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Revista de Cultura # 16 - fortaleza, são paulo - setembro de 2001

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Michele Finger: collages, 1993-1995

Juliana Angeli e Fernando Freitas Fuão

I

A memória é uma sala de quatro portas euma janela.
Muitas coisas guardam muitas coisas.
O tempo zero é o templo das lembranças.
Fernando Freitas Fuão

Michele FingerO relógio como objeto espacial representa uma maneira de guardar a memória. Suas engrenagens e formas circulares levam a um eterno jogo cíclico: o ir e vir das lembranças. Normalmente, relógios servem para marcar o tempo. Um relógio parado tem sua função primordial anulada. Mas mesmo assim, ele remete ao fato de sua própria existência. A poética do espaço, Gastón Bachelard mostra que é através do espaço e não pela linha do tempo que concretizamos as nossas lembranças: "As lembranças são imóveis e tanto mais sólidas quanto mais bem espacializadas." (1) Para o filósofo, o tempo não anima a memória, são os lugares físicos que retém o tempo comprimido. Parado, o relógio passa a configurar o espaço e não o tempo. Desta forma, espacialmente, ele ativa a memória remetendo a sua função original e as lembranças que surgem de tais divagações.

A fotografia, tal como o relógio parado, é uma suspensão do tempo. A fotografia, como superfície de absorção, guarda um momento registrado em imagens. Ela é um objeto, um espaço, e representa através da ilusão bidimensional um outro espaço, onde se depositam as imagens de nossas vivências. A fotografia é um espaço que representa outro, é como um corpo ou parte deste corpo que a originou. No retrato, por exemplo, o corpo é o próprio espaço de representação de nossas experiências. O retrato absorve representações desses espaços de representações. Numa seqüência de retratos de um mesmo indivíduo pode-se observar a presença do tempo, pois é o corpo que melhor representa sua passagem.

Não sabemos porque às vezes preferimos uma fotografia à outra. Roland Barthes em A Câmara Clara explica que em algumas imagens encontramos a representação perfeita do ser amado não só fisicamente como também na sua essência. Mesmo quando a fotografia não possui nenhum ente querido, pode chamar a atenção. "Podemos desejar o objeto, a paisagem, o corpo que ela representa; amar ou ter amado o ser que ela nos dá a reconhecer; espantarmo-nos com o que vemos; admirar ou discutir o trabalho do fotógrafo." (2)

A imagem fotográfica mantém viva a lembrança do que foi especial, ou afeta por trazer o novo, o surpreendente.

As cartas trazem notícias, geralmente boas novas de alguém que pode estar muito distante fisicamente. Todos nós, em algum momento de nossas vidas, mantivemos correspondência com um amigo, um parente ou um amor. Muitas vezes pegamos todas as cartas anteriormente recebidas e lemos tentando compreender a ordem dos fatos, relembrar o período de tempo de alguns acontecimentos, enfim, conectando a nossa vida e a de quem nos escreveu. Analisamos sua letra, comparamos as variações entre uma carta e outra, guardamos então, a memória do outro, registrada em palavras. A carta é uma das memórias da escrita. Podemos guardá-las conosco para sempre. Ela traz em seu espaço, seu envelope, sua folha, na palavra escrita: o registro da memória. Existe fisicamente, e seus limites trazem, guardam, retém e fazem a história.

Frascos guardam líquidos, vapores, perfumes. Guardam elementos que queremos reter. Impedem que o elemento guardado evapore ou fuja.

O perfume é a substância que igualmente anima nossas lembranças. O "(…) ar carregado de perfumes expõe a situação do pensamento saturado de sentimentos e de nostalgias." (3)

Olhando o frasco, mesmo quando somente entrevemos seu conteúdo, imaginamos o tipo de essência ali contida, a vaporização ali existente. A superfície transparente do vidro seduz. Este é um material venerado por surrealistas e místicos, pois o "(…) ‘estado de transparência’ define-se como uma das mais efetivas e belas conjunções de contrários: a matéria ‘existe’, mas é como se não existisse, pois pode-se ver através dela." (4) Analogamente a retenção, o simples fato do frasco conter, aprisionar, pode relacionar-se aqui com o estado de loucura. E o que seria a loucura senão estravazar emoções contidas, sentimentos, pensamentos e atitudes que estão a margem de toda ordem ou sistema? (5) O frasco contém algo que a qualquer momento pode estravazar. Seu conteúdo, por fenômenos físicos e químicos, pode expandir e ultrapassar seus limites, invadindo outros espaços.

