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revista de cultura # 38 - fortaleza, são paulo - abril de 2004 |
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Valdir Rocha: a palavra, a imagem e o olhar Claudio Willer
A seguir, algo sobre a gênese dessas obras e o pensamento
de Valdir Rocha, as idéias que norteiam e dão sentido a essas
iniciativas, e também exemplares de sua criação visual, no dizer do crítico
Jorge Anthonio e Silva (na publicação de Gravuras
em Metal), imagens inconclusas
ao olhar precipitado, mas geratrizes de intranqüilidade ao olhar responsável
pela vivificação atemporal da arte, e também uma arquitetura
de representações hieráticas de acentuada majestade, expressões
contraditórias, ambigüidade latente, e força expressiva feita de
antagonismos que se organizam subjetivamente no espectador como um jogo
solitário. O que vem a seguir é complementado pelo que já consta no
Jornal de Poesia de Soares
Feitosa, em www.jornaldepoesia.jor.br/feito111.html.
[CW] CW - Em primeiro lugar,
queria saber sobre sua gênese, sua formação. Como se dirigiu para as
artes plásticas e, correlatamente, parece-me, às artes gráficas? O que
o influenciou ou fez despertar sua vocação? Em outras palavras, de onde
você saiu? VR - Voltei-me às artes plásticas, inicialmente, como
mero espectador. Isso mesmo: quando adolescente, meu primeiro emprego,
como "office-boy", levou-me a trabalhar como andarilho
profissional a executar tarefas nas ruas do Centro de São Paulo. O dia
inteiro ocupava-me com ir de lá para cá, de um a outro lugar. E era
ligeiro; modestamente, gastava metade do tempo dispendido pelos meninos,
meus colegas, para executar e bem as mesmas tarefas. Meu chefe então
mostrou-me que isso era bom mas tinha um lado ruim: reconhecia meu empenho
e, concomitantemente, ficava preocupado com que seus superiores viessem a
entender que ele não necessitava de um auxiliar. Orientou-me, assim, a
usar o tempo, conforme as tarefas que me atribuía. O tempo sobrante, eu
utilizei para ver. Ver muito. O centro da Cidade era uma delícia para
mim, que vinha de bairro periférico. E vi tudo, sobretudo multidões e muitíssimas exposições.
Lembro que as principais galerias de arte, naquela época, estavam
localizadas no Centro da Cidade e mesmo o Museu de Arte de São Paulo
tinha a sua sede na Rua Sete de Abril. Trabalhava seriamente e
deliciava-me, também. Foi naquela época que descobri que nunca tivera
antes uma aula de verdade sobre desenho, que era o nome da disciplina que
deveria apresentar as artes plásticas, no antigo ginásio: meus
professores limitavam-se a indicar umas tolices a copiar. Sempre fui péssimo
em cópia; não aprendi essa lição e os professores não conseguiram
ensiná-la a mim; ficamos empatados. Daí que minha formação, no âmbito
das artes plásticas, deu-se pelo método conhecido como autodidático:
aprendi vendo; ensinou-me quem me surpreendeu o olhar. Aprendi, por mim, com tantos, lições libertadoras.
