Agulha - Revista de Cultura

Revista de Cultura # 13/14 - fortaleza, são paulo - junho/julho de 2001

Agulha (Collage de Floriano Martins)






 

Romantismo: uma estética de loucos

Leonardo Fróes

Leonardo Fróes (Foto de Lewy Moraes)De um dos maiores e mais sóbrios, como Gonçalves Dias, a um dos mais desregrados e desconhecidos, como João Júlio dos Santos, é impressionante a freqüência com que os poetas do Romantismo brasileiro, ao tecerem seus versos, chamavam-se exaltadamente de loucos. Quando não for essa a palavra, outras de igual sentido, como demente, insano, frenético, doido ou "doudo", surgirão em seu lugar para qualificar os próprios vates, como seres que se viam à margem dos processos sociais de aceitação mais comum, ou para caracterizar seus impulsos, desatados quase sempre ao contrário das normas repressoras vigentes.

Consideram-se os poetas românticos, sendo loucos, possuídos de inspiração e pureza. Não devem conspurcar sua alma lançando-se aos afazeres do mundo, onde imperam as maldades e os vícios. Há doses fortes de ilusão e inocência nessa postura generalizada entre eles. Tão fortes, de fato, que os versos nos quais se exprime sua ânsia de perfeição, postos em face das loucuras de hoje, podem até soar risíveis. Contudo, malgrado a divisão esquemática entre a aura dos puros e a perfídia ou o suposto realismo dos que na arena social travam combates, é nas linhas do quadro assim traçado que se esboçará com os românticos, pela ironia ou o desacato que estão em sua poesia, uma consciência crítica aparelhada e benéfica à evolução dos costumes.

O pendor à dissidência do segundo Romantismo, o dos loucos autênticos, transformou-o num grande movimento com repercussões de ordem prática, distinguindo-o por isso do primeiro Romantismo implantado pela ordem monárquica. Esse, o de Manuel de Araújo Porto Alegre, o barão de Santo Ângelo, e Domingos José Gonçalves de Magalhães, o barão de Araguaia, foi patrocinado por Dom Pedro II e limitou-se a importar bem-comportadamente da Europa, onde ambos passaram boa parte da vida, exercendo inclusive cargos diplomáticos, as modas que por lá triunfavam.

Gonçalves Dias - o "Grande Gonçalves Dias!", a quem Fagundes Varela, o grande louco, pede no intróito do Evangelho nas selvas: "Envia-me o segredo da harmonia / Que levaste contigo!..." - é bem um marco crono-ideológico entre a literatura oficial dos barões, que acabaria por não achar leitores, e a dissonante irrupção do Romantismo caboclo, cujos poetas procedem dos mais diversos estratos, nada obstando que afinal sejam mestiços e pobres, e hão de estar até hoje entre os mais lidos que o Brasil já teve.

No poema "O bardo", de Gonçalves Dias, fixa-se um protótipo da geração seguinte e dos byronianos desvairados quando "O rei, já velho, em roda de ministros" ouve o poeta que o procura em busca de ajuda e assim se explica como mendicante:

Somos do mundo sem saber do mundo;
Aprouve ao Senhor Deus lançar-nos nele,
Sem vida para nós com tanta vida,
Com tanta força de querer p’ra os outros.
Não sabemos ganhar! - Com fome ou frio,
Lemos o nome do Senhor nos astros;
Sonhamos ilusões, lançando os olhos
Sobre a terra florida, ou sobre o campo
Liso, imenso dos céus, - vagando sempre
Do passado ao futuro! - Somos loucos,
Bem loucos, senhor rei! - Enquanto a vida
Em proceloso mar corre sem termo,
Até que a morte um dia nos afunde,
Cantamos sempre...

No diálogo tenso de que se compõe o poema, o rei se nega a auxiliar o poeta, alegando que tem "o erário exausto", e com o "rosto carregado" e a mesma veemência rebate suas imprecações atrevidas:

Sou injusto e cruel!... vós o dissestes!
Mas quem sois? - que fazeis? - Ao povo estulto
Com a branda lira efeminais; no canto
Vil peçonha entornais em néscias mentes;
De perversa moral lições na cena
Dais em verso pomposo; loucos, cegos,
Profetas vos dizeis... - Meu trono acaso
Sustentas tu com a lira?...

