da magia: quero falar da imaginação, que os
cabalistas chamam o diáfano
ou o translúcido.
Efetivamente, a imaginação é como que o olho da alma, e é nela que as
formas se desenham e se conservam, é por ela que vemos os reflexos do
mundo invisível, ela é o espelho das visões e o aparelho da vida mágica:
é por ela que curamos as doenças, que influímos sobre as estações,
que afastamos a morte dos vivos e que ressuscitamos os mortos, porque é
ela que exalta a vontade e que lhe dá domínio sobre o agente universal.
(...) A imaginação é o instrumento da adaptação do verbo. A imaginação aplicada à razão é o gênio.
(Éliphas Lévi, em Dogma e Ritual da Alta Magia, Editora Pensamento, São Paulo, 2002
pgs. 78-79) 2. A crítica ao realismo: ...a atitude
realista, inspirada no positivismo, de São Tomás a Anatole France,
parece-me hostil a todo impulso de liberação intelectual e moral.
Tenho-lhe horror, por ser feita de mediocridade, ódio e insípida presunção.
(Breton, primeiro Manifesto do
Surrealismo, op. cit. pg. 36) Acho
inútil e fastidioso representar aquilo que é, porque nada daquilo que
existe me satisfaz. A natureza é feita, e prefiro os monstros da minha
fantasia à trivialidade concreta. (Baudelaire, op. cit. pg. 803-804) O
que me entedia na França é que todo mundo se parece com Voltaire
(Baudelaire, Escritos íntimos,
op. cit. pg. 535) Não
recrimino o naturalismo nem por seus termos de barcaça, nem por seu
vocabulário de latrinas e de hospícios... (...) Querer
confinar-se aos lavadouros da carne, rejeitar o supra-sensível, negar o
sonho, nem mesmo compreender que a curiosidade da arte começa lá onde os
sentidos deixam de servir! (Huysmans,
J. K, Lá-bas, Plon, 1961, pg.5) 3. Sonho
O
sonho é uma segunda vida. (...) Começa
aqui para mim o que chamarei de efusão do sonho na vida real.
(Nerval, Gérad de, Aurélia,
tradução e prefácio de Luís Augusto Contador Borges, Iluminuras, São
Paulo, 1991, pgs. 35 e 39) 4. Loucura Fica
a loucura, “a loucura que é encarcerada”, como já se disse bem. (...)
E, de fato, alucinações, ilusões,
etc, são fonte de gozo nada desprezível. (Breton, primeiro Manifesto
do Surrealismo, op.cit, pg. 53) O
que são as coisas deslocadas! Não me acham louco na Alemanha.
(...) ...a imaginação trazia-me
delícias infinitas. Recobrando o que os homens chama de razão, não
deveria eu lamentar tê-las perdido? (Nerval, op.
cit, pgs. 28 e 35) 5. Escrita automática: Certa
noite então, antes de adormecer, percebi, nitidamente articulada, a ponto
de ser impossível mudar-lhe uma palavra (...), frase que me parecia
insistente, frase, se posso ousar, que batia na vidraça. (Breton, primeiro Manifesto
do Surrealismo, op.cit, pg.
53) ... acerquei-me de
uma cômoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como
escrevo sempre que posso. E escrevi trinta a tantos poemas a fio, numa espécie
de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da
minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título – “O
Guardador de Rebanhos”. (Pessoa, Fernando, Obra
Poética, organização, introdução e notas de Maria Aliete Torres
Galhoz, Editora José Aguilar, Rio de Janeiro, 1960, pg. 712). As
hordas de palavras literalmente desenfreadas, às quais Dada e o
surrealismo fizeram questão de abrir as portas, não são das que se
retiram tão inutilmente. (Breton,
Segundo Manifesto do Surrealismo, em Manifestos
do Surrealismo, op. cit, pg.
127) SURREALISMO,
s. m. (...) Ditado do
pensamento na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de
toda preocupação estética ou moral. (Breton, primeiro Manifesto do Surrealismo, op.cit,
pg. 58) Pois
o eu é um outro. Se o cobre acorda o clarim, não é por sua culpa. Isto
me é evidente: eu assisto à eclosão do meu pensamento; eu a contemplo;
eu a escuto; eu lanço uma flecha: a sinfonia faz seu movimento no abismo,
ou salta sobre a cena. (Rimbaud, na “Carta do Vidente”, na tradução de
Carlos Lima em Rimbaud no Brasil,
UERJ-Comunicarte, 1993) Eu
é um outro. (Nerval, anotação em um retrato seu, reproduzido por
Jean Richer, cf. Richer, Jean, Gérard
de Nerval, col. Poètes d’aujourd’hui, Seghers, 1972) Acabo
de passar um ano assustador: meu Pensamento se pensou.
(Mallarmé, em carta a Cazalis, de 1867, cf. Oeuvres
Complètes e várias outras fontes) 6. Intuição:
Um
poeta é um intuitivo, e faz versos por uma operação intuitiva.
(...) No caminho ritual busca-se o
desenvolvimento da intuição pela intuição mesma, ou, se preferir, pelo
instinto (base da ação, da ação perfeita). No caminho místico (?)
busca-se a obtenção da intuição pela abdicação da personalidade. No
caminho mercurial busca-se pelo desenvolvimento da inteligência, de que a
intuição depois se alimente. (Fernando Pessoa, O
grau de adepto menor, em Fernando
Pessoa: O amor, a morte, a iniciação, de Y. K. Centeno, A Regra do
Jogo Edições, Lisboa, 1985. Ortografia atualizada na citação) 7. Arte, valor: O
maravilhoso não é o mesmo em todas as épocas; participa obscuramente de
uma classe de revelação geral, de que só nos chega o detalhe: são as ruínas
românticas, o manequim moderno
ou qualquer outro símbolo próprio a comover a sensibilidade humana por
algum tempo. (...) Coincidem com um eclipse do gosto que sou feito para
suportar, eu que tenho do gosto a idéia de um grande defeito. No mau
gosto de minha época, procuro ir mais longe que os outros. (Breton,
primeiro Manifesto do Surrealismo,
op.cit, pg. 47) ... (eu sustentava
que o mundo acabaria, não por um belo livro, mas por uma bela propaganda
do inferno e do céu) (Breton, idem, pg. 54) Admirava
as pinturas medíocres, bandeiras de
portas, cenários, telões de saltimbancos, letreiros, iluminuras
populares; a literatura antiquada, latim de igreja, livros eróticos sem
ortografia, romances dos tempos de avó, contos de fadas, almanaques
infantis, velhas óperas antigas, refrões simplórios, ritmos singelos.
(Rimbaud, Alquimia do Verbo, em
Rimbaud, Arthur, Prosa Poética
Completa, organização e tradução de Ivo Barroso, Editora Topbooks,
Rio de Janeiro, 1998, pg. 161) 8. História da literatura- literatura comparada Mas
vejam de que admirável e perversa insinuação já se mostrou capaz um
pequeno número de obras muito modernas, as mesmas das quais o mínimo que
se possa dizer é que nelas o ar é particularmente insalubre: Baudelaire,
Rimbaud (a despeito das reservas que lhe fiz), Huysmans, Lautréamont,
para ficar só na poesia. Não tenhamos medo de erigir em lei essa
insalubridade.
(Breton, Segundo Manifesto do Surrealismo, em Manifestos
do Surrealismo, op. cit, pg.
129) ...pois só lhe
interessavam verdadeiramente as obras doentias, consumidas e irritadas
pela febre. (...) ...voltava-se
ele obrigatoriamente para certos escritores tornados ainda mais propícios
e mais caros a ele pelo desprezo em que os tinha um público incapaz de
compreendê-los. (Huysmans, J. K, Às
avessas, tradução e estudo crítico de José Paulo Paes, Companhia
das Letras, São Paulo, 1987pgs. 189 e 216) ...na
hora em que os poderes públicos se preparam para celebrar grotescamente
com festas o centenário do romantismo, nós dizemos que essa romantismo,
do qual aceitamos historicamente ser considerados como cauda, mas
então cauda de tal modo preênsil,
por sua essência mesmo em 1930, reside inteiramente na negação desses
poderes e dessas festas, que ter cem anos é para ele a mocidade, que o
que se chama erradamente sua época heróica não pode mais, honestamente,
significar senão o vagido de um ser que apenas começa a fazer conhecido
o seu desejo através de nós e que, se se admite que o que foi pensado
antes dele – “classicamente” – era o bem, quer incontestavelmente todo
o mal. (Breton, Segundo
Manifesto do Surrealismo, op.
cit, pg. 129) A
crítica atual é injusta com o simbolismo. Você diz que o surrealismo não
procurou valorizá-lo: historicamente resultava inevitável que se
opusesse a ele, porém a crítica não tinha porque fazer-lhe restrições.
Era quem devia encontrar de novo, e pôr em seu lugar a correia de
transmissão. (Breton, André, El
Surrealismo – Puntos de Vista y Manifestaciones, Barral editores,
Barcelona, 1977, pg. 15 –edição espanhola de Entrétiens, entrevistas
radiofônicas de Breton)
9. Para concluir, algumas observações minhas: Os
sucessores da geração de escritores do fim de século francês, que
inclui os agrupados como poetas malditos por Verlaine, são, como herdeiro
direto, Alfred Jarry, assim como Apollinaire e Reverdy, Dada e o
surrealismo. Quem vê o surrealismo exclusivamente como apologia do delírio,
criticando-o pelo irracionalismo, comete um equívoco: a loucura havia
campeado nas décadas precedentes, no período que medeia entre o
Simbolismo e o modernismo vanguardista, e que, mais apropriadamente, pode
ser visto como exacerbação do Romantismo. Os surrealistas lhe deram, é
certo, continuidade; mas tentaram conferir-lhe uma dimensão política,
resumida na proposta bretoniana de tornar um só o transformar a sociedade de Marx e o mudar a vida de Rimbaud (em Position
Politique du Surréalisme, conjunto de textos agregado à edição
Pauvert dos Manifestes, op.
cit.). E a sistematizaram na
revisão da história da literatura proposta, com especial clareza, no
Segundo Manifesto do Surrealismo. (...) Octavio
Paz prossegue a mesma revisão da história da literatura, entendendo o
Romantismo, não como período circunscrito, delimitado por algumas datas
do final do século XVIII e meados do XIX, mas como processo, uma vertente
marcada pela rebelião e ruptura. Por isso, em Los Hijos del Limo (op.
cit), fala em revolução romântica, manifestação
da tradição da ruptura, contraposta
ao classicismo. E distingue o romantismo oficial, dos manuais de
literatura, de um verdadeiro romantismo francês: A poesia francesa da
segunda metade do século passado - chamá-la de simbolista seria mutilá-la
- é indissociável do romantismo alemão e inglês: é seu prolongamento,
mas também é sua metáfora (no meu prefácio para Lautréamont
– Obra Completa, Iluminuras, São Paulo, 1997, pg. 55). -
bibliografia complementar Além
das obras citadas acima, especialmente: Béhar, Henri, André
Breton, Le grand indésirable, Calmann-Lévy, 1990; |
|
Claudio Willer (Brasil, 1940) é um dos editores da Agulha. Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Carlos M. Luis (Cuba). |