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Claudio Willer
De diferentes modos, como exaltação ou crise, euforia ou depressão, a questão da liberdade manifestou-se de modo enfático, exibindo a saturação da dicotomia estalinismo-macarthismo imposta pela Guerra Fria. Mas isso não aconteceu a partir do nada. Foi precedido por idéias. Houve uma realização de produções teóricas e artísticas que a anteciparam, e que já estavam presentes, conforme bem assinalado nos dois artigos desta edição de Agulha, na rebelião romântica, em sua exacerbação por Rimbaud, e naquelas manifestações da vanguarda, a começar pelo Surrealismo e por dada, que não se reduziam a uma tentativa de consagração do moderno tomado como valor, da celebração da união entre arte e progresso técnico-científico - uma união na qual, tal como concebida pelos futuristas ou por nossos concretistas, invariavelmente a arte se torna a parte mais fraca, caudatária da ciência e tecnologia, ao se pretender que incorpore uma idéia que lhe é estranha, a de "progresso". Há, ainda, uma relação mais clara, mais linear de influência, em obras publicadas na década precedente, nos anos 50, que buscaram a incorporação do marxismo a um pensamento crítico mais radical e abrangente, ou então, um pensamento crítico que fosse além do marxismo. Entre outras, Eros e Civilização de Herbert Marcuse e A Vida contra a Morte de Norman Brown. Tais antecedentes foram bem observados por Octavio Paz, em um texto escrito em 1967, no calor dos acontecimentos (publicado, com pequenas variantes, no ensaio Conjunções e Disjunções e na entrevista Solo a dos voces): Nos últimos anos, dois movimentos sacudiram o Ocidente: a revolta do corpo e a rebelião dos jovens. (…) As duas são expressões - ou melhor, explosões - de uma corrente subterrânea que nasce com William Blake e os românticos ingleses e alemães, se manifesta no século XIX nas obras de alguns poetas como Rimbaud e Lautréamont, explode no surrealismo e agora, misturada a outras correntes, se estende a todo o planeta.
Várias foram, no Brasil, as expressões desse ethos rebelde-revolucionário. Em boa hora, vêm sendo lembradas ou recuperadas, bastando observar que, na data em que escrevo este artigo, abre-se mais um ciclo sobre o cinema "marginal" ou da "boca do lixo" de 1968 a 75, e que os jornais publicam comentários sobre o relançamento de Panamérica (Editora Papagaio), o poderoso painel apocalíptico de José Agripino de Paula, reconhecendo seu alcance profético. De algum modo, essas e outras obras e seus autores se relacionaram com a Tropicália. Entre outras razões, por sua capacidade de interagir e agregar outras manifestações, sua singularidade na pluralidade. O tropicalismo está bem documentado através de ensaios e depoimentos como Verdade Tropical de Caetano Veloso e Geração em Transe de Luís Carlos Maciel. São leituras necessárias para a geração que pode ter visto encenações recentes de Zé Celso Martinez Corrêa, ouvido bastante Caetano e Gil, visto Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe de Glauber Rocha, mas não teve a chance de participar do processo, ver de perto o contexto revolucionário reconstituído nessas obras. Contudo, é inevitável identificar em nosso Tropicalismo uma simultânea realização e traição da rebelião romântica e do componente subversivo dos movimentos vanguardistas. De um lado, em um artista como Zé Celso, observa-se a firme convicção de estar prosseguindo uma cultura de resistência, à frente de seu Teatro Oficina, apresentado por ele como trincheira de um combate empreendido contra a massificação, a padronização do gosto e do comportamento pelo show-business. Glauber Rocha, por sua vez, sempre transmitiu a impressão de estar convencido de que fazia cinema para transformar o mundo. Em um artista como Hélio Oiticica, vemos algo mais radical ainda, a transformação da própria vida levada às últimas conseqüências. Por outro lado, na vertente mais voltada para a produção musical daquele movimento, depois dos momentos heróicos de confronto simultâneo com a repressão do regime militar e com o sectarismo da esquerda mais ortodoxa, a questão, de alguns anos para cá, parece reduzir-se a uma discussão sobre as estratégias de ocupação de espaços e crescimento no mercado de discos e de espetáculos, ou seja, a legitimidade do prestígio e sucesso comercial dessa ou daquela tendência da nossa música. Isso, reconhecidas as qualidades de um livro como Verdade Tropical de Caetano (que fala de acontecimentos e personagens dos quais estive suficientemente próximo para reconhecer seus relatos como verdadeiros), e exceções como, possivelmente, aquela de Jorge Mautner, sistematicamente anunciando-se como profeta e agente visionário da síntese entre rebelião romântica e transformação da sociedade.
Perdemos, mas talvez estejamos recuperando, neste início de milênio, a perspectiva apocalíptica, do colapso iminente da sociedade burguesa sob forma de revolução, catástrofe ambiental ou crise econômica profunda. Contudo, adotando a distinção feita por Octavio Paz, no ensaio intitulado Revolta, Revolução, Rebelião (publicado na coletânea Signos em Rotação, Ed. Perspectiva), vê-se que agora há revoltas (entendidas como atividade pré-revolucionária): a de Chiapas, no México, é uma delas; outra, a dos nossos sem-terra; e outra, ainda, a forte mobilização toda vez que há reuniões de cúpula para discutir integração econômica. Mas não há nenhum movimento coletivo suficientemente amplo, transformador e ameaçador à ordem social, para ser considerado uma revolução. Nem radical o suficiente para ser visto como rebelião, adotando-se a visão de Paz do rebelde como o herói maldito, o poeta solitário, os enamorados que pisam as leis sociais, o plebeu genial que desafia o mundo, o dandy, o pirata. Para ele, rebelião também alude à religião. Não ao céu e sim ao inferno: soberba do príncipe caído, blasfêmia do titã encadeado. (…) A arte e o amor foram rebeldes: a política e a filosofia, revolucionárias. Assim, vemos que não há, hoje, nenhum movimento suficientemente amplo, universal, para ser considerado uma revolução, nem radical o suficiente para ser visto como rebelião. Isso, mesmo reconhecendo como correto o balanço feito em Verdade Tropical de Caetano: não tínhamos atingido o socialismo, não tínhamos sequer encontrado uma face humana no socialismo existente; tampouco tínhamos entrado na era de Aquarius ou no Reino do Espírito Santo; não tínhamos superado o Ocidente, não tínhamos extirpado o racismo e não tínhamos abolido a hipocrisia sexual. Mas as coisas nunca voltariam a ser como antes.
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