A caixa, assim como o relógio, o frasco, a fotografia e a carta; guarda. Ela é a mestre dos guardados; retém em seu interior todos os demais elementos. Quando a tampa é de vidro, ela atrai. Surge assim, uma espécie de vitrine que queremos abrir para tocar seus elementos. Torna-se também um cofre, um esconderijo onde o homem guarda seus segredos. "No cofre estão as coisas inesquecíveis, inesquecíveis para nós, mas inesquecíveis para aqueles a quem daremos nossos tesouros. O passado, o presente, um futuro estão aí condensados. E assim, o cofre é a memória do imemorial." (6) Mas de maneira oposta ao cofre, a vitrine permite visualizar seu interior.

II

A memória (…) não é uma faculdade de classificar as lembranças numa gaveta ou
inscrevê-las num registro. Não há registro, não há gavetas.
Bergson em A Evolução Criadora,1907. (7)

A obra artística de Michele Finger trata disso. A retenção da memória, o guardar e o aguardar do tempo. Caixas para aprisionar o tempo, capturar, reter, condensar. Michele nos mostra oprocesso de guardar lembranças. Reunindo todos esses elementos na caixa, espacializando a memória, ela cria vitrines de pequenas dimensões, vitrines de lembranças. Faz de cada trabalho um pequeno relicário que contém cenas as quais Michele não vivenciou, mas que por algum motivo estão ali. A artista resgata todos esses objetos que provavelmente iriam para o lixo, colocando-os num lugar aconchegante, atando-os com outras imagens ou com outros objetos, gerando assim recordações desencontradas de vidas distintas. As vitrines de Michele são como a memória: se pode ver, mas não se pode tocar. É como se ela nos mostrasse as gavetas que contém segredos os quais jamais saberíamos. A união de fotografias, objetos do passado, do cotidiano e outros materiais, traz consigo uma forte linguagem das collages Pop dos anos 60, evidenciando ainda uma estética dadaísta, mas com um conteúdo surrealista. (8)

Não pretendemos aqui desvendar por completo a obra da artista, mas sim estabelecer ligações através de análises profundas. Análises estas que interligam não só os elementos que compõem um trabalho, como também as obras entre si.

Michele Finger (Sem título, 1993 - Fig. 1)Durante o ano de 1991, a artista cursa desenho na Escola de Arte Criarte, onde se utiliza de recortes de papel para compor seus desenhos. Em 92, aguarda o vestibular e cursa Desenho Artístico no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Aqui, Michele escolhe um tema, que para ela relacionava-se com a espera do ano que transcorria: ‘Relógios’ (9). Exatamente neste momento ela inicia uma série de trabalhos com a temática tempo, e faz grandes collages de 1.50 X 0.80 m, onde ela retrata o tempo passado, o tempo parado. Este é um elemento que sempre aparecerá, seja no pó, nos relógios, no envelhecimento ou nas fotografias. Seu primeiro trabalho (S/ título, 1993 – Fig. 1) neste sentido, como ela própria conta, foi uma sucessão de felizes coincidências. Recortando imagens para montá-las sobre um pôster, acidentalmente uma delas cai na parte de trás deste. Depois, a reprodução de uma moldura dourada que ela havia recortado, encaixa-se perfeitamente no espaço livre das bordas do pôster. A obra que já possuía uma moldura de madeira, ganha outra moldura: configurando um quadro que contém outro quadro. Michele, inconscientemente, percebe que como em um relógio, os elementos da collage se interrelacionam como engrenagens. Unindo isso: fundo, figuras e objetos colados, Michele gera sua própria engrenagem, que é a collage. A escultura que aparece em primeiro plano desapercebe-se do que se passa à sua frente, tem toda sua atenção voltada para o fundo. Ela observa cada pecinha, cada fragmento que compõe a imagem de pano de fundo: a sala, o lagarto, a caveira e os vidros que existem sobre a lareira, assim como os demais elementos. Vemos ao seu lado inúmeros fragmentos, peças de relógio, que pelo posicionamento e pelo artifício utilizado pela artista, de ordená-los pelo tamanho, faz com pareçam estar entrando no quadro. Eles atravessam a moldura dourada e direcionam-se para o fundo. Juntos: caveira, lagarto e escultura compõem relações de vida e morte. Escultura e lagarto buscam semelhança com o orgânico e são feitos de materiais. lagarto no simbolismo científico, significa ‘fogo’, o mesmo é aplicado na Alquimia (10). No teto surge um lustre, que também nos remete ao fogo, pois ele cria a ilusão de castiçal. Desta forma, a figura dele está estrategicamente colocada sobre a lareira. Os vidros não são bem nítidos na imagem, mas percebemos que somente um deles está tampado.

