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Editorial
O
fisiologismo como mimo cultural
Já no começo do século XX, José Veríssimo – que hoje
podemos ler graças à brilhante edição de Homens e coisas
estrangeiras 1899-1908 (Ed. ABL/Topbooks, 2003) – confessava sua
ignorância no que diz respeito à cultura hispano-americana, situação
que pouco ou nada mudou se pensarmos que os grandes nomes da
literatura hispano-americana foram assimilados pelo mercado editorial
brasileiro depois de sua descoberta por mercados europeus ou
estadunidenses. Há um bordão que procura justificativas para o abismo,
ao destacar que também a cultura brasileira é desconhecida na
extensa região continental onde se fala espanhol. Argumento
absolutamente falho, se pensarmos que a cultura brasileira é
igualmente desconhecida em Portugal, onde em circunstância alguma
caberia apegar-se à existência, ainda que real, de inúmeros fusos
semânticos. O grande dilema, contudo, não é a cultura brasileira
(considerando a existência de uma "cultura brasileira", ou
ao menos tratando de entender o que abarca o conceito) seja
desconhecida além-fronteiras, ou que seja parcialmente constituída
por estereótipos. Isto de algum modo se passa com todas as culturas
no planeta. Contudo, o estereótipo assume no Brasil uma dimensão
ainda mais perversa, passando a ser não só motivo de orgulho quanto
estratégia auto-promocional de alguns artistas. A figura midiática
do "formador de opinião" acaba por corresponder aos mais
baixos níveis da degradação humana. O atual ministro da cultura,
Gilberto Gil, ausente do cargo em função de uma turnê de shows,
declarou à imprensa portuguesa, em outubro deste ano, que o Brasil
está vivendo um particular momento de mostrar sua cara ao mundo. Mas
a qual Brasil refere-se Gil?
Também em Portugal, dois meses antes, Caetano Veloso
chamava para si méritos que não correspondem à realidade de seus
nobres esforços culturais, ao confirmar que a Tropicália não passou
de um projeto pessoal - dele, no caso -, e que lhe coube a modesta
contribuição de fazer com que o Brasil viesse a conhecer Fernando
Pessoa e que os portugueses recuperassem, em certo momento, o prazer
pelo fado. Essas foram algumas das pérolas que cintilaram em noite de
lançamento de um livro seu na cidade do Porto. Talvez faltasse à
platéia algo que atestasse as referências, em um tiro de misericórdia
que acabou sendo dado na fronte da cultura brasileira por António Cícero
- recordando aqui nosso editorial
anterior - ao oficiar que Veloso, com a morte de João Cabral, passa
a ser o maior poeta brasileiro, o que quer que isto signifique.
Ao ouvirmos declarações de artistas e intelectuais
portugueses a respeito da cultura brasileira, o que mais nos espanta
é que ainda se reportam aos anos 60 e 70, ficando a dúvida sobre a
quem cabe atualidade. A estereotipia nos cai como uma luva, portanto.
A verdade é que gostamos dela, vestimos alegremente máscaras e
fantasias de fabricação européia, desde as descrições do nosso país
como paraíso tropical, a partir da carta de Pero Vaz de Caminha, ou
como inferno, a partir de Hans Staden, passando pelo elogio aos
canibais de Montaigne, pela adoção do mito do bom selvagem de
Rousseau, e pelos índios apolíneos, heróicos e culturalmente homogêneos
do nosso indianismo romântico, copiados de Chateaubriand.
Uma leitora da Agulha,
Bárbara Pollacsek, nos escreveu dizendo, a propósito do editorial
anterior: "O brasileiro médio é profundamente avesso à auto-crítica,
porque imaturo. Prefere fórmulas prontas e, como não quer ter a
capacidade de interpretar uma informação - mas também não quer
admitir ignorância - vai pela vida cristalizando clichês,
psicologismos e resquícios do que ouve dizer, chamando isso de suas
opiniões."
Mais que uma oportunidade, a estereotipia avança como um
programa de governo. Ao mesmo passo, artistas e intelectuais
vangloriam-se de uma cultura paralisada no tempo e aceitam tacitamente
as deformações arbitradas por alguns mais espertos. Se não há
seriedade de propósito, como cobrar algo da recepção? A quem se
destina o Brasil pautado por uma cultura fisiológica? Haverá
outro?
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