Eduardo Brenes (artista convidado) Agulha - Revista de Cultura Eduardo Brenes (artista convidado)

Revista de Cultura # 16 - fortaleza, são paulo - setembro de 2001

Eduardo Brenes (artista convidado)

Editorial
Vazamento de fogo no inferno

A sociedade brasileira encontra-se tão atordoada com um espectro da corrupção que o próprio conceito de notícia tornou-se refém do que poderíamos chamar de um caso de polícia. O que informar que escape desse universo de derrocada moral? O que informar que, por outro lado, não seja deformação de uma cultura? Estes dois aspectos estão presentes de maneira ardilosa e corrosiva na vida dos brasileiros. O comportamento da mídia é derivativo desse impasse, se assim o podemos chamar: no intuito de denunciá-los, os aspectos falhos de uma sociedade acabam sendo o destaque diário de todos os meios de comunicação. Cria-se aí uma falsa idéia de sociedade em permanente estado de degradação. Ao mesmo tempo, a cultura passa a ser vista unicamente como produção de entretenimento, gerando outro desconforto para uma sociedade já fragilizada do ponto de vista moral. É comum encontrarmos um mesmo tipo de deslocamento de raiz em matérias sobre futebol, música ou cinema, quando a notícia centra-se no inexplicável saldo da conta bancária do diretor de um clube de futebol, na manifestação de apoio de uma cantora a um político notoriamente corrupto ou no desvio de valores captados para a produção de um filme por parte da própria cineasta. Se vamos para áreas como política ou economia, o matiz é o mesmo, ou seja, nosso entendimento de política foi eclipsado pela vazante de escândalos que envolve o Congresso Nacional, ao mesmo tempo em que a economia converteu-se tanto em um ilusionismo como em uma precariedade: de um lado, busca-se explicação para o inexplicável; de outro, limita-se o conceito a ganhos e perdas, no caso, claro, mais perdas do que ganhos. Evidente que tal diagnóstico nem está completo nem se pretende novidade. É comum ouvir-se, mais a título de resmungo do que propriamente de indignação, frases como "esses políticos são todos safados", "não há mais cultura neste país", "os jornais só falam de crimes"… Até que ponto transformamos nossas vidas em cenário de um drama policialiesco? Vivemos em uma sociedade criminal, onde a própria lei é redigida, mantida ou alterada de maneira unilateral. Não é de todo inexplicável a profusão de um contágio, hoje já em termos epidêmicos. Artistas, religiosos, administradores públicos, atletas, empresários, o país inteiro se confunde quando o assunto é corrupção. Contudo, não percamos de vista que a raiz de toda corrupção é a leviandade existencial, a falta de princípio. Eis, portanto, o que une derrocada moral a deformação cultural. E quanto mais levianos formos mais cedo erradicaremos o menor traço possível que nos conduza à memória de uma cultura brasileira. Cobrar consciência, naturalmente, pode parecer igualmente leviano. Tal recurso tem sido habitual, retórica utilizada para a lavagem das mãos. Segue atestando o cinismo vulgar com que vem sendo tecido todo o organismo social deste país. O esfacelamento de uma sociedade só pode ser corrigido pela consubstanciação de seus princípios. O grande vazamento que se verifica radica na projeção sistêmica de um isolamento, ou seja, a falta de diálogo entre as inúmeras vertentes constitutivas dessa sociedade. No caso brasileiro, é possível falar em ausência de comunicação interna e externa. O país sempre conheceu a imposição, em toda a extensão de sua trajetória existencial. Um sentido ambíguo de imposição, diga-se, que permite a leitura de um diálogo falseado. Os exemplos poderiam ser dados à exaustão. Nos diversos matizes em que uma informação é editada, a mídia acaba convertendo-se em cúmplice desse processo de desenraizamento de uma cultura. Não se trata apenas do que informar, mas sobretudo de como informar. Não somente a arte é o território de uma estética. Toda a existência humana trafega entre ética e estética. Somos o que somos da forma como somos. Tal percepção deverá ser uma espécie de primeiro passo na reversão de um processo brutal que define a sociedade brasileira desde a colonização. Teremos que partir para o diálogo, buscar o outro a cada momento, entregar-se ao convívio, anular preconceitos e aceitação tácita do que habitualmente nos é imposto. O impasse: o estado policialesco aludido dopou o entendimento dessa insurreição. O brasileiro já quase não reage senão aos choques de mídia. O torpor vem da constatação de estar trabalhando no vazio. De volta ao estado viciado: "se todos são corruptos, tratarei também de sê-lo". Todos os dias um que outro brasileiro indagará a si mesmo: "como será possível reverter o assunto?" Toda a sociedade brasileira reage a partir desse substrato de corrupção. Estamos nos desfazendo. Já não recordamos uns tantos nomes fundamentais na história de nossa cultura e a cada momento acatamos a leviandade como sistema de vida. "Como será?", será através de uma entrega total de si, de uma busca errante de diálogo, da aceitação do outro. Somente aí se anula um processo de submissão. Como a mídia escapar dessa condição derivativa? Não, não escapará. É sua contradição: está rendida pela notícia. Mas qual notícia? O que é notícia? Por aí conduzimos uma sociedade, criamos falsos fantasmas, anulamos zonas de tensão, azeitamos políticas de intervenção etc. O ponto nevrálgico é a consciência do que se passa dentro de nós e à nossa volta. Não resta a menor dúvida de que haja vazamento de fogo no inferno. O homem não compreende mais a si mesmo. Foi levado a isso? Não resistiu a tanto? O que esperar do futuro está intrinsecamente ligado ao que esperar de si mesmo.

Os editores

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Eduardo Brenes (artista convidado)

Sumário

1 cemitério de papel: imagens da cidade na poesia de augusto dos anjos. maria esther maciel
2 creación literaria y realidad virtual. josé ángel leyva
3 hermeto paschoal: o choro que ninguém mais toca. floriano martins
4 josé luis cuevas y el ritual de lo terrible. víctor sosa
5 leonard cohen: la remota posibilidad humana. mónica saldías
6 michele finger: collages, 1993-1995. juliana angeli e fernando freitas fuão
7 paisagem com um século que finda e outro que inicia: uma apresentação de david salle. jorge lucio de campos
8 flâneur. roberto mascaró
9 silveira sampaio e nelson rodrigues: obras paralelas que se encontram no infinito. daniel adjafre
10 una entrevista con osvaldo soriano. cristina castello


artista convidado eduardo brenes (artigo) efraím hernández
dossiê da agulha celso luiz paulini [textos críticos de claudio willer e sérgio cohn / seleção de poemas / entrevista por Rubens Rodrigues Torres Filho]

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Expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

conselho editorial
alfonso peña (costa rica)
alfredo fressia (brasil)
benjamin valdivia (méxico)
contador borges (brasil)
cristina castello (argentina)
rodolfo häsler (espanha)
soares feitosa (brasil)
víctor sosa (uruguai)

artista plástico convidado (gravuras)
eduardo brenes

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jornal de poesia

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