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revista de cultura # 33 - fortaleza, são paulo - março de 2003 |
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Algumas notas e observações sobre Lautréamont, Os Cantos de Maldoror, psicanálise e sonho Claudio Willer
Ir
além em algumas de minhas observações iria obrigar-me a transpor a
fronteira entre o ensaio e a tese. Uso
as mesmas convenções que em meu Lautréamont – Obra Completa. Assim,
C1, E13 é a décima terceira estrofe do Canto Primeiro. Pela mesma razão,
e pelos mesmos motivos, chamo Isidore Ducasse de Lautréamont e me refiro
a Os Cantos de Maldoror como Cantos. Bibliografia ao final. Agradeço ao
psicanalista Jorge Broide haver-me chamado a atenção para o interessante
trabalho de Pichon-Rivière. 1.
Lautréamont e a literatura. A
narrativa situada no intervalo entre o início de uma Idade Moderna, da
afirmação do Iluminismo e proclamação de uma Idade da Razão, e os
modernismos, bem como boa parte da poesia desse período, contém uma poética
e uma epistemologia, um sistema de julgamentos ou afirmações sobre a
natureza da criação literária e sua relação com a realidade. Para um
romancista realista ou naturalista do século XIX, ou para um poeta
(especialmente se fosse parnasiano), não haveria dúvidas quanto á existência
de duas coisas distintas: uma delas, a “realidade”, um conjunto de fenômenos
exteriores ao narrador; e outra, um texto, uma obra que de algum modo
retrataria ou se referiria a essa realidade, que teria, digamos assim,
alguma relação de correspondência, referência ou denotação. Se
um narrador relata um episódio no qual intervém um homem montado a
cavalo, esse episódio pode ser inteiramente inventado. Contudo, o
“cavalo” do protagonista é, supõe-se, um animal de quatro patas, com
crinas, duas orelhas, enfim, um eqüino, e o narrador espera que todos os
seus leitores entendam e se possível visualizem ou imaginem o mesmo
“cavalo”. O interesse da narrativa, os motivos para que ela tenha
leitores, enfim, seu valor, está ligado, entre outros fatores, ao modo
literário como o cavalo é tratado na narrativa. E mais, é determinante
do valor o modo como o cavaleiro, presumível protagonista, é retratado,
humanizado, enfim, mostrado como alguém plausível, a quem o leitor
reconheceria como tal, além dos demais componentes da verossimilhança. Exemplificando,
em Os irmãos Karamazov de Dostoiesvki (autor ao qual voltarei a me
referir) aquele parricídio e toda aquela investigação e discussão em
torno de sua autoria podem nunca ter ocorrido (ou não? ou, como em outras
narrativas, Dostoiesvki se baseou em um fait-divers, um episódio
ocorrido?). Sabemos que em Os irmãos Karamazov são discutidas as
conseqüências da inexistência de Deus, e que nessa obra há sonhos ou
alucinações nos quais comparece um Grande Inquisidor que, se Cristo
voltasse, teria mandado executá-lo. Contudo, Dmitri, Alexei, Ivan, e mais
Fiodor, Grushenka, etc, são descritos de tal forma que o leitor os
perceba como “gente”, personagens presumivelmente “reais”. Talvez
esteja classificando um sem-número de autores como realistas ingênuos
demais, aristotélicos em sua teoria implícita do conhecimento e da
linguagem, ou achando-os mais parecidos com Zola ou Gorki do que foram.
Contudo, deixando de lado os narradores, observo que, para o poeta romântico,
para Lamartine, digamos, o lago é mesmo o fenômeno geográfico constatável
através de uma viagem a Léman, e que aquelas emoções todas são
“reais” no plano da subjetividade. Correspondem a experiências
interiores, é certo, porém universais, de maravilhamento, proximidade do
sublime, que todo apreciador do mesmo lago, principalmente se houver lido
Lamartine, também sentiria. Românticos
falaram de outras coisas. Muitos, como Victor Hugo, usaram adjetivos
substantivados para referir-se a grandes generalidades como “o belo”,
“o sublime”, “o inefável”, etc, hipostasiando-os. Seriam reais,
porém em um plano transcendental, no qual conviviam com Deus e outros de
seus habitantes. Aliás, esse também é o estatuto do Deus de
Dostoiesvki, ou daquele de Goethe, bem como o diabo que disputa a sorte da
alma do Dr. Fausto. Há uma enorme distância entre o Deus e o Mefistófeles
do Fausto de Goethe, retomando lendas e narrativas tradicionais, e a versão
da mesma lenda que nós é dada, invertendo-a, no Canto VI de Os Cantos
de Maldoror, com seu Mefistófeles, o próprio Maldoror, disputando (e
ganhando a disputa) com um Deus-rinoceronte e um arcanjo-caranguejo, não
a alma, mas o corpo do adolescente Mervyn. Da teologia cristã,
respeitadas e endossadas por Goethe, não sobra pedra sobre pedra. Isso
– sobre o estatuto de Deus e do restante de uma esfera transcendental -
vale para os místicos, ou para autores ainda mais místicos que Hugo,
como William Blake, para quem a Bíblia era uma fonte da verdade (e não só
a Bíblia, mas os escritos de Swedenborg, entre outros), e com quem os
profetas, declarou ele, vinham conversar. Assim, Blake achava que, a seu
modo, também falava de entidades “reais”. Ainda a propósito de místicos,
uma obra que notoriamente foge a qualquer cânone ou paradigma realista, Aurélia,
de Gerard de Nerval, é por ele classificada como efusão do sonho na
realidade. Portanto, admitia duas esferas distintas: uma delas, o
sonho, outra, a realidade. Como pano de fundo, subvertidos, é certo,
permanecem o “real” e a “realidade”. Finalmente,
com plena consciência da injustiça de introduzir autores tão diversos
no mesmo saco, e, mais grave ainda, de tomá-los, até aos declaradamente
platônicos (enquanto místicos) por aristotélicos, seguidores de uma
teoria do conhecimento e da linguagem na qual a escrita literária efetua
uma mimese do mundo das coisas, ou do que é dado pelos sentidos, tomemos
Jonathan Swift. Não “existem”, no sentido dado a essa palavra por
realistas, seres como liliputianos e yahoos, e a proposta de pobres se
alimentarem de seus bebês para combater a fome também não teria
qualquer chance de ser adotada. Mas os aparentes absurdos, tanto para
Swift quanto para seus leitores, correspondiam a recursos e figuras da retórica
de origem consideravelmente grega: metáforas, alegorias, parábolas;
enfim, fantasias, porém a serviço da sátira; impossibilidades físicas,
mas com um alvo no “real” satirizado. E mais: a extravagância nessas
sátiras, e mesmo em autores cronologicamente anteriores a Swift, como
Rabelais (ou então, usando os termos correntes, sua natureza dialógica),
faz parte, é coerente com a intenção satírica. Generalizações
comportam exceções. No período em consideração há exceções
importantes, inclusive pela popularidade que alcançaram e pela influência
que exerceram, como o Marquês de Sade (a quem retornaremos a propósito
de Lautréamont), em primeira instância. E tudo o que cabe em categorias
como “narrativa fantástica”, de E. T. A. Hoffman a Edgar Poe, ou
“horror gótico”; não por acaso modalidades particularmente
apreciadas por Lautréamont. E também as histórias mirabolantes,
rocambolescas, folhetinescas, dos Ponson du Terrail e Eugéne Sue, também
fontes importantes de Lautréamont, conforme a bibliografia especializada.
E, ainda nessa categoria, derivações românticas da epopéia, como os
poemas narrativos de Byron (idem, leitura de Lautréamont).
Caracteriza-as, a essas modalidades, a ruptura com a verossimilhança,
através, não só do exagero, mas do insólito (das unheimliche..?)
com que se apresenta o “fantástico” em sua irrupção no “real”. Pois
bem: tais relações entre o “real” e um texto são abolidas em Os
Cantos de Maldoror. Seria redutor apreciá-lo como paródico ou satírico,
por mais que ele também o seja (assim como “é” inúmeras outras
coisas). Daí um dos motivos do interesse que lhe é conferido e da
originalidade que lhe é atribuída, permitindo considerá-lo como ponto
de inflexão, marco de um antes e depois na história da Literatura. Outro
motivo reside em sua literariedade propriamente dita, nas qualidades que o
tornam merecedor de um prestígio literário de outra ordem do que aquele
das confissões do magistrado Schreber e mais uma infinidade de registros
de delírios. Ambos, estatura literária e ruptura com o realismo, são
indissociáveis. Afirmar
que Lautréamont representa uma mudança profunda na Literatura, o ponto
de inflexão entre antes e depois, não é novidade. Já foi dito, de André
Breton a Marcelin Pleynet, passando por André Gide, Ungaretti e Ponge.
