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Revista de Cultura # 15 - fortaleza, são paulo - agosto de 2001 |
Editorial
Paralelos entre acesso irrestrito à Net e regimes políticos abertos, de um lado, e proibições ou restrições a esse acesso e regimes fechados, de outro, também deixaram de ser novidade. Talvez valha mais a pena escrever sobre um acontecimento de gravidade menor, e conseqüente repercussão mais reduzida: o encerramento de um programa sobre literatura na televisão francesa, Bouillon de Culture de Bernard Pivot. Recordando: o programa de Pivot, exatamente pela simplicidade, pela pouca pretensão, por constituir-se em uma conversa de aproximadamente hora e meia do apresentador com escritores convidados, sempre ao redor de um núcleo temático, tornou-se uma referência em qualidade na TV. Obteve elevados índices de audiência e exerceu influência, projetando seu apresentador e criador como formador de opinião. Contudo, em um surto de populismo, os responsáveis pela RTF, a rede pública de TV francesa, preferiram substituí-lo por alguma banalidade supostamente de maior apelo. Antes, Pivot já havia sido retirado da programação da TV5, sigla no Brasil da retransmissora francesa pela TV por assinatura, comprovando, assim, a tendência inercial dos programadores de TV (e de gravadoras de discos, e de show-business em geral, e ), sempre rumo ao rebaixamento do nível, sempre optando pelo pior. Será possível extrair algo de instrutivo e útil para a compreensão do mundo que nos cerca, ao confrontar esses dois acontecimentos em lugares distintos, essas duas supressões, uma delas de um programa literário, a outra de tudo, apesar de ocuparem postos bem diversos em uma escala de gravidade? O sistema de concessões e dos modos de acesso às emissões de televisão varia conforme o país. Em um veículo como Agulha, que se dirige a toda a América Latina e outras partes do mundo, talvez seja necessário explicar o modelo brasileiro de televisão "aberta", parcialmente calcado naquele norte-americano, e aquele da recepção paga, por assinatura, transmitida através de cabos ou antenas parabólicas. A TV aberta, que de aberta não tem nada, é composta por sete canais: seis deles são veículo de redes de emissoras privadas, outorgados por concessão governamental (nunca sem suspeitas de favorecimento político), e um de TV pública, das emissoras educativas e culturais de âmbito estadual e federal. Há, ainda, emissoras locais, de curto alcance. Nesse contexto, a TV por assinatura trouxe a esperança da diversidade e qualidade, pelo número de emissoras que estariam à disposição dos assinantes. Contudo, resolveu-se, no Brasil, lotear a quantidade entre duas distribuidoras, apenas, da emissão de TV a cabo, os sistemas Net e TVA (com variações regionais e diferenças pouco relevantes na transmissão através de antenas parabólicas instaladas em domicílios). Portanto, estabeleceu-se o monopólio, fechando alternativas de acesso. Aliás, um meta-monopólio, pois, em um desses intrincados labirintos corporativos, a Rede Globo, líder na transmissão aberta, é proprietária da Net, líder na transmissão a cabo, e, como se não bastasse, várias das emissoras que compõem o "pacote" dessa distribuidora também são vinculados à mesma Rede Globo. Resumindo: não podemos assistir ao programa de TV que quisermos, pois nossas escolhas se limitam àqueles que integram o conjunto posto à disposição por uma ou outra dessas duas empresas, Net e TVA. É possível achar bons filmes ou documentários, pesquisando dentro de uma assombrosa e abusiva quantidade de repetições, acrescida por uma torrente de banalidades, um despejar de todo o lixo televisivo disponível no mundo. Mas, por maior que seja a quantidade de emissoras oferecidas aos assinantes desses dois prestadores de serviços, todas exibem aproximadamente a mesma coisa. Uma das conseqüências desse fechamento: pesquisas mostram que o assinante de TV a cabo continua, preferencialmente, assistindo aos programas das emissoras "abertas", que chegam a seu monitor com uma imagem de melhor qualidade. Outra conseqüência: as queixas, preenchendo colunas das sessões de jornais dedicadas a reclamações de consumidores, contra a má qualidade de serviços, o mau atendimento, o desrespeito aos assinantes, os aumentos abusivos de tarifas. Quando da implantação de Internet e da TV paga no Brasil, coisa de cinco anos atrás, a mensalidade de ambos, um provedor de acesso e um serviço de TV paga, correspondia a valores próximos. Desde então, o preço cobrado pelos provedores baixou; o da TV a cabo subiu. Hoje, o que se paga a um provedor é menos de um terço de uma assinatura de TV a cabo. Além de tornar-se mais barata, a qualidade do serviço dos provedores