Aprendi e apreendi só o que me interessava; todos os que realizaram as
coisas que vi - e apreciei ou não - ensinaram-me o que buscar e do que me
afastar. A minha lista de influências seria imensa, pois. Adolescente, pus-me, sozinho, a estragar materiais até
obter os primeiros resultados. Joguei, sem dó, muita coisa fora (como
ainda continuo a fazer). O autodidatismo, no início e durante muitíssimo tempo,
decorria também da total impossibilidade de tomar aulas, fosse porque não
tinha como pagá-las, fosse porque não teria como adquirir materiais
normalmente solicitados a acompanhar lições, porque àquela altura - se
tivesse recursos - talvez eu soubesse escolher um professor avesso a
ensinar cópias. Adolescente, realizei algumas exposições coletivas e
uma individual e soube, de vivenciar, que teria de ganhar a vida com
outros recursos, até porque – aí há vaidade - nunca quis fazer
concessões, não queria usar esta ou aquela cor, este ou aquele motivo - que
não fossem meus - só porque eram vendáveis. Tive todo apoio de meus pais, dentro de suas possibilidades
materiais, para minhas escolhas - não posso esquecer. Decidi continuar desenvolvendo minha pintura, meu desenho,
mas sem com eles me obrigar a ganhar o dinheiro necessário a levar a
vida. Sabia que correria o grande risco de deixar tudo aquilo pelo
caminho. Felizmente, mantive disciplina de trabalho permanente; desenhei e
pintei, no mesmo passo em que fui fazendo outras coisas. Cuidei do pão e da paixão, como as circunstâncias
permitiram. Fiz o Curso de Letras e depois a Faculdade de Direito da
Universidade de São Paulo, onde, subseqüentemente, concluí o Doutorado
e obtive a Livre-Docência. Muitos dos que conhecem meu trabalho dessa área
nem sequer sabem da minha paixão pela criação artística, e vice-versa. Como vê, não tive aquela formação dita metódica nas
artes plásticas - o que, sem dúvida, deve ter muitos prós e muitos
contras. CW - Nesse percurso,
houve artistas ou obras de artes plásticas que o impressionaram
especialmente, o influenciaram ou, em outros termos, "fizeram sua
cabeça"? VR - Desde antes de me propor a ingressar nos domínios
incertos da criação, tive a oportunidade de tomar contato com a obra de
inúmeros artistas. Tantos foram os que me impressionaram: Giotto, Brüeguel,
Rembrandt, Goya da fase negra, Van Gogh, Picasso… Admiro, por princípio, simplesmente e só um pouco, cada
autor sério, disciplinado e buscador, mesmo que não tenha empatia com
sua obra. Valorizo a busca, sabedor de que cada qual tem lá seu caminho e
poderá chegar a algum lugar, desde que se ponha a andar. E admiro, de
modo especial, aqueles que, além de buscarem, encontraram, dizem ou
disseram com personalidade. Para dar nomes de alguns artistas brasileiros que acharam
algo, menciono Livio Abramo, Oswaldo Goeldi, Marcelo Grassmann e Odetto
Guersoni (na gravura) e de Alfredo Volpi e Portinari (na pintura), dentre
aqueles que admiro. Mais que todos, parece-me que Wega Nery terá criado
obra pessoal, singular, pronta e acabada, de grande valor intrínseco - a
sua criação pictórica, a partir das paisagens imaginárias, é o que
vejo de mais rico no cenário das artes plásticas brasileiras. Admiração é uma coisa; influência é outra. Admito
admirar, porque admiro mesmo, a muitos. Nego influências, ainda que
admita poder tê-las, inconsentidamente. Acontece que, por puro medo, fujo
das influências, pois nessa seara da visualidade, todas elas parecem-me
danosas e perversas. Atrevo-me. Quem me fez a cabeça terá sido habilíssimo: cuidou também
de não me deixar registro cômodo e consciente de sua atuação. Não
gostaria que isso fosse visto como mera ou vera presunção, mas sim como
espécie de vacina constantemente renovada. Tenho, admito, a vaidade de
procurar produzir coisa com marca pessoal, ainda que não a encontre
jamais. Mário Quintana escreveu, no Caderno H, que "Um
pintor, por exemplo, não pinta uma árvore: ele pinta-se uma árvore."
Cada desenho, pintura, gravura ou escultura há de ser um auto-retrato,
independentemente de seu assunto. CW - Fale sobre essa
relação que você promove entre criação visual e poesia. VR - O meu interesse pela literatura é bastante antigo.
