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revista de cultura # 18/19 - fortaleza, são paulo - nov/dez de 2001 |
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Klaus Kinski, o invariável rebelde Viviane de Santana Paulo Tenho a febre do mundo inteiro nos olhos.
Como estes poemas foram cair nas mãos desta amante é um mistério, uma vez que foram dados como perdidos pelo próprio poeta. Os poemas foram escritos no início dos anos cinqüenta, em um pequeno apartamento em Paris, que era dividido com o amigo Thomas Harlan e a namorada Bergell, uma jovem de dezesseis anos condenada à morte por um câncer na laringe. Bergell não era o nome verdadeiro, Kinski a chamava assim em homenagem a uma região na Suíça adorada por ele. A jovem vivia nas ruas de Paris, o alemão a encontrou deitada em um banco, em um dia qualquer de outono, e a trouxe no meio da noite para o minúsculo apartamento. A princípio, ele queria cuidar dela como um pai, acabou se apaixonando por aquela criatura fraca, de longos cabelos negros, pele alva, lívida, quase transparente, que tossia, cuspia sangue, tremia e delirava de febre. Imagino os três jovens no minúsculo recinto, em desordem, escuro, cheirando a mofo. O amigo Harlan sendo obrigado a presenciar a paixão e loucura do companheiro de quarto, o sofrimento físico da menina, as recitações berrantes dos versos que Kinski escrevia deitado na cama, os delírios de ambos Com certeza Kinski, que tinha na época vinte e poucos anos, escreveu estes versos inspirados em Bergell. Tomou a dor daquela criatura abandonada e enferma, transformou-a na própria dor. No entanto, em suma, os poemas inéditos de Kinski não acrescentam nada de novo na biografia deste gênio inigualável na história cinematográfica. Neles encontramos a mesma ira e visão apocalíptica rebarbativas que o acompanhou em todas as fases de sua vida. O protagonista de Aguirre, a Cólera dos Deuses, expele, em tinta vermelha, datilografada em papel de forno, a sublevação delirante contra a autoridade constituída e da qual foi uma amostra a autobiografia Sou tão louco pela sua boca de morango (Ich bin so wild nach deinem Erdbeermund, 1975), título este extraído de um poema do poeta francês François Villon. Assim como a autobiografia é um violento grito de protesto contra qualquer ordem institucionalizada, contra tabus, contra a sociedade, Febre - Diário de um Leproso é uma erupção de paixão, ódio e insurgência, carregado de suavidade e asco. Se Kinski não tivesse sido o constante obstinado e indomável que fora, dono de uma rebeldia nata e violenta, talvez não tivesse se tornado um mito. Nikolaus Nakszynski, nascido em 18 de outubro de 1926 em Zoppot, uma pequena cidade polonesa, ficou mais conhecido através da atuação singular nos filmes. Embora Kinski tenha trabalhado em mais de 170 filmes, pode-se contar nos dedos aqueles que tenham algum valor, e mesmo assim se tornou um ator incomparável na história do cinema. Foi o talento de fascinar o público, com a atuação inigualável em frente à câmara, que o tornou famoso. O aspecto físico também contribuía muito para a interpretação de um papel, possuía a boca grande, o rosto encovado, os gestos alucinados e dos seus grandes olhos azuis emanava um olhar que parecia hipnotizar o público. Era como se realmente possuísse a febre do mundo inteiro nos olhos, a loucura estampada naquele imenso e profundo azul. Para os diretores era uma benção trabalhar com o filho de um pobre e fracassado cantor de óperas, ele sabia tudo de antemão, possuía um instinto aguçado e era totalmente seguro. Era dispensável qualquer sugestão ou orientação, ele sabia exatamente onde estava a câmara, posicionava-se conforme seu movimento e virava o rosto no preciso momento da câmara off. Seu rosto domina a câmara toda, marca a visão do público, como um epicentro. Era uma benção, mas também uma desgraça trabalhar com esta personalidade complexa e violenta, imprevisivelmente cheio de cólera e ao mesmo tempo pusilânime. Mas é neste paradoxo que reside a autenticidade deste artista que viveu toda a sua vida em busca da perfeição, do absoluto; que nunca desistiu de lutar contra a mediocridade que o cercava permanentemente: foram raros os diretores de cinema que reconheceram e valorizaram-lhe o talento. Os papéis oferecidos eram, na maioria, insignificantes. E Kinski aceitava qualquer um. Fazia um filme atrás do outro em uma feracidade doentia, filmes que, ele próprio sabia, desde o começo, estavam condenados ao fracasso.
