Agulha - Revista de Cultura

Revista de Cultura # 13/14 - fortaleza, são paulo - junho/julho de 2001

Agulha (Collage de Floriano Martins)






 

Escritos para domesticar fantasmas

Contador Borges




Contador Borges (Foto de Beto Borges)Não nos vemos há anos mas seu fantasma anda comigo. Fantasmas são mais fiéis que os cães nevados que salvam seus donos do inferno. Daí o arrepio na espinha, o beijo gelado no rosto, e sem lhes discernir os contornos acomodam-se no espaço enrolados em nossos pescoços. Não os vemos, mas os sentimos bem perto. Ao contrário dos cães não precisam de carinho ou alimento. Nem nos ferem com olhos morteiros como se temessem a morte doméstica. A morte sigilosa ou estridente com olheiras de paquiderme. Fantasmas dirigem-se aos distraídos. Tais impregnações magnéticas recorrem ao artifício da fosforescência para melhor cumprir seus desígnios mesclando pudor à arte de surpreender os menos vigilantes e afeitos às sutilezas dos meandros. Acontece a qualquer um. O corpo parado na esquina. E um braço invisível rasgar sua inércia. Um braço que não é braço mas um terminal nervoso que lhe remexe as entranhas como se viesse de dentro. O mistério é total. Há quem ouça vozes, embora não haja ninguém lhes falando, só um sopro no ouvido. Tais vozes não enganam. Nascem do próprio silêncio, feitas de suas paredes profundas e amorfas como um universo paralelo dentro de um buraco negro, onde, por sinal, podemos estar metidos. Há fantasmas que seguem seu amo no leito. Deformam a cama com leveza enquanto procuram o calor de seu corpo, um ninho trançado em cabelos. Deve ser bem frio esse lugar de onde vêm irrequietos. 
 
 

Viajamos despidos como os vermes e cadáveres (a mortalha é um véu que não veda). Viajamos na natureza úmida (brisa nos dentes caninos). A primeira estação é uma marca apagada, um abismo no mapa traçado com água e areia. A segunda um aclive no tempo, um morro em forma de escada para parte alguma. No alto outro abismo no lugar impassível de um templo. Onde deveriam caminhar estátuas perfilam silhuetas vazadas, vultos de ninguém foragidos cujo único peso e matéria é formado por anéis de poeira sobre o vazio consistente. Não há ruídos nessas paragens inomináveis, perdidas a céu aberto. Mas algo surge no horizonte. Um pássaro, talvez uma águia, persegue uma sombra que se arrasta num chão que parece deserto. No entanto é água, peixes no lugar de serpentes, liquens no lugar de carcaças. O crânio de boi que se ergue da areia um pirata coroado de conchas. O pássaro tem sede e a serpente é seu poço. O pássaro tem fome e a serpente dança para dissuadi-lo como as ancas de uma árabe distraindo o inimigo para a emboscada do amante. No momento em que o pássaro deveria atingir seu alvo, o trem entra numa curva e a cena se perde de vista. A estação seguinte é uma inscrição no vento, um logro ou não existe.
 
 