Fiz a Faculdade de Letras e lecionei Literatura Brasileira no Curso
Colegial. A poesia e a ficção sempre me falaram alto. Acho essencial a todos os homens essa incursão nos
estimulantes domínios da palavra. Não quero com isso dizer que toda
pessoa deva exercitar a literatura como criador; quero, sim, afirmar que a
leitura é um meio enriquecedor de tantos quantos a ela se dedicam. Criar é revelar; acessar a criação é contatar com a
revelação. A poesia e a ficção revelam muitos mundos; permitem
viagens sem deslocamento; promovem diálogos acalorados entre calados…
A palavra ilumina o olhar, assim como a imagem visual há
de aguçar a palavra. Desenvolvi projetos que contaram com a participação de
muitos poetas - hoje são dezenas aqueles com que tenho alguma espécie de
parceria em livros que reproduzem minhas pinturas e gravuras (Intimidades
Transvistas, Escrituras, São Paulo, 1997, com 20 poetas; Fui Eu,
Escrituras, São Paulo, 1998, com 41 poetas; Xilogravuras, Escrituras,
São Paulo, 2001, com 4 poetas). Além disso, há algumas produções surgidas
espontaneamente, especialmente no âmbito da Internet, que me têm dado
muita alegria, como é o caso muito especial de um poema e de um conto de
Soares Feitosa, textos que conversam com a minha pintura "Fui
Eu". Os poetas e os ficcionistas - descobri há muito tempo - são
olhadores privilegiadíssimos. Vejo-me com os olhos deles. CW - Vejo que seus
projetos de cooperação ou interação ou diálogo entre o visual e o
texto crescem. Começam com uma antologia de poetas ilustrados por você
(aliás, ilustrados e também, parece-me, diagramados, visualmente
programados, foi isso?). E uma recíproca, poetas ilustrando
literariamente um quadro seu, Fui eu. A
partir daí, as dimensões e possibilidades de variações desses
trabalhos foram crescendo, tornaram-se edições em vários volumes, séries
de poetas que você ilustrou ou programou visualmente, e também vários
volumes do mesmo poeta, no caso, de Celso de Alencar. E, nesse projeto,
você multiplica as dimensões do diálogo, convoca poetas-críticos a
participar, para escreverem sobre os volumes do Celso de Alencar. Onde
isso vai dar? Até onde se expandirá esse diálogo? Você tem idéia de
quais serão os próximos projetos? Conte algo, também, sobre a gênese
desse projeto recente com o Celso. Como ocorreu a idéia? Foi você quem
propôs os temas? Qual a razão desses temas, alguns bíblicos, todos lendários
ou arquetípicos? VR - Suas indagações dão-me a oportunidade de fazer
esclarecimentos muito importantes: primeiro, nunca ilustrei
qualquer livro. Não sou ilustrador; não desenvolvi nem quero desenvolver
essa aptidão. Valorizo muito o trabalho dos ilustradores mas não está
em mim ser um deles. Efetivamente, no livro Intimidades Transvistas
compareceram vinte poetas com quatro poemas cada, criados em torno de
oitenta diferentes pinturas minhas. Por iniciativa do editor, cada poeta
recebeu quatro fotografias de pinturas minhas, por ele escolhidas, com
indicação dos respectivos títulos e o convite a realizarem poemas a
partir do assunto, tema ou situação por elas sugeridos. A rigor, não
houve trabalho de ilustração: as pinturas precederam os poemas. Houve
certa inversão da ordem habitual: os poemas, todos inéditos, partiram de
algo sugerido pelas pinturas, com elas se harmonizando, mas funcionando
independentemente também. Os poetas presentes nesse volume foram
escolhidos pelo editor, que se incumbiu da diagramação visual (não sou
diagramador). Fiz sugestão de alguns nomes de poetas de quem conhecia a
produção - alguns aceitos, outros não -, sendo de se assinalar que nem
sequer conhecia a obra de muitos dos que afinal foram reunidos. A poeta Eunice Arruda procurou-me, depois, com uma idéia
que concebera: consistia em reunir um número significativo de poetas de
sua escolha pessoal a quem ela convidaria para escrever cada qual um
poema, sempre em torno de uma única pintura, exatamente Fui eu,
que, aliás, ela conhecera por estar reproduzida no livro Intimidades
Transvistas, de que e participara. A inciativa, sinceramente,
agradou-me e, apoiando-a, cuidei de multiplicar cópias fotográficas da
pintura, que foram enviadas aos autores convidados. A coordenação da
Eunice Arruda, que eu não conhecia pessoalmente antes desse trabalho,
resultou em volume com a participação de 41 poetas. Aproveito para
anotar que Eunice Arruda, como coordenadora do volume, dissera-me que não
incluiria poema seu no volume e eu insisti muito em sua presença como
autora. Assumo essa responsabilidade; não se trata de compadrio mas de
insistência decorrente da admiração que tinha e tenho pelo trabalho
dela, que usa a palavra parcimoniosamente, com peso, severidade e certa
rudeza até. Diria que ela escreve com os mesmos elementos com os quais eu
há muito procuro desenhar, pintar, cavar. Na seqüência, surgiu o volume Xilogravuras, que
reuniu o conteúdo de quatro álbuns. Nesse caso, usei de escolha pessoal
e convidei os poetas Álvaro Alves de Faria, Celso de Alencar, Eunice
Arruda e Raquel Naveira a, depois de conhecerem as minhas gravuras de cada
álbum pronto e acabado, a desenvolverem poemas para elas. Insisti em que
fossem poemas que se reportassem aos assuntos objeto das xilogravuras, mas
que funcionassem também quando delas separados. Ou seja, ninguém
ilustraria ninguém. Fiquei feliz com a aceitação dos convites. No caso específico do livro Testamentos, de Celso
de Alencar, a história foi em tudo muito diferente. Desafiei o Celso a
escrever dez seqüências de poemas, cada uma delas enfeixada por dez títulos
que eu apresentaria, um a um, progressivamente e só depois de concluída
cada etapa mensal. Segundo as regras do jogo que apresentei, a continuação
poderia ser destratada se o tema não lhe interessasse ou parecesse
impertinente etc. Da minha parte, também poderia pôr um paradeiro se a
etapa dada como concluída deixasse a desejar. Um e outro não
necessitaria justificar o fim de jogo. Desafio aceito, Celso pôs-se
a criar os poemas. Algumas seqüências, sinto, terão sido mais duras ou
doloridas ao poeta porque o título proposto possivelmente mexia muito com
experiências pessoais mais entranhadas, ou, de antemão, dissesse pouco.