Tocando em algo que será repetidamente examinado, a destruição,
Octavio Paz afirma em El Arco y la Lira (resumindo meus nove parágrafos
precedentes), que Lautréamont destrói
para sempre a prosa francesa como discurso e demonstração, e mais,
que, ao minar os fundamentos da
prosa - levando até o limite a razão da sem-razão e a sem-razão da razão
- o poeta adolescente destrói as bases do nosso universo moral e
racional. Estou,
é claro, situando o Simbolismo em alguma data posterior a 1869, mesmo
sabendo que poemas em prosa mais “herméticos” ou “delirantes” de
Mallarmé, em seu confronto com o Demônio da Analogia, são anteriores.
Também é anterior a formulação de uma poética por Baudelaire,
proclamando o primado da imaginação, a “rainha das faculdades”, e
criticando frontalmente o realismo. Mas Baudelaire (também importantíssimo
como leitura de Lautréamont) foi, em sua poesia, antes um hiper-realista,
no sentido de que a carniça de fato estava lá, para quem quisesse vê-la,
bem como as cenas parisienses, e as lésbicas das passagens censuradas de As
Flores do Mal eram suas amigas pessoais. Além disso, as litanias se
dirigiam a um Satã experimentado como real, ou hiper-real, hipostasiado,
possuidor de um estatuto ontológico. A
propósito de Simbolismo e Baudelaire, a coincidência cronológica com
Lautréamont possibilita paralelos. Quanto às correspondências,
analogias e sinestesias baudelairinas, no lugar da mulher amada ou
admirada, que se move como uma nau, e cujos seios são estofos de um armário,
enfim, a quem são atribuídas qualidades cujas relações têm uma lógica
evidente, temos os “belos como”. Em uma primeira etapa, analogias são
invertidas, há símiles ao avesso, como oxímoros: pois
tens uma aparência sobre-humana; triste como o universo, belo como o suicídio.
(C1, E13). Em seguida, nos cantos finais, são subvertidas, do belo como os dois longos filamentos tentaculiformes de um inseto
(C5, E2) até o extraordinário belo como o vício de conformação
congênito dos órgãos sexuais do homem, que consiste na brevidade
relativa do canal da uretra e na divisão ou ausência da parede inferior,
de modo que o canal se abra a uma distância variável da glande e por
baixo do pênis (C6, E5), passando pelo célebre belo como o
encontro fortuito de uma máquina de costura e um guarda-chuva sobre uma
mesa de dissecção. (C6, E2). Por
isso, discordo de autores que vêem apenas a metáfora como recurso
dominante ou característico em Lautréamont. Tomemo-las, as metáforas,
em sua modalidade mais extravagante e baudelairiana. Chamar o céu de
tampa de marmita, como o fez Baudelaire, é metáfora, e de uma extravagância
notável. Contudo, mesmo reconhecendo que passagens dos Cantos,
como a visita ao céu em C2, E8, são extensões da visão
celestial baudelairiana, nos belos como não se pode mais falar em
metáfora, pois o referente externo foi embora, desapareceu, ao sumirem as
relações possíveis com qualquer coisa. O que diferencia a obra de Lautréamont
é o uso da imagem, tal como definida por Pierre Reverdy, como
aproximação de realidades distintas, sendo tanto mais forte a imagem
quanto mais forem distantes essas realidades. 2.
Lautréamont e a Psicanálise. Como
fica a psicanálise, ou como ficam possíveis abordagens psicanalíticas
diante de uma obra tão diferente? A
pergunta (variante de outra feita por diversos autores, de como fica a crítica
diante de Lautréamont, p. ex. por Marcelyn Pleynet em Lautréamont par
lui-même e por Leyla Perrone-Moisés em Falência da Crítica)
decorre do seguinte: há uma abordagem psicanalítica ortodoxa,
tradicional, segundo a qual a psicanálise opera com dois planos, como foi
exposto, com exemplar didatismo, por Freud em uma carta a André Breton.
Um deles, um conteúdo manifesto; outro, um conteúdo latente,
procurando-se efetuar o percurso de um a outro. Por exemplo, a partir do
conteúdo manifesto, do que Dostoievski escreveu, acrescido de bastante
informação biográfica, chega-se ao epilético, ao compulsivo, ao
parricida, a Édipo. Em Lautréamont, é como se o manifesto fosse
substituído, em um discurso deslocado, ocupado pelo não-discursivo. Será
que, em nome de Lautréamont, não se poderia fazer a mesma afirmação,
ou o mesmo questionamento de Foucault a propósito da loucura de Artaud,
de que diante dele a psiquiatria deveria questionar-se? Já
que mencionei Artaud, também posso fazer voltar à cena o magistrado
Schreber, junto com a utilização inteligente da contribuição de ambos,
Artaud e Schreber, em O Anti-Édipo de Deleuze e Guattari, para
argumentar que há algo a mais a ser objeto da psicanálise, precedente ao
Édipo, uma espécie de “sub do sub” ou pré do pré psíquico, um
esquizoidismo básico, primitivo, bem arcaico, primordial.
Ouçamos
Lautréamont: Para o enxugamento de
minhas frases, utilizarei obrigatoriamente o método natural, retroagindo
até os selvagens, para que eles me dêem lições (C6, E2). Retroagindo,
note-se. Portanto, a intenção é ir, não além, mas aquém
(aqui estou me apropriando de uma expressão de Lacan, p. ex: As relações
entre os seres humanos se estabelecem realmente para aquém do campo da
consciência. É o desejo que efetua a estruturação primitiva do mundo
humano, o desejo como inconsciente - em Do Pequeno ao Grande Outro,
O Seminário, Livro 2), mais fundo e mais longe. Ou chegar mais
perto - quem sabe? – conforme sugere Lautréamont ao leitor, na estrofe
dos pederastas (C5, E5): Se não tiver ultrapassado a puberdade, que
chegue perto. As
páginas seguintes não significam que esse desvedamento será realizado
aqui. Intelectuais têm que ter consciência de seus limites. Sobre
abordagens psicanalíticas de obras literárias em geral, e desta em
particular, apresento um apólogo, um episódio real envolvendo um amigo
meu que, décadas atrás, tomava sol à beira da piscina do seu clube.
Aproximou-se outro rapaz, e perguntou-lhe: “Escute, você não é o cara
que leu toda a obra de Freud?” Meu amigo não resistiu a responder:
“Sou, sim. Li tudo. E agora estou estudando o restante...” Tudo e o
restante, é o que teria que ser mobilizado para o devido tratamento
psicanalítico de Lautréamont. Sobre
Lautréamont ainda pode ser criada outra parábola. É sobre o leitor ingênuo,
habituado a uma leitura bem literal, que depois de passar por Os Cantos
de Maldoror, ou algum outro texto bem hermético, cifrado, surreal,
exclama: Mas o que quer dizer isto? Não significa nada! Ao contrário,
obras como essas significam demais; a dificuldade da leitura não reside
na falta, mas na saturação de sentido. A
contribuição de Lacan (autor que, para usá-lo adequadamente, também
requer conhecimento de “tudo” e do restante...) presta-se ao desígnio
de ir além, ultrapassar fronteiras de algum campo do conhecimento, e
subverter, ou inverter posições estabelecidas. Conforme ele observa em O
Seminário, volume 2, na Introdução (entre outros lugares),
Freud operou um descentramento, uma subversão, a revolução coperniciana
da psicologia, ao retirar o cogito cartesiano, ou, melhor dizendo,
socrático, o “eu” racional e consciente, do topo ou do centro da vida
psíquica, apresentando-o como parte de um todo, como conseqüente e não
antecedente com relação a estratos menos evidentes do psiquismo. Aceito
isso, pode-se afirmar que Lacan, por mais que se proclamasse freudiano,
efetuou um novo descentramento, ao sustentar que o inconsciente, por sua
vez, é parte de outro todo, da linguagem ou do simbólico (em seus
textos, Lacan parece-me identificar “simbólico”, “palavra” e
“linguagem”, distinta da “fala” – se ele faz isso, privilegiando
a linguagem verbal com relação a outros sistemas de signos, então
concordo). Semelhante descentramento certamente terá recebido influência
das viradas espetaculares, das mudanças de perspectiva proporcionadas
pela ciência moderna. É contemporâneo de outros avanços do
conhecimento, como a antropologia estrutural de Lévi-Strauss (conforme
Lacan reconhece), e principalmente a “tese de Whorf-Sapir”, a afirmação
de que a linguagem constitui a realidade, ou, ao menos, a percepção
dessa realidade, e por conseguinte nossas relações com o mundo que nos
rodeia, e, é claro, com nossas culturas. Para mostrar a radicalidade da
virada empreendida por Lacan, assimilando esses avanços, vale a pena
lembrar a importante observação de Roland Barthes (entre outros
autores), em O Prazer do Texto, de que a linguagem constitui a
consciência. Para Lacan, não é a consciência, ou não é apenas a
consciência o que a linguagem constitui; é o inconsciente, e mais,
aproximadamente tudo é precedido pela linguagem, em um plano talvez até
ontológico, a julgar por suas afirmações de que a linguagem já estava
lá, preexistia a seu uso, e à irrupção de elefantes em salas de seminários. Portanto,
temos algo (algo? um sistema? acho que não – uma teoria..?) adequado
para a leitura de um autor que não admite, em sua poética implícita,
qualquer coisa além do símbolo, ao destruir conexões indispensáveis
para o sentido ou significação, ao menos no plano do senso comum,
daquilo que se tornou intersubjetivo. Por
isso, Lautréamont sempre foi um convite a críticas e interpretações
psicanalíticas, psicológicas ou psiquiátricas, na razão direta em que
sua obra não é “normal”. O primeiro comentário importante, de Léon
Bloy, reconhecendo sua estatura, já o tachava de “louco”, em uma
psiquiatria rudimentar. Idem Rémy de Gourmont. Quando não o chamavam de
louco, consideravam-no excêntrico, como Léon Genonceaux, Ramon Gomez de
la Serna, etc. Há,
ainda, contribuições à boa leitura de Lautréamont que fazem e não
fazem psicanálise, ou fazem não a fazendo. Pode-se dizer isso do Lautréamont
de Gaston Bachelard, que utilizou a palavra Psicanálise a seu
modo, em um empreendimento original e sob todos os títulos notável.