A caveira tem igualmente seu simbolismo ligado à Alquimia, onde ela representa, assim como a concha, "(…) o que resta de um ser vivo uma vez destruído o seu corpo." (11) Também considerada como o último espaço de representação do ser vivo. Assim como a fotografia ou o relógio, a caveira constitui um fragmento, um fragmento do corpo.

Neste laboratório de Alquimia, tudo tem seu lugar, e cada item combinado com outro gera uma fórmula.

Em sua primeira collage, a artista já antecipa todos os seus temas. Aqui, aparecem elementos que se repetirão e alguns temas como: alquimia, misticismo, tempo, espaço e o uso dos 4 elementos: água, fogo, terra e ar.

Caixas são como salas e salas são como caixas. Parece que a memória é uma ante sala fechada para uma "outra sala", cuja chave ou passagem secreta está escondida em meio aos elementos ali depositados pelo tempo. De certa forma, a sala representada nesta primeira collage já contém os elementos que aparecerão nos trabalhos subseqüentes, como o relógio e suas engrenagens, a fotografia, o frasco, a caixa, o vidro, entre outros.

A visão de profundidade, do ‘encarceramento’ da figura no suporte, transformou a sala numa caixa e fez com que Michele fosse em busca de caixas para seguir esta proposta, sempre fazendo relação com os relógios e a idéia de tempo. Ela comenta que em seus primeiros trabalhos não tinha uma preocupação com as relações entre imagens bidimensionais e os objetos, mas com o passar do tempo, tais relações foram surgindo e tomando conta da produção. (12)

III

"O armário e suas prateleiras, a escrivaninha e suas gavetas, o cofre e seu fundo falso são verdadeiros órgãos da vida psicológica secreta. Sem esses ‘objetos’ e alguns outros igualmente valorizados, nossa vida íntima não teria modelo de intimidade."
Bachelard (13)

Michele Finger (Sem título, 1993 - Fig. 2)Em outro laboratório de alquimia (Fig. 2), trabalho de 1993, Michele evidencia ainda mais o jogo de representação ilusionística entre o bidimensional e o tridimensional. A fotografia utilizada contém inúmeros recipientes de vidro, que nos confundem ao percebermos serem eles uma imagem bidimensional, enquanto os maiores são reais. Este mesmo artifício foi inicialmente utilizado nos pappiers-collés de Picasso, Braque e Gris, nos anos 1910-14, onde o objeto pintado era substituído por representações impressas deste mesmo objeto (14).

Essa collage possui prateleiras que dividem verticalmente a composição. As duas áreas que surgem através desta divisão contém elementos díspares. Na área superior temos os elementos tridimensionais (relógio, corda, frascos); na área inferior temos a representação bidimensional dos frascos, com exceção de um vidro aberto que se encontra caído no canto inferior direito.

O relógio e o vidro aberto nos mostram a passagem e o caráter fugaz e volátil do tempo. É próprio retrato do que já passou, do que escoou, evaporou. Esses mesmos elementos representam o tempo necessário para que a mistura dos ingredientes crie a fórmula mágica congelante dos acontecimentos.

Um frasco aberto é como um relógio parado.

A presença dos vidros lacrados por rolhas será uma característica em alguns outros trabalhos subseqüentes. Assim como as rolhas fecham os vidros, os vidros fecham também as caixas de Michele. Vidros e caixas, no final, são iguais, guardam coisas.

