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revista de cultura # 2/3 - fortaleza, são paulo - setembro de 2000 |
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artista convidado: cruzeiro seixas (portugal) |
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Cruzeiro Seixas, uma retrospectiva Mário Cesariny de Vasconcelos
Que sabiam de surrealismo ou de
dadá todos aqueles que apareciam jovens no Café Hermíneos no dealbar da
década de 40? Absolutamente nada. Nem era só de surrealismo ou de dadá
que não sabiam. O que a inteligência ou ininteligência do lugar e da época
lhes dava para ser sabido constituía amostra bastantemente hórrida
daquilo que ainda estava por saber. Sabíamos (vagamente) da guerra
mundial; da arte que se expunha no Secretariado de Propaganda Nacional; da
arte mais ou menos da Sociedade Nacional de Belas Artes; dos cortejos de
Leitão de Barros; de Alexandre e de Clotilde Sakaroff; da pintura de
Antonio Pedro e de matemática elementar. Ainda era cedo para se saber de
Pessoa, de Sá-Carneiro, de Souza-Cardoso, de Vieira da Silva. Sabíamos
de Régio, de Torga, de Casais, mas não gostávamos tanto. Apanhados numa
desjuntura sinistra (de gerações, de poéticas, de políticas), juntávamos
a custo o próprio corpo. O aparecer de um livro de Ruy Cinatti, Nós não
somos deste mundo, forneceu uma tarde de gáudio geral: todo o mundo
fez ilustrações, após o que o livro foi deitado fora. Também sabíamos da existência
de um novo movimento poético, o neo-realismo, reivindicador da revolução
pela imagem. […]
"Em 1944, escreve Pedro
Oom, se pode limitar a fronteira do nosso magnífico isolamento; pois logo
a seguir surgiu a imensidade de caras e de gestos que ainda hoje nos
assustam". Este hoje refere-se a 1965.
Alguns deles chegaram à I
Exposição dos Surrealistas, em 49, como à Exposição que os mesmos
organizaram, ainda em Lisboa, no ano seguinte. Francamente dizendo, ninguém
deu por isso - por eles, pelas exposições, pelas nossas pobres vidas. A
não ser José-Augusto França, também é verdade, que embora em atrito
direto com o e os expositores, fez crônica sobre eles na Seara Nova,
tentando mesmo a consagração de dois.
Passados todos estes anos, é
com o maior júbilo que vemos quase toda a gente a fazer humor negro
pintado ou escrito, provando-se a fortuna de antologistas que aproveitam
sem medo as teses de Breton para reabilitação de literatura pátria,
enquanto por outro-lado-o-mesmo-lado, a subsequente crítica de artes plásticas
vai outra vez no começo, de que, di-lo-á alguém, abandonando-se assim
às margens do grande rio o significado de certas inundações. Bom tempo,
mau tempo, sempre passa um barco para o banhista ver e a comissão de
festas premiar. Se é bom, se é mau, não sabemos - deve ser bom, quando
não, ia ao fundo. Como foram ao fundo as figuras de proa cujos nomes
passo porque nem sempre os que desistem ou morrem são quem vai mais
morto.
Uma retrospectiva mais sistematizada do que aquela que Rui Mário Gonçalves pôde organizar na Galeria Buchholz, em 1967, mostraria como e a que ponto a pintura de Seixas, sem todavia levar ao esgotamento os rumos delineados - seriam necessários: a) disponibilidades materiais e horários que nunca teve, desde os anos 40 até esta risonha década de 70; b) menos amor à vida, é dizer, aos segundos de vida, de não-trabalho, de não-almoço, de não-dormir escravos que as vinte e quatro horas destes dias nos dão, quando dão, se dão -, tal retrospectiva, dizíamos, mostraria como a obra de Seixas representa entre nós não só confirmação da pintura surrealista que correr até à II Guerra Mundial, como a adivinhação de modos futuros. A presente exposição não deve pois ajudar a limitar esta obra à série de trabalhos que ora expõe. Tal série é devida, primeirissimamente, a Francisco Pereira Coutinho, que, constatada a persistente ausência de mecenas úteis, dispensou por um tempo o empregado e animou o expositor. |
Mário Cesariny de Vasconcelos. Poeta e artista plástico. Página ilustrada com obras do artista Cruzeiro Seixas (Portugal). |