Agulha - Revista de Cultura

Revista de Cultura # 15 - fortaleza, são paulo - agosto de 2001

Agulha (Collage de Floriano Martins)






 

Vidas de escritores

Claudio Willer


Claudio WillerEste texto decorre de dois pretextos.

Um deles, aquilo que estou preparando para uma próxima edição de Agulha, a propósito do recente lançamento de O Gerifalto- poesia completa (Azougue Editorial, 2001), de Celso Luiz Paulini, onde, evidentemente no modo alegórico, identifico esse poeta, integrante especialmente qualificado da "geração 60" de São Paulo, a um extraterrestre. Isso, pelo que ele tinha de reservado, por um sutil distanciamento crítico com relação à própria condição humana, bem assinalado por seus posfaciadores nessa edição.

O outro pretexto, aparentemente de uma ordem ou escala de grandeza distinta, ao menos no que diz respeito ao mercado editorial, é o modo como Jack Kerouac, o prosador beat norte-americano, continua em evidência. Desta vez, por duas razões. Uma delas, a fortuna arrecadada no leilão dos originais de On the Road, da ordem dos milhões de dólares. Outra, o anúncio do início das filmagens dessa obra (aqui intitulada, na tradução brasileira, de Pé na Estrada) por Francis Ford Coppola. É uma notícia animadora, pela esperança de que, nas mãos do realizador de Apocalipse Now, a saga narrada por Kerouac tenha, finalmente, um tratamento adequado, pois, até agora, o que Hollywood fez com a temática beat se resume à traição, produzindo umas tantas bobagens antológicas.

O que conecta esses dois acontecimentos?

O que têm a ver um com o outro o lançamento do mais obscuro dentre os bons poetas paulistas dos anos 60, ou do melhor dentre os seus poetas obscuros, e o crescimento do prestígio de alguém que há quase meio século é celebridade mundial, como Kerouac?

É que ambos, de angulações inteiramente distintas, servem para lançar luzes sobre o tema fascinante das relações entre literatura e vida, obra e biografia de seu autor.

Já havia, em outras ocasiões, comentado a riqueza dessas relações, a propósito dos autores do período que medeia entre Baudelaire e o surrealismo. Na edição que preparei de Lautréamont – Obra Completa (Editora Iluminuras, 1997), comento que tanto o autor escandalosamente presente, os Baudelaire, Jarry e demais continuadores do dandismo, e o misteriosamente ausente, como Lautréamont, ou recluso, como Germain Nouveau e Tristan Corbière, traduzem, cada qual a seu modo, a idéia do poeta como outro, ser de exceção, criatura à parte. Alteridade que se expressa, quer como provocação pública, quer como fuga e isolamento. Sendo a literatura vista como expressão do sujeito, o "eu" romântico em confronto com a sociedade, inúmeros autores apresentaram um comportamento comprometido com essa concepção. Por isso, desconhecer o que hipóteses biográficas podem trazer de conhecimento adicional, em nome da autonomia do texto, é desumanizar e burocratizar a crítica. Ambos, pessoa e texto, são expressões da identidade. Mesmo quando escondido, insuficientemente biografado, por trás de cada obra há um autor, que faz parte dela como dado contextual e signo do texto, tornando instigante o exame do sentido que ele pode dar ao escrito.

Lucy Barbosa (fotografia)Algumas vezes, utilizei-me de García Lorca para criticar um certo desinteresse acadêmico por estudos biográficos. Aparentemente, ter sido um mártir, e, antes disso, um personagem de enorme prestígio, ao mesmo tempo poeta olímpico e maldito, serviu como pretexto para que não se desse atenção suficiente a sua contribuição especificamente literária, à condição de um dos maiores poetas do século XX. Isso, por ser comum, em cursos de literatura e na própria produção da crítica, a exigência de que a análise de uma obra se atenha exclusivamente ao texto, ao que foi por ele escrito, deixando de lado seu contexto, do qual faz parte a vida do próprio autor. Corresponde, ao se examinar a exacerbação e a exuberância lorqueanas, a fingir desconhecer suas obsessões pessoais e sua tragédia. O resultado desse vezo burocratizante e cientificista sempre será o empobrecimento do ensino da literatura e da própria leitura. Daí recomendar que a fruição de poemas e peças de teatro seja acompanhada pela leitura de uma de suas biografias.