Cabe então ao poeta, na longa composição que se alinha, de modo bem sintomático, sob uma epígrafe de Byron, dar uma formulação mais genérica ao conflito ali retratado. Na vida real, Antônio Gonçalves Dias nunca seria um dissidente, nem sequer lhe ocorreria fazer, já em seu tempo, uma ostensiva oposição ao regime: além de ter empregos fixos, ele assumiu missões do Império e, como os barões que o antecederam, foi amparado pelo erário ao peregrinar pela Europa. Mesmo assim a franqueza de seu bardo, que opera ainda no plano simbólico, não se exime de estampar a discórdia entre a loucura dos sensíveis e a circunspecção do poder, retrucando ao monarca nestes termos:

Reis da terra, o que sois? Oh! quase um nada
Em mãos de infantes caprichosos - brinco,
Autômatos de orgulho, atores tristes
Em público tablado...

No extremo oposto, ou seja, no final do Romantismo, o mesmo tema tratado pelo maranhense ilustre ressurge na poesia de João Júlio dos Santos, um obscuro mineiro de Diamantina, que nunca passou de revisor de jornal e escrivão de cartório e morreu inédito em livro, com 28 anos, em 1872, de trombose coronária causada por abusos alcoólicos. Apesar de acanhada e sem voz própria, denotando em seu conjunto a influência dos predecessores mais desenvoltos, em especial Álvares de Azevedo, Casimiro e Varela, a obra de João Júlio é porém curiosa por já não dar em "verso pomposo", como dizia o rei de "O bardo", suas lições de aprendiz. Entre o início e o fim do Romantismo, paralelamente aos excessos de seus jovens insanos, uma coisa importante aconteceu, e a ela se pode atribuir um segredo da perduração de seus textos: a linguagem dos versos, em vez de amaneirar-se, tornou-se progressivamente mais simples. Assim é que o poeta de Diamantina, nas 17 quadras de uma desataviada e até canhestra "Frotolla", ou canção popular jocosa, ousa imaginar uma inversão de papéis. Põe o louco poeta no poder, como o "monarca sobranceiro" que promulgaria

Uma lei que as outras todas
Para sempre revogasse,
Que a riqueza e a propriedade
De alto a baixo derrocasse,

e logo adianta comentários que assumem, como se a obra até ganhasse em clareza por sua própria insuficiência de meios, uma desabrida entonação libertária. Como estes:

É doido o homem por certo!
Faz-se escravo de qualquer
E, ao capricho dos tiranos,
Por vontade vai viver!
..........................................
Ao criar-me, a natureza
Uma lei deu-me somente:
Só fazer o que me agrada
E viver livre e contente.
Gravada a tenho bem funda
Dentro do meu coração:
Quem quiser, suporte freios,
Porém eu... juro que não!

Gabriela Villegas

A Fagundes Varela, de quem João Júlio dos Santos parece ter sido amigo e com o qual ele demonstra muita proximidade de idéias, atribui-se um poema de loucura política, o "2 de dezembro", que circulou de mão em mão e talvez na imprensa do Rio, na mesma fase final do Romantismo, em versão anônima. Como a data que o intitula era a do aniversário do imperador, e como as letras iniciais de cada verso formam na vertical uma frase da mais pura galhofa, constituindo-o em acróstico, tal poema é um bom exemplo do estilo de panfletagem rasgada que acabou se tornando uma das faces bem típicas (e ocultas por longo tempo) de todo o fértil período. Eis o poema em pauta, que mais se liga pela índole a desenvolvimentos futuros do que à elegante, genérica e no fundo prudente simbologia de "O bardo":

Oh! excelso monarca, eu vos saúdo!
Bem como vos saúda o mundo inteiro,
O mundo que conhece as vossas glórias.
Brasileiros, erguei-vos e de um brado
O monarca saudai, saudai com hinos
Do dia de dezembro o dois faustoso,
O dia que nos trouxe mil venturas!
Ribomba ao nascer d’alva a artilharia
E parece dizer em tom festivo:
Império do Brasil, cantai, cantai!
Festival harmonia reine em todos;
As glórias do monarca, as vãs virtudes
Zelemos decantando-as sem cessar.
A excelsa imperatriz, a mãe dos pobres
Não olvidemos também de festejar
Neste dia imortal que é para ela
O dia venturoso em que nascera,
Sempre grande e imortal, Pedro II.

