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Ademir Demarchi
Se, por um lado, a integração entre os países do continente sempre foi mais propalada que efetivada, no entanto, por outro, já se registraram várias tentativas de intercâmbio. Num balanço dessas aproximações feito por Jorge Schwartz com o sugestivo título de "Abaixo Tordesilhas!" concluiu-se que houve sempre um interesse maior de brasileiros pela cultura dos outros países hispânicos que o inverso. Assim, já se registrou o interesse de escritores como Joaquim Nabuco, José Veríssimo, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Brito Broca e outros mais recentes, todos preocupados em divulgar aqui as idéias de escritores e a cultura dos outros países da América Latina. Apesar do significativo trânsito dos intelectuais brasileiros pelas culturas dos países latino-americanos, cabe ressaltar que se registrou com maior ênfase até agora seu interesse livresco, de leitor e resenhador que tomou contato com a cultura dos outros países via livros ou periódicos, salvo raras exceções como a de Brito Broca que viajou por alguns países entrevistando escritores para o suplemento Letras & Artes de A Manhã. Excetuando-se, portanto, o caso de Brito Broca, que registrou sua viagem em Letras & Artes de certa forma superficialmente, deixando no leitor uma curiosidade não plenamente satisfeita, há diversos outros casos de brasileiros viajantes que transformaram a América Latina em objeto de curiosidade e de descoberta. Neste momento tratar-se-á superficialmente de dois desses viajantes: Jorge Amado e Flávio de Carvalho. 1. Jorge Amado e a ronda das américas Jorge Amado, um interessado divulgador da cultura latino-americana, sendo nesse aspecto pouco conhecido, foi o tradutor de Dona Bárbara, romance de Rômulo Galegos. Esse romance foi recusado por diversas editoras e por fim publicado pela Editora Guaíra, de Curitiba, que aceitou suas sugestões criando a coleção "Estante Americana" "colecionando os mais famosos autores da América", coleção essa iniciada em 1940 com o livro de Galegos e continuada com Huasipungo de Jorge Icaza; além disso Jorge Amado em 1935 participou da comitiva do então Presidente Getúlio Vargas ao Uruguai e Argentina, viagem que repetiria e estenderia a outros países e das quais resultou um longo relato publicado aparentemente de forma incompleta no periódico Dom Casmurro, em 1938. Denominada "A ronda das Américas", nessa reportagem o escritor narrou suas impressões que vão do Sergipe, de onde partiu em direção à fronteira Brasil-Uruguai, passando pela Argentina, Uruguai, Peru e Chile.
À pobreza e espontaneidade do nordestino ele oporá o "ar de prosperidade" e a falta de comunicabilidade dos sulistas. O próspero gaúcho dos pampas "não traz aquela marca de drama angustiante que se encontra no Norte e no Nordeste" e para ele existe a lei e a civilização que faz com que "uma espécie de Lampeão-mirim" não tenha durado um mês, tendo sido capturado pela polícia enquanto no Nordeste há o banditismo de Lampeão e a falta de lei. O agreste nordestino, referência primordial do escritor, contrastará novamente com o "campo civilizado" do Uruguai, onde um "homem a pé é incompleto: falta-lhe o cavalo". A estranheza fará o escritor afirmar que o gaúcho tem um ar cômico quando desmontado a tal ponto que "Parece lhe faltar parte do seu ser, é como um aleijado". E não se pode negar um certo tédio de Jorge Amado diante da paisagem dos pampas que "No quadrado da janela ... se repete eterna. Campo, campo verde. Um gado gordo e bonito pasta." À paisagem "sem modificações, sem imprevistos, sem ‘brabeza’" ele preferirá "a paisagem do nordeste brasileiro [que] é cheia de imprevisto, de pitoresco e de drama". A palavra drama, que indica um traço fundamental do nordeste ao escritor, parece essencial uma vez que em sua descrição há uma noção embutida de que é a natureza que condiciona a criação artística. O "campo civilizado" do sul do país e de parte da Argentina e Uruguai somente produzem a poesia popular e folclórica e sugeridamente entediante de exaltação ao cavalo e à mulher, diferentemente do Nordeste que produz os melhores romancistas do país (Veríssimo no sul é exceção para confirmar a regra, diz o escritor...). Jorge Amado registrará ainda
em sua reportagem os hábitos de moradia do Nordeste e do Rio, onde,
segundo ele, os ricos moram mal, diferentemente dos sulistas que têm
a fisionomia confortadora de quem não precisa passar a vida na rua
como alternativa à prisão e ao desconforto das moradias representadas
nos apartamentos-cubículos do Rio. Também as mulheres nordestinas
serão lembradas como sonhadoras leitoras de Delly à espera
de marido, diferentemente das sulistas "leitoras de Jorge Amado e outros
bons livros" que, cultas, trabalham e não esperam marido apenas.
As relações patronais nos pampas também são
observadas: há "melhor intimidade" entre patrão e empregado,
há muito mais união nas fazendas de gado, diferentemente
do que ocorre nas plantações nordestinas onde essa intimidade
é mais difícil e a separação é maior,
diz o escritor.
Flávio de Carvalho foi outro intelectual brasileiro com forte atração pelos países da América Latina. Publicou no Diário de São Paulo uma longa reportagem denominada "Rumo ao Paraguai", foi ao Peru onde entrevistou "o futuro chefe do Altiplano" Haya de la Torre e o "jovem técnico" eleito para o parlamento, Fernando Belaunde Terry. Sua primeira viagem, ao Peru, ocorreu para participar como delegado do Brasil ao VI Congresso Panamericano de Arquitetos no Peru, em 1947. Nessa viagem, Flávio de Carvalho descobrirá na cordilheira o inferno de Dante, representado nos precipícios, nas cascatas voluptuosas, na vegetação luxuriante. O viajante arquiteto, um representante do mundo moderno que sobrevoa a natureza voraz "Mergulhando num mar de nuvens e descendo sobre uma pista asfaltada e retilínea" descobre com surpresa que "entramos repentinamente em contato com um mundo de conto de fadas". Assim lhe parece o Peru: "É o altiplano, estamos em cima do Continente: bonecas de carne e osso saltitando em pequenos pulos sobre uma estrada de concreto, saias e mais saias de arco-íris, chapéus compridos de feiticeira e tranças oleosas caídas de cada lado. Bonecas com máscaras de terra cota, máscaras de bailado, expressionista, que passam e desaparecem nos grupos desfilando frente a um moderno aeródromo. São as feiticeiras do altiplano. A raça inca baila. O homem cambaleando com pernas aéreas medita. Tanta cor, formas insensatas, uma altitude quase sem oxigênio. Onde teriam encontrado semelhante folclore?" A oposição entre o moderno que representa e o arcaico do que vê registrada por Flávio de Carvalho irá ainda mais longe quando num dos relatos seguintes de sua viagem relatará a existência de pré-homens no lago Titicaca. O fato é comprovável, segundo ele, no depoimento coletado pelo médico-antropólogo Jean Vellard, dos índios Urus, do lago Titicaca, que dizem que "não somos homens mas sim pré-homens"... "Estamos antes dos homens e temos orgulho da nossa origem animal - os nossos antepassados eram uma raça de homens com cabeças de animais. Estamos acima e antes do homem".
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