O título de uma das seqüências, O Filho Pródigo, foi sugerido
por Jorge Anthonio e Silva e, de início, relutei em aceitá-lo, mas
depois convenci-me de que era em tudo muito adequado, pois buscava
alternar títulos que fizessem o poeta transitar entre o sacro e o profano
- esse era o único motor das provocações. Eu mesmo não tinha, desde o
início, os títulos de todas as seqüências e eles foram surgindo com o
desenvolvimento do texto. Pandora foi título apresentado com a
solicitação de que se escrevesse na primeira pessoa do singular, com
narrativa feminina, e o Celso aceitou. Uma particularidade: o título Testamentos,
que dei ao volume, só o revelei ao Celso (que se pôs de acordo com ele)
quando quase pronto todo o texto do livro. No volume editado, as seqüências
aparecem na ordem inversa à da feitura ao longo dos meses. Os dez
poetas-críticos convidados a escrever sobre cada uma das sequências, por
minha iniciativa, foram escolhidos de comum acordo com o Celso. A escolha
buscava, de algum modo, chamar posfaciadores que, a nosso modo de ver,
tivessem alguma ligação com cada temática. Entendo que é muito frutífera a interação entre as
diferentes formas de manifestação criativa. Continuarei a provocá-la
sempre que me ocorrerem idéias aproveitáveis. Sinceramente, não sei onde isso vai dar. Estou aberto a
diferentes caminhos. CW - Perguntaria se você
acrescentaria algo. E faria apenas observações adicionais, que você
pode comentar. Algo bem observado no extenso e detalhado (e bem
fundamentado) ensaio de Péricles Prade sobre sua série de esculturas, Cabeças
- a volta do totêmico - talvez uma versão pessoal da famosa inversão
oswaldiana do tabu em totem. Primitivismo, diálogo com máscaras, cabeças
e ícones de culturas de sociedades tribais, recuperação de uma origem,
isso equivale a um projeto, a uma busca proposital em sua criação? VR - As cabeças atraem-me, absorvem-me e consomem-me.
Quando comecei a traçá-las embrionariamente eram coisa muito diversa
daquilo a que cheguei com elas ou elas chegaram-se a mim e em mim.