Klaus Kinski, como escritor, não se difere muito do ator, o escárnio e a ira marcantes estão presentes em cada página de seus livros. Dotado de uma linguagem feroz, sem adornos, Kinski revela a realidade de forma crua e mundana. Na autobiografia Sou louco pela sua boca de morango, que anos mais tarde foi revisada e reeditada, em 1991, sob o título Preciso de Amor (Ich brauche Liebe), o filho descreve o próprio pai como se fosse apenas um escritor descrevendo um personagem hediondo e grotesco: "Ele não tinha o apelido de Bulli devido ao seu pau grosso ou seus testículos grandes. Bulli também é a abreviação para buldogue. Não devido à sua careca, os buldogues ingleses também parecem possuir uma careca, mas o seu rosto inteiro era assim. Tudo em sua cara tendia para baixo como se ela tivesse muita pele." (Bulli heißt er nicht wegen seines dicken Schwanzes und seiner großen Hoden. Bulli ist auch die Abkürzung für Bulldogge. Nicht wegen seiner Glatze - die englischen Bulldoggen sehen ja auch so aus, als ob sie eine Glatze hätten - sondern sein ganzes Gesicht ist so. Alles an seinem Gesicht zieht sich nach unten, als habe er zuviel Haut). Aqueles que estavam esperando na autobiografia apenas a descrição da vida de um artista acertando contas com o passado cruel ou se vingando do destino, são surpreendidos pelo distanciamento com o qual o autor desenvolve uma linguagem coagulada de emoção. Não foi sem razão que o escritor Kinski foi comparado a Céline, Rimbaud e Henry Miller. Como um grande artista, que sabia intuitivamente trabalhar com a ficção e a realidade, o autor muitas vezes funde uma na outra, tornando-as inseparáveis ou então invertendo os valores. Kinski adaptava. No entanto, isto de forma alguma desvaloriza a autobiografia. Pelo contrário, a partir deste aspecto nos aproximamos um pouco da inquieta e incógnita personalidade kiskiana. O diretor e amigo, Werner Herzog, com quem concluiu as melhores interpretações de sua vida, como em Aguirre, a Cólera dos Deuses, que culminou no seu sucesso indubitável, descreve o ator como um homem violento, que muitas vezes feriu fisicamente os companheiros, ao mesmo tempo em que era dominado por um medo infantil. Certa vez, para obrigá-lo ao autocontrole, Herzog forjou possuir uma arma e não hesitar em usá-la contra ele se não se comportasse e terminasse a filmagem. Nestas horas Kinski, por medo, obedecia como um menino sensato. Herzog inclusive relata a turbulenta relação entre ambos no documentário Meu Melhor Inimigo (Mein liebster Feid, 1999), e deixa claro que, em certos casos, esta turbulência era simulada para chamar a atenção do público e criar um mito - o mito Klaus Kinski. Em sua autobiografia, o ator intensifica a inimizade entre eles, esbanjando adjetivos de injúria e afronta. Julgava, caso contrário, não conseguir despertar o interesse do público. Os supostos casos de incestos com a filha ou dele com a própria mãe foram motivos de escândalo pela inverossimilhança. Por esta razão, a grande atriz Natasha Kinski, filha do ator, cortou relações com o pai. Kinski foi um ególatra que não hesitava em criar situações absurdas para ser o centro das atenções. Por outro lado, contrapondo-se ao seu asco e à alucinada reação irascível contra o medíocre, momentos de pura sensibilidade artística irrompem em sua literatura, gerando uma refinada suavidade e o paradoxo: Eu - antagônico - contra mim mesmo. Ich - Gegensatz - Gegen mich selbst
