Ileana Moya Agulha - Revista de Cultura Ileana Moya

 

revista de cultura # 35 - fortaleza, são paulo - agosto de 2003

Ileana Moya

Editorial

a súbita eternidade de um equívoco
 

Na noite de 30 de junho deste 2003, no teatro Campo Alegre, na cidade do Porto, em Portugal, por ocasião do lançamento do livro Letra só, de Caetano Veloso, foi possível ouvir o poeta brasileiro António Cícero declarar que, considerando a morte de João Cabral de Mello Neto, ninguém mais poderia ocupar o posto de maior poeta brasileiro que o próprio homenageado da noite. Se acaso os brasileiros tivessem acesso a tal vociferação, decerto a confrontariam com uma antiga afirmação do jornalista Marcelo Coelho, quando disse de Nelson Ascher que se tratava de “um dos mais inteligentes, profundos e significativos poetas que o Brasil conhece depois de João Cabral” (Folha de S. Paulo, 27/10/96). O presidente Luís Inácio Lula da Silva, por sua vez, tem chamado a atenção para o fato de que o Brasil é um país pobre, o que contrasta com uma soberba tradição que sempre nos garantiu riqueza inesgotável. Claro que Lula reporta-se à condição econômica, mas poderíamos avaliar a gradação cultural aí implicada. A quem interessa, por exemplo, resumir uma tamanha diversidade cultural como é o caso do Brasil a uma canonização única? A própria Bahia de todos os Santos caberia acaso nas mãos de um único? E o Pernambuco que soube ir além da Sevilha mítica desenhada por Cabral, acaso merece ser tratado tão simploriamente? Qualquer encontro de culturas sugere a multiplicidade. Apenas o Brasil segue a negar a si mesmo um estado que lhe é absolutamente natural. Criamos uma arbitrária condição de semi-deuses que faz com que nenhum arquiteto no Brasil seja melhor do que Oscar Niemeyer, ou que ninguém mais possa ser tão genial, na música, quanto João Gilberto. A propósito, na noite referida a princípio, Caetano Veloso deixou tão claro que João Gilberto está para a Bossa Nova como ele está para a Tropicália. Ora, a quem interessa essa anulação do ato comum? Como pode uma cultura sobreviver apontada ou tratada pela ótica unitária? Que espécie de engano queremos todos aprovar em uma súbita assembléia que nos diz quem são os maiorais de nossa cultura? O Brasil está onde sempre esteve: à beira do nada. O nosso nada é de uma particularidade incondicional. Produzimos aqui mesmo, no tablado de nossos sonhos, a rejeição a tudo o que somos. O próprio fato de uma magistratura sentir-se diferenciada pela condução adjudicatória de uma sociedade nos faz crer que a mídia, por exemplo, está acima de todo questionamento, ao substabelecer cânones de toda ordem. Julgamos o princípio ou somos julgados por ele?

Os editores

Ileana Moya

Sumário

1 al son de compay segundo... como yo te quise a tí, macusa, nadie te querrá, querrá... alfonso peña
2 ana hatherly: meditações sobre a escrita e o ato criador (entrevista). ana marques gastão
3
jorge luis borges: el canon, la realidad, la escritura. carlos a. aguilera
4 cesário verde, fernando pessoa, gastão cruz e luiza neto jorge: por outros mares literários. mauricio matos
5 escravos & escravos: o crime na cor. maria de fátima novaes pires
6 fernando arrabal: o sonho é somente um detalhe. wilson coêlho
7 frida kahlo: el discurso del cuerpo. mariella nigro
8 o trapézio das artes: três momentos recentes mas tão antigos. floriano martins
9 pedro nava: a experiência do tempo qualitativo. rodrigo petronio
10
pinturas e fotografias de mário camargo. mirian de carvalho
11 retrato del mecenas y el artista adolescente: el arte y la dialéctica del encargo. daniel gonzález dueñas
12 robert rauschenberg: el desafío constante. miguel ángel muñoz
13 rosa alice branco: esboços de sombras (entrevistas). floriano martins
14 são paulo, 1960: encontros, anarquia & provocações. claudio willer
15 wifredo lam y rik lina: vuelo y azar. sylvia valdez

artista convidada ileana moya (gravura) textos de juan bernal ponce e álvaro gómez
rev
istas em destaque babel (diálogo entre ademir demarchi & claudio willer) e corner (diálogo entre carlota caulfield & maria esther maciel)
livros da agulha ana marques gastão (por maria joão cantinho), mário faustino, paulo franchetti (por jorge pieiro), antónio osório, rodolfo alonso (por néstor fenoglio), fabrício carpinejar (por cíntia moscovich), pablo de la torriente brau (por rolando sánchez)
galeria de revistas
(artigos & entrevistas)
catálogo triplov.com.agulha.editores

Ileana Moya

Expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

conselho editorial
alfonso peña (costa rica)
alfredo fressia (brasil)
benjamin valdivia (méxico)
contador borges (brasil)
helena vasconcelos (portugal)
maria esther maciel (brasil)
maria joão cantinho (portugal)

mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
soares feitosa (brasil)

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
bernardo reyes
(chile)
carlos m. luis
(uruguai)
carlos véjar
(méxico)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
prisca agustoni (brasil)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástica convidada (gravura)
ileana moya

apoio cultural
jornal de poesia

banco de imagens
acervo edições resto do mundo

os artigos assinados não refletem necessariamente o pensamento da revista
agulha não se responsabiliza pela devolução de material não solicitado
todos os direitos reservados © edições resto do mundo

escreva para a agulha
floriano martins (florianomartins@rapix.com.br)
claudio willer (cjwiller@uol.com.br)

.

.Banda Hispânica (Jornal de Poesia)

Ser Espacial (Brasil/Portugal)