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Editorial
a
súbita eternidade de um equívoco
Na noite de 30 de junho deste 2003, no teatro Campo Alegre,
na cidade do Porto, em Portugal, por ocasião do lançamento do livro Letra
só, de Caetano Veloso, foi possível ouvir o poeta brasileiro António
Cícero declarar que, considerando a morte de João Cabral de Mello
Neto, ninguém mais poderia ocupar o posto de maior poeta brasileiro
que o próprio homenageado da noite. Se acaso os brasileiros tivessem
acesso a tal vociferação, decerto a confrontariam com uma antiga
afirmação do jornalista Marcelo Coelho, quando disse de Nelson
Ascher que se tratava de “um dos mais inteligentes, profundos e
significativos poetas que o Brasil conhece depois de João Cabral” (Folha
de S. Paulo, 27/10/96). O presidente Luís Inácio Lula da Silva,
por sua vez, tem chamado a atenção para o fato de que o Brasil é um
país pobre, o que contrasta com uma soberba tradição que sempre nos
garantiu riqueza inesgotável. Claro que Lula reporta-se à condição
econômica, mas poderíamos avaliar a gradação cultural aí
implicada. A quem interessa, por exemplo, resumir uma tamanha
diversidade cultural como é o caso do Brasil a uma canonização única?
A própria Bahia de todos os Santos caberia acaso nas mãos de um único?
E o Pernambuco que soube ir além da Sevilha mítica desenhada por
Cabral, acaso merece ser tratado tão simploriamente? Qualquer
encontro de culturas sugere a multiplicidade. Apenas o Brasil segue a
negar a si mesmo um estado que lhe é absolutamente natural. Criamos
uma arbitrária condição de semi-deuses que faz com que nenhum
arquiteto no Brasil seja melhor do que Oscar Niemeyer, ou que ninguém
mais possa ser tão genial, na música, quanto João Gilberto. A propósito,
na noite referida a princípio, Caetano Veloso deixou tão claro que
João Gilberto está para a Bossa Nova como ele está para a Tropicália.
Ora, a quem interessa essa anulação do ato comum? Como pode uma
cultura sobreviver apontada ou tratada pela ótica unitária? Que espécie
de engano queremos todos aprovar em uma súbita assembléia que nos
diz quem são os maiorais de nossa cultura? O Brasil está onde
sempre esteve: à beira do nada. O nosso nada é de uma
particularidade incondicional. Produzimos aqui mesmo, no tablado de
nossos sonhos, a rejeição a tudo o que somos. O próprio fato de uma
magistratura sentir-se diferenciada pela condução adjudicatória de
uma sociedade nos faz crer que a mídia, por exemplo, está acima de
todo questionamento, ao substabelecer cânones de toda ordem. Julgamos
o princípio ou somos julgados por ele?
Os editores |