Com as produções desse tipo, onde o freqüente aproveitamento de termos originários do povo subverte a própria linguagem, a vertente satírica do Romantismo assume hoje significação mais concreta do que os poemas preciosamente compostos para louvar causas tomadas por nobres, porém ainda questionáveis em sua forma e essência, como a guerra fratricida e estúpida contra os paraguaios. Os poemas sérios e grandiloqüentes sobre questões políticas, passado o ardor das batalhas, trazem fortes ressaibos de uma empostação de encomenda, mesmo que fossem das melhores possíveis as intenções dos autores. O problema com a poesia engajada, seja ela qual for, é que o próprio entusiasmo das causas a leva a acessos retóricos, e esses, diluindo-se o contexto de origem, correm o risco de perder toda a força num mar de frases vazias. Em contrapartida, a ironia e a sátira, sobrepondo às razões de indignação momentânea um incentivo ao riso eterno, posto que eterno se abra o palco dos desacertos humanos, têm condições de se manter vigorosas e aplicar seus açoites, na linguagem geralmente mais espontânea em que os criam, a todo um rol de situações que, mudados não obstante os atores, sempre estão a repetir-se na vida.

Os poemas de O estandarte auriverde (1863), livro de patriotismo exaltado que Varela escreveu ainda bem moço sobre a questão Christie, um banal incidente diplomático incapaz de comover-nos agora, sujeitam-se ao padrão verborrágico da pior discurseira de palanque. Até Dom Pedro II, que anos depois, na sátira, seria "o bobo do rei", é enaltecido nesse livro com versos de vacuidade empolada, como "Tu és a estrela mais fulgente e bela / Que o solo aclara da Colúmbia terra" ou "Tu és nos ermos a coluna ardente / Que os passos guia de uma tribo errante". Porém o mesmo poeta, "cantor das meias malícias e das meias inocências", no dizer de Franklin Távora, chegará ao fim da vida, multifacetado e prolífico, com uma obra de verve depurada que zombaria de tudo - do clero, da burguesia, dos pudores, dos preconceitos, da justiça, da escola, da ciência - e tem momentos de uma limpeza estrutural que decerto já prenuncia, tanto tempo depois, a estética modernista e galhofenta de uma dicção sem adornos. Veja-se, a propósito, a mensagem direta deste trecho de um de seus livros póstumos, o Diário de Lázaro:

Triste ciência! Quando nada enxerga,
São seus recursos e remédios certos
A mudança de clima, o ar, a vida
No meio das montanhas, tudo quanto,
Sem escolas, sem livros, sem doutores,
A sábia natureza nos ensina!

Mal desembarcado em São Paulo para estudar Direito, em 1859, com 18 anos, Fagundes Varela, vindo da placidez de uma fazenda no interior fluminense, publicou na imprensa local dois textos que, se por um lado revelam a falta de tarimba da idade, por outro dão testemunho de sua firme adesão ao ideário dos loucos. O primeiro, intitulado "Desvario de um poeta", é um poema longo e frouxo, mas de tema explosivo, que ambicionava pôr por terra o tabu da virgindade das moças, dizendo coisas assim:

Longe de mim os preconceitos loucos
Que o vulgo segue de cerrados olhos;
..........................................................
Quero amar e gozar! pouco me importa
O que depois suceda...
..........................................................
Vem amar-me, mulher, quero em teus beijos
Matar a sede que me queima o seio...
..........................................................
A virgindade o que é? Quimera estúpida,
Estulta convenção da humanidade.
Mais pura és tu, que teus desejos matas,
Do que as virgens que em sonhos se desonram...
...........................................................
A vida sem o gozo é como o dia
Que desponta nublado e assim se esconde.
Venha um raio de sol, quero gozá-lo!...