Sugere uma gênese psicológica e biográfica, ao chamar a atenção para
o estudante revoltado, em conflito com seu meio. A mesma observação, de,
não sendo um estudo psicanalítico, a obra a seu modo o ser, vale para
outro ponto alto da bibliografia lautreamontinana, Lautréamont et Sade,
de Maurice Blanchot, quando fala em sublimação ao longo dos Cantos,
por ocorrerem, na verdade, deslocamentos na substituição de
Dazet, personagem real, citado no Canto I, por inúmeros outros rapazes da
mesma idade. E também pela narrativa cada vez menos direta, mais
auto-reflexiva, e o recrudescimento de invenções e delírios do Canto IV
em diante, do homem com cabeça de pelicano à viga traidora, que tornam
os Cantos tão intrigantes e interessantes. A expressão sublimação
teria sido utilizada com mais propriedade se os Cantos fossem, ao
longo de suas estrofes, se tornando mais discursivos. A maior riqueza e
complexidade simbólica poderia, antes, ser vista como regressão,
trajeto oposto ao da sublimação. Se tudo isso fossem sintomas de caso clínico,
dir-se-ia que, ao longo dos Cantos, Lautréamont estaria entrando
em surto, ou manifestando-o de forma mais grave. Sobre
loucura, cabem questões de método, distinguindo autor e obra. Conforme já
observei em Lautréamont – Obra Completa, tal atribuição, de
loucura, pode ser suscitada pela confusão entre características do texto
e do autor, em um modo de leitura ingênua, literal. A correlação - se o
texto é delirante, o autor também deve sê-lo - é duplamente falsa: Finnegans
Wake não é o resultado de um surto; e Guy de Maupassant criou um
texto formalmente “normal”, mas isso não o impediu de suicidar-se
depois de crises e internamentos. Há, contudo, ocasiões em que loucura
do texto e do autor, talento e delírio, se encontram e confundem,
sinergicamente: na fase final de Hölderlin, em Aurélia de Nerval, em Jarry, em Artaud. Pela natureza não-discursiva
do delírio que as impulsionou, tais obras, com o passar do tempo, se
destacaram pela modernidade. Não
objeto a acharem que Lautréamont, pessoa física, fosse de fato um louco,
e mais, penso que afirmar que não o fosse é normalizá-lo indevidamente.
O que não se admite é reduzir o que ele escreveu à “loucura”,
enquadrando-o na sintomatologia. É um procedimento do qual psiquiatras e
psicanalistas não são inocentes. A propósito, lembro-me do volume de um
psicanalista argentino sobre Rimbaud, demonstrando que o poeta era um
completo paranóico. Semelhante abordagem só teria interesse se paranóicos
escrevessem sempre obras da qualidade do Barco Bêbado e de Uma
Temporada no Inferno. Enfim, o que não se pode fazer é substituir a
crítica pelo estudo de caso. Isso
não significa que todo psicanalista argentino seja tão redutor. Tanto é
que a principal obra com abordagem psicanalítica de Lautréamont é de
Pichon-Riviére, natural daquele país (ver referência bibliográfica ao
final). Apresenta-nos um exemplo acabado do que seria o freudismo clássico.
A recorrência do escalpamento é, portanto, um símbolo da castração,
assim como outras da extensa série de mutilações e violências nos Cantos.
O Das Unheimliche freudiano também é invocado com propriedade, a
propósito dos duplos especulares que, aqui, serão examinados a seguir, e
da própria reiteração e recorrência temática de Lautréamont, assim
indicando também, no que concerne a esse psicanalista, algo além do
enredo edipiano, e que inclui Tânatos, a pulsão de morte. Édipo
emerge em cada parágrafo, e nisso, justamente, reside o problema que pode
ser apontado nessa obra. Acontece que Pichon-Riviére também buscou
informação nova sobre Lautréamont, e fez pesquisa biográfica de
qualidade. Demonstrou que As Flores do Mal de Baudelaire figuravam,
junto com muitos outros livros, na biblioteca de Ducasse-pai - para ser
mais preciso, de François Ducasse. E nos deu um retrato muito
interessante e bem favorável de François Ducasse. Mais que um burocrata,
o pai de Lautréamont foi um aventureiro, com viagens e incursões
arriscadas na selva brasileira, passando por situações que poderiam
reaparecer nos Cantos, além de haver visto de perto, ao vivo, o
conteúdo de capítulos de História Natural que Lautréamont usou. Enfim,
o retrato é de um humanista, alguém culto, um boa-gente, liberal.
Serviria mais como modelo, alguém para ser idealizado e imitado, do que
para encarnação de um superego punitivo e castrador. Outra
informação relevante em Pichon-Riviére, embora já sabida, é sobre a
morte da mãe de Lautréamont, Celestine-Marie Davezac, pouco depois de
seu nascimento (vinte meses, ao que consta). Mas os dados biográficos
suscitam dúvidas quanto ao percurso analítico empreendido neste livro.
Se o pai e a mãe de Lautréamont foram assim, como então se justifica
toda essa revolta anti-autoritária, contra o Pai metaforizado por Deus, e
tudo o mais já observado por tantos comentaristas? Matar simbolicamente o
pai, competir com ele pela mãe (claro que estou estereotipando o enredo
edipiano, mas o estereótipo está na bibliografia), o Édipo clássico ou
chavão, digamos, faria sentido na família tradicional, se a mãe
estivesse lá e se o pai não fosse esse aparente precursor dos beats
revelado pela pesquisa de Pichon-Rivière. Na família Ducasse, talvez nem
tenha havido tempo para Isidore assistir ao Urspiel. Recorrer ao
biográfico em Lautréamont leva a procurar algo em um mais-aquém,
abaixo, infra, precedente, conforme já observei. Antecipando
o que virá a seguir, a lacuna familiar sinaliza para outro caminho analítico,
outro enredo que não o edipiano clássico: aquele sugerido por Lacan ao
escrever sobre André Gide (Juventude de Gide, em Escritos),
ao dirigir a atenção para a morte prematura do pai do autor de O
Imoralista, e daí aos precipícios d’alma sobre os quais em vão
se interroga a psicologia, para voltar a uma tragédia de infância,
e acabar falando de vazio povoado por monstros, abismo,
e finalmente da Spaltung ou fenda do eu. Nem
Emir Monegal nem Leyla Perrone-Moisés são psicanalistas. Mas atribuir,
em Lautréamont Austral, a partir da descoberta de um manual
espanhol de retórica, Arte de
Hablar, de José Lopez Hermosilla, anotada em espanhol por
“Isidoro” Ducasse, tamanha importância ao bilingüismo de Lautréamont,
ao fato de ter vivido seus primeiros anos em dois contextos lingüísticos,
espanhol e francês, associando seu duplo
estatuto cultural a uma obra de
caráter metalingüístico, com uma escrita
dialogística, em que o interlocutor é um outro suspeitamente parecido ao
interpelador, em que as fronteiras entre o eu e o tu resultam abolidas;
uma escrita do solilóquio polêmico, da reiteração de pesadelo de temas
e motivos, masturbatória no sentido mais preciso da palavra,
significa entender o simbólico como constitutivo do real e da vida psíquica,
assim como o fez Lacan. Ainda mais dando a obra de Lautréamont como
marcada por um sentimento de duplicidade e cisão da personalidade, que vem a ser o
esquizoidismo, e registrando a ausência da mãe, e assim reconhecendo sua
importância. Por
isso, Lautréamont Austral aponta na direção certa, para o além
ou aquém do conflito edipiano, um estrato mais primitivo ou mais
profundo. Em favor das duas obras, a de Pichon-Rivière e a de Monegal e
Leyla Perrone-Moisés, por mais distintas que sejam, duas de suas características
em comum. Uma, ninguém diz que Lautréamont é louco, psicótico, neurótico,
o que fosse, porque escreveu Os Cantos de Maldoror. Outra,
ambos partem do biográfico, mas de informação biográfica sólida, nova
e relevante. Mesmo assim, cabe perguntar se correspondem à recomendação
de Lacan, de que, fora do tratamento, só pode tratar-se de método
psicanalítico, aquele que procede à decifração dos significantes, sem
considerar nenhuma forma de existência pressuposta do significado
(conforme Juventude de Gide, em Escritos, na pouco agradável
tradução da edição brasileira, vírgulas no meio dos períodos
inclusive). Quanto ao que se segue, também haverá suposições e
significados pré-existentes (assim como, a meu ver, para viajar da morte
do pai de Gide até a Spaltung, foi necessário trazer algo que
estava antes, um pressuposto, além de ler literalmente muito do que seu
biógrafo escreveu sobre ele). 3.