Os mortos da neve são brancos, alheios aos mortos do pântano, aos mortos do movimento das ruas. A morte é a placenta do tempo bebendo os filhos nas unhas enquanto lambe seus pêlos. A morte desgrenhada e reticente como um paquiderme (há muito mudou sua imagem) onde os vermes trabalham com uniformes brilhantes. Fazem ruídos que não ouvimos, entre os desmoronamentos mínimos, na laboriosa colheita. Olhamos no espelho a fuga dos cabelos. Penteamos demais os cabelos (mesmo quando não existem). Os pensamentos florescem, emaranham-se, serpentes no próprio reflexo. O veneno é um mel precioso. Segregamos na mesma proporção ódio e amor em nossas glândulas. Por isso os gestos são certeiros, mesmo quando não odeiam seus alvos. A aspereza é feita desse gesto. A deformação da pele. Os sinais. As reticências incendiadas pelo fôlego. As adiposidades e os medos da linguagem confundida com um fosso. As flores não servem para maquiar a morte, apenas para celebrá-la em sua nudez gloriosa. As flores no fundo são formas oscilantes do podre, entrelaçadas, como um Laocoonte enforcado em seus braços. E a morte despreza seus símbolos. O podre é um valor mais definitivo que o aroma. Ao mesmo tempo a mão toca o silêncio do rosto e os olhos giram velozes em torno do vazio do gozo. O amor, sua alegoria, imita o incêndio em dois tempos: o furor e a cinza. Nem sempre a morte vê os olhos que consome por não querer mirá-los de frente. Olhos: espelhos côncavos da metamorfose. Toda mudança teme a si própria. Como as flores os olhos se abrem e fecham. Mas ao morrerem se deitam nas pálpebras. 

Gabriela Villegas

No uso das máscaras surgem anedotas como a do sujeito que ostenta uma expressão serena para esconder seu asco ante a morte emblemática ao revelar a sua própria a ponto de obrigá-lo a desviar o rosto no instante em que troca de imagem com o morto. De resto ambos se parecem descontando-se a quantidade de rugas e o penteado para o lado no que tange o outro e nesse caso o impacto é mais forte sobretudo quando vivo e morto trajam ternos marinhos e fazem bicos com os beiços no estilo mediterrâneo dos que franzem a testa quando encurralados em segredo perante uma idéia bizarra como se dela surgisse o necessário fio ou emenda para precipitar o ato por entre a cortina dos cílios até a soleira do beijo tantas vezes calculado mas em seguida recolhido a sete sombras ante a medusa dos ossos onde volta e meia se afia à luz sorrateira da mente para um dia cruzar com sucesso os limites do corpo. Feições soberanas não excedem dez segundos e imediatamente o rosto vivo se contorce por anamorfose ao contrário do morto impecável em sua caixa de flores. O agravante é o requerido por Deus (que exige devolução do pacote) ter paradeiro incerto ou ser extraviado para o nada. Mas fiel às brancas feições de kabuki o morto não denuncia seu sumiço a corpo presente em arroubos de múmia permanecendo em seu teatro evanescente rosto e máscara matéria e memória alheio na imobilidade pura.
 
 

Após a conversa apertamos as mãos como quem enche um copo com júbilo e reitera a façanha do encontro entre Mao e Nixon guardadas as devidas proporções de um sorriso amarelo e um nariz vermelho do tamanho de Gúliver. Enquanto os sinos internos não paravam seu badalo insurreto continuamos a nos olhar transtornados pela corrente elétrica que nos fazia prisioneiros de um acúmulo de projeções secretas rendendo aos terminais da pele incalculáveis dilúvios de suor sob o guarda-chuva de nossa paciência mais búdica. Para abarcar nosso intento no fundo exterior ao que cada um goza em decúbito entre quatro paredes ao que cada um paga com juros de seus devaneios não medimos espaços como fazem os ecos às frases que julgam perfeitas (tal a vagina e o gládio) aos magistrais apelos estes pequenos conluios entre o espírito e a carne. Malgrado o esforço o que corre no sangue mental das pessoas nem a elas pertence e não se pode prever com sucesso a conseqüência imediata dos transbordamentos da espécie como o estouro impudente de bois invisíveis ou a saturação obscura de um código. O tremor absurdo que embaralha a beleza nas dissoluções fortuitas a lágrima insolúvel num canto do olho justificam o atrito e o consagrador enlevo das tempestades contrárias ao âmago? Que algo conspire nas raízes do grito que jamais vem à tona e o ritmo incendiário da vida acelere sem restrições possíveis a artificialidade dos fatos não é motivo para martirizar as células. Louvemos no entanto esta fúria para que perdurem as núpcias celestes com a mecânica de sua tolerância genética.
 
