Fernando Casás Fernando Casás

 

revista de cultura # 36 - fortaleza, são paulo - outubro de 2003

Fernando Casás

Editorial

O fisiologismo como mimo cultural

Já no começo do século XX, José Veríssimo – que hoje podemos ler graças à brilhante edição de Homens e coisas estrangeiras 1899-1908 (Ed. ABL/Topbooks, 2003) – confessava sua ignorância no que diz respeito à cultura hispano-americana, situação que pouco ou nada mudou se pensarmos que os grandes nomes da literatura hispano-americana foram assimilados pelo mercado editorial brasileiro depois de sua descoberta por mercados europeus ou estadunidenses. Há um bordão que procura justificativas para o abismo, ao destacar que também a cultura brasileira é desconhecida na extensa região continental onde se fala espanhol. Argumento absolutamente falho, se pensarmos que a cultura brasileira é igualmente desconhecida em Portugal, onde em circunstância alguma caberia apegar-se à existência, ainda que real, de inúmeros fusos semânticos. O grande dilema, contudo, não é a cultura brasileira (considerando a existência de uma "cultura brasileira", ou ao menos tratando de entender o que abarca o conceito) seja desconhecida além-fronteiras, ou que seja parcialmente constituída por estereótipos. Isto de algum modo se passa com todas as culturas no planeta. Contudo, o estereótipo assume no Brasil uma dimensão ainda mais perversa, passando a ser não só motivo de orgulho quanto estratégia auto-promocional de alguns artistas. A figura midiática do "formador de opinião" acaba por corresponder aos mais baixos níveis da degradação humana. O atual ministro da cultura, Gilberto Gil, ausente do cargo em função de uma turnê de shows, declarou à imprensa portuguesa, em outubro deste ano, que o Brasil está vivendo um particular momento de mostrar sua cara ao mundo. Mas a qual Brasil refere-se Gil?

Também em Portugal, dois meses antes, Caetano Veloso chamava para si méritos que não correspondem à realidade de seus nobres esforços culturais, ao confirmar que a Tropicália não passou de um projeto pessoal - dele, no caso -, e que lhe coube a modesta contribuição de fazer com que o Brasil viesse a conhecer Fernando Pessoa e que os portugueses recuperassem, em certo momento, o prazer pelo fado. Essas foram algumas das pérolas que cintilaram em noite de lançamento de um livro seu na cidade do Porto. Talvez faltasse à platéia algo que atestasse as referências, em um tiro de misericórdia que acabou sendo dado na fronte da cultura brasileira por António Cícero - recordando aqui nosso editorial anterior - ao oficiar que Veloso, com a morte de João Cabral, passa a ser o maior poeta brasileiro, o que quer que isto signifique.

Ao ouvirmos declarações de artistas e intelectuais portugueses a respeito da cultura brasileira, o que mais nos espanta é que ainda se reportam aos anos 60 e 70, ficando a dúvida sobre a quem cabe atualidade. A estereotipia nos cai como uma luva, portanto. A verdade é que gostamos dela, vestimos alegremente máscaras e fantasias de fabricação européia, desde as descrições do nosso país como paraíso tropical, a partir da carta de Pero Vaz de Caminha, ou como inferno, a partir de Hans Staden, passando pelo elogio aos canibais de Montaigne, pela adoção do mito do bom selvagem de Rousseau, e pelos índios apolíneos, heróicos e culturalmente homogêneos do nosso indianismo romântico, copiados de Chateaubriand. 

Uma leitora da Agulha, Bárbara Pollacsek, nos escreveu dizendo, a propósito do editorial anterior: "O brasileiro médio é profundamente avesso à auto-crítica, porque imaturo. Prefere fórmulas prontas e, como não quer ter a capacidade de interpretar uma informação - mas também não quer admitir ignorância - vai pela vida cristalizando clichês, psicologismos e resquícios do que ouve dizer, chamando isso de suas opiniões."

Mais que uma oportunidade, a estereotipia avança como um programa de governo. Ao mesmo passo, artistas e intelectuais vangloriam-se de uma cultura paralisada no tempo e aceitam tacitamente as deformações arbitradas por alguns mais espertos. Se não há seriedade de propósito, como cobrar algo da recepção? A quem se destina o Brasil pautado por uma cultura fisiológica? Haverá outro? 

Os editores

Fernando Casás

Sumário

1 a propósito de o virgem negra - fernando pessoa explicado às criancinhas naturais e estrangeiras por m. c. v., por mário cesariny. claudio willer
2 andré lamarre: diálogos sobre surrealismo no canadá (entrevista). floriano martins
3
borges transverso: uma conversa com ivan almeida & cristina parodi (entrevista). maria esther maciel
4 dora ferreira da silva: diálogos sobre poesia e filosofia, recordando vicente ferreira da silva (entrevista). donizete galvão & floriano martins
5 el grupo orígenes ante el negrismo. jesús b. barquet
6 em casa ou na rua, sensuais e gordas: esculturas de eliana kertész. mirian de carvalho
7 esteve casanoves: signo, abstracción e intuición. miguel ángel muñoz
8 graça morais: pintar o tempo como quem descobre a idade das árvores (entrevista). ana marques gastão
9
javier sicilia: el reflejo del espíritu (entrevista). ricardo venegas
10 la poesía nómada de jenaro talens (entrevista). prisca agustoni
11 manuel antónio pina: ares e esgares do silêncio (entrevista). floriano martins
12 o brasil, o óbvio e o obtuso na vida do filósofo vilém flusser: uma aproximação com stefan zweig e roland barthes. viviane de santana paulo
13 orris soares, um inovador. paulo vieira
14 p. h. lovecraft ou os monstros simulados. nicolau saião
15 sophia de mello breyner: substantiva e concreta (entrevista). maria maia

artista convidado fernando casás (escultura) depoimento do artista
livros da agulha josé veríssimo [por ivan junqueira], aleilton fonseca, gustavo marin, fernando pessoa, gellu naum, rosalia milsztajn & fernando guimarães
galeria de revistas (artigos & entrevistas)

Fernando Casás

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jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

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saúl ibargoyen (méxico)
soares feitosa (brasil)

correspondentes
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(peru)
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(chile)
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(uruguai)
carlos véjar
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