Parece que, ao quebrar o vidro, poderemos sentir ainda o cheiro das essências, ou o cheiro do mofo, das coisas envelhecidas ali depositadas nos pequenos frascos e nas pequenas vitrines. Quando notamos que a tampa não pode ser retirada, que a caixa está fechada, ela parece apelar ainda mais para nossa curiosidade.

Essas vitrines parecem reter o tempo, mas curiosamente a imagem e a sensação que este trabalho nos passa é justamente o oposto: mesmo encarcerando os elementos, o tempo dentro da caixa parece que continua transcorrendo, e seus elementos interagem, dando a ilusão de estarem vivos.

As relações em todos os trabalhos de Michele são feitas de forma cíclica, assim, nada mais preciso que esta forma de análise também nos leve de volta ao tema inicial: o relógio, que de maneira circular está ligado às idéias de movimento perpétuo. Enfatizando tal idéia, temos aqui a presença de uma corda que envolve o relógio. A corda "(…) símbolo geral de ligação e conexão, como a cadeia (…)" (15), faz com que o olho percorra sua extensão de maneira igualmente cíclica, acompanhando o sentido do relógio. Assim, ela trata de atar toda a trama de símbolos criada pela artista, e fazer a "re-cordação". É assim que Michele dá corda a seus relógios parados.

Michele Finger (Sem título, 1994 - Fig. 3)S/Título, de 1994 (Fig. 3) traz a imagem da carta, e o contraponto entre a figura masculina, o relógio e as engrenagens. Ele parece estar pronto para um compromisso, ou esperando por alguém. A figura masculina está sobreposta a uma carta. Nela temos a referência ao fogo, pois parece ter sido queimado. Podemos até supor que o horário do encontro seria o que está marcado no relógio. O fundo trabalhado com betume e massa corrida, acompanha a forma circular do relógio, entrando também em sua área interna. Ao observarmos melhor, notamos a ausência da 11ª hora do relógio. "No sistema simbolista os números não são meramente quantitativos, são idéias-força, com uma caracterização específica para cada um deles." (16) Considerado pela tradição simbolista como o número do conflito e do martírio, o 11, segundo Schneider, "(…) tem caráter infernal, por expor desmedida (excesso sobre o número da perfeição, dez) (…)", também visto como inversão e antítese, por ser um e um (17). Sua ausência no relógio pode supostamente se referir ao conflito, ao martírio sofrido de um acontecimento não concretizado.

No canto inferior direito, as engrenagens juntamente com o relógio e o fundo, nos mostram formas circulares. São fragmentos do relógio, fragmentos de um tempo passado, um tempo que talvez tenha se diluído na memória.

O outro mecanismo, que parece ser o que dá corda ao relógio, nos leva a um jogo de palavras com duplo significado: a corda que envolve o relógio na fig. 2 e o relógio que funciona ao darmos corda.

Neste trabalho surge mais uma referência à moldura. Ela não será mais impressa, como na fig.1, agora surge como uma moldura de madeira colocada nas bordas internas da caixa. É como se Michele, utilizando os elementos que surgiram em seu primeiro trabalho, o desmembrasse, e construísse outros desenvolvendo as características próprias de cada um.

Michele Finger (Sem título, 1994 - Fig. 4)Mas a figura 3 possui semelhanças com outro trabalho que desenvolve outra idéia. Em S/título, de 1994 (Fig. 4) caixa de recordações e fatos históricos estão aliados. Nele temos a figura de um soldado justaposta a uma foto histórica de maneira semelhante as imagens estereoscópicas. O Estereoscópico é um aparelho binocular, conhecido na época de sua invenção como a "maravilha das maravilhas", que ografias idênticas a ilusão ótica de relevo nessas imagens bidimensionais. A imagem formada parece não ter volume algum. Lembram folhas de papel recortadas e dispostas na paisagem. Essa visão tridimensional é igualmente explorada pela artista nestas duas obras. As figuras humanas destacam-se do resto da composição.

Os botões de televisão, colocados na parte inferior, por estarem invertidos, acabam transfigurando-se em canhões. A caixa de recordações parece ser uma espécie de troféu que o soldado exibe orgulhoso como se dissesse: "Eu estive lá!". Idéia enfatizada pelo seu sorriso na fotografia.