Lautréamont e o sonho. É
mais próprio associar os Cantos ao sonho, à alucinação ou ao
sintoma? A pergunta é feita aqui apesar de ser uma falsa questão. Sonho
ou alucinação, obra onírica ou alucinatória, tanto faz. Trata-se de
uma questão de relação entre as partes e o todo, desde quando Freud se
referiu ao sonho como alucinação, satisfação alucinatória de um
desejo. E toda obra, toda criação literária, permite analogias com
o sintoma. Seria, digamos, sintoma saudável, ou, kleinianamente,
manifestação de uma parte “boa” da personalidade, por ser criativa. Portanto,
nenhuma obra literária é, em si, um sonho ou uma alucinação. Mas, em
certa medida, todas o são. Mormente considerando que, conforme bem
observa Lacan, quando tratamos de sonho, na verdade examinamos sua elaboração,
o relato de alguém contando um sonho, dirigindo-se a alguém (ao
analista, na prática analítica, ao leitor, na literatura). Há uma fala,
e não o sonho em si. Contudo,
Os Cantos de Maldoror merecem como poucas o estatuto de obra onírica
(e alucinatória). Em Lautréamont – Obra Completa já apontei os
motivos para conferir-lhe esse estatuto. Resumo-os a seguir. São
desdobramentos ou variações das propriedades do sonho segundo Freud, a
começar pela figurabilidade, que, no caso da obra literária, está
diretamente ligada aos motivos pelos quais tanta gente mostrou interesse
em lê-la, e pelos quais essa leitura provocou perplexidade e demais reações
notórias. Comentaristas já falaram o suficiente da visualidade
dos Cantos, da preponderância de imagens visuais, para que seja
necessário nos determos nesse aspecto. Onírico,
igualmente, é o tratamento dado ao tempo. Toda obra literária
transgride o tempo, tal como o experimentamos e vivemos. Só não o faria
se fosse equivalente ao excelente filme High noon, Matar ou
morrer, cuja duração é igual à duração da ação relatada,
ambas, a projeção do filme e a luta com os bandidos, demandando as
mesmas duas horas. Há que convir que, mesmo assim, o que Lautréamont faz
com o tempo ultrapassa todas as convenções. Está no oposto diametral da
unidade do classicismo. Repito o que escrevi em Lautréamont – Obra
Completa, que na maior parte dos relatos, especialmente a novela do
C6, a ação é no presente, a época em que Lautréamont viveu, com vários
signos da modernidade de então: lojas, bulevares, ônibus, para simular
realismo, conferir-lhe a impossível verossimilhança. Mas em outros há
cenários que poderiam ser de qualquer época, ou acontecimentos em uma
Idade Média de castelos e combates de cavalaria, ambiente do horror gótico,
como no episódio dos adolescentes-aranha (C5, E7). Deslocamentos
no tempo também são espaciais. Maldoror prefere, assim como seu autor,
circular em Paris, mas também aparece nas hamletianas Ilhas Feroë, no
campo, à beira-mar, onde for mais conveniente. Cabe citar Lacan, em O
Seminário, Livro 2, no capítulo sobre o sósia: Por conseguinte,
ele está sempre alhures, pois o obsessivo é sempre um outro.
O alhures é possibilitado pela sua capacidade de disfarçar-se,
metamorfosear-se, possibilitando-lhe ser sempre um outro
(voltaremos repetidamente a essa questão do outro). E
assim Maldoror – ou Lautréamont – viaja, não só de navio na estrofe
do mar (C1, E9), mas de uma estrofe a outra. Mas não dentro de
cada estrofe, exceto uma, justamente aquela em que é narrado um sonho; aí,
sim, viaja no tempo, mas dentro do sonho. Regressões, voltas ao
passado, como a lembrança da cabeleira de Falmer (C4, E8) e a reconstituição
de suas aventuras com os dois adolescentes-aranha (C5, E7), são mesmo
apresentadas como evocações, talvez devaneios ou alucinações. O que
muda, dentro de várias estrofes, notadamente aquela dos pederastas (C5,
E5) é a relação com o outro, ou com os outros – mas isso será
retomado ao falar da ambivalência característica dessa obra. Podem
ser consideradas oníricas, semelhantes às cenas e situações dos
sonhos, as metamorfoses, postas em evidência por Bachelard. Repetindo o
que escrevi em em Lautréamont – Obra Completa, a bruxa
transformada em bola de esterco, vítima dos amantes a quem havia
transformado em animais (C5, E2), o homem-peixe desiludido com a
humanidade (C4, E7), o par de adolescentes-tarântula (C5, E7), fazem
parte de um mundo que se metamorfoseia, onde sempre se observa um
desvio das leis da natureza (C4, E7), regido por uma lógica
semelhante à do sonho. Ou, nesses relatos, das lendas e relatos da
Mitologia. Igualmente
interessante no capítulo das metamorfoses – e bem onírico - é ser
mutante o próprio Maldoror, um
homem que se recorda de haver vivido durante meio século sob a forma de
tubarão, nas correntes submarinas que margeiam as costas da África
(C4, E5), ora jovem, ora de cabelos brancos, aqui moribundo, ali capaz de
façanhas atléticas, transformado em águia para combater a esperança
(C3, E3), polvo para melhor lutar com Deus (C6, E15), porco em seus sonhos (C5, E6), coisa informe, misturada à natureza (C4, E4), objeto de
identidade indefinida (C4, E1): É
um homem ou uma pedra ou uma árvore quem vai começar o quarto canto.
Disfarça-se no combate ao bem:
Tinha uma faculdade especial para tomar formas irreconhecíveis aos olhos
mais treinados (C6, E2).
Metamorfoses
de um personagem também são metamorfoses, ou auto-construções de um sujeito.
Mais ainda, quando essa propriedade é partilhada pelo narrador, ou o
“sujeito” da narrativa, pois em muitos trechos, quem conta uma história
ou faz uma reflexão é Maldoror, enquanto, em outros, há um narrador
impessoal, a persona Lautréamont, e Maldoror é tratado na
terceira pessoa. Isso significa que “ele”, “eu”, aliás um
pseudo-eu por ser pseudônimo, Lautréamont, já é um outro,
Maldoror, quem sabe o l’autre (mont) desse pseudônimo. Sonhos
contém rébus, enigmas. Os Cantos de Maldoror são obra,
toda ela, enigmática, isso é evidente. O que não é texto para ser lido
ao pé da letra, por definição é enigmático, pede decifração (e o
literal também, conforme bem mostra Lacan ao tratar da polissemia
inerente à expressão verbal). Mas há pelo menos dois desses rébus
merecedores de destaque. Um, notório, é o pseudônimo Lautréamont,
adaptado de um título e um personagem de Sue, Látreaumont. Remete à
recorrência, mais ou menos explícita, de l’autre em Os
Cantos de Maldoror (l’aute mot? l’autre montevidéen,
conforme Leyla Perrone-Moysés e Severo Sarduy? tudo isso e muito mais). Outro
rébus é tão bem feito que permaneceu oculto por mais de um século.
