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Contador Borges
Viajamos despidos como os vermes e
cadáveres (a mortalha é um véu que não veda).
Viajamos na natureza úmida (brisa nos dentes caninos). A primeira
estação é uma marca apagada, um abismo no mapa traçado
com água e areia. A segunda um aclive no tempo, um morro em forma
de escada para parte alguma. No alto outro abismo no lugar impassível
de um templo. Onde deveriam caminhar estátuas perfilam silhuetas
vazadas, vultos de ninguém foragidos cujo único peso e matéria
é formado por anéis de poeira sobre o vazio consistente.
Não há ruídos nessas paragens inomináveis,
perdidas a céu aberto. Mas algo surge no horizonte. Um pássaro,
talvez uma águia, persegue uma sombra que se arrasta num chão
que parece deserto. No entanto é água, peixes no lugar de
serpentes, liquens no lugar de carcaças. O crânio de boi que
se ergue da areia um pirata coroado de conchas. O pássaro tem sede
e a serpente é seu poço. O pássaro tem fome e a serpente
dança para dissuadi-lo como as ancas de uma árabe distraindo
o inimigo para a emboscada do amante. No momento em que o pássaro
deveria atingir seu alvo, o trem entra numa curva e a cena se perde de
vista. A estação seguinte é uma inscrição
no vento, um logro ou não existe.
Os mortos da neve são brancos, alheios aos mortos do pântano, aos mortos do movimento das ruas. A morte é a placenta do tempo bebendo os filhos nas unhas enquanto lambe seus pêlos. A morte desgrenhada e reticente como um paquiderme (há muito mudou sua imagem) onde os vermes trabalham com uniformes brilhantes. Fazem ruídos que não ouvimos, entre os desmoronamentos mínimos, na laboriosa colheita. Olhamos no espelho a fuga dos cabelos. Penteamos demais os cabelos (mesmo quando não existem). Os pensamentos florescem, emaranham-se, serpentes no próprio reflexo. O veneno é um mel precioso. Segregamos na mesma proporção ódio e amor em nossas glândulas. Por isso os gestos são certeiros, mesmo quando não odeiam seus alvos. A aspereza é feita desse gesto. A deformação da pele. Os sinais. As reticências incendiadas pelo fôlego. As adiposidades e os medos da linguagem confundida com um fosso. As flores não servem para maquiar a morte, apenas para celebrá-la em sua nudez gloriosa. As flores no fundo são formas oscilantes do podre, entrelaçadas, como um Laocoonte enforcado em seus braços. E a morte despreza seus símbolos. O podre é um valor mais definitivo que o aroma. Ao mesmo tempo a mão toca o silêncio do rosto e os olhos giram velozes em torno do vazio do gozo. O amor, sua alegoria, imita o incêndio em dois tempos: o furor e a cinza. Nem sempre a morte vê os olhos que consome por não querer mirá-los de frente. Olhos: espelhos côncavos da metamorfose. Toda mudança teme a si própria. Como as flores os olhos se abrem e fecham. Mas ao morrerem se deitam nas pálpebras. No uso das máscaras surgem anedotas
como a do sujeito que ostenta uma expressão serena para esconder
seu asco ante a morte emblemática ao revelar a sua própria
a ponto de obrigá-lo a desviar o rosto no instante em que troca
de imagem com o morto. De resto ambos se parecem descontando-se a quantidade
de rugas e o penteado para o lado no que tange o outro e nesse caso o impacto
é mais forte sobretudo quando vivo e morto trajam ternos marinhos
e fazem bicos com os beiços no estilo mediterrâneo dos que
franzem a testa quando encurralados em segredo perante uma idéia
bizarra como se dela surgisse o necessário fio ou emenda para precipitar
o ato por entre a cortina dos cílios até a soleira do beijo
tantas vezes calculado mas em seguida recolhido a sete sombras ante a medusa
dos ossos onde volta e meia se afia à luz sorrateira da mente para
um
dia cruzar com sucesso os limites do corpo. Feições soberanas
não excedem dez segundos e imediatamente o rosto vivo se contorce
por anamorfose ao contrário do morto impecável em sua caixa
de flores. O agravante é o requerido por Deus (que exige devolução
do pacote) ter paradeiro incerto ou ser extraviado para o nada. Mas fiel
às brancas feições de kabuki o morto não denuncia
seu sumiço a corpo presente em arroubos de múmia permanecendo
em seu teatro evanescente rosto e máscara matéria e memória
alheio na imobilidade pura.