Quanto às máscaras, converso com elas mas já dialoguei
mais. Hoje estou mais próximo do desmascaramento nu e cru de meus
personagens. Acentuo: trato minhas cabeças como personagens que são;
cada um deles tem uma história pessoal completa (com começo, meio e
fim), que ignoro antes de trazê-las à luz. A concentração nas cabeças, inevitavelmente, acaba me
levando a muitas paragens - o que inclui todas as culturas, todas as
tribos, orientais, ocidentais, sejam elas ancestrais, contemporâneas ou pósteras
- universais e pantemporâneas. Nesse sentido, inclui-se desde a recuperação
de uma origem até a projeção de destinos. Todos os homens são, foram e
são um só. Ao meu trabalho, interessam os mitos, os místicos, o que
está no alto e no chão e sobre todas as coisas suas atitudes. Até
quando lido com "simples" paisagem tenho em mira os personagens
ou sua ausência. Sobre a minha criação, sei mais do que não quero para
ela. Meu projeto de criação diz muito com a constância do
trabalho, que não quero circunscrito e predefinido exatamente para não
desperdiçar as oportunidades apresentadas pelo acaso e pelo espontâneo. CW - Algo sugerido pelo
ensaio de Carlos Soulié do Amaral sobre suas gravuras em metal - há,
sim, uma releitura da vida urbana, metropolitana - todas essas caras, essa
diversidade de ícones e de fisionomias, pode ter uma relação com a
diversidade caótica da vida na metrópole, sem dúvida sua primeira influência
ou fonte de informação visual, pelo modo como você percorria a cidade
como mensageiro, observando-a, ao trabalhar nas ruas, como relata na
resposta a nossa primeira pergunta. VR - Aceito bem a leitura urbana, metropolitana, que se faz
de meu trabalho. Eu mesmo não tinha e não tenho ainda agora a preocupação
consciente de promover releitura urbana. Carlos Soulié do Amaral viu mais
do que eu em meu próprio trabalho; e penso, refletindo, que viu
certeiramente. Todo texto, inclusive o visual, há de comportar todas as
leituras que dele se possam tirar. Se eu risquei, está riscado. Ressalvo
apenas que desenhei, há bons anos diversos perfis de construções
urbanas - desprovidas de pessoas - com preocupação mais formal do que de
outra ordem. No entanto, o papel do crítico ficou latente para mim, qual
seja, o de promover outro olhar, profundo, culto e revelador, quando
mostrou esse aspecto urbano presente em meus personagens,
independentemente de onde estejam geograficamente localizados. Quanto a sua referência a "diversidade caótica da
vida na metrópole", diria que o caos está na metrópole e fora
dela, porque antes de tudo está intimamente enraizado no homem,
independentemente de onde se encontre. O ajuntamento e o isolamento humanos,
típicos da metrópole, parecem traduzir melhor a noção de caos, mas sem
exclusividade. Meus personagens podem ocasionalmente reservar essa
leitura lembrante do caos ou não. Quando digo "meus
personagens" sei que freqüentemente estou me apropriando de
personagens milenares ou seculares e conferindo-lhes apenas minha versão,
meu jeito de vê-los e fazê-los vistos. Enquanto trabalhador da
visualidade, não me ocupo em ser crítico social; no entanto fico atento
às contradições, aos deslizes, às incoerências e às atitudes paradoxais,
traduzíveis por caóticas. Como não sou um intérprete dramático,
valho-me no máximo de alguma ironia. CW - A propósito
do conjunto formado pelos livros recentes, inclusive o do Celso de
Alencar, e pelos CDs. Esse conjunto vai desde o artista quase ausente, ou
extremamente sublimado, comparecendo, em Testamentos, à exceção da
capa, como fonte de idéias, de temas propostos, e não mais de imagens
visuais, até a exposição da produção visual, passando pelo encontro
de diferentes registros, o vocal inclusive, nos CDs. O que é isso? Arte
total, atualização da idéia wagneriana? Uma versão pessoal, não-redutora,
do verbi-voco-visual? Faça os comentários que julgar cabíveis. VR - Eu poderia aproveitar a abertura dada por sua colocação
para valorizar indevidamente o que não tem maior valor, mas é preciso pôr
as coisas em seus devidos lugares. No caso do recente livro do Celso de
Alencar, Testamentos, não se trata de querer me omitir, fazer-me
ausente, encenar ou criar mistério e, sim, de deixar claro que nada fiz
além de provocar, por etapas, com mínima interferência, além daquela
posta no núcleo do jogo. A resposta do poeta é tudo o que conta e o
que fica. Quanto aos CDs, talvez você se refira na verdade a um único
CD, o Xilogravuras, com reprodução de meu trabalho e registro
escrito de poemas e vozes do Álvaro, do Celso, da Eunice e da Raquel, que
significa apenas uma forma a mais de promover a interação entre o
visual, o escrito e o vocal. Essa interação deveria ser muito mais freqüente.
Quando conheço a voz de um poeta, leio seus poemas como se
o ouvisse e isso me ajuda a dar o ritmo e a entonação adequados. ÚLTIMAS
EXPOSIÇÕES E LIVROS DE/SOBRE VALDIR ROCHA 1.