Ao descobrir o adolescente Mervyn (C6, E3), Maldoror-Lautréamont exclama:
A soma dos dias não importa, quando se trata de apreciar a capacidade
intelectual de alguém de ar sério. Sei-me capaz de ler a idade nas
linhas fisiognômicas do rosto: tem dezesseis anos e quatro meses!
Surrealismo? É claro que sim. Mas Steinmetz, organizador da recente edição
Flammarion de Lautréamont completo, observa agudamente, em uma nota de
rodapé, que esta poderia ser a idade de Georges Dazet na época em que
Lautréamont escrevia a passagem. Também o afogado do episódio da fêmea
do tubarão (C2, E13) e outros dos rapazes companheiros ou vítimas de
Maldoror, possíveis metamorfoses de Georges Dazet, citado no Canto I,
tinham dezesseis anos. Deve haver mais sentidos ocultos, mensagens encobertas e cartas roubadas nos Cantos. Poderiam justificar uma crítica à idéia bretoniana de que Lautréamont não só delirava, mas fazia escrita automática. Sabemos, contudo, pois Freud nos ensinou, que o inconsciente e pré-consciente são habilidosos na criação de enigmas. Conforme disse Lacan em O Seminário, livro 1, sobre O eu e o outro, o inconsciente só se expressa por deformação, Entstellung, distorção, transposição. Ocultações, como o examinado no parágrafo anterior, podem, sim, ser resultado de processos inconscientes. 4.
Maldoror e um sonho. Em
mais de uma passagem dos Cantos, Maldoror devaneia, acorda, tem
estados intermediários entre vigília ou sonho, experiências nas quais
tanto podia sonhar quanto estar desperto, como no episódio dos
adolescentes-aranha (C5, E7), na lírica evocação de Falmer (C4, E8) e
no diálogo com a serpente-assombração (C5, E4). Sonho mesmo, como tema
de estrofe, temos em C4, E7, quando, exausto, adormece profundamente e
sonha haver-se transformado em porco. Símiles,
metáforas, elegâncias retóricas em longas orações não faltam: Mas,
quando a tempestade empurrou verticalmente uma embarcação, com a palma
da sua mão, até o fundo do mar; se, na jangada, houver sobrado, de toda
a tripulação, apenas um homem, abatido por cansaços e privações de
toda espécie; se as vagas o sacodem, como a um destroço, por horas mais
prolongadas que as da vida de um homem; e se uma fragata, que singra mais
tarde por essas paragens de desolação, com sua quilha fendida, avista o
infeliz que passeia sua carcaça descarnada pelo oceano, e lhe traz um
socorro que por pouco não foi tardio, creio que esse náufrago adivinhará
melhor ainda até que ponto chegou o torpor dos meus sentidos.
Leitor de Poe, e adepto do exagero, o sono é catalepsia, bem profundo: O
magnetismo e o clorofórmio, quando se dão a esse trabalho, sabem às
vezes engendrar igualmente tais catalepsias letárgicas.
Portanto,
o sono é profundo, pois a transformação em animal só é possível nos
estratos mais fundos do inconsciente. É
típico das contradições de Lautréamont que em outras passagens haja
metamorfoses, passagens do estado humano ao animal bem à luz do dia, na
frente de todo mundo, operações de magia executadas com a maior
facilidade, como no espantoso duelo entre Maldoror e Deus, quando um se
transforma em águia e o outro em dragão (C3, E3), ou na sua luta com a lâmpada-anjo
(C2, E11). Por que, desta vez, a metamorfose é mais difícil, e requer
atravessar a catalepsia para atingi-la? Ele nos dá a resposta: A
metamorfose nunca apareceu a meus olhos senão como elevada e magnânima
ressonância de uma felicidade perfeita, que esperava há muito.
Portanto, o difícil, obrigando-o a passar pelas diversas fases daquele
esmagamento espantoso contra o ventre do granito, durante o qual a maré,
sem que eu o reparasse, passou por duas vezes sobre essa mistura irredutível
de matéria morta e carne viva, não foi transformar-se em porco, mas
sim, atingir a felicidade perfeita. Essa
felicidade consiste em abandonar a condição humana, deixar de fazer
parte da Humanidade, novamente invectivada, objeto de escárnio: ...inesgotáveis
caricaturas do belo, que levais a sério o ridículo relincho da vossa
alma, soberanamente desprezível; e que não entendeis porque o Todo
Poderoso, em um raro momento de excelente humor, que certamente não
ultrapassa as grandes leis gerais do grotesco, permitiu-se, um dia, o mirífico
prazer de fazer que um planeta fosse habitado por seres singulares e
microscópicos, que são denominados humanos, e cuja matéria se assemelha
à do coral vermelho. Em
Lautréamont a felicidade equivale à plena liberdade; e essa, assim como
em Sade, à plenitude da violência, da permissão para destruir: Lá,
não havia mais empecilho. Quando queria matar, matava; isso me acontecia
com freqüência, e ninguém o impedia.
(...) minha consciência não me recriminava de coisa alguma. (...)
Era o mais forte, e alcançava todas as vitórias. Feridas pungentes
cobriam meu corpo; aparentava não reparar nelas. Os animais terrestres se
afastavam de mim, e eu ficava só em minha esplendorosa grandeza. Portanto,
não há felicidade mística, uma experiência de integração com o todo,
mas de isolamento, onde qualquer outra coisa é um obstáculo a ser destruído
nessa violenta ruptura de limites entre o sujeito e o outro, acarretando a
destruição desse outro. Cabe o paralelo entre essa experiência e a jouissance,
o gozo primitivo, o estado que precede a castração simbólica e a
diferenciação entre instâncias do psiquismo. O
que é descrito como sonho de fato é onírico. Realiza um desejo, ou,
talvez, o desejo, mas de forma explícita, direta, sem elaboração
(na opinião de Maldoror-Lautréamont), já que o desejo de liberdade vai
aparecer no conteúdo manifesto: minha consciência não me recriminava
de coisa alguma. O tempo é suprimido, ou alongado, pois, durante o
período da catalepsia, de algumas horas, passou-se uma vida inteira de
porco selvagem. Mas, mesmo assim, a passagem é menos onírica que outras
dos Cantos, nas quais não há menção expressa ao sonho, mas tudo
se transforma, as cenas mudam. 5.
Maldoror, o sono e o outro A
aparente incoerência de Lautréamont está ligada ao desconhecimento da
identidade e da negação, de que uma coisa, sendo o que é, não pode ser
outra. Conforme observado, nesse sentido a lógica toda dos Cantos
é onírica. Exemplo
disso é o tratamento dado ao sono. Conforme vimos, em C4, E7, para
sonhar, Maldoror dorme, e tem o sono mais profundo possível. Em outras
passagens, acorda ou vai dormir normalmente. Mas quando o tema é o próprio
sono, em C5, E3, tudo muda radicalmente. O sono, aniquilamento
intermitente das faculdades humanas, é a pior coisa que pode haver, e
a morte lhe é preferível. De condição prévia para alcançar, mesmo
ilusoriamente, a felicidade perfeita, passa a martírio e suplício
infame. E ao embrutecimento, e ainda, o que apresenta especial
interesse sob o ponto de vista psicanalítico, à castração: Com
efeito, átomo a vingar-se em sua extrema fraqueza, o livre arbítrio não
teme afirmar, com uma autoridade poderosa, que não conta com o
embrutecimento no rol dos seus filhos; quem dorme é menos que um animal
castrado na véspera.
Por
isso, desde o impronunciável dia do meu nascimento, dediquei às tábuas
soníferas um ódio irreconciliável. Conseqüentemente, faz mais
de trinta anos que não durmo. A recusa do sonho é pronunciada com
veemência, com especial vigor, em uma escrita passional: Inimigo
temível da minha alma imprudente, à hora em que é aceso um fanal à
beira-mar, proíbo a meus rins infortunados de se deitarem sobre o orvalho
da relva.
Mas
qual é a razão dessa recusa, o que a justifica? A resposta é clara.
Lautréamont delira, mas nos dá respostas precisas, argumenta com clareza
em defesa da consciência, e contra seu desaparecimento durante o sono: Ao
menos, está comprovado que, durante o dia, qualquer um pode opor alguma
resistência útil contra o Grande Objeto Exterior (quem não sabe seu
nome?); pois então a vontade vigia em sua própria defesa com notável
empenho.
(...) A consciência exala um longo estertor de maldições; pois o véu
de seu pudor recebe cruéis rasgões. Humilhação! nossa porta aberta à
curiosidade implacável do Celeste Bandido. Grande
Objeto Exterior..?