Após a conversa apertamos as
mãos como quem enche um copo com júbilo e reitera a façanha
do encontro entre Mao e Nixon guardadas as devidas proporções
de um sorriso amarelo e um nariz vermelho do tamanho de Gúliver.
Enquanto os sinos internos não paravam seu badalo insurreto continuamos
a nos olhar transtornados pela corrente elétrica que nos fazia prisioneiros
de um acúmulo de projeções secretas rendendo aos terminais
da pele incalculáveis dilúvios de suor sob o guarda-chuva
de nossa paciência mais búdica. Para abarcar nosso intento
no fundo exterior ao que cada um goza em decúbito entre quatro paredes
ao que cada um paga com juros de seus devaneios não medimos espaços
como fazem os ecos às frases que julgam perfeitas (tal a vagina
e o gládio) aos magistrais apelos estes pequenos conluios entre
o espírito e a carne. Malgrado o esforço o que corre no sangue
mental das pessoas nem a elas pertence e não se pode prever com
sucesso a conseqüência imediata dos transbordamentos da espécie
como o estouro impudente de bois invisíveis ou a saturação
obscura de um código. O tremor absurdo que embaralha a beleza nas
dissoluções fortuitas a lágrima insolúvel num
canto do olho justificam o atrito e o consagrador enlevo das tempestades
contrárias ao âmago? Que algo conspire nas raízes do
grito que jamais vem à tona e o ritmo incendiário da vida
acelere sem restrições possíveis a artificialidade
dos fatos não é motivo para martirizar as células.
Louvemos no entanto esta fúria para que perdurem as núpcias
celestes com a mecânica de sua tolerância genética.
As violetas estão morrendo.
Já não geram flores. Está escrito nas folhas. Toda
nervura é um texto: túmulo de persianas vazadas (nossas pálpebras).
As plantas devem ter sua alma. Mas não se misturam metafísica
e botânica. Os pedreiros amontoaram entulho aos pés da minha
árvore ancestral e atearam fogo. Ela quase morreu. Alguns galhos
centrais foram podados (aleijada, quase sem folhas). Hoje está cheia
de térmita. A qualquer momento irá desabar como uma casa
de sonhos. Esta espécie se aproveita dessas ocasiões. Come
a alma da árvore, sanguinária, bebe a sua seiva. Pensa que
assim adquire uma. Por isso come livros para se alimentar com suas almas.
Também estamos presos num buraco como o animal de Kafka. Nossa redoma
é pequena e deve ceder a qualquer momento. De madrugada me lembro
que o açúcar amanhecido fermenta no bebedouro pênsil
sob a árvore: uma colorida forca de plástico. Os aparelhos
da morte e sua perfumaria. Não desço. Na pior das hipóteses
os beija-flores morrerão: o açúcar fermentado apodrecerá
seus bicos velozes e trêmulos. Cairão dos galhos como frágeis
brinquedos que se desmontam com o tempo.