EXPOSIÇÕES Com dedicação às artes plásticas desde 1967, as últimas
exposições de Valdir Rocha foram: Cabeças,
na
Galeria Arte Aplicada, em abril de 2002, em São Paulo, com pinturas e
esculturas em bronze; e Domínios e Dominações,
na
Sala Mario Pedrosa, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, com
xilogravuras, pinturas sobre ex-matrizes e gravuras em metal, em setembro
de 2002. 2.
BIBLIOGRAFIA Parte representativa de sua obra está nos seguintes livros
e álbuns: Mentiras,
Verdades-meias e Casos Veros (Escrituras, São Paulo, 1994),
mistifório em que juntou pequenos textos (aforismos etc.) com reproduções
de pinturas, esculturas, desenhos etc. Intimidades
Transvistas (Escrituras, São Paulo, 1996), com reprodução de 80 de
suas pinturas, ilustradas com poemas de 20 autores, a saber: Alonso
Alvarez, Christiane Tricerri, Cristina Bastos, Eunice Arruda, Gonzaga Leão,
Hamilton Faria, Helena Armond, Ives Gandra, Jorge Mautner, Marola Omartem,
Neide Arcanjo, Nilson Machado, Olga Savary, Pedro Garcia, Raimundo
Gadelha, Raquel Naveira, Renata Pallottini, Renato Gonda, Thereza Motta e
Wilson Pereira, com apresentação de Aguinaldo Gonçalves. Nesse volume,
inverte-se a ordem usual das edições em que desenhos ou pinturas
ilustram textos anteriormente escritos: os poemas partem de algo sugerido
pelas pinturas de Valdir Rocha, com elas se harmonizando; Fui
Eu (Escrituras,
São Paulo, 1998), volume em que 41 poetas brasileiros, sob a coordenação
de Eunice Arruda, escrevem poemas em torno de uma única pintura que lhes
serve de ponto de partida. Participam do volume: Alcides Buss, Álvaro
Alves de Faria, Álvaro Faleiros, André Carneiro, Anibal Beça, Aristides
Sergio Klafke, Astrid Cabral, Beatriz Helena Ramos Amaral, Carlos Nejar,
Celso de Alencar, César Leal, Cláudio Willer, Donizete Galvão, Dora
Ferreira da Silva, Eunice Arruda, Fernando Py, Flávia Savary, Iacyr
Anderson Freitas, Ieda Estergilda de Abreu, João de Jesus Paes Loureiro,
Jorge Tufic, Leila Echaime, Leila Miccolis, Lindolf Bell, Lucia Ribeiro da
Silva, Luciano Maia, Maria Lucia Dal Farra, Maria Rita Kehl, Neide
Arcanjo, Núbia N. Marques, Olga Savary, Orides Fontela, Renata
Pallottini, Rodrigo de Haro, Rubens Jardim, Ruy Proença, Samuel Penido,
Terêza Tenório, Ulisses Tavares, Urhacy Faustino e Virgilio Maia, com
apresentação de Marlise Vaz Bridi; Memórias
(São
Paulo, Quaisquer, 2001), 17 xilogravuras, acompanhadas de poemas de Eunice
Arruda; Nus
Frontais (São Paulo, Quaisquer, 2001), 16 xilogravuras,
acompanhadas de poemas de Raquel Naveira; Sete
(São
Paulo, Quaisquer, 2001), 25 xilogravuras, acompanhadas de poemas de Celso
de Alencar; Vagas
Lembranças (São Paulo, Quaisquer, 2001), com 27 xilogravuras,
acompanhadas de poemas de Álvaro Alves de Faria; Valdir Rocha – Xilogravuras
(São Paulo, Escrituras, 2001), com mais de 120 xilogravuras
reproduzidas e apresentação de Nelly Novaes Coelho; Cabeças
(São
Paulo, Arte Aplicada, 2002), com reproduções de pinturas e esculturas em
bronze, texto de apresentação de Péricles Prade e texto de orelha de
Sabina de Libman; Gravuras
em Metal (São Paulo, Artemeios, 2002), com texto de apresentação
de Carlos Soulié do Amaral; A Escultura de Valdir Rocha,
de Mirian de Carvalho (São Paulo, Escrituras, 2004, no prelo), com mais
de 100 reproduções; e O
Desenho de Valdir Rocha, de Péricles Prade (São Paulo, Escrituras, 2004, no
prelo), com mais de 150 reproduções. Informações sobre os volumes editados pela Escrituras e
pela Artemeios podem ser obtidos pelos e-mails escrituras@escrituras.com.br
e artemeios@premiopar.com.br. 3.