Celeste Bandido..? Mas o que vem a ser isso? Lautréamont responde:
é o outro: Se
existo, não sou um outro. Não admito em mim essa equívoca pluralidade.
Quero residir só em meu íntimo raciocínio. Autonomia... ou então, que
me transformem em hipopótamo.
Este
outro é equiparado à loucura: Quem
não sabe que, quando se prolonga a luta entre o eu, cheio de orgulho, e o
aumento terrível da catalepsia, o espírito alucinado perde o juízo? Portanto,
o outro seria, ao mesmo tempo, Deus e a perda da consciência. Mas
perda para quem? Para uma super-consciência? Um super-eu? Interpretações
de Lautréamont, especialmente as de natureza psicológica, têm que levar
em conta que, à parte a reiterada execração da humanidade e a disposição
de combater Deus, no restante, para cada afirmação encontrada nos Cantos,
sempre será possível encontrar a afirmação oposta. Em C3, E15, em uma
estrofe especialmente desvairada, a consciência é o fantasma amarelo
que persegue o antílope humano. Ela, a consciência, julga
severamente nossos pensamentos e nossos atos mais secretos, e não se
engana. Maldoror, aqui relatando na primeira pessoa (ou seja, Maldoror
e o narrador seriam o mesmo), transformando-se em polvo com oito
ventosas, ataca o Criador, e mata a consciência, sua emissária,
arrancando-lhe a cabeça, assim prestando um serviço à humanidade. Em
seguida, sai nadando pelos perigosos abismos do mar (talvez os
mesmos abismos da falha, da spaltung do eu a que se refere Lacan no
texto sobre Gide). Não contente, sobe a uma elevada plataforma e sobrevoa
outros tantos abismos, para finalmente demonstrar sua imortalidade ao
enfiar a cabeça sob a lâmina de uma guilhotina incapaz de decapitá-lo.
Simbolicamente, mostra-se tão forte que não pode ser castrado. Portanto,
a palavra consciência aparece nessas duas estrofes, mas com
sentido oposto, sinal trocado. Na do sono, é vítima de um outro
invasor. Em C3, E15, ela é o outro, uma alteridade invasora e
dominadora, possível supereu, obstáculo à liberdade. O que sabemos
sobre sonho permite acreditar em signos com sinal trocado, onde algo pode
ser significado pelo aparente oposto. Até
este ponto, o que foi dito satisfaria um freudiano clássico, adepto de
uma tópica mais esquemática, mais simplista. A defesa da consciência
ameaçada pelo Outro, em uma das estrofes, a luta contra ela em outra, são
etapas da luta contra um superego dominador, representando por Deus e pelo
Pai. Lacan,
contudo, nos convida a ir além, entre outros lugares, na Introdução a O
Seminário – volume 2. Lá, refere-se à fulgurante fórmula de
Rimbaud – os poetas, que não sabem o que dizem, como é bem sabido,
sempre dizem, no entanto, as coisas antes dos outros – [eu] é um outro.
No
meu prefácio à Obra Completa, já me havia referido à aparente
contradição entre o eu é um outro, de Rimbaud, e o Se existo,
não sou um outro de Lautréamont. Na verdade, ambos dizem a mesma
coisa. Apenas, Lautréamont, sabendo desse outro eu tão bem quanto
Rimbaud, nos mostra, em acréscimo, que a relação com ele é dramática,
colocando a vida em risco, envolvendo toda a energia vital. Seguindo
a argumentação de Lacan no texto citado, esse [eu] (um outro,
acrescento) é distinto do eu, e não é da ordem da consciência,
na mesma medida em que o sujeito não se confunde com o indivíduo,
e mais, é outra coisa, que fala a partir de um outro lugar,
pois o sujeito está descentrado com relação ao indivíduo. E
conclui: É o que [Eu} é um outro quer dizer. Sob
essa ótica, nada há de contraditório entre o que disseram Rimbaud e
Lautréamont sobre o “eu”. Ambos falam do sujeito, deste como
alteridade, e, mais nitidamente em Lautréamont, um perseguidor, um
invasor, que se instala através da dominação e da castração simbólica.
O eu sonhado, da estrofe do sonho, é aquele livre, desembaraçado
do sujeito, em um estágio primitivo, portanto animal, e de absoluto
prazer, de gozo primário. Dito
isso, estaríamos em condições de avançar, entrando no trecho
notoriamente mais enigmático dos cantos, rébus, quebra-cabeças
para a crítica, C4, E2? É a passagem em que ele invectiva as duas
unidades do multiplicando, depois de propor o riso e o choro, inverter
Rabelais e Baudelaire, a propósito do humor, ao dizer que viu um figo
comer um asno e que por causa disso chorou, além de argumentar que
pilares, baobás e alfinetes se equivalem. Enfim, não diz coisa com
coisa, para um leitor mais ingênuo, aquele que busca a literalidade na
leitura. É
um trecho freneticamente auto-referente, metalingüístico, especular.
Trata de seu próprio texto, ou seja, é Lautréamont-Maldoror comentando
e justificando o que escreve; mas, em acréscimo, escreve ainda sobre esse
texto que trata de seu texto, em uma metalinguagem de segundo grau, e,
como se não bastasse, faz digressões e finge dialogar com o leitor:
Nessa
passagem Lautréamont mobiliza todo o seu acervo de recursos de estilo,
que inclui várias duplas negações, fornecendo exemplos de sua lógica
da negatividade, de que qualquer coisa é o que é e também é seu contrário.
Mas o que interessa é o trecho final da estrofe: Duas
torres enormes se avistavam no vale; já o disse no começo.
Multiplicando-as por dois, o produto seria quatro... mas eu não distingui
muito bem a necessidade dessa operação aritmética. Prossegui meu
caminho, com a febre no rosto, exclamando sem parar: "Não... não...
não distingo muito bem a necessidade dessa operação aritmética!"
Havia escutado correntes se arrastando e gemidos dolorosos. Que ninguém
ache possível, ao passar por este lugar, multiplicar as torres por dois,
para que o produto seja quatro! Alguns desconfiam que amo a humanidade
como se eu fosse sua própria mãe, e a houvesse carregado por nove meses
em meu ventre perfumado; eis porque não passo mais pelo vale onde se
erguem as duas unidades do multiplicando! Que
negação do dois, da dualidade, é essa? Há duas interpretações,
não-excludentes, pois um texto tão complexo, dialógico, comporta múltiplas
leituras. Uma, mais imediata, refere-se à pederastia de Lautréamont-
Maldoror (e de Isidore Ducasse, a meu ver). Portanto, rejeita tudo o que
simboliza um casal, um par de seres humanos distintos, com a capacidade de
se multiplicarem. A
outra tem a ver com o que foi exposto acima, sobre o eu, o [eu]
e o sujeito. É, novamente, a recusa do duplo, da alteridade invasora, do
descentramento. É ele quem não quer ser dois. 6.
O espelho. Seria
literalidade interpretar as duas estrofes em que Maldoror se vê em um
espelho como significando o estádio do espelho estudado por Lacan.
Há espelhos em muitos lugares, nos Cantos. E mais ainda em Lacan:
côncavos, metálicos, e, além disso, coisas de todo o tipo no mundo
comportam-se como espelhos, conforme diz em O Seminário,
Volume 2, Além do princípio do prazer, a repetição. Mas
em C4, E6, no qual Maldoror pensa estar diante de um outro, ou da sombra
de um outro, um rival na crueldade, para acabar descobrindo que é ele
mesmo refletido em um espelho, e então quebrar o espelho, há muito para
comentar. Em primeiro lugar, o modo como o próprio é auto-referente,
auto-reflexivo, portanto especular, ao narrar uma história e ao mesmo
tempo comentar-se: Sobre
a parede do meu quarto, que sombra desenha, com um vigor incomparável, a
fantasmagórica projeção da sua silhueta encarquilhada? Quando deposito
sobre meu coração essa interrogação delirante e muda, é menos pela
majestade da forma que pelo quadro de realidade que a sobriedade do estilo
se conduz desse modo. Há,
portanto, uma duplicidade na interlocução: Maldoror monologa conversa
com seu leitor, e fala com o “outro” no espelho: Seja
quem fores, defende-te; pois dirigirei contra ti a funda de uma terrível
acusação: esses olhos não te pertencem... onde os pegaste?