 

Gabriela VillegasEntendo o desespero assim como a natureza endêmica das farpas, mas qual a sua eficácia? Temo que a inseminação de valores como fúria e virulência acabe edulcorando seus apelos, ou, o que é pior: se a ferocidade é intensa e sem aparas, se não se faz sob a forma de algum paradoxo, pode esgotar seu poder de choque na explosão serial de seus golpes, como um boxeador que se bate contra a sombra, ou algum outro alvo em movimentos tão rápidos que se anulam na gravidade fatalmente assimilados por um queixo bem barbeado. Lembram parafusos que giram em falso, mãos que não atarraxam aos gestos mal traçados pelo espírito irascível. Queremos ouvir as entranhas e a fúria que segregam, pois o que o corpo tem ele exorta, seja bílis ou libido. Podemos pensar no tom, no aspecto ou fragrância daquilo que se diz. O líquido ventilado em extremo, o coração do perfume (frascos grandes e pequenos) e a vantagem de encerrar com leveza alma de boa têmpera, que, para todos os efeitos, não dispensa ser venenosa quando necessária e amarga quando verdadeira.
 
 

As violetas estão morrendo. Já não geram flores. Está escrito nas folhas. Toda nervura é um texto: túmulo de persianas vazadas (nossas pálpebras). As plantas devem ter sua alma. Mas não se misturam metafísica e botânica. Os pedreiros amontoaram entulho aos pés da minha árvore ancestral e atearam fogo. Ela quase morreu. Alguns galhos centrais foram podados (aleijada, quase sem folhas). Hoje está cheia de térmita. A qualquer momento irá desabar como uma casa de sonhos. Esta espécie se aproveita dessas ocasiões. Come a alma da árvore, sanguinária, bebe a sua seiva. Pensa que assim adquire uma. Por isso come livros para se alimentar com suas almas. Também estamos presos num buraco como o animal de Kafka. Nossa redoma é pequena e deve ceder a qualquer momento. De madrugada me lembro que o açúcar amanhecido fermenta no bebedouro pênsil sob a árvore: uma colorida forca de plástico. Os aparelhos da morte e sua perfumaria. Não desço. Na pior das hipóteses os beija-flores morrerão: o açúcar fermentado apodrecerá seus bicos velozes e trêmulos. Cairão dos galhos como frágeis brinquedos que se desmontam com o tempo.
 
 

Uma corda presa a um palmo da tela deixa de ser o que era. A ponte de Jasper Johns leva ao mundo em precário equilíbrio onde as formas e cores definem o modo como olhamos a matéria sensibilizada pelo sopro tal uma corda prestes a enforcar a lógica em nome do assombro. A mosca pousa na forca projetando a sombra na tela: singelo retrato do futuro cadáver com asas algo inebriado com seu vulto messiânico. Balança de um lado e de outro como um homem a vida toda na corda bamba à beira do fosso e da coroa de flores, sentido suficiente para comprimir a luz de volta à penumbra, e, numa imagem mais densa, o rato em sua toca. Voltar à realidade agora é o mesmo que iluminar-se cobrindo os ossos de nudez epifânica. O que foi e será passa num piscar ao carretel supremo da imagem com que se ludibria na própria identidade. O mesmo vale para os simulacros da vista, ocelos que adornam aves, plantas e coisas inanimadas, estas maravilhas que vêem o que não vemos no lugar onde viemos iludidos com a retina.

