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O salto primordial Já se disse (Ernst Jünger) que o fogo é o único dos elementos que não pode ser poluído. Essa ânima de viver que encontra no fogo sua metáfora eficaz constitui a linha de acesso entre ruptura e tradição, ou seja, não se deixar demover pela existência em isolado de uma das duas peças essenciais à aventura humana. Em um dos ensaios publicados agora, José Ángel Leyva, a título de epígrafe, recorre a Schlegel quando este afirma que "há classificações que são muito medíocres como tais, mas que governam nações e épocas inteiras…", e aqui nos lembramos de Novalis – tema de um outro ensaio deste número de Agulha –, ao considerar que "a luz é o gênio do fogo". A relação entre destruição e invenção talvez esteja ligada a essa dupla possibilidade do fogo, a de queimar e iluminar (a um só tempo). Contudo, devemos jamais esquecer que a destruição ilumina na mesma proporção em que a invenção queima. Não se trata de um jogo de palavras, mas sim do entendimento de que o vício de classificação – ou qualquer outro modus de demarcação alienante de hábitos e valores – pode imprimir a um personagem a representação parcial de seu caráter. O próprio Novalis questionava se acaso o que se pode pensar não adere ao que não se pode, ou seja, sem essa relação de complementaridade nada se inventa ou destrói. As dissonâncias possuem um feliz atrativo: nos aproximam daquilo com o que, embora intuitivamente, nos identificamos. Toda a riqueza humana radica na gratuidade com que se instala entre nós esse pomar de dissonâncias. Aí está um aspecto a ser considerado: o de rebelar-se contra o gasto entendimento do conflito de interesses nas relações humanas. Atentando para o vernáculo, em circunstância alguma o mercantilismo sequer soaria como interessante. É no mínimo estranho como o conceito de devoção foi convertido ao de tirar partido, levar vantagem. Talvez estivéssemos cansados da rendição a uma crença na dialética entre indivíduo e sociedade. Assim nos deixamos contaminar pelo imediatismo, perdendo a noção essencial de acasalamento entre desejo e memória. Esse conflito de tempos em uma relação, qualquer que seja, importa pelo que agrega de surpresas diante do inesperado. O que me interessa naquilo que desconheço é o que comprime ou dilata meu assombro diante do vivido? A qual tabela cambial restringir tal sentimento? Quanto vale um Rembrandt acaso não é o mesmo que indagar pelo preço da espécie humana? E qual seria o mercado possível para uma sociedade que erradica o único componente que a identifica como tal, a dissonância? É quando menos curioso hoje observar que as sessões às quais a imprensa habitualmente recorre para limitar assuntos perderam sentido. Quando a pauta é música, por exemplo, o assunto pode ser apenas um traumatismo craniano provocado por um acidente aéreo em um músico. Se a pauta indica política, não será de todo estranho se tratar ali da separação conjugal de um prefeito. Uma reportagem científica seguramente observará os dilemas existenciais de uma notável paleontóloga que perdera o filho em trágicas condições. Como jornalistas também são peças de encaixe da teoria acadêmica das classificações acima referidas, vamos criteriosamente eliminando as possibilidades de haver vida inteligente fora dos muros dessa – assim tornada – torpe ciência. A pior prática jornalística tomou conta de nossa vida. Somos todos personagens de uma perversão, bonecos de cena de uma mídia que se diverte às nossas custas. O foi Deus que quis assim com alguma naturalidade deixou-se substituir pelo saiu na imprensa. Ao prepararmos este número duplo de Agulha, diante da obra plástica da chilena Gabriela Villegas, nos pusemos a observar a convicção dissonante de nossa opção por convidar um artista para nos acompanhar na ilustração inteira de cada número da revista. Em pouco mais de um ano de trabalho, fomos descobrindo vertentes de identificação estética de um artista com temas abordados, e por vezes pusemos em contato autor de matéria e artista convidado. Até aqui expusemos antologia de obra do argentino Víctor Chab, dos brasileiros Eduardo Eloy, Hélio Rola e Maninha Cavalcante, dos costarriquenhos Alberto Murillo e Hernán Arévalo, do mexicano Roberto Rébora, da panamenha Sandra Eleta, do português Cruzeiro Seixas e do uruguaio Fernando Velázquez. Entre si não seriam de todo dissonantes, levando em conta o caráter que firmaram, porém nuanças estéticas definiriam a obra de cada um na condição de distinta das demais. Quanto valem ou até que ponto nos interessam, com algum apuro será possível perceber as relações surpreendentes traçadas entre recorrências a cultos tribais nas xilogravuras de Arévalo, na fotografia de Eleta e nas collages de Seixas se relacionadas com aquela particularidade (nossa) de abordagem de temas vinculados ao oculto. Também encontramos vínculos mais afeitos a uma outra perspectiva já apontada, o surrealismo, na presença de pintores como Víctor Chab, Eduardo Eloy ou Maninha Cavalcante. O que mais de importante nos interessa frisar é que não se pode reduzir a obra de nenhum desses artistas a uma bandeira escolástica. Os vínculos aqui delineados são aproximações possíveis. O leitor mais atento poderia verificar que diálogo, por exemplo, mantêm dois artistas que se desconhecem entre si, a exemplo do mexicano Roberto Rébora e do uruguaio Fernando Velázquez. E agora mesmo apresentamos uma artista cuja obra difere em tudo do que até aqui mostramos. Assim vamos tornando Agulha parte essencial de nosso espírito, não apenas uma prática editorial, mas uma fogueira – a queimar?, a iluminar? – em volta da qual conversamos sobre as contradições entre invenção e destruição. A propósito, alguns textos desta edição dupla sondam o que construíram as destrutivas vanguardas, consideram os exageros típicos de uma visão de mundo pautada pela classificação e aludem a perspectivas de melhor compreensão do assunto. Mostram-se complementares entre si justamente por uma sutileza da dissonância. E nisto completam-se com a presença da criação em si, ou seja, avançamos em uma presença maior do objeto de nossa reflexão. Ao par da mesa de diálogo sobre ruptura e tradição, uma outra – a mesma? – revela não mais a explicação da criação mas a criação em si. Em aparições distintas temos uma recriação fabulista do personagem Rubén Darío, escrita pelo francês André Coyné, a prosa poética de Per Johns e Contador Borges, e a recuperação de um livro do submundo da literatura brasileira, O equivocrata, de Raul Fiker. Agora, quanto nos custa a dissonância? O valor essencial de cada coisa: a própria vida. Não se reduz, claro, a valor cambial no sentido da distorção acima referida do termo interesse. Não barganhamos ou negociamos com a diferença. A dissonância é nosso estado natural. Agulha se define como veículo empenhado na identificação do homem consigo mesmo. E aqui caberia lembrar uma vez mais Novalis, ao dizer que "a antítese do corpo e do espírito é uma das mais assinaláveis e das mais perniciosas". Os editores
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a maldita vanguarda. josé
ángel leyva (trad. vania lacerda)
artista convidada gabriela
villegas (ensaio) maría inéz zaldívar
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editores
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jornalista responsável
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