O segundo desses textos definidores do jovem ultra-romântico é um manifesto em prosa ainda mais longo, as "Palavras de um louco", paráfrase de um título de Lamennais, o apóstata francês que entusiasmava os moços e atazanava a Igreja com seu socialismo humanitário e as Paroles d’un croyant (Palavras de um crente), de 1834. O desabafo de Varela, publicado no número 3, de setembro de 1861, da Revista da Associação Recreio Instrutivo, mostra-o a assumir sem cerimônia o papel dos renovadores. Entre outras coisas, ele aí afirma:

Doudo - porque em vez de rastejar-me servil e submisso sobre os régios tapetes, proclamei a liberdade e a igualdade, porque em vez de curvar a cabeça ao miserável egoísmo do século, sopeei altivo os preconceitos sociais, - porque em vez de um punhal - uma pena mercantil - ou uma gazua - tomei uma lira e desferi doces melodias!

Doudo!... Serei um doudo, porque o labéu da maldição negreja a fronte dos livres - porque a poesia, essa linguagem dos anjos, é manchada de desprezos - porque o amor, a crença, a virtude - são estúpidas quimeras - porque o interesse é a lei - o ouro, a divindade - o egoísmo, a verdade!

Oh!... é uma verdade, eu sou um doudo!

Gabriela Villegas

O "Desvario de um poeta" e as "Palavras de um louco" podem ser vistos como súmulas de um roteiro pré-fixado, pois em sua candura sintetizam a maior parte das frustrações já vividas por toda essa linhagem romântica que, entre a elegância erudita de um Gonçalves Dias e o talento selvagem de um Fagundes Varela, não teve alternativa, por discordar tanto de tudo, senão enfatizar seu desatino impotente. À falta de espaço para se enquadrarem, já que os modos de ver que os irmanavam eram saltos que a vida ainda ensaiava em direção ao futuro, os poetas se imolam na esperança de que o testemunho que deixam seja ouvido, como de fato o foi e muito. A obra de Álvares de Azevedo, em especial a Lira dos vinte anos, é uma enorme sucessão de exemplos de como o amor então cantado era louco, não só por ser transbordante, mas também e principalmente por almejar uma resposta que a repressão e os tabus não permitiam. "Sou um doudo talvez de assim amar-te, / De murchar minha vida no delírio", diz ele em "Quando falo contigo, no meu peito", para logo em seguida acrescentar: "Tem pena, anjo de Deus! deixa que eu sinta / Num beijo esta minha’alma enlouquecer..." Nesse mesmo poema, que, como tantos outros dos seus, é franca admissão de que o prazer sexual lhe esteve vedado ("Oh, nunca em fogo teu ardente seio / A meu peito juntei que amor definha"), Álvares de Azevedo se arremete ao desfecho proclamando agora num desespero sem dúvidas, como Varela faria anos depois, esta divisa que ressoa em modulações diferentes, mas é sempre, por princípio, a que mais identifica os românticos: "Sou um doudo, meu Deus!"

Na poesia de "sonhos virginais" de Azevedo, "mágoa insana", "alma demente" e "noite delirante" são apenas algumas das muitas expressões que se alternam para falar da libido insatisfeita que o tortura e motiva. Em "Lembrança de morrer", uma quadra especifica o problema:

Se uma lágrima a pálpebra me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Em "Idéias íntimas", onde a amante em frente do leito "...É uma estampa / de bela adormecida" e onde se vê o poeta, dominado pela insônia, "Em vãos delírios anelando um beijo", o mesmo e eterno problema do jovem Azevedo à porfia com "amorosas sombras" encontrará no nono fragmento um diagnóstico ainda mais conclusivo:

Oh! ter vinte anos sem gozar de leve
A ventura de uma alma de donzela!
E sem na vida ter sentido nunca
Na suave atração de um róseo corpo
Meus olhos turvos se fechar de gozo!

Até meados do século XX, parte ponderável da poesia romântica manteve-se reimpressa e lida com bastante constância, sendo assim de presumir-se que seus arroubos e arrulhos, num quadro de convenções já mudado, mas longe ainda de se tornar permissivo, tenham servido a muita gente para a sedução dos namoros. Contudo, sendo uma poesia de homens, ou melhor, uma poesia passional de rapazes desencantados com a vida, ela se enche de temas alusivos à virgindade das moças sem que nunca lhe ocorra, ou quase nunca, lançar-se às dificuldades e inexperiência dos homens no cenário proibitivo que os sufocava também. Quase nunca porque o poema "Amor e medo", de Casimiro de Abreu, é uma exceção à regra. Assim como afirmaria, noutra obra, que "Simpatia - é quase amor!", atenuando com isso as proporções assumidas pelo drama carnal, Casimiro delineia uma leitura psíquica das barreiras internas do erotismo romântico quando, em "Amor e medo", confessa:

Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito,
És bela - eu moço; tens amor, eu - medo!

