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Revista de Cultura # 16 - fortaleza, são paulo - setembro de 2001 |
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Hermeto Paschoal: o choro que ninguém mais toca Floriano Martins
Se ligo esta observação àquela indefinição mencionada por Veloso, o motivo é apenas algo que me é intrigante: como um riquíssimo exemplo da tradição musical brasileira, que é o choro, a partir de um determinado momento foi relegado a uma instância menor, embora tenha seguido como referência básica de nossos grandes músicos e seja gênero bastante considerado por público e crítica no exterior? Caberia indagar até que ponto, no fervor dessa indefinição de que nos fala Veloso, a música branca e bem nascida, no dizer de Moura, teria sentido desprezo pelo choro, associando-o a uma classe menos favorecida. É um aspecto curioso, pois o choro ao mesmo tempo nos aproxima da condição de "aliado natural dos Estados Unidos" se pensarmos no jazz e do "esboço de uma nova civilização", por uma ambientação genuinamente brasileira. Novamente me intriga o fato de que o choro foi gênero cultuado por compositores brasileiros tanto eruditos quanto populares. Francisco Mignone, por exemplo, chegou a compor um segundo piano para várias peças de Ernesto Nazareth. O gênero tornou-se refinado nas mãos de compositores como Pixinguinha, Garoto, K-Ximbinho e Radamés Gnattali. Posteriormente nomes como Paulinho da Viola e Paulo Moura lhe deram uma conseqüência estimável. E esteve presente mesmo nos primórdios, seja em Patápio Silva ou Villa-Lobos. E acrescentaríamos aí uma grande lista, pensando em músicos como Waldir Azevedo, Abel Ferreira, Joel Nascimento. Mas interessa mencionar a relação entre o que se habituou a chamar popular e erudito, ou seja, o choro teria sido a referência central nessa quebra de barreiras. Se um compositor erudito como Francisco Mignone chegaria a compor pequenas peças para piano (choros e valsas), um compositor popular como Garoto escreveria partituras para violão e orquestra, o mesmo acontecendo com Radamés Gnattali. Essa erradicação de uma barreira entre popular e erudito encontraria uma crescente definição através da obra de compositores como Paulo Moura, Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal. Paulo Moura certa vez comentou que Gismonti "não escreve um choro completo", mas que capta-lhe o clima e esse clima está presente em algumas de suas composições. É uma leitura atraente e que bem define o diálogo entre jazz e música brasileira na obra de Gismonti sempre lembrando que aí estão presentes em maior grau de identificação compositores como Stravinsky, Villa-Lobos e Mignone. No caso de Hermeto, ao choro devemos somar o forró, sem esquecer uma certa ambientação jazzística, embora considerando que o choro, tanto quanto o jazz, permite a divisão de solos entre músicos em cada peça. Moura salienta que "o choro não é somente um gênero musical, uma forma de canção simplesmente, é também uma forma de tocar". Eis o ponto: a presença do músico interferindo na partitura original, o improviso jazzístico como uma afirmação de vida. A arte em sua plena condição de visceralidade. Tal argumento, no que teria de relação direta com uma ruptura de padrões, acaso teria sido decisivo no tocante a uma menor consideração pelo choro como grande gênero musical brasileiro?
Hermeto sempre se mostrou como partidário de uma música feita por todos, o que de alguma maneira nos recorda a célebre frase de Lautréamont apreendida pelos surrealistas, de uma poesia feita por todos. Bruce Gilman disse certa vez que "a busca de Hermeto por novos sons, criando novos instrumentos a partir de objetos inusitados, se assemelha à do compositor americano experimental e inventor de instrumentos Harry Patch". Gilman recorda ainda que a "mistura de estilos" e "o uso de compassos nada convencionais" aproxima Hermeto de Pierre Boulez. A idéia de identificação ou aproximação é sempre muito tentadora. Hermeto teve uma marcante relação de amizade com Miles Davis. Nos dois casos, temos exemplos de artistas que se permitiram soltura para criar escola, ou seja, propiciaram o que Gilmam chama de "um campo de treinamento em que se colheram extraordinários talentos". Talvez Hermeto seja o ponto mais conflitante dessa "eterna indefinição" de que trata Veloso em seu livro. Se damos razão ao autor de Vereda Tropical, em seguida nos perguntamos: por que não reconhecemos a genialidade de Hermeto Paschoal? Claro que não estou falando em termos de mercado, no sentido medíocre em que nos tornamos reféns desse mercado, mas antes em uma ambientação crítica da parte de uma suposta classe intelectual que percebe o alheio com tamanha facilidade e raramente se dá conta do que lhe é próprio. Eu havia planejado escrever aqui sobre o Hermeto Paschoal, e achei interessante encontrar mais referências críticas a seu trabalho nos Estados Unidos. Exceto notas jornalísticas, não há no Brasil uma reflexão contundente acerca da obra desse grande compositor. Seu nome geralmente é vinculado ao de um doido que sopra chaleiras e bate canos no chão. De volta a uma inclinação perpétua da cultura brasileira pela negação de seu potencial intuitivo, mágico. Quando se trata geralmente Hermeto por bruxo, é uma referência desrespeitosa, que implica em um distanciamento. Assim o temos, à distância.
Creio que Hermeto Paschoal é o nome mais referencial quando se trata daquela
Música Livre de Hermeto Paschoal (1973) Porco na Festa / Rainha do Mar - 7'' single (1975) Slaves Mass relançado como Mestres Da MPB (1977) Zabumbê-Bum-Á (1978) Ao Vivo em Montreux (1979) Cérebro Magnético (1980) Hermeto Pascoal & Grupo (1982) Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca (1984) Brasil Universo (1985) ![]() Só Não Toca Quem Não Quer (1987) Por Diferentes Caminhos: Piano Acústico (1988) Mundo Verde Esperança (1989) Festa dos Deuses (1992) Hermeto Pascoal/Pau Brasil - Série Música Viva (1993) Renato Borghetti e Hermeto Pascoal - CCBB (1993) Música! - O Melhor da Música de Hermeto Pascoal (1998) Eu e Eles (1999) |
| Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta, ensaísta, tradutor e um dos editores da Agulha. Autor de livros como Escritura Conquistada (entrevistas, 1998), Alberto Nepomuceno (biografia, 1999) e Natureza Morta (poesia, 2001). Tradutor de García Lorca, Cabrera Infante e Alfonso Peña. Contato: floriano@secrel.com.br. A foto de Hermeto Paschoal é do italiano Elio Guildi. Página ilustrada com obras do artista Eduardo Brenes (Costa Rica). |
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