de acesso melhorou; em caso contrário, migraríamos para um de seus concorrentes, das diversas opções ainda disponíveis, todas, por sua vez, meras pontos de apoio, instrumentos para chegar aos sites e páginas que efetivamente interessam, e para expedir e receber correspondência. Cerquemo-nos de cuidados para não conferir qualquer grau de admissibilidade aos acontecimentos no Afeganistão, que não se reduzem à proibição da Internet, ao cerceamento de toda informação e lazer, pois abrangem a degradação imposta às mulheres e a miséria em que vive a maior parte da população. Feita a ressalva, pode-se formular a pergunta: a televisão, ela não conteria algo de talibanesco? Também não há alguém resolvendo, decidindo por nós o que podemos ver, a que informação podemos ter acesso? A pergunta ganha importância diante do próximo avanço tecnológico a ser implantado, a digitalização da TV. Em breve, aparelhos de televisão e computadores se tornarão assemelhados, até se confundirem de vez. Um canal de TV será também um provedor de Internet. Reciprocamente, com webcams e demais acessórios, será possível fazer emissões de televisão pela Internet. Ou então, copiar emissões de TV, convertê-las em arquivos e retransmiti-las pela Internet. Qual dos dois modelos prevalecerá, nessa fusão de dois meios e dois sistemas? Da TV ou do acesso à Internet? Esta última se tornará mais parecida com um sistema de distribuição de programação de televisão, fechado, monopolista, ou a aquela se abrirá, possibilitando o acesso a uma infinidade de opções de programação audiovisual? Nem era necessário invocar a barbárie absolutista, usando-a como pano de fundo, para semear a desconfiança de que essa é uma questão política de colossal magnitude. Talvez algo determinante dos rumos a serem tomados pelas democracias, do futuro daquilo que genericamente pode ser denominado de civilização ocidental. E não estamos falando de "democracia" em abstrato, no plano puramente formal, mas de acontecimentos políticos recentes, alguns deles fora do Afeganistão na Itália, por exemplo, onde Berlusconi, dirigente do monopólio local de TV, a Rede Globo deles, consolidou-se como líder político autoritário, e onde algumas das barbaridades em Gênova, as invasões de escola e torturas a manifestantes, primeiro foram noticiadas através da Internet, e depois pela mídia convencional. *** Há um filme em cartaz, aqui e em quase todo o mundo, Tomb Raider, narrando as aventuras de Lara Croft, baseado em um videogame. Todos os jornais e revistas deram páginas e páginas estampando à saciedade a intérprete Angelina Jolie, personagem da moda. Ninguém registrou que na concepção desse espetáculo, em seu roteiro, estava Colin Wilson, integrante dos angry young men britânicos na década de 50, autor de O Oculto, O Outsider e Vampiros do Espaço. Nem que fosse para estranhar um autor de prestígio associar-se a esse tipo de bobagem infantilóide. Semanas atrás, foi exibido, em um dos canais de TV a cabo, Telecine Classic, o filme Peter Ibbetson, de 1934, dirigido por Henry Hathaway, interpretado por Gary Cooper. Nenhuma linha a respeito, menos ainda sobre os comentários de André Breton em LAmour Fou, pelo modo como esse filme inverte a relação entre sonho e realidade, postulando que a verdadeira vida está nos sonhos, merecendo, por isso, especial destaque em Le Surrealisme au Cinéma de Ado Kirou. Passou despercebido até por comentaristas e críticos de cinema e TV com algum currículo e experiência, que tinham obrigação de saber de uma coisa dessas. Nem que fosse para questionar, argumentando que o filme é anacrônico, piegas, e não merecia aquela emulação toda. Burocratização da imprensa, convertendo jornalistas em simples copiadores de press releases, por sua vez preparados por gente sem qualquer noção do que está fazendo: isso não será um passo, ainda que mínimo, rumo à talibanização da informação? Os editores |
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Sumário 1 altino caixeta de castro: o guardião das palavras. maria esther maciel2 carta de hallandale: ¿qué? ¿leer? josé kozer 3 enrique molina y edgar bayley: dos grandes poetas argentinos. jorge ariel madrazo 4 entrevista a diana bellessi. maría claudia andré 5 juan eduardo cirlot: lo simbólico como realidad. julia otxoa 6 juan garcía ponce: el homo eroticus (entrevista). amparo osorio y gonzalo márquez cristo 7 las vanguardias tardías hispanoamericanas en españa. jorge rodríguez padrón 8 man ray: la fotografía como pintura. víctor sosa 9 o feio e o belo: a poética de gottfried benn. viviane de santana paulo 10 vidas de escritores. claudio willer artista convidada lucy barbosa (ensaio) floriano martins |
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