Quanto à loucura, apesar desses momentos de lucidez relevante, Casimiro porém é taxativo: "Quem dera / Que sintas / As dores / De amores / Que louco / Senti!" é o estribilho que se repete cinco vezes ao longo de seu poema "A valsa", construído em forma de coluna e mantido de pé pelo artifício. Castro Alves, "louco poeta" em "A visão dos mortos", tem uma "fantasia desvairada" em "Sub tegmine fagi" e lamenta, em "Coup d’étrier", "As horas que eu vaguei louco, perdido / Das cidades no tétrico delírio". Já Laurindo Rabelo, que em "O que sou e o que serei" se descreve como "medonho, impenetrável, louco", reporta-se à perene oposição entre paixão e equilíbrio quando, no poema "O meu segredo", rememora e teoriza:

Vida de louco passei;
Mas achei nessa loucura
Tanto bem - tanta ventura,
Quais nunca a razão me deu;
..............................................
Antes amor sem razão,
Do que razão sem amor.

Bernardo Guimarães, o único dos grandes românticos a morrer bem mais velho, já com quase 60 anos, foi também o único a não fazer emprego abusivo da palavra louco e sinônimos. Em compensação, em seu poema "Ao meu aniversário", de 1859, quando ele tinha 34, um estranho verbo derivado de doudo é utilizado para definir o rumo predominante na parte mais saborosa de sua obra poética:

Cansado de vagar por este mundo
Sonhando um paraíso,
De atroz sarcasmo às vezes pelos lábios
Lhe doudejava um riso.

Gabriela VillegasEssencialmente satírico na maioria das vezes, Bernardo se torna francamente obsceno em o "Elixir do Pajé" e "A origem do mênstruo", ambos de publicação clandestina, e aí doudeja muito além do sarcasmo para afastar-se da debilidade amorosa que colore as vozes românticas. Nesses trabalhos, a rigor, não há brilho invulgar de execução, nem sequer supremacia de emoção ou de idéias. Mas, com referências desinibidas ao coito, às práticas preliminares e a perversões variadas, com o uso de todas as palavras do léxico sexual censurado e com paródias destruidoras do indianismo cediço, o autor atinge extremos que lhe permitem articular a mais forte e melhor resposta dada à hipocrisia reinante, à permanência de temas já vazios e à própria languidez de seus pares, cujos loucos amores suspiravam pela alegria de gozos não provados.

Em "Meditação", de Junqueira Freire, o poeta que inutilmente tentou amortalhar sua libido no claustro, a necessidade nua e crua de sexo avoluma-se em exclamações e apelos a uma mulher de papel que só lhe serve de contraponto às lamúrias:

Quando da terra vil - ambos unidos -
Formos longe - bem longe:
Virgem! não lembres o horror do inferno,
Não me digas: "És monge!"
..................................................................
Apalpa os cancros, que me róem n’alma,
Que o coração me comem:
Apalpa, oh virgem, o meu seio ao menos,
Que me dirás: "És homem!"

A premência do desejo, para Junqueira Freire, sempre surge como causa de exageros verbais e sofrimento dramático. No poema "A freira", um dos que integram suas Inspirações do claustro, o prazer que se reprime é surpreendido com força rebelada num patamar crucial. Absorta na contemplação da estrela vésper, que incendeia as virgens e da qual certos raios "são vampiros" que as sugam, uma jovem religiosa em clausura vê-se possuída de "lascivo ardor" e "volúpia", sendo levada por saudades do mundo a espasmos de um gozo nebuloso descrito por palavreado patético. No combate à moral católica, tida por fonte da opressão e arrimo do pior poder secular, outros poetas, como Fagundes Varela e Laurindo Rabelo, buscam soluções diferentes. Se não chegam à linguagem para tratamento de choque que Bernardo empregou nas produções clandestinas, criam situações igualmente estapafúrdias e cômicas, como as dos padres fornicadores que Varela põe em cena em "A terra da promissão" e, com muito mais graça, em "Antonico e Corá". Laurindo, por sua vez, dá ao tema da clausura, tão problemático e tumultuoso para Junqueira Freire, o tratamento de piada que há neste improviso:

A freira, que madre chamam,
E o frade, que é frei Carvalho,
Sustentam com seu trabalho
Dois corações que se amam.
E tão bem se verificam
Com manobras tão seguras
Que, trabalhando às escuras,
Sem falar se comunicam.