Uma corda presa a um palmo da tela deixa de ser o que era. A ponte de Jasper Johns leva ao mundo em precário equilíbrio onde as formas e cores definem o modo como olhamos a matéria sensibilizada pelo sopro tal uma corda prestes a enforcar a lógica em nome do assombro. A mosca pousa na forca projetando a sombra na tela: singelo retrato do futuro cadáver com asas algo inebriado com seu vulto messiânico. Balança de um lado e de outro como um homem a vida toda na corda bamba à beira do fosso e da coroa de flores, sentido suficiente para comprimir a luz de volta à penumbra, e, numa imagem mais densa, o rato em sua toca. Voltar à realidade agora é o mesmo que iluminar-se cobrindo os ossos de nudez epifânica. O que foi e será passa num piscar ao carretel supremo da imagem com que se ludibria na própria identidade. O mesmo vale para os simulacros da vista, ocelos que adornam aves, plantas e coisas inanimadas, estas maravilhas que vêem o que não vemos no lugar onde viemos iludidos com a retina. Paralelas sem encontro marcado no infinito
perdidas e sem retorno na noite dos gestos em refluxo em meio aos sonhos
que moram nas arestas e subúrbios da carne invisível do tempo
onde vibra o coração faminto como um pêndulo impassível
onde o vazio nebuloso e o sujeito inconcluso segregam sem véus de
metáfora sem alardes de estrelas e mãos contrafeitas ante
as tarefas desfeitas nos céus em dilúvio a presença
que abre braços e pernas contrariando o nada erguendo veludos intermináveis
de teias ou reticências como um fênix dos escombros onde a
aranha diluída ao bordado de suas errâncias sai da extremidade
macabra que esmaga a retina entre a sombra e o sentido para consumir-se
em luto azulando-se por desatino ou destino da própria saliva (seu
texto) com que alucina e se esconde na pálpebra enquanto alarga
os horizontes internos em filamentos vivos de perene deslumbre.
Que a sintaxe antes de incendiar-se
singularize ao menos a porção do espaço que ocupa.
A ferida cresce e se alastra na voz emanada de suas entranhas. A frase
deve deixar o lábio após o beijo da luz para não emudecê-lo
ou mortificá-lo e o coração dar o ritmo envolto em
segredo como o tempo num relógio de névoa com ponteiros cravados
na eternidade. O texto é um tapete infinito tecido de cílios
que também serve de mortalha aos olhos revoltos. Mas ao estender
seus domínios de tirano e suplantar os telhados com os galhos em
fúria, ao espernear os pulmões para arrancar a voz verdadeira
e sua beleza frutífera, engendra nas pálpebras meticuloso
veneno aos olhos fechados do gozo que terá de exprimir no poema,
alvo impossível ao melhor dos arqueiros. Os olhos são vigilantes
e funcionam melhor quando sonham com tela interna para seus simulacros,
seu teatro de minúcias, seus enigmas, suas manias de Moira enovelar
carícias em éter. E ao abrir as pálpebras ou tumba
o fruto alheio dos olhos retorna como uma flecha ao contrário ferindo
outros olhos ao arco dos cílios que por bem ou por mal se tornam
asseclas.
Um bulir constante inebria a lenta
educação das pupilas criando sutis meandros ou respiradouros
para a saúde ou doença do poema onde o ferimento e o gozo
escorrem irmanados ao fundo das palavras. E na monstruosidade mais leve
seu ser favorece de corpo e alma um sentido mágico que o revolve
incinerando-se. É sua pele mais viva pois a pálpebra se abre
numa vegetação de imagens sombrias raramente fixas sob o
sol mutante dos segundos. Aqui e em toda parte embalada por mãos
moribundas em melindres de indizível tumulto parte-se ao meio a
crisálida antes do prêmio cuja forma mais densa é o
efeito que estremece o olho na pálpebra temendo exílio iminente.
Quando a nudez se descama febril em sua pele-armadura vem à tona
não propriamente a luz mas a porosidade escura de uma lâmpada
maquiada para a noite que só esclarece as áreas sinistras
da matéria com feições soberanas em frutos de rara
intempérie. É quando o gesto recolhe das sílabas a
boca suja de tinta.
Amamos os fundamentos como os nossos esqueletos. Quando a leve luz da ira nos assalta aranhas tropeçam no andaime de nossa demência e não há como saudar efemérides com chuva de pétalas. A insanidade é um halo ativo nas possessões volúveis que gravita o tempo todo a nossa volta. Mas não há ciência que salva a colher dos equívocos quando trocamos os pés pelas mãos e entramos de sola quando a ocasião pede leveza em punhos de renda. Melhor tapar o sol com fogueira quando não se ouve os apelos essenciais da beleza. |
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