Gabriela Villegas

Paralelas sem encontro marcado no infinito perdidas e sem retorno na noite dos gestos em refluxo em meio aos sonhos que moram nas arestas e subúrbios da carne invisível do tempo onde vibra o coração faminto como um pêndulo impassível onde o vazio nebuloso e o sujeito inconcluso segregam sem véus de metáfora sem alardes de estrelas e mãos contrafeitas ante as tarefas desfeitas nos céus em dilúvio a presença que abre braços e pernas contrariando o nada erguendo veludos intermináveis de teias ou reticências como um fênix dos escombros onde a aranha diluída ao bordado de suas errâncias sai da extremidade macabra que esmaga a retina entre a sombra e o sentido para consumir-se em luto azulando-se por desatino ou destino da própria saliva (seu texto) com que alucina e se esconde na pálpebra enquanto alarga os horizontes internos em filamentos vivos de perene deslumbre. 
 
 

Que a sintaxe antes de incendiar-se singularize ao menos a porção do espaço que ocupa. A ferida cresce e se alastra na voz emanada de suas entranhas. A frase deve deixar o lábio após o beijo da luz para não emudecê-lo ou mortificá-lo e o coração dar o ritmo envolto em segredo como o tempo num relógio de névoa com ponteiros cravados na eternidade. O texto é um tapete infinito tecido de cílios que também serve de mortalha aos olhos revoltos. Mas ao estender seus domínios de tirano e suplantar os telhados com os galhos em fúria, ao espernear os pulmões para arrancar a voz verdadeira e sua beleza frutífera, engendra nas pálpebras meticuloso veneno aos olhos fechados do gozo que terá de exprimir no poema, alvo impossível ao melhor dos arqueiros. Os olhos são vigilantes e funcionam melhor quando sonham com tela interna para seus simulacros, seu teatro de minúcias, seus enigmas, suas manias de Moira enovelar carícias em éter. E ao abrir as pálpebras ou tumba o fruto alheio dos olhos retorna como uma flecha ao contrário ferindo outros olhos ao arco dos cílios que por bem ou por mal se tornam asseclas. 
 
 

Um bulir constante inebria a lenta educação das pupilas criando sutis meandros ou respiradouros para a saúde ou doença do poema onde o ferimento e o gozo escorrem irmanados ao fundo das palavras. E na monstruosidade mais leve seu ser favorece de corpo e alma um sentido mágico que o revolve incinerando-se. É sua pele mais viva pois a pálpebra se abre numa vegetação de imagens sombrias raramente fixas sob o sol mutante dos segundos. Aqui e em toda parte embalada por mãos moribundas em melindres de indizível tumulto parte-se ao meio a crisálida antes do prêmio cuja forma mais densa é o efeito que estremece o olho na pálpebra temendo exílio iminente. Quando a nudez se descama febril em sua pele-armadura vem à tona não propriamente a luz mas a porosidade escura de uma lâmpada maquiada para a noite que só esclarece as áreas sinistras da matéria com feições soberanas em frutos de rara intempérie. É quando o gesto recolhe das sílabas a boca suja de tinta.
 
 

Amamos os fundamentos como os nossos esqueletos. Quando a leve luz da ira nos assalta aranhas tropeçam no andaime de nossa demência e não há como saudar efemérides com chuva de pétalas. A insanidade é um halo ativo nas possessões volúveis que gravita o tempo todo a nossa volta. Mas não há ciência que salva a colher dos equívocos quando trocamos os pés pelas mãos e entramos de sola quando a ocasião pede leveza em punhos de renda. Melhor tapar o sol com fogueira quando não se ouve os apelos essenciais da beleza.


Contador Borges (São Paulo, 1954). Poeta, tradutor e ensaísta. Traduziu Sade, Ciranda dos Libertinos (Max Limonad, 1988), A Filosofia na Alcova (Iluminuras, 1999), Nerval, Aurélia (Iluminuras, 1991), e René Char, O nu perdido e outros poemas (Iluminuras, 1995). Publicou Angelolatria (Iluminuras, 1997). A série de prosa poética aqui publicada é inédita e pertence a um livro que será publicado em breve. Fotografia assinada por Beto Borges. Página ilustrada com obras da artista Gabriela Villegas (Chile). Contato: contador@unisys.com.br.

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