Michele Finger (Sem título, 1993 - Fig. 5)Em outra collage, S/título, também de 1993 (Fig. 5), temos uma forte referência a vida e morte - talvez a mais forte entre todas as obras aqui citadas. Juntamente aos vidros e as imagens de vidros, vemos a imagem impressa da máscara mortuária de Maria Stuart (18). A textura que envolve o rosto de Maria é feita com betume e massa corrida, o mesmo procedimento utilizado na figura 3, parecendo que olhamos não a reprodução da máscara mortuária, mas o próprio cadáver dentro da terra.

Na máscara mortuária as feições são simplificadas quando o rosto é transformado nessa espécie de escultura. Tudo "(…) que é temporal e subjetivo é extinto." (19) Na obra, sua testa traz ponteiros de relógio que, de maneira oposta a figura 2, mostram que para ela o tempo parou exatamente naquele momento. Sugerindo o antigo costume de parar o relógio na hora da morte de um ente querido, já que o próprio tempo é algo que não pode ser guardado. A única forma de guardar a representação da hora é parando o relógio, tornando seus ponteiros imóveis. Os vidros poderíam estar abertos, mas estão todos fechados, indicando que não serão mais utilizados. Sua boca está lacrada pelo pano que prende sua mandíbula (devido à rigidez que se instala no corpo sem vida após algumas horas, conhecida tecnicamente por rigor mortis). Michele mediante este artifício reintera o tema fundamental desta caixa, que é a questão do ar, do vapor, do perfume. Assim, como as rolhas que fecham os frascos, a boca de Maria Stuart está fechada.

O ponteiro que marca os minutos aponta para baixo onde estão os vidros. Automaticamente traçamos uma linha imaginária que une ponteiro, boca e frascos. Todos estes elementos têm em comum a imobilidade, a retenção: os frascos lacrados para não mais serem usados; o pano, funcionando como corda, atando a mandíbula imobilizando-a; e o relógio que não funciona, com seus ponteiros parados.

O lacre aqui, também surge como tema de importância vital, pois é ele que não deixa escapar o vapor, o perfume, o hálito. Nos frascos Michele coloca os mais variados elementos, que enclausurados, continuam reagindo, modificando-o com o tempo. Em seu interior utiliza sementes de urucum, grãos de arroz e feijão e/ou algodões, que deterioram-se criando um novo efeito. Ela não só trata do tempo em suas collages, como o introduz dentro da obra, dentro da caixa, metaforizado em seus diversos aspectos.

Parece que todas as collages de Michele falam da mesma coisa, mas a experiência da descoberta, da análise, da escavação do tempo nos proporciona sempre uma nova expectativa. Talvez a grande dificuldade de ver ou ler os aspectos conceituais no trabalho de Michele, seja exatamente por termos uma tendência de ler primeiro a acumulação de objetos dentro de caixas, uma tendência adquirida pelas obras dadaístas. Deixando para uma segunda leitura o caráter mais importante conceitual-simbólico surreal das mensagens contidas dentro destas mesmas caixas. Tudo se transfigura no trabalho de Michele.

Um dos artistas mais expressivos do movimento Dadá e Surrealista talvez tenha sido o norte americano Joseph Cornell. A utilização de frascos e caixas e a distribuição de elementos bi e trimensionais em seu interior, foi característica presente nos trabalhos de Cornell. Pharmacy (1943), traz a utilização dos frascos. Mas aqui, temos somente os frascos tridimensionais, num simples processo de acumulação, diferentemente das caixas-collages de Michele Finger (figuras 2 e 5).

A presença dos frascos nas figuras 1, 2 e 5 nos mostra as diferentes abordagens e significações de um mesmo tema, utilizando um mesmo elemento de forma diversa.