A de Ian Gibson (Federico García Lorca - uma biografia, de Ian Gibson, Editora Globo, 1989), é um modelo do gênero, um dos melhores estudos biográficos já feitos, resultado de décadas de pesquisa. Um trabalho de tal envergadura, reaproximação de criador e obra, é possível se o autor-tema, além de legível, literariamente importante, for biografável, apresentando interesse como personagem. E Lorca é um biografável por excelência, um personagem de si mesmo. Entre outros motivos, por seu assassinato o haver transformado em mártir; pela coexistência do brilho pessoal, de seu enorme carisma e capacidade de liderança, com as dificuldades por haver sido homossexual em uma cultura machista; pelo hermetismo de partes de sua obra coincidir com mistérios de sua vida íntima; pelos desafios oferecidos ao biógrafo pela ausência de dados decisivos, com o desaparecimento de uma parte de sua correspondência e a destruição de documentos na Guerra Civil espanhola; enfim, por todos os paralelos possíveis entre vida e produção literária.

Ao contrário de fontes categorizadas como Marcelle Auclair, que preferiram a discrição, comentando, quando muito, sua paixão por Dalí, Gibson enfrentou a vida amorosa do poeta. Abordou seus "casos", como o do escultor Emílio Aladrén, que antecedeu sua crise e depressão de 1928/29, e sua ida aos Estados Unidos e Cuba. Esmiuçar episódios amorosos e sexuais não é sensacionalismo, porém respeito aos fatos. Não se pode aceitar a idéia de um García Lorca assexuado ou platônico, quando ele mesmo tematizou os amores proibidos, em El Público e nos Sonetos del Amor Oscuro, inéditos por décadas. Enfim, a maior clareza da figura do poeta beneficia enormemente sua leitura, pois as circunstâncias da vida, mais que informação contextual, estão dentro da obra, conferindo-lhe sentido.

Tudo isso, todas essas considerações a propósito de Lorca ou de quem for, faço-as sempre cercando-me de cuidados para não "explicar" a obra pelo autor, assim reduzindo-a a um sintoma. E, também, procurando não sobrepor o biografado á obra, pois, nesse caso, serviriam como modelo de biografia de escritores as hagiografias, as vidas de santos, ou as biografias heróicas e edificantes, em voga há algumas décadas, como as de Emil Ludwig (Beethoven Napoleão, entre outros), capazes de ofuscar o leitor com o brilho da aura do biografado.

Lucy Barbosa (fotografia)Além disso, é necessário reconhecer que o interesse da biografia, independentemente da estatura literária do biografado, cresce na razão direta dos aspectos heróicos de suas vidas, a exemplo do que ocorreu com Dashiell Hammett, conforme já comentado aqui, em Agulha 12. Há, ainda, uma relação entre o biografado e seu biógrafo, cuja sensibilidade pode ser despertado por alguém que não figura no primeiro escalão do Olimpo. É o caso da vida (e morte) de Stefan Zweig relatada por Alberto Dines (Morte no Paraíso, Editora Nova Fronteira, 1981). O que Zweig tem de menor, de fracassado, e, no caso de sua estada brasileira, de arauto de um equívoco, é claramente exposto. Mas existe uma relação especular, na qual Dines, através de Zweig, busca um tipo de humanismo e de cultura européia que não existem mais. Trata-se, portanto, de um resgate. Essa busca, feita com emoção, ilumina a ambos, biógrafo e biografado, humanizando-os.

E assim chegamos a Kerouac, biografável por excelência. Quem sabe, dentre todos os autores do século XX, aquele cuja biografia mais serviu para confundir, e não para esclarecer a apreciação da obra. Em primeiro lugar, por ser personagem de si mesmo, por ter escolhido, como gênero preferencial, a narrativa autobiográfica. Por isso, tornou-se um cliente de biografias. O interesse por ele deve muito, não a sua vitória, à imagem do beat triunfante de mochila às costas, mas à derrota, a seus erros de perspectiva histórica, sua crise de criatividade que o transformou em epígono de si mesmo, seu melancólico fim pela autodestruição através do alcoolismo. Contradições são uma matéria literária por excelência. Talvez sejam a matéria literária. Às vezes chega-se a ter a impressão de que a leitura de algo como Kerouac, de Ann Charters (Editora Globo, 1989), trabalho pioneiro e até hoje possivelmente ainda o melhor, ou, ao menos, o mais autêntico do sem-número de títulos disponíveis narrando a mesma trajetória ao mesmo tempo trágica e triunfal, é tão interessante e empolgante quanto suas próprias obras. Isso, pela quantidade de episódios espantosos que foi revelando, a caótica relação a quatro por volta de 1950, Kerouac - Ginsberg - Neal Cassady - Carolyn Cassady e mais o elenco das demais companheiras de Cassady, o Dean Moriarty de On the Road. Ou a comuna de plantadores de maconha implantada por Burroughs logo a seguir no Texas, juntando todos esses personagens, mais alguns delinqüentes de verdade, em tempo integral.