Não
faltam símbolos da castração. A sombra fantasmagórica foi escalpada
por uma de suas vítimas, e isso, o significado da falta de cabelos
(castração simbólica) ocupa boa parte do trecho; ele (sombra) destruiu
uma cidade inteira só com o olhar; jogou uma menina em um lago,
afogando-a. Mas
o interessante do trecho é Maldoror não se reconhecer na imagem,
estranhando a repetição invertida de seus gestos, e ir-se descobrindo
aos poucos, à semelhança da descrição que Lacan faz da criança no stade
du miroir. Ao reconhecer-se, quebra o espelho: O
segredo está revelado; mas não, digo-o com franqueza, para minha inteira
satisfação. Tudo está explicado, tanto os grandes como os menores
detalhes; estes, tanto faz trazê-los de volta ao espírito, como, por
exemplo, o arrancar dos olhos à mulher loira: isso não é quase nada!...
Não me lembrava eu, pois, de também haver sido escalpado, embora fosse
apenas por cinco anos (a medida exata do tempo me havia escapado) que
havia encerrado um ser humano em um cárcere, para testemunhar o espetáculo
dos seus sofrimentos, por esse me haver recusado, com razão, uma amizade
que não se concede a seres como eu? Já que finjo ignorar que meu olhar
pode provocar a morte, mesmo aos planetas que giram no espaço, não se
enganará quem pretender que eu não possuo a faculdade da lembrança. O
que me resta a fazer é quebrar este espelho em estilhaços, com o auxílio
de uma pedra... Esta não é a primeira vez que o pesadelo da perda momentânea
da memória fixa sua morada em minha imaginação, quando, pelas inflexíveis
leis da ótica, acontece-me de estar diante do desconhecimento da minha própria
imagem! Ele
se reconhece nesse possível Urbild especular, não por sua aparência,
por sua fisionomia, suas roupas, mas negativamente, pelo escalpo,
pela falta de algo, e por seus gestos e atos, por suas crueldades.
Portanto, é destrutivamente, negativamente, que constrói uma identidade.
Ou, citando Lacan (O Seminário, volume 1, no capítulo sobre a Verneinung
de Freud), ele só pode refletir a sua relação fundamental ao seu
eu ideal sob forma invertida, pois a relação ao outro, na medida
que nela tende a se manifestar o desejo primitivo do sujeito, contém
sempre em si mesma esse elemento fundamental, original, da denegação,
que toma aqui a forma da inversão. Mas essa relação nem se
completa, é interrompida com a destruição do espelho, que pode ser
interpretada (assim como outras passagens dos Cantos, e talvez a
obra em seu todo) como afirmação do desejo primitivo. O
outro trecho com espelhos, C6, E6, é uma espécie de parêntese no meio
das aventuras do Canto VI, da perseguição a Mervyn. Aqui, novamente ele
se reconhece através de uma falta, de algo que foi arrancado, desta vez não
o cabelo, mas um olho: Acabo
de reparar que só tinha um olho no meio da testa! Ó espelhos de prata,
incrustados nos painéis dos vestíbulos, quantos serviços me prestastes
com vosso poder refletor! Desde o dia em que um gato angorá roeu, durante
uma hora, a protuberância parietal, como um trépano que perfura o crânio,
atirando-se bruscamente em minhas costas, por eu lhe haver fervido os
filhotes em uma bacia cheia de álcool, não parei de lançar contra mim
mesmo a flecha dos tormentos. A
estrofe contém minha série predileta de belos como: ...
espectador impassível das monstruosidades adquiridas ou naturais, que
decoram as aponevroses e o intelecto de quem vos fala, lanço um
prolongado olhar de satisfação à dualidade que me compõe... e me acho
belo! Belo como o vício de conformação congênito dos órgãos sexuais
do homem, que consiste na brevidade relativa do canal da uretra e na divisão
ou ausência da parede inferior, de modo que o canal se abra a uma distância
variável da glande e por baixo do pênis; ou, ainda, como a verruga
carnuda, de forma cônica, sulcada por rugas transversais bem profundas,
que se ergue na base do bico superior do peru; ou melhor, como a seguinte
verdade: "O sistema de gamas, modos e encadeamentos harmônicos não
repousa em leis naturais invariáveis, mas é, ao contrário, conseqüência
de princípios estéticos que variam com o desenvolvimento progressivo da
humanidade e que continuarão variando!"; e, principalmente, como uma
corveta encouraçada com torreões! Sim, sustento a exatidão da minha
afirmação. Há
um enfrentamento ou confronto de negatividades: um monstro se acha belo e
descreve essa beleza através de encadeamentos de signos, imagens que
remetem a monstruosidades e extravagâncias, negando qualquer padrão
estabelecido da beleza. Mas, subitamente, a interlocução muda. Não é
mais com sua imagem que ele fala, mas com Deus: Nada
invejo ao Criador; mas que ele me deixe descer o rio do meu destino, através
de uma série crescente de crimes gloriosos.
(...) É que somos dois a contemplar os cílios de nossas pálpebras, vês...
e sabes que, por mais de uma vez, ressoou, em minha boca sem lábios, o
clarim da vitória. Adeus, guerreiro ilustre; tua coragem na desgraça
desperta estima em teu mais obstinado inimigo; mas Maldoror te reencontrará
logo para disputar a presa que se chama Mervyn. Portanto,
reaparece um outro, contra quem luta para disputar um objeto do
desejo. Essa
euforia de Maldoror ao reconhecer-se e achar-se belo poderia, quem sabe,
ser a descrição da assunção jubilatória. E também, ainda
conforme o texto publicado em Escritos, a idéia de identificação,
como transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem,
e como a matriz simbólica em que o [eu] se precipita numa forma
primordial antes de se objetivar na dialética da identificação com o
outro e antes que a linguagem lhe restitua, no universal, sua função de
sujeito. A
expressão antes sugere, novamente, o arcaico e primitivo,
lembrando ainda que o estádio do espelho se processa entre os seis
e dezoito meses. Com isso, e com o [eu] do trecho citado, voltamos
ao que foi visto no tópico precedente, sobre a constituição dessa função
de sujeito, e como Lautréamont-Maldoror a recusa. E a recusa está
novamente aqui, nessas passagens citadas, como que em uma des-identificação,
pois em uma delas o espelho é quebrado, e em outra Maldoror despede-se ao
partir para a luta, enfrentar e vencer Deus. Talvez, voltando a citar
Lacan, uma recusa da dialética que desde então liga o [eu] a situações
socialmente elaboradas, e uma afirmação do narcisismo primário,
e da evidente relação da libido narcísica com a função alienante
do [eu], com a agressividade que nela se destaca em qualquer relação com
o outro, nem que seja da mais samaritana ajuda. 7.
O desejo, ambivalência, Fort – Da. Em
palestras sobre Lautréamont, gosto de ler e comentar a estrofe dos
pederastas, C5, E5, mostrando como contém e apresenta de modo exemplar a
ambivalência e a negação em série que caracterizam os Cantos. Começa
com a bela metonímia, tomando a parte (o ânus) pelo todo (os
pederastas): Ó
pederastas incompreensíveis, não serei eu quem irá lançar injúrias
contra vossa grande degradação; não serei eu quem irá atirar o
desprezo contra vosso ânus infundibuliforme. Cabe
perguntar se nesse trecho, e mais ainda no que citarei a seguir, não se
poderia falar em desejo metonímico: Ó!
se em lugar de ser um inferno, o mundo não fosse mais que um imenso ânus
celeste, vede o gesto que faço com meu baixo ventre: sim, teria enfiado
minha vara através do seu esfíncter sangrento, destroçando, com meus
movimentos impetuosos, as próprias paredes do seu recinto! É,
em suas passagens iniciais, uma declaração passional de amor aos
rapazes: Sede
abençoados por minha mão esquerda, sede santificados por minha mão
direita, anjos protegidos por meu amor universal. Beijo vosso rosto, beijo
vosso peito, beijo com meus lábios suaves as diversas partes do vosso
corpo harmonioso e perfumado. Porque não dissestes logo quem éreis,
cristalizações de uma beleza moral superior? Foi preciso que eu
adivinhasse sozinho os inumeráveis tesouros de ternura e castidade que
ocultavam as batidas de vossos corações oprimidos. Peito ornado de
grinaldas de rosa e vetiver. Há
uma confissão que, nisso divergindo de outros comentaristas, como P. O.
Walzer, tomo por verdadeira: Eu
sempre experimentei uma atração infame pela juventude pálida dos colégios,
e pelos crianças estioladas das fábricas! Além
disso, há algo muito importante, que é a declaração da impossibilidade
da satisfação do desejo, ou de que essa satisfação é irrealizável,
ilusória, diz ele, sempre mais além, pois o desejo é maior que seu
objeto: Mas
porque me surpreendo a lamentar-me por um estado de coisas imaginário,
que nunca receberá a recompensa da sua realização ulterior? Não vale a
pena construir fugazes hipóteses.