São muitas as abordagens que podemos fazer do trabalho desta artista. As possibilidades de interpretação não cansam de faiscar. Podemos ver que as pequenas caixas também funcionam como vitrines de lembranças, de vivências, de histórias desencontradas de um tempo passado. Por inúmeras vezes, nos sugerem objetos/caixas que parecem montados pela própria pessoa a qual pertenceram os objetos ali depositados, ou por alguém que quis guardar a imagem, ou a história de um ente querido. Os objetos e imagens utilizados por Michele geram ambigüidade entre o que foi selecionado pela artista e o que foi selecionado pela pessoa que fez hipoteticamente a caixa de recordações. Essas caixas são como as câmaras mortuárias em que os faraós eram enterrados. Mas aqui, temos valores sentimentais, e não materiais.

É interessante notar como em cada trabalho se pode imaginar pequenas histórias que jamais aconteceram, montando narrativas que interligam as imagens e os objetos.

Por vezes, as caixas lembram histórias em quadrinhos tridimensionais com seus elementos dispostos em prateleiras e divisórias. Lembram o jogo infantil de brincar de casinha, onde em cada divisão, em cada peça, coloca-se personagens para montar a narrativa do jogo.

Revivemos esse passado criado pela artista de uma maneira nova. E ao mesmo tempo evacamos nossas lembranças. A participação do espectador é fundamental conforme Bachelard: "Não receberemos a recompensa (…) se não participarmos com nossos sonhos (…)" (20). Ou nas palavras da própria artista: "O público tem a suas histórias, as suas memórias e talvez por isso, algumas vezes há uma identificação direta ou indireta entre espectador e obra." (21)

IV

"A memória é um armário."
Bachelard (22)

Na verdade, depois de nos determos um pouco sobre as caixas, observa-se que o que menos importa é a acumulação, o ar saudosista é de uma falsa rememoração, mas sim o que importa, e o que todos esses elementos gritam sufocadamente é a retenção do tempo. A maravilhosa possibilidade única de retenção que possuímos graças a nossas lembranças e vivências.

Temos nas caixas de Michele um espaço interior que é um espaço de intimidade dos personagens lá representados. Ao mesmo tempo temos um censo de ordem que confere a cada item seu lugar, não estão dispostos nas caixas, qualquer coisa de qualquer maneira. Todo elemento tem uma razão para estar ali. (23)

Desenvolvendo a poética da carta, em S/Título, de 1994, temos a presença de uma espécie de tela sobreposta a imagem de um homem lendo uma carta; um papel contendo trechos de uma carta; engrenagens e uma pena. O tramado sobrepõe a figura masculina quase cobrindo-a. A tela oculta a fotografia, assim como a carta está escondida sob a borda superior da caixa. O tramado da tela leva à expressão ‘trama da vida’ (24). O entrecruzar dos fios lembram o entrecruzar das vidas através deste tipo de comunicação que é a carta. Ela cruza fronteiras para chegar ao seu destino. Guarda memórias, contém fragmentos de vida. As engrenagens lembram um telégrafo, sua forma circular nos dá novamente o jogo cíclico das memórias, das lembranças, do tempo. Logo, queremos descobrir em qual das cartas ali representadas a pena tomou participação.

Escrever e guardar cartas também são formas de guardar a memória, ou também uma maneira de se entender as relações entre os acontecimentos.

Sobre a fotografia encontramos pequeninas letras retiradas de uma máquina de escrever, formando o nome ‘André’. Aqui, todos os elementos nos levam a maneiras de registrarmos a memória: fotografia (o registro em imagens), as letras (a possibilidade de construir qualquer palavras através da diferente disposição delas), a pena (registro através da escrita), a carta (o próprio registro).

Em S/título, de 1995, os elementos são símbolos de lembranças, como se estivessem ali guardados propositalmente e sob cuidadosa seleção para relembrar um passeio, um período de férias ou amizades, um álbum de recordações. Conchas, cartão postal, fotos, relógio, todos os componentes criam uma atmosfera nostálgica.

O objeto central contém água, reforçando a idéia que a caixa foi montada por alguém quis reter o tempo e manter vivo na memória um acontecimento de sua vida. A água está contida no objeto assim como os objetos estão contidos na caixa. Todos os elementos ali guardados, contém outro elemento. Em contraponto à água temos a presença do fogo através da utilização do pirógrafo nas bordas da fotografia. É ele que delimita as áreas de separação entre fundo e imagem: postal e fotografia. A imagem maior traz a figura de uma mulher em trajes de banho; a menor traz três figuras femininas, mas não podemos identificar se a primeira está presente em ambas fotos.

