Agulha - Revista de Cultura

revista de cultura # 17 - fortaleza, são paulo - outubro de 2001

Agulha - Revista de Cultura






 

Afonso Henriques Neto, um poeta à margem da marginalidade

Claudio Willer

Ser Infinitas Palavras (poemas escolhidos e versos inéditos),
de Afonso Henriques Neto, Azougue Editorial, 2001.

Afonso Henriques NetoLogo no início desta seleção de sete livros já publicados, mais 22 poemas inéditos, uma nota classifica a obra de estréia de Afonso Henriques Neto, em parceria com Eudoro Augusto, O Misterioso Ladrão de Tenerife, de marco do que depois se convencionou chamar movimento da "poesia marginal". A observação é correta quanto à cronologia e circunstâncias. Mas o projeto literário, o caminho ali apontado, é distinto daquele trilhado pela tendência que obteve notoriedade depois da antologia 26 Poetas Hoje de Heloisa Buarque de Holanda. Enquanto Chacal, Ana Cristina César, Cacaso e Francisco Alvim, cada um a seu modo, valorizaram a dicção coloquial, a incorporação da língua falada ao poema, através de uma escrita por vezes mimética, identificável a um paradigma realista, a família literária à qual pertence Afonso Henriques Neto é outra. Talvez sua própria, atualizando-a, neto que é de Alphonsus de Guimarães, expoente do Simbolismo, e filho do também Alphonsus, também poeta. Uma genealogia dessas, aproximando duas origens, familiar e literária, não é tão abusiva quanto poderia parecer, desde que se pense na idéia, formulada por André Breton, de uma correia de transmissão entre Simbolismo e Surrealismo, ou então no modo como Edmund Wilson, em O Castelo de Axel, argumentou que modernismos e vanguardas incorporavam a si uma crença na autonomia do poético, na linguagem em liberdade, já presente no século anterior.

Ser infinitas palavras, de Afonso Henriques NetoPor isso, não é de estranhar que a poesia de Afonso Henriques Neto seja constituída por imagens, entendidas como aproximação de realidades distintas. Isso é evidente até em suas escolhas de títulos de livros e poemas, reveladores de sua poética: Abismo com Violinos, Avenida Eros, Piano Mudo, A água não envelhece, tímpanos da neblina; ou em trechos como aquele que fala de um poema de mãos/ atravessando a neblina. Quem achar que passagens como essas também poderiam nomear quadros de Magritte ou Dali não estará equivocado. Sua visualidade permite observar que, se Francisco Alvim for o Manuel Bandeira daquela geração, como o pretendem alguns, então esta teria em Afonso Henriques Neto o seu Murilo Mendes. Mas um Murilo, por vezes até citado ou parafraseado em Ser Infinitas Palavras, sem o catolicismo, sem qualquer esperança de transcendência ou salvação pela fé.

Trilhando um caminho pessoal, um tanto à margem da própria marginalidade dos anos 70 a 80 (embora preste homenagem solidária a seus pares de geração), é menos ainda um formalista, adepto da experimentação enquanto tal (verso seco me dá sede, escreve), ou um tradicionalista. Quase ao final de Ser Infinitas Palavras, em cartas curtas, faz um balanço de sua trajetória pessoal: faço porque gosto./ se você não gosta/ porque não consta de sua bíblia/ ou de sua política literária/ que jeito/ eu respeito. Daí permanecer fora de catalogações em voga e, mesmo contando com reconhecimento e bibliografia crítica, nem de longe haver alcançado, por enquanto, o prestígio que mereceria uma poesia de tamanha qualidade, revelada através desta panorâmica de sua obra. Valorizada, diga-se de passagem, pela qualidade editorial, e por inaugurar uma coleção com outros poetas também refratários ao enquadramento em escolas e grupos.

Susana WaldDesde O Misterioso Ladrão de Tenerife, Afonso Henriques já vinha exibindo painéis apocalíptico, cuja filiação ao García Lorca de Poeta em Nova Iorque era declarada: vídeo sanguíneo & mutilações atômicas no sonho/ pele imersa em gasolina & corpos minuciosamente/ saqueados em guerra global & desarmônicos/ fantasmas de urbanos anjos estarrecidos/ em nuvens radioativas & supersensíveis. Trata-se de poesia de protesto, em tom soturno, justificando um texto, escura escama, pesadelo de eternidade,/ máscara densa do universo vomitando. Denunciava, em consonância com outras vozes de sua geração, um período de forte repressão conjugada ao panorama da Guerra Fria, ao risco ainda presente da hecatombe nuclear, além do incipiente caos urbano e devastação ambiental, levando mentes mais lúcidas ou proféticas a antever o que viria pela frente. Seu paroxismo está nos poemas em prosa, jorros de associações espontâneas, já em seu livro de estréia, ou então, depois, na série meu coração experimental, a justo título dedicada a Glauber Rocha.

Contudo, essa poesia propõe algo além da denúncia do mundo em convulsão. Identifica ao poético o natural, ainda intocado ou pouco atingido pela civilização, como no belo poema marítimo Barra de Sirinhaém, celebrando o encontro com esta praia/ absurdamente despovoada/ (a que chamamos paraíso), onde a jangada/ (sem lei e governo)/ da poesia/ entorna na praia/ a densidade da vida. Alerta-nos, porém, que isso é transitório, contemplação à beira do abismo, pois, se há paz e brilho/ na tarde de Sirinhaém/ é como a paz e o brilho/ de uma bomba-relógio/ costurada sob a pele/ às vésperas da explosão. Mesmo assim, registra a plenitude ao final do poema: ai universo/ naufrágio terrível// sereia do encoberto/ ostra do gozo// lâmpadas de água/ rede do tempo// ai universo/ ressurreição infinita.

Susana WaldE, ao longo dessa extensa seleção, nunca deixa de reafirmar, como em Viagem, de Ossos do Paraíso, o poder transformador da própria poesia: sei/ que farei do nada lema e lenda/ pura tempestade sem lei. Em um texto mais recente, da série de inéditos, vento negro, dedicado a outros dois poetas contemporâneos, vê-os como seus pares, e como anunciadores ou avatares de uma rebelião anarquista: eles virão transbordados desirmanados/ furacões de pesadelos tardos/ sol por todos os poros a nos desinventar. Lírico, reitera seu compromisso com o humano manancial/ o olhar da vida// o permanente olhar da vida. O que, no testemunho intensamente passional que Afonso Henriques nos oferece sobre a contradição entre o sujeito, o "eu" lírico, e a realidade que o cerca, for vinculado ao Romantismo, somente servirá como argumento em seu favor. Atesta a continuidade e atualidade da rebelião romântica, da qual ele é uma das nossas principais expressões contemporâneas.

Claudio Willer (São Paulo, 1940). Poeta, tradutor, ensaísta e um dos editores da Agulha. Autor de livros como Jardins da provocação (1981) e Volta (1996). Tradutor de Artaud, Ginsberg e Lautréamont. Preside a União Brasileira de Escritores (UBE). Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras da artista Susana Wald (Hungria).

retorno à capa desta edição

Edições Resto do Mundo

Clique aqui para conhecer o maior sítio de poesia da WWW! Quase 3000 poetas!

Collage, Floriano Martins

visite também a banda hispânica (jornal de poesia)