Patricio Ponce Patricio Ponce

revista de cultura # 30 - fortaleza, são paulo - novembro de 2002

Patricio Ponce

Editorial
C
idades e memória

As cidades e sua música abrasada de extravios são uma imposição de falsos encontros. Tudo é perda ali, a começar pelo que julgamos encontrar: a idéia precária de localização que ostentam as inúmeras sinalizações, os caminhos dados como únicos, ainda que bifurcados. A rigor, a única razão para que o homem mergulhe no labirinto aflitivo da malha urbana é a de buscar perder-se de todo e descobrir ali uma antítese para o que lhe foi deturpado a caminho. Entrar ali para perder-se de si, tratando de recuperar um outro já de muito desfeito. Portanto, as cidades não são lugar de encontro, mas antes de acento da perda.

Assim vale caminhar por elas, perdendo-se no esgotamento de ruas e em sua escuridão ardilosa. Seguir por ali como quem recorda um verso de René Crevel: com as pernas abertas, uma cidade dorme nua sobre o mar fosforescente. Não descartar jamais o erótico. A própria e cultuada beleza, de prédios, roupas, carros - a estética da velocidade, seu charme domado -, nos engana ao esconder o vazio em que se ergue. O humano pode se instalar em qualquer espaço, mas deve levar consigo o sentido. Hoje um ardil conceitual embaralhou o racional ao irracional, proveniente de uma astúcia respaldada em certo temor atávico do homem conhecer-se mais intimamente. As cidades devem ser vista como um convite a que o homem saia de si, sim, mas que essa aventura se justifique por uma busca mais ampla de sua existência.

Tocar as reentrâncias das cidades, beijar-lhe com sutileza os caminhos, embriagando-lhes o passo. Um homem não pode compreender nada fora de si se evita tocar-se. As mulheres estão mais próximas desse conhecimento essencial porque sabem fazê-lo. Sabem preencher com mãos internas e externas todo o ímpeto de sua vida. Os homens se distraem com uma exuberância fortuita e erguem cidades onde ninguém mais se toca entre si. Pensemos nas cidades como um aglomerado de casas e ruas conectivas. Não temos aí senão uma fertilização da solidão. Os espaços de convivência são ilusórios porque o mercado das almas prevalece em tais sesmarias.

As cidades são um lugar fecundo para que se perceba as vozes que revelam as dissidências. Entregar-se a elas, perder-se nas dobras insuspeitas. Tornar a vida uma grande aventura. Calvino a elas se referiria como palimpsestos: raspando-lhes a face vamos dar em outra que nos evita olhar e logo em mais outra que se abre despojada e outra mais e mais, até o infinito. No entanto, o que quer que engulamos terá seu destino certo sob uma ótica que não é mais apenas laboratorial. As cidades não são mágicas. Não são fantásticas. Não são indícios de uma evolução humana. O próprio Calvino diria: não existe linguagem sem engano. As cidades são a medida exata do homem que temos hoje. Este homem tão afeito ao racional que consegue desconquistar-se. Não está mais. Não é mais ele. E rigorosamente não ensina a si mesmo sequer uma rua mais tranqüila para chegar ao espelho.

Raspando a face do que nos mostra o cotidiano damos em um imenso vazio desconfigurado. Não há cidades. Seguindo as placas, nada muda, pois abolimos a distinção entre visível e invisível. Perdemos as cidades, quando o ideal era nos perdermos nelas.

Nesta edição # 30 da Agulha encontramos diversos matizes que unem cidade e memória, salientando a essencialidade do instante, da deriva, não apenas recorrendo ao bordão da ruptura mas antes sondando as inúmeras possibilidades de identificação, complementaridade, desdobramento. Assim é que fortalecemos as relações no domínio de uma mesma língua (portuguesa) e suas leituras e entrelaçamentos com outra (espanhola), diapasão que permite abordagem e explanação de valiosas visões de mundo, onde o destaque será sempre a multiplicidade. Caminhemos por suas páginas sempre guiados pela voz de Crevel: com as pernas abertas, uma cidade dorme nua sobre o mar fosforescente.

Os editores

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Patricio Ponce

Sumário

1 a língua portuguesa na poesia portuguesa de hoje. joão barrento
2 allen ginsberg: três poemas curtos. claudio willer
3
chema madoz
: el instante poético de la fotografía. miguel ángel muñoz
4 de la estética o antiestética del dadaismo: kurt schwitters y francis picabia. oscar gonzález
5 de la realidad objetiva (dada) a la realidad virtual, o del renacimiento a la edad media (pasando por pascal). armando romero
6 deus, pátria, família ou o poeta antónio barahona. maria estela guedes
7 la poesía de lawrence ferlinghetti. esteban moore
8 memoria de las ciudades. óscar collazos
9 memorias de la cantante alemana wilhelmine schroeder-devrient. carlos bedoya
10
milton dias: memórias de um passeante. floriano martins
11 partículas elementales, de michel houellebecq: una novela postmoderna. edgar bastidas urresty
12 wittgenstein, o fazedor de símiles. julio daio borges

artista convidado patricio ponce (obra múltipla) texto de lupe alvarez
rev
ista em destaque rascunho (diálogo entre rogério pereira & claudio willer)
livros da agulha a espiral vertiginosa: joão barrento (por maria joão cantinho), el milagro de medellín y otros poemas: ron riddell (por raúl henao), poetas portugueses y brasileños: josé augusto seabra
[org.] (por jorge ariel madrazo)
cartas da agulha
galeria de revistas

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Patricio Ponce

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editores
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jornalista responsável
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saúl ibargoyen (méxico)
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eduardo mosches
(méxico)
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