Igualmente, evocamos a analogia entre concha e caveira, feita na Fig 1, como resíduo e prova da existência de um ser vivo. A concha é a caixa do molusco. Conchas são como as caixas: invólucros que na maioria das vezes se abandona. Aqui entretanto, as conchas também assumem outro simbolismo: representam uma viagem próspera.

Da linguagem plástica da artista, temos principalmente a justaposição e sobreposição de materiais. As imagens em todos os trabalhos de Michele Finger parecem sempre ter estado ali, e seu diálogo com os objetos fazem com que as fotografias percam seu carácter bidimensional para revelarem-se todas como um objeto tridimensional também, como receptáculos da memória, e essa talvez seja uma característica inerente não só a fotografia, mas aos fragmentos da collage de um modo geral. A collage por trabalhar com elementos já feitos, já fabricados, volta e meia, vem à tona mediante a utilização desses fragmentos o tema da memória e do guardar. Algo tão próprio e apegado ao discurso da collage, quanto à utilização da cola, ou da tesoura.

A obra artística de Michele Argenta Finger gira em torno de alguns elementos básicos que são as caixas, os relógios e suas engrenagens, os frascos, as fotografias, os objetos, as cordas. Tais elementos aparecem de diversas maneiras nos trabalhos, entretanto uma análise profunda deles revela sempre as mesmas características: a artista trata do tempo, do guardar o tempo, guardar a memória, do fogo, da água, da terra, do ar, do perfume, da história, sempre utilizando-os de forma cíclica.

