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Afonso Henriques Neto, um poeta à margem da marginalidade
Claudio Willer
Ser Infinitas Palavras (poemas escolhidos
e versos inéditos),
de Afonso Henriques Neto, Azougue Editorial, 2001.
 Logo no início desta seleção de sete livros já publicados, mais
22 poemas inéditos, uma nota classifica a obra de estréia de Afonso Henriques Neto, em
parceria com Eudoro Augusto, O Misterioso Ladrão de Tenerife, de marco do que
depois se convencionou chamar movimento da "poesia marginal". A observação
é correta quanto à cronologia e circunstâncias. Mas o projeto literário, o caminho ali
apontado, é distinto daquele trilhado pela tendência que obteve notoriedade depois da
antologia 26 Poetas Hoje de Heloisa Buarque de Holanda. Enquanto Chacal, Ana
Cristina César, Cacaso e Francisco Alvim, cada um a seu modo, valorizaram a dicção
coloquial, a incorporação da língua falada ao poema, através de uma escrita por vezes
mimética, identificável a um paradigma realista, a família literária à qual pertence
Afonso Henriques Neto é outra. Talvez sua própria, atualizando-a, neto que é de
Alphonsus de Guimarães, expoente do Simbolismo, e filho do também Alphonsus, também
poeta. Uma genealogia dessas, aproximando duas origens, familiar e literária, não é
tão abusiva quanto poderia parecer, desde que se pense na idéia, formulada por André
Breton, de uma correia de transmissão entre Simbolismo e Surrealismo, ou então no
modo como Edmund Wilson, em O Castelo de Axel, argumentou que modernismos e
vanguardas incorporavam a si uma crença na autonomia do poético, na linguagem em
liberdade, já presente no século anterior.
Por isso, não é de estranhar que a poesia de Afonso Henriques Neto seja
constituída por imagens, entendidas como aproximação de realidades distintas. Isso é
evidente até em suas escolhas de títulos de livros e poemas, reveladores de sua
poética: Abismo com Violinos, Avenida Eros, Piano Mudo, A água
não envelhece, tímpanos da neblina; ou em trechos como aquele que fala de um
poema de mãos/ atravessando a neblina. Quem achar que passagens como essas também
poderiam nomear quadros de Magritte ou Dali não estará equivocado. Sua visualidade
permite observar que, se Francisco Alvim for o Manuel Bandeira daquela geração, como o
pretendem alguns, então esta teria em Afonso Henriques Neto o seu Murilo Mendes. Mas um
Murilo, por vezes até citado ou parafraseado em Ser Infinitas Palavras, sem o
catolicismo, sem qualquer esperança de transcendência ou salvação pela fé.
Trilhando um caminho pessoal, um tanto à margem da própria marginalidade dos anos 70
a 80 (embora preste homenagem solidária a seus pares de geração), é menos ainda um
formalista, adepto da experimentação enquanto tal (verso seco me dá sede,
escreve), ou um tradicionalista. Quase ao final de Ser Infinitas Palavras, em cartas
curtas, faz um balanço de sua trajetória pessoal: faço porque gosto./ se você
não gosta/ porque não consta de sua bíblia/ ou de sua política literária/ que jeito/
eu respeito. Daí permanecer fora de catalogações em voga e, mesmo contando com
reconhecimento e bibliografia crítica, nem de longe haver alcançado, por enquanto, o
prestígio que mereceria uma poesia de tamanha qualidade, revelada através desta
panorâmica de sua obra. Valorizada, diga-se de passagem, pela qualidade editorial, e por
inaugurar uma coleção com outros poetas também refratários ao enquadramento em escolas
e grupos.
Desde O Misterioso Ladrão de Tenerife, Afonso Henriques
já vinha exibindo painéis apocalíptico, cuja filiação ao García Lorca de Poeta em
Nova Iorque era declarada: vídeo sanguíneo & mutilações atômicas no sonho/
pele imersa em gasolina & corpos minuciosamente/ saqueados em guerra global &
desarmônicos/ fantasmas de urbanos anjos estarrecidos/ em nuvens radioativas &
supersensíveis. Trata-se de poesia de protesto, em tom soturno, justificando um
texto, escura escama, pesadelo de eternidade,/ máscara densa do universo vomitando.
Denunciava, em consonância com outras vozes de sua geração, um período de forte
repressão conjugada ao panorama da Guerra Fria, ao risco ainda presente da hecatombe
nuclear, além do incipiente caos urbano e devastação ambiental, levando mentes mais
lúcidas ou proféticas a antever o que viria pela frente. Seu paroxismo está nos poemas
em prosa, jorros de associações espontâneas, já em seu livro de estréia, ou então,
depois, na série meu coração experimental, a justo título dedicada a Glauber
Rocha.
Contudo, essa poesia propõe algo além da denúncia do mundo em convulsão. Identifica
ao poético o natural, ainda intocado ou pouco atingido pela civilização, como no belo
poema marítimo Barra de Sirinhaém, celebrando o encontro com esta praia/
absurdamente despovoada/ (a que chamamos paraíso), onde a jangada/ (sem lei e
governo)/ da poesia/ entorna na praia/ a densidade da vida. Alerta-nos, porém, que
isso é transitório, contemplação à beira do abismo, pois, se há paz e brilho/ na
tarde de Sirinhaém/ é como a paz e o brilho/ de uma bomba-relógio/ costurada sob a
pele/ às vésperas da explosão. Mesmo assim, registra a plenitude ao final do poema:
ai universo/ naufrágio terrível// sereia do encoberto/ ostra do gozo// lâmpadas de
água/ rede do tempo// ai universo/ ressurreição infinita.
E, ao longo dessa extensa seleção, nunca deixa de reafirmar,
como em Viagem, de Ossos do Paraíso, o poder transformador da própria
poesia: sei/ que farei do nada lema e lenda/ pura tempestade sem lei. Em um texto
mais recente, da série de inéditos, vento negro, dedicado a outros dois poetas
contemporâneos, vê-os como seus pares, e como anunciadores ou avatares de uma rebelião
anarquista: eles virão transbordados desirmanados/ furacões de pesadelos tardos/ sol
por todos os poros a nos desinventar. Lírico, reitera seu compromisso com o humano
manancial/ o olhar da vida// o permanente olhar da vida. O que, no testemunho
intensamente passional que Afonso Henriques nos oferece sobre a contradição entre o
sujeito, o "eu" lírico, e a realidade que o cerca, for vinculado ao Romantismo,
somente servirá como argumento em seu favor. Atesta a continuidade e atualidade da
rebelião romântica, da qual ele é uma das nossas principais expressões
contemporâneas.
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