(...) Que pena eu não poder olhar, através dessas páginas seráficas,
a cara de quem me lê! Se não tiver ultrapassado a puberdade, que chegue
perto. Aperta-me contra ti e não temas machucar-me; estreitemos
progressivamente os ligamentos dos nossos músculos. Mais. Sinto que é inútil
insistir; a opacidade, notável por mais de um motivo, desta folha de
papel, é um empecilho dos mais consideráveis à operação da nossa
completa junção. A
impossibilidade não é declarada apenas nessa estrofe. Entre outros
lugares, em C3, E1, ao celebrar os rapazes imaginários, Lohengrin,
Lombano, Holzes, que o acompanham: Recordemos
os nomes desses seres imaginários, com natureza de anjo, que minha pluma,
durante o segundo canto, extraiu de um cérebro, e que brilham com uma
claridade emanada deles mesmos. Morrem, desde seu nascimento, como essas
fagulhas, cujo rápido apagar-se o olho mal consegue acompanhar, sobre
papel queimado.
(...) Amor esfaimado, que se devoraria a si mesmo, se não buscasse seu
alimento nas ficções celestiais; criando, com o tempo, uma pirâmide de
serafins, mais numerosa que os insetos que formigam em uma gota d'água,
ele os enlaçará em uma elipse, que fará rodopiar em turbilhão a seu
redor. Uma
pirâmide de serafins:
a passagem lembra a referência, em Kant com Sade de Lacan, a essas
pirâmides humanas, fabulosas para demonstrar o gozo em sua antureza de
cascata, essas grandes fontes do desejo, etc. Mas,
voltando à estrofe dos pederastas, algo vai mudando ao longo dela. Um
encontro amoroso termina em um assassinato: A
justiça humana ainda não me pegou em flagrante delito, apesar de
incontestável habilidade de seus agentes. Até mesmo assassinei ( não
faz muito tempo!) um pederasta que não se prestava suficientemente a
minhas paixão; joguei seu cadáver em um poço abandonado, e não há
provas decisivas contra mim. Por que estremeceis de medo, adolescente que
me ledes? Acreditais que eu queira fazer o mesmo convosco? Vós vos
mostrais soberanamente injusto... Portanto,
a relação entre o eu e o outro não se insere nos quadros da lei. Mas
o esperma de Maldoror atrai multidões: Eles
vêm das margens do Amazonas, eles atravessam os vales que irriga o
Ganges, eles abandonam o líquen polar, para empreender longas viagens a
minha procura, e perguntar às cidades imóveis se não viram passar, por
um momento, ao longo de suas muralhas, a esse cujo esperma sagrado perfuma
as montanhas, os lagos, os matagais, as florestas, os promontórios e a
vastidão dos mares! As
multidões se exterminam. E fica revelada a sua real intenção: não é
seduzir rapazes, mas sim, acabar com a humanidade. Antes, com o lirismo,
estava enganando o leitor: Desgraçadamente,
quantos séculos ainda não serão necessários, antes que a raça humana
pereça inteiramente, por minha armadilha pérfida! É assim que um espírito
habilidoso, que não se vangloria, emprega, para alcançar seus fins, os
mesmos meios que pareceriam, à primeira vista, constituir-se em invencível
obstáculo. Constantemente, minha inteligência se volta para essa
imponente questão, e vós sois testemunha de que não me é mais possível
permanecer no assunto modesto de que, no início, pretendia tratar. A
imponente questão é, então, a máxima formulada em Kant com
Sade, de que o desejo é o avesso da lei. Transgressão
da norma sexual e da integridade física sucedem-se em seqüências reversíveis,
anulando seus pólos através da comutação, do desejo-violência, sedução-destruição,
amor e morte, na estrofe dos pederastas e em muitas outras passagens. Se
em C4, E8, Maldoror destrói Falmer a quem ama, em C2, E14, Holzer já está
morto, afogado, quando Maldoror o faz reviver e o leva consigo. Pode-se
associar essa ambivalência à pederastia e sua realização impossível,
ou, conforme alguns comentaristas, a um trauma, culpa por um ato de
extrema crueldade na infância ou juventude. Seria a chave da bela estrofe
em prosa poética da cabeleira de Falmer (C4, E8), tomada, então como
relato quase literal de algo que aconteceu. Mas
a ambivalência na relação com parceiros juvenis, amados e vítimas, da
qual a estrofe dos pederastas fornece exemplos, pode ser entendida como o Fort
- Da infantil, quando a criança brinca com um objeto desvitalizado
que já é um signo. É quando o objeto está lá que ela o manda embora,
e quando não está lá que o chama. Ou como um Da – Fort,
com a sedução, atração de alguém, e em seguida sua expulsão ou rejeição,
pela destruição. Também se estende ao leitor, seduzido e repelido, como
na estrofe da poção lenitiva
(C5, E1), das minhas prediletas pelo humor negro, na qual vai curar o
leitor afetado pelo veneno do que ele escreve: Que
o leitor não se zangue comigo, se minha prosa não tem a felicidade de
agradar-lhe
(...) eu te amo. (...) Como alimentação adstringente e tônica, arrancarás
primeiro os braços da tua mãe (se é que ela ainda existe), tu os picarás
em pedacinhos, e os comerás logo em seguida, em um só dia, sem que
qualquer traço do teu rosto traia tua emoção. Se tua mãe for demasiado
velha, escolhe outro paciente, mais jovem e mais fresco, sobre o qual a
raspadeira cirúrgica tenha domínio, e cujos ossos tarsos, quando
caminha, encontrem facilmente um ponto de apoio para fazer o movimento do
balanço: tua irmã, por exemplo. Não posso deixar de lamentar seu
destino e não sou daqueles em quem um entusiasmo muito frio só simula a
bondade. Tu e eu derramaremos por ela, por essa virgem amada (mas não
tenho provas para afirmar que ela seja virgem), duas lágrimas incoercíveis,
duas lágrimas de chumbo. E será tudo. A poção mais lenitiva que te
aconselho é uma bacia, cheia de pus blenorrágico com nódulos, na qual
previamente terás dissolvido um quisto piloso do ovário, um cancro
folicular, um prepúcio inflamado, virado para trás da glande por uma
parafimose, e três lesmas vermelhas. Caso sigas minha receita, minha
poesia te receberá de braços abertos, como quando um piolho seciona, com
seus beijos, a raiz de um cabelo. A
ambivalência adquire dimensões filosóficas, na estrofe do adolescente
dilacerado (C1, E6): Ai
de nós! o que vêm a ser, pois, o bem e o mal! Serão uma mesma coisa,
pela qual testemunhamos com raiva nossa impotência, e a paixão de alcançar
o infinito, mesmo pelos meios mais insensatos? Ou então, serão duas
coisas diferentes? Sim... que sejam antes a mesma coisa... pois senão, o
que será de mim no dia do juízo? Está
presente no mível molecular, pois nada é fixo, cada termo contém seu
oposto, e cada coisa ou acontecimento implica o contrário, aquilo que não
é: Talvez, ao afirmar isso, eu me
engane; mas talvez eu também diga a verdade (C4, E1). A
ambivalência, também observada por Kristeva, baseando-se em Bakhtine, em
seu livro sobre Semanálise, interessa, não só pela singularidade, como
sintoma, mas pela universalidade.
Expressa, portanto, mais que o sintoma decorrente de um trauma, ou ligado
ao homossexiualismo, a contradição,
fundamental e insolúvel, entre sujeito e objeto, signo e realidade,
imaginação e realização, que pertencem a mundos separados e
irreconciliáveis. No
final do meu prefácio para a Obra Completa, vali-me de Georges
Bataille, em seu A Literatura e o Mal, a propósito de Baudelaire.
São passagens análogas a muito do que é dito em Lacan, especialmente em
O Seminário, volume 2, sobre (citando Bataille) a destrutiva busca
da impossível unidade, movida
pelo desejo insensato de unir
objetivamente o ser e a existência, invadindo o reino do impossível, da insaciabilidade, através da
fusão do sujeito e do objeto, do homem e do mundo. É uma busca não
apenas representada por Baudelaire, mas sim, o desejo de todo
poeta. A poesia é o modo de escapar à condição de mero
reflexo das coisas; por isso, quer
o impossível. Semelhante busca da impossível, síntese de contradições
profundas e insolúveis - do imutável
e do perecível, do ser e da existência, do objeto e do sujeito (op.
cit.) - também é exemplarmente representada por Lautréamont. Mas
isso, o confronto entre o que Bataille e Lacan entenderiam como contradições
fundamentais, de base, merece outro estudo, à altura da contribuição de
ambos.
BIBLIOGRAFIA
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Claudio Willer (São Paulo, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. É um dos editores da Agulha (http://www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm). Página ilustrada com obras do artista Enrique Lechuga (México). |