O ex-escravo Luiz Gama, adstrito sempre à sátira e avesso a versar os temas ditos profundos, endereça suas críticas ("Sandices que vão rimadas", porque "Ao peso do cativeiro / Perdemos razão e tino") a todos os tipos questionáveis que lhe surgem à frente, como os "barões da traficância", os "emproados juízes de trapaça", os charlatães da medicina, os sabichões da cultura, os velhotes gaiteiros que se atiram às moças ou a raça nefasta dos políticos "Que se aferram às tetas da Nação / Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão". Sendo um demolidor desse porte, era inevitável que o autor das Trovas burlescas desancasse também a confraria dos vates. De fato, investindo várias vezes contra os excessos da lírica e, nominalmente, contra "uma castrada poesia", ele prescreve suas sátiras como "Remédios para os parvos d’excelência / Que, aos arroubos cedendo da loucura, / Aspiram do poleiro alta eminência".

Luiz Gama, nisso, não esteve porém sozinho. Os próprios criadores do lirismo romântico sabem sorrir da vocação que os tragava — a estranha vocação que os fez passar para a morte — e desconstruir seus valores. Varela, que numa "Canção" do fim da vida se toma por "Máquina de escrever e fazer versos", contesta a existência da poesia em nota prévia a seu livro Vozes d’América, porque "a poesia é o luxo, e o luxo é o mais vivo sinal da próxima decadência de tudo", admitindo que o poeta sofre porque, "perdido nas névoas de um mundo fantástico, desconhece as leis da humanidade; e, em vez de contentar-se com o sossego da família, a calma da mediocridade, a paz do coração, verdadeiras e únicas felicidades na Terra, sonha uma vida a seu modo e, não podendo realizá-la, maldiz-se e se consome". Em "Dilúvio de papel", Bernardo assume posição semelhante e abre o trecho mais vivo de seu poema imenso e desigual com esta quadra:

Em vez de ser poeta, quem me dera
Que me tivesse feito o meu destino
Pelotiqueiro, acróbata ou funâmbulo,
Harpista ou dançarino.

Grande amigo de Bernardo nos tempos de byronismo e satanismo em São Paulo, Álvares de Azevedo afirma, em Noite na taverna, que a poesia se reduz a "meio cento de palavras sonoras e vãs que um pugilo de homens pálidos entende, uma escada de sons e harmonias que àquelas almas loucas parecem idéias e lhes despertam ilusões como a lua às sombras..." Em "Um cadáver de poeta", Azevedo faz seu hino à autocontestação, pois que aí pergunta e responde:

De que vale um poeta - um pobre louco
Que leva os dias a sonhar - insano
Amante de utopias e virtudes
E, num tempo sem Deus, ainda crente?
.............................................................
A poesia é de certo uma loucura.
.............................................................
Um poeta no mundo tem apenas
O valor de um canário de gaiola...

Junqueira Freire, que tantas vezes se perdeu na angustiada barroquice de seus versos prolixos, tem porém vários momentos de grande força e clareza. Num desses, o poema que se intitula justamente "Louco", ele desce às raízes do mal-estar dos românticos, porque destrói de uma penada os argumentos do mundo, as categorias que em vão arquitetamos, e de antemão nega até mesmo as premissas do mapa aqui desenhado:

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea.


Leonardo Fróes é poeta, tradutor e jornalista. Traduziu livros de William Faulkner e D. H. Lawrence, dentre outros. Dentre sua poesia, publicou O anjo tigrado (1975), Sibilitz (1981) e Argumentos invisíveis (1995). Ensaio publicado na revista Poesia Sempre # 13. Rio de Janeiro. 2001. Fotografia do autor assinada por Lewy Moraes. Página ilustrada com obras da artista Gabriela Villegas (Chile). Contato: leonardofroes@uol.com.br.

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