Há que concordar: Kerouac foi desigual, oscilou do genial ao medíocre, passando pelo banal. Mas qualquer leitor menos preconceituoso reconhecerá em The Book of Cody, no mínimo, uma obra de um fôlego extraordinário. Ficará espantado com a extensão vocabular do alegórico Doctor Sax, mais ainda por ter sido feito por um franco-canadense, cuja primeira língua foi o dialeto canuk (ou talvez por isso mesmo, por seu bilingüismo de origem). E perceberá como, por exemplo, naquele capítulo de On the Road no qual seus protagonistas vão chegando a toda ao México, insetos esborrachando-se no pára-brisas do automóvel à medida que o calor aumenta e a noite avança, o próprio ritmo do texto, o encadeamento de longas frases, vai transmitindo magistralmente uma impressão de velocidade desenfreada.

Além das principais obras sobre Kerouac, as mais sólidas, como a já citada de Ann Charters, o que Ginsberg escreveu sobre ele (The Visions of the Great Rememberer), e a de Gerald Nicosia (Memory Babe, a critical biography of Jack Kerouac, Penguin Literary Biographies, 1986), há uma interessante marginalia kerouaquiana que merece exame. É o caso de Jack’s book, de Barry Gifford e Lawrence Lee (Penguin Books, 1978), montagem de fotografias e depoimentos que, juntos, levam ao inexorável fim. Compõem uma hipérbole, algo não-linear que não leva a lugar algum, e que, de forma descendente, se perde no espaço. Todos os testemunhos colhidos (de Ginsberg, Corso, Burroughs, etc) têm algo de tenso, por serem antecipações desse final.

Lucy Barbosa (fotografia)Semelhante tensão pode ser obtida involuntariamente. Isso ocorre com outra das biografias de Kerouac, a de Charles E. Jarvis (Visions of Kerouac, Ithaca Press, 1973 Aproveitando a estada de Jack em sua cidade natal, pouco antes de morrer na Flórida com um buraco no estômago de tanto beber, bem como o fato de serem conterrâneos, Jarvis, de modo oportunista, se pôs a transcrever os delírios do alcoólatra terminal. Há a presença de uma voz crepuscular, literalmente vinda das sombras, pois Kerouac, metáfora viva, já não suportava a luz e preferia ficar na penumbra de uma sala com venezianas cerradas. O segmento final da hipérbole traçada pela vida de Jack Kerouac é, assim, mostrado com lente de aumento, na plenitude do que contém de trágico e de patético.

Não existe biografia neutra. Toda obra biográfica é antes de tudo uma leitura crítica, uma interpretação, mais ou menos declarada por seu autor. Ao contrário do que pretendem estruturalistas mais intransigentes, literatura é vida. E a biografia está presente na obra, é lida pelo leitor através da obra. Villon foi um marginal. Rimbaud abandonou tudo e foi para a Abissínia. Poe é o patrono daqueles que se desagregaram. Lautréamont escondeu sua própria vida. Huysmans era um burocrata perfeito e ao mesmo tempo meteu-se com bruxarias e missas negras. Mallarmé foi, por boa parte de sua vida, até instalar-se em Paris, um recluso. A aura particular de cada um desses episódios, de Abissínias míticas até gabinetes de trabalho, ilumina cada linha do que foi escrito por qualquer um deles. A leitura também é um jogo de espelhos, mais opacos ou mais luminosos, nos quais o leitor busca algo - até mesmo, fragmentos de sua própria imagem. Biografias de escritores interessam ao conseguirem reproduzir esse jogo e essa busca..

Claudio Willer (1940) é tradutor de Allen Ginsberg, Antonin Artaud e Lautréamont. Publicou Volta (1996). É um dos editores de Agulha, bem como presidente da UBE - União Brasileira de Escritores. Página ilustrada com obras da fotógrafa Lucy Barbosa (Brasil). Contato: cjwiller@uol.com.br.

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Collage, Floriano Martins

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