NOTAS
1. BACHELARD, Gastón. A poética do espaço. São Paulo: Abril Cultural, 1978 (Os Pensadores). p. 203.
2. BARTHES, Roland. A Câmara Clara – nota sobre fotografia. Edições 70. São Paulo: Martins Fontes, 1980. p.36.
3. CIRLOT, Juan-Eduardo. Dicionário dos Símbolos. São Paulo: Editora Moraes, 1984. p 458.
4. CIRLOT, Juan-Eduardo. Ob. Cit.. p.602.
5. CIRLOT, Juan-Eduardo. Ob. Cit.. p.350.
6. BACHELARD, Gastón. Ob. Cit. p.252.
7. BACHELARD, Gastón. Ob. Cit p.253.
8. Sobre sua relação com dadaísmo, em 93 Michele participa no Atelier Livre durante o VII Festival de Artes Cidade de Porto Alegre do curso A Assemblage e seus Significados, ministrado por Noval Baitello Júnior (SP), onde começa seu interesse pelo assunto, e surgem das caixinhas de madeira, que marcam sua produção. Como ela nos relata: "Noval (…) nos fez abrir os olhos e realmente sentir o que os dadaístas sentiam ao fazer suas collages e o quanto era intenso o movimento Dadá. Nos surgiram, então, pensamentos e reflexões muito profundas e poéticas (…)." FINGER, Michele. Como iniciou meu interesse pelo Dadaísmo e pela collage. Texto escrito por Michel Finger em 1993.
9. Na trajetória dessa jovem artista é importante ressaltarmos alguns aspectos de sua criação e vivências de infância, nela já aparecem alguns caminhos que a levarão para a collage. Em sua cidade natal, seu pai era proprietário de uma fábrica de móveis, ficando ela sempre rodeada de madeiras e caixas. Aos 15 anos vai para Porto Alegre, onde sua família abre uma vidraçaria. O contato com esses ambientes e materiais acabarão por influenciar seu futuro trabalho artístico, herdando de seu pai o preciosismo de acabamento, a perfeição e o capricho dado aos mínimos detalhes de suas obras.
No início dos anos 90 entrou em contato com a obra de Salvador Dali, especialmente fascinada pelo trabalho A persistencia de la memoria (1931), onde aparece repetidamente a imagem de relógios derretidos e diluídos. Além destas relações, a própria artista descreve seu interesse e fascínio pela obra do surrealista: "Utilizei em meus desenhos alguns recursos que percebi, se repetirem em diversos trabalhos de Dali. Um destes recursos eram os fundos (…), sempre representados como fundos infinitos, horizontes muitas vezes semelhantes ao entardecer e amanhecer, quando o céu fica com uma cor pálida, e tem uma aparência nebulosa (…) de penumbra. Neste espaço criado por Dali, percebi que os elementos ali inseridos aumentavam ainda mais a impressão de imagens irreais, parecendo imagens de sonhos, onde as figuras podem ter várias dimensões e estarem compondo um único espaço ou cena, portanto irreal e por definição surreal." Entrevista dada aos autores em maio de 1998.
10. O fogo também é temática frequente nos trabalhos de collage do poeta Floriano Martins, membro do Grupo Surrealista de São Paulo, do qual Michele faz também parte. Encontramos o fogo, ou referência a ele em obras como Anotações de um Livro para Ângela e Sombras Raptadas (na forma da imagem do lagarto), e finalmente encontramos em sua produção literária o livro Alma em Chamas. MARTINS, Floriano. Alma em Chamas. Fortaleza: Letras & Música. 1998.
11. CIRLOT, Juan-Eduardo. Ob. Cit. p.149.
12. No texto feito por Michele para sua primeira exposição individual em 1994, vemos mais claramente as relações que ela estabelece com seu trabalho e suas primeiras aproximações a linguagem surrealista: "Como uma criança desmonta seus brinquedos e cria um novo com as sucatas que restaram, também isso acontece com a colagem. Recolhe-se entulhos de um mundo já existente e deles cria-se uma nova ordem, um reaproveitar, sendo que essa nova ‘montagem’ também fica sujeita `a uma ontar. A colagem é uma recombinação de elementos que compõe uma nova linguagem visual, (…) fazer com que essa recombinação de elementos desvincule do habitual, fazendo composições não somente plásticas, mas também com relações de significados. A relação da foto, imagem com o objeto criam uma atmosfera, uma busca? Por que estão juntos? O que é esse objeto nunca antes visto? A fotografia é um resíduo da realidade, o congelamento de um momento, instante em que o homem domina o tempo. No nosso inconsciente guardamos resíduos do tempo, lembranças, uma sensação lúdica, uma saudade nem sempre entendida, mas sentida, o romantismo das antigüidades, isso tudo paira sobre o trabalho (…) de uma forma que nos seduz e nos remete ao passado sem percebermos. Ela nos prende nessa espécie de magia existente em outras épocas, mas que são tão presentes em suas COLAGENS." Texto para sua primeira exposição.
13. BACHELARD, Gastón. idem. p.248.
14. WESCHER, Herta. La historia del Collage - Del cubismo a la actualidad. Barcelona: Editorial Gustavo Gili. 1980.
15. CIRLOT, Juan-Eduardo. Ob. Cit. p.181.
16. CIRLOT, Juan-Eduardo. Ob. Cit. p.411.
17. CIRLOT, Juan-Eduardo. Ob. Cit. p.414.
18. Rainha da Escócia, foi executada fevereiro de 1587, pela acusação de conspirar contra a vida de Elisabeth I, Rainha da Inglaterra.
19. BIHALJI-MERIN, Oto. Death. In: Masks of the World. London: Thames and Hudson Ltd. 1970.p.157.
20. BACHELARD, Gastón. Ob. Cit.  p.212.
21. Entrevista dada por Michele Finger aos autores, em 23 de Agosto de 1998.
22. BACHELARD, Gastón.Ob. Cit. p.216.
23. BACHELARD, Gastón.Ob. Cit p. 248.
24. CIRLOT, Juan-Eduardo. Ob. Cit. p. 554.

Juliana Angeli é Formada em Artes Plásticas pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente cursa na mesma instituição História, Teoria e Crítica. Integrante do Clube da Lata, grupo formado em julho de 1998 na cidade de Porto Alegre, que tem como ponto de interesse comum a investigação da fotografia com câmera obscura (pinhole) no desenvolvimento de projetos pessoais e coletivos. Fernando Freitas Fuão é arquiteto, doutor pela Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona. Professor na Faculdade de Arquitetura e no Programa de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura da UFRGS, e autor-coordenador do livro Arquiteturas Fantásticas (1999). Contato: fuao@vortex.ufrgs.br. Página ilustrada com obras de Michele Finger.

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