OPINIÕES E COMENTÁRIOS Sabina de Libman:
“Valdir
explora um jogo de várias possibilidades: domínio, submissão, temor e
coragem – enfrentamento. Há, sem dúvida, uma revelação: a arte
cumpre o seu papel.” Jorge
Anthonio e Silva: “Valdir Rocha é um transgressor de reentrâncias
insondáveis, um criador de negros aveludados de aranhas, um lírico poeta
de nostálgicos meios tons, de ranhuras sonoras e de uma saudade cruel de
tudo o que um dia poderá ser.” Carlos
Soulié do Amaral: “As cabeças e as faces que o lápis e o buril de Valdir
Rocha Vêm criando têm como foco de interesse algo que supera a figura em
si mesma. Com um mínimo de atenção fixada, facilmente percebemos que o
alvo em mira é um sentimento intangível, uma evocação, uma “expressão”
da realidade desligada da realidade, transfundida e transformada pela
abstração poética e reflexiva numa tentativa de comunicação que propõe
mais uma contemplação do que uma observação. Sente-se que os
fragmentos do caráter e da natureza humana foram transportados, por uma síntese
própria de elementos gráficos e formais, para o plano psicológico
sutil, no qual a personalidade do artista procura estabelecer contato com
a sensibilidade de seu interlocutor. Se o contato for “estranho”, será
ótimo. A arte sempre surpreende porque mostra outras possíveis dimensões
do real, dimensões diferentes daquilo que estamos acostumados a ver e a
pensar.” Mirian
de Carvalho: “Ao interpretar o motivo, Valdir Rocha percorre
intimidades dos homens e dos deuses. Entre o eterno e o precário, o mundo
da vida, perspicácia dos animais. Animização do vegetal. E das coisas.
Transmitindo sentimentos, certezas e dúvidas, as Cabeças se inscrevem no poético, com significados que perpassam
lenda e cotidiano.” Péricles
Prade: “Valdir Rocha, profundo conhecedor do código de princípios
e elementos do desenho, sintetizando idéia/forma com rigor aos utilizar
os instrumentos, técnicas e suporte no tratamento ritualístico-temático
das cabeças-motivo, vale-se de estratégia de função metalingüística
vocacionada por uma personalidade plasmada pelo expressionismo simbólico-figurativo
pancontemporâneo, cuja poética gestual fovista contida, sem perda de
originalidade, fundada na experiência diária de seu ofício sedutor, se
insere com humor dramático, autonomia, unidade e integridade na linhagem
do que há de mais significativo na arte brasileira atual.” Álvaro
Alves de Faria: “Desde o primeiro contato, a gravura de Valdir
Rocha me passou a idéia de solidão, um retrato quase sempre aflito de
rostos inquietos construídos com traços que mais parecem cicatrizes,
alguns fundos, outros leves, mas sempre com esse registro do incerto. São
figuras comoventes, que se contorcem num espaço escasso de onde não se
pode escapar.” Celso
de Alencar: “O trabalho de Valdir Rocha não tem vocabulário. Ele se
insere no grupo da arte-muda. A que tem o poder de provocar o espectador,
sem registro de som.” Eunice
Arruda: “Rostos solitários, indefesos, forçados a nascer. Não
conhecem os pássaros do céu. Nem os ardores do verão. Pedaços de
alguma plenitude. Silenciam o pânico. Quem são?” Nelly
Novaes Coelho: “… compreende-se a essencialidade do ícone escolhido pelo artista: a cabeça
(sede do conhecimento), com olhos
abertos (é do ver que
chegamos ao conhecer) e sem orelhas (faz-se urgente ouvirmos a voz interior e não mais a voz exterior – hoje reduzida a simples
ruído, que só pode perturbar o caminho da busca). É, pois, de busca que
se trata.” Adelaide Petters Lessa: “Penso que sua idade ultrapassa a de seu RG pois contém milênios como usuário das mãos de artista e milênios de sentimentos de psicólogo. Tão humano!” |
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Claudio Willer (Brasil, 1940) é um dos editores da Agulha. Entrevista realizada em São Paulo, em março de 2004. Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Valdir Rocha (Brasil). |