O estilo empregado em Febre contém o mesmo linguajar combatente encontrado na "literatura de grito". Por volta de 1930 e 40 o expressionismo havia alcançado o seu auge. Escritores como Franz Werfel, Ernst Stadler, Kurt Hiller, Gottfried Benn eram conhecidos. No entanto, em 1952 ecos do expressionismo ainda vibravam na criação literária, temas sobre a guerra, destruição de países, desfacelamento do ser humano eram lidos nos versos de novos poetas. Podemos dizer que Kinski seguia a tradição literária de romper com os valores burgueses, de expor sua revolta através de expressões fortes, metáforas marcantes e uma intensidade baseada na obsessão e ironia. Gritar, vociferar eram típicos de sua apresentação artística. Era esta interpretação entumecida de força e emoção que enchia grandes teatros e salas de concertos, como o Sportpalast em Berlim, onde Klaus Kinski entusiasmou o público de forma inesquecível recitando o Novo Testamento sob sua própria versão. E são famosas as recitações dos poemas de Villon, um poeta que também era dono de uma personalidade marcante e um linguajar expressivo. Febre - Diário de um Leproso está submerso em uma atmosfera densa e repetitiva, a metáfora da febre é a preferida do jovem poeta, ela aparece várias vezes em diferentes poemas, como este: Febre Assim eu imagino o Além Fieber So stell ich mir das Jenseits der Toten vor: Não devemos esquecer que trata-se aqui de poemas escritos por um jovem desesperado. Além da repetição das metáforas, existem as constantes imagens hipérboles caracterizando-lhe o estilo. Klaus Kinski, proveniente de uma família paupérrima, vivendo na Europa pós-guerra, começou trabalhando no teatro. Uma das peças que vale a pena ser mencionada é a de Jean Cocteau, A Voz Humana (La voix humaine), onde Kinski atua solo no papel de uma jovem mulher que enlouquece de solidão e fica o tempo inteiro falando no telefone. A encenação, considerada pelo público e crítica como uma provocação, é um escândalo, mas coloca em destaque o talento do jovem ator. Klaus Kinski não entende a indignação do público e da crítica. Se o teatro é a arte de interpretar, por que ele não pode interpretar uma mulher, um cão ou uma árvore? Seu rosto é o de uma criança, mas o seu olhar está repleto de maturidade, ele o transforma de um momento para o outro. Nunca encontrei um rosto igual, comenta mais tarde Jean Cocteau.
Entretanto, suas principais encenações como ator devem-se aos filmes de Werner Herzog. Aguirre, a Cólera dos Deuses, filmado em 1972 sob circunstâncias catastróficas na selva amazônica, em meio ao calor e chuvas ininterruptas, conta a estória de um conquistador alucinado, perdido no meio da selva amazônica, que leva toda a tripulação do seu navio à morte. Aguirre foi um sucesso imediato na França quando foi lançado em 1975. O filme fascina de uma forma estranha, parco em diálogos, o desenvolvimento das cenas é vagaroso e as cenas monótonas. A atmosfera densa e úmida da selva é completamente captada pela câmara e domina o filme todo. A selva amazônica torna-se um símbolo de cárcere. O próprio ator, mesmo fora das filmagens, sentiu-se prisioneiro da magnitude desta natureza. Vale a pena mencionar também os filmes Fitzcarraldo e Woyzeck. Fitzcarraldo, filmado no Peru e Brasil, embaixo de picadas de mosquitos, mostra a obsessão de um diretor de ópera em construir um teatro no meio da selva. Na Alemanha, o filme Woyzeck, baseado na dramaturgia do escritor alemão Georg Büchner, recebeu grandes elogios da crítica. Trata-se da estória de um soldado comum, uma pessoa extremamente submissa, que é humilhado por tudo e por todos e até serve como cobaia para experiências de medicina. Vive apenas para a mulher e o filho; quando esta o trai com um oficial do exército, ele a mata. Depois comete suicídio, afogando-se. Neste filme Herzog também dispensa qualquer efeito especial, é o que chamam de filme "primitivo", como também o foi Aguirre. Woyzeck contém o sofrimento, a humilhação, a loucura e a miséria de uma vida humana incorporada por Kinski da forma mais perfeita. Em seu apartamento na California, deitado na cama, Klaus Kinski morre no dia 23 